Tudo à volta são suicídios lentos.
Meticulosas degradações
subtrações
experiências
na era em que a única arte é a da morte.
Quando um dia sobre os despojos da guerra
só eu e tu restarmos
Quando já não houverem coisas
só meias coisas, escombros
Quando só restarem mulheres enlouquecidas
e homens gastos, ratos
Quando todos os outros falharam
endoideceram
ou se fecharam em caixas e casas,
Aí nos encontraremos, sobreviventes porque inteiros,
eu e tu, mulher sã.
Simples mãe da dignidade, que não pensa, vive
e não destruiu o seu sorriso.
Tratarei de te manter assim,
pois é o meu ofício.
Não há loucura nas flores, nem nas lagoas, nem nos vestidos
de noiva.
Sozinhos eternamente, acompanhados por sermos únicos,
o mundo será nosso
e construiremos cabanas
com trapos
a que outros chamaram bandeiras.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Bons I
"- Qual é a sua política?"
"- A minha política é ser amigo de todos."
- Rui Nabeiro
Uma das pessoas mais exemplares à face da terra.
"- A minha política é ser amigo de todos."
- Rui Nabeiro
Uma das pessoas mais exemplares à face da terra.
Olhar as estrelas
Fala-se em olhar as estrelas. Mas poucos realmente olham as estrelas.
Quem olha as estrelas? A maioria sabe que elas lá estão. Não precisa de olhar. Essas são as pessoas para quem saber que uma coisa existe é saber tudo.
É como olhar o fogo. Uma vez conheci uma rapariga que tinha o milagre do fogo nos dedos.
Pegava numa pinha e num tronco duro de madeira e punha-os em cima um do outro e havia uma lareira. Eu e ela olhávamos o fogo. Viamos o fogo queimar, víamos as texturas do fogo, percebíamos que havia um lugar que era o fogo. E havia a madeira. E o fogo e a madeira juntos faziam a madeira desaparecer. O que fica no lugar da madeira? perguntava ela como se fosse criminosamente dona de um milagre.
Quando as pessoas que olham as estrelas olham para elas, vêem como que um pequeno carnaval, uma pequena festa de aldeira com fogo de artifício infinito sobre o vasto negro eterno, a acontecer a milhares de milhões de quilómetros lá em cima.
Já ali em cima de nós, a milhares de milhões de quilómetros. Quando eu olho as estrelas sinto a noite mais quente, e vejo com os meus próprios olhos outras galáxias. Poucas pessoas perdem tempo a olhar as outras galáxias. Essas são as pessoas realmente santas, para quem saber que elas existem basta. As pessoas com o milagre do olhar, olham.
Para elas, olhar é como pensar. Olhar é ser.
Essas pessoas quando olham para uma toalha de praia não vêem um rectângulo, vêem milhões de pontinhas de tecido suave e colorido juntas umas às outras, em muito complexas estruturas, que não é por isso que deixam de ser simples. Essas pessoas vêem numa toalha de praia toda a explicação das estruturas do mundo e percebem como complexidade e simplicidade podem ser sinónimos. Não chamam a isto filosofia.
Às pessoas que olham as estrelas, não é preciso deitar-se na praia para olhá-las, embora seja agradável. Basta-lhes uma janela, numa casa. Basta-lhes o céu.
Estas são pessoas que, como o Teddy, sabem que um braço não existe. Sabem que um braço é só um nome. Sabem que o braço está ligado ao ombro e o ombro ao peito, mas que são tudo uma só coisa. Onde acaba um braço?
Estas pessoas quando vêem madeira não vêem uma superfície, vêem paisagens. São pessoas para quem o tamanho não faz parte das coisas.
São pessoas que vêem os intervalos entre as coisas, e sabem que o nada não existe, só o tudo.
Normalmente são pessoas que dançam bem.
Sabem que a dança reside espaço entre os passos, e que os passos são só uma posição transitória para o corpo se poder mexer de uma posição para outra, que o completa a si mesmo.
Sempre que olho as estrelas lembro-me daquela noite de Verão, na Costa da Caparica quando tinha oito anos e anunciaram os extra-terrestres na televisão. Desde aí que sei instintivamente que o céu está vivo.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Só
É assim uma espécie de solidão absoluta, que não deve ser consfundida com tristeza. É triste, a solidão, mas não é a tristeza em si mesma. A Solidão é sentir que não há ninguém que queria estar comigo e perceber que também não há ninguém com quem queira estar. Mas que não quero estar sozinho. A solidão é querer estar com alguém que não existe. A solidão pode ser amansada com música da Joanna Newsom, ou com fotografias bonitas a preto e branco, mas não se vai embora. Podemos escrever sobre ela e não se vai embora. Pode ser temperada com mensgens de pessoas a acusarem-nos de não querermos estar com elas como se isso não fosse um direito nosso, mas isso não a torna mais gostosa. E o pior de tudo sobre a solidão é que nem sequer tem um twist final e quando escrevemos sobre ela, o texto parece completamente desprovido de objectivo dramático ou até de importância. Somos só mais um solitário que não consegue dar a volta por cima e vem lamentar-se para um blogue que ninguém lê... É isso que é triste na solidão.
sábado, 22 de novembro de 2008
Poema XI
Há um tempo que não acaba.
Está dentro de nós
e é uma porta de entrada,
onde só a dignidade passa
quando se torna a carapaça
contra a nossa intensa idade.
Contra a explosão dos tempos,
o temporal,
a tempestade.
Está dentro de nós
e é uma porta de entrada,
onde só a dignidade passa
quando se torna a carapaça
contra a nossa intensa idade.
Contra a explosão dos tempos,
o temporal,
a tempestade.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
O pré-fabricado
Ele mandou-a calar. Amava-a e não suportava ver lixo sair da boca dela. Só que ele não tinha estudado artes, e o que tomou por lixo era na verdade um ready-made. Ela ficou muito ofendida. Hoje é namorada de um reputado crítico de arte.
domingo, 16 de novembro de 2008
Poema IX
Não fumes.
Vinga antes sobre mim esse desejo
de um prazer que te mate
pouco a pouco.
Guarda esse fôlego.
Se vais morrer nos meus braços
deixa-me ser eu a matar-te
ensinando-te uma nova maneira de respirar.
Une-te a mim para sempre.
Eu sei que assusta porque só a morte é eterna
mas se te casares comigo um bocadinho todos os dias
prometo que morreremos juntos sem darmos conta.
Vinga antes sobre mim esse desejo
de um prazer que te mate
pouco a pouco.
Guarda esse fôlego.
Se vais morrer nos meus braços
deixa-me ser eu a matar-te
ensinando-te uma nova maneira de respirar.
Une-te a mim para sempre.
Eu sei que assusta porque só a morte é eterna
mas se te casares comigo um bocadinho todos os dias
prometo que morreremos juntos sem darmos conta.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
A moral
Este post é para ser lido ao som desta canção. E tem de estar a tocar muito alto.
- Já a pôs a tocar? - pode continuar:
- Já a pôs a tocar? - pode continuar:
É para ser ouvida ao som desta canção, porque foi escrita ao som desta canção.
Nada de original portanto, como tudo o resto neste banal - e ao qual uma amiga minha já chamou egocêntrico - blogue. Pois seja já que não há nada a perder.
Foi escrita ao som do
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
do contrabaixo. (Claro que eu a ouvi em disco, pois ainda compro discos).
Hoje estou a usar um perfume que gosto muito. É o truque das pessoas sozinhas, que procuram fazer-se acompanhar da melhor solidão possível. A minha cheira bem, e soa bem.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
Hoje estava no banho e consegui finalmente pôr por palavras uma ideia que já tinha à muito tempo. Lembrei-me dela porque na novela que dá há hora do almoço a duquesa portuguesa disse aos seus filhos nascidos no Brasil que O amor é uma coisa passageira, as coisas que ficam para sempre são a família e a moral.
Não podia estar mais de acordo. É por isso que se deve tentar construir uma família perfeita. Mas o interessante é que, mais que a família, a moral vem sempre carregada de um peso negativo, diz-se moral e arrepiam-se os cabelos atrás do pescoço. Diz-se moral e aperta-se-nos o coração. E é bom que assim seja.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
É bom que assim seja porque - e isto foi o que eu consegui pôr por palavras hoje - a moral é boa, o que é mau é obrigar alguém a segui-la. É mau porque é imoral. A moral tem de ser uma coisa que decidimos voluntariamente seguir. Claro, podem dar-nos uma ajuda. Mas obrigar não. E porquê? O Mestre do Tiro com Arco em O Zen e Arte do Tiro com Arco, já aqui citado uma vez noutro contexto, explica muito bem porquê, quando diz ao seu aluno para esticar um arco muito pesado sem fazer força nos braços, só nas mãos, e não lhe diz como. Passa uma semana e o aluno continua a tentar sem sucesso. Passam duas semanas e três e meses, e o aluno é levado ao desespero e à convicção de que é impossível ser virtuoso no tiro com arco. Vê a monstruosidade do seu falhanço. Então chega ao pé do mestre e implora-lhe uma vez mais Explique-me como mestre. E então o mestre explica, e ele consegue. E é aí que o aluno pergunta Porque me levou a este desespero mestre, porque me fez perder todo este tempo e chegar a tamanha frustração? Ao que o mestre respondeu Para que saibas o valor deste ensinamento.
É o mesmo com a moral. Pode-se explicar, mas não obrigar. Cada um tem de fazer muita merda para depois perceber qual é o caminho virtuoso.
Quando tiver filhos - muitos - vou ensinar-lhes a moral, sem os obrigar a segui-la.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
Nada de original portanto, como tudo o resto neste banal - e ao qual uma amiga minha já chamou egocêntrico - blogue. Pois seja já que não há nada a perder.
Foi escrita ao som do
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
do contrabaixo. (Claro que eu a ouvi em disco, pois ainda compro discos).
Hoje estou a usar um perfume que gosto muito. É o truque das pessoas sozinhas, que procuram fazer-se acompanhar da melhor solidão possível. A minha cheira bem, e soa bem.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
Hoje estava no banho e consegui finalmente pôr por palavras uma ideia que já tinha à muito tempo. Lembrei-me dela porque na novela que dá há hora do almoço a duquesa portuguesa disse aos seus filhos nascidos no Brasil que O amor é uma coisa passageira, as coisas que ficam para sempre são a família e a moral.
Não podia estar mais de acordo. É por isso que se deve tentar construir uma família perfeita. Mas o interessante é que, mais que a família, a moral vem sempre carregada de um peso negativo, diz-se moral e arrepiam-se os cabelos atrás do pescoço. Diz-se moral e aperta-se-nos o coração. E é bom que assim seja.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
É bom que assim seja porque - e isto foi o que eu consegui pôr por palavras hoje - a moral é boa, o que é mau é obrigar alguém a segui-la. É mau porque é imoral. A moral tem de ser uma coisa que decidimos voluntariamente seguir. Claro, podem dar-nos uma ajuda. Mas obrigar não. E porquê? O Mestre do Tiro com Arco em O Zen e Arte do Tiro com Arco, já aqui citado uma vez noutro contexto, explica muito bem porquê, quando diz ao seu aluno para esticar um arco muito pesado sem fazer força nos braços, só nas mãos, e não lhe diz como. Passa uma semana e o aluno continua a tentar sem sucesso. Passam duas semanas e três e meses, e o aluno é levado ao desespero e à convicção de que é impossível ser virtuoso no tiro com arco. Vê a monstruosidade do seu falhanço. Então chega ao pé do mestre e implora-lhe uma vez mais Explique-me como mestre. E então o mestre explica, e ele consegue. E é aí que o aluno pergunta Porque me levou a este desespero mestre, porque me fez perder todo este tempo e chegar a tamanha frustração? Ao que o mestre respondeu Para que saibas o valor deste ensinamento.
É o mesmo com a moral. Pode-se explicar, mas não obrigar. Cada um tem de fazer muita merda para depois perceber qual é o caminho virtuoso.
Quando tiver filhos - muitos - vou ensinar-lhes a moral, sem os obrigar a segui-la.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Sobre o saber ocupar lugar
Os profetas não sabiam só o que ninguém sabia.
Também não sabiam aquilo que todos sabiam.
Foi por isso que foram profetas.
Também não sabiam aquilo que todos sabiam.
Foi por isso que foram profetas.
Saber ocupa lugar
Há coisas que é preciso não saber para saber outras. Diz-se que o saber não ocupa lugar, mas não é verdade.
Há saberes que anulam outros. Há saberes que se anulam uns aos outros. Certos saberes ocupam o lugar de saberes opostos a eles. Há quem não perceba isto. Não é complicado. Por exemplo (é sempre mais fácil com um exemplo), é preciso nunca ter "vivido" o que é ter pai e mãe para compreender o que é ser órfão.
Para perceber a vida de outra pessoa, não basta conhecer os elementos que levaram a essa vida. É preciso também ignorar os nossos. E é impossível. Quando falo em compreender, falo em sentir como verdade aquilo que o outro sente como verdade. É isso que é compreender o outro. É compreender tudo nele.
Ora isso é impossível. E era isso que queria dizer às pessoas que tiram conclusões sobre os outros partindo do princípio que os compreendem só porque sabem tudo sobre eles.
Saber tudo sobre alguém, não é saber tudo, na medida em que não se sabe só isso. Na medida em que sabemos algo sobre nós.
Saber tudo é impossível. Para saber umas coisas, é preciso não saber outras. E a cada coisa que aprendemos, estamos a destruir outra que sabíamos, que era o não sabermos. Cada pessoa devia ter muito cuidado com aquilo que aprende.
Partamos do princípio que é impossível alguém compreender completamente outra pessoa e talvez nos consigamos começar a compreender um pouco melhor. Prestar mais atenção ao que podemos, por termos noção do que não podemos.
Ora isso é impossível. E era isso que queria dizer às pessoas que tiram conclusões sobre os outros partindo do princípio que os compreendem só porque sabem tudo sobre eles.
Saber tudo sobre alguém, não é saber tudo, na medida em que não se sabe só isso. Na medida em que sabemos algo sobre nós.
Saber tudo é impossível. Para saber umas coisas, é preciso não saber outras. E a cada coisa que aprendemos, estamos a destruir outra que sabíamos, que era o não sabermos. Cada pessoa devia ter muito cuidado com aquilo que aprende.
Partamos do princípio que é impossível alguém compreender completamente outra pessoa e talvez nos consigamos começar a compreender um pouco melhor. Prestar mais atenção ao que podemos, por termos noção do que não podemos.
domingo, 9 de novembro de 2008
Poema VIII
Mulher
Meu gracioso potente porte negro
Que vives a vida como a proa de um navio
Que me beijas a boca como uma mãe que mede a febre
e como uma filhinha que pede beijos antes de adormecer
Os teus lábios reanimam-me numa beira-mar só nossa
onde o único alimento é o sal dos teus cabelos.
Ao meu colo, envolta no teu xaile preto
Fazes lágrimas para me explicares a grandeza do mar
Meu gracioso potente porte negro
Que vives a vida como a proa de um navio
Que me beijas a boca como uma mãe que mede a febre
e como uma filhinha que pede beijos antes de adormecer
Os teus lábios reanimam-me numa beira-mar só nossa
onde o único alimento é o sal dos teus cabelos.
Ao meu colo, envolta no teu xaile preto
Fazes lágrimas para me explicares a grandeza do mar
sábado, 8 de novembro de 2008
A arrogância do artista
Recorrentemente encontro pessoas que se surpreendem por os grandes artistas serem arrogantes. Oiço pessoas dizerem que "até gostariam" de tal artista, não fosse tal artista "ser arrogante". Como quem diz Até fazia o esforço de gostar. Nunca percebi estas pessoas.
Tal grande artista não é humilde? Mas já não tinha sido humilde quando decidiu ser grande. Não foi humilde quando decidiu extravasar todos os seus limites e aspirou ser mais de si mesmo do que ele próprio pensava poder ser. Os grandes não foram talhados para a humildade. Por isso é que são grandes. São pessoas que não couberam em si - o que há de mais arrogante que isso? O ponto de partida deles já é a arrogância, não é um ponto de chegada.
Tal grande artista não é humilde? Mas já não tinha sido humilde quando decidiu ser grande. Não foi humilde quando decidiu extravasar todos os seus limites e aspirou ser mais de si mesmo do que ele próprio pensava poder ser. Os grandes não foram talhados para a humildade. Por isso é que são grandes. São pessoas que não couberam em si - o que há de mais arrogante que isso? O ponto de partida deles já é a arrogância, não é um ponto de chegada.
Arrogância não é o mesmo que má educação. Arrogância é simplesmente alguém que não aceita ser do tamanho que é. Nem é não aceitar ser pequeno. É não aceitar ser normal. Isso sim, é arrogância. Não é um defeito, também não é uma qualidade. É uma característica. Um aspecto com que alguns cresceram.
Ser artista é ser arrogante, então ser um grande artista só pode ser o cúmulo da arrogância. Fazer uma obra e achar que os outros vão estar interessados? Ou o caso contrário, que ainda é pior, que é fazer uma obra só para si?? Isso além de arrogância já é egocentrismo. Não há por onde escapar, um artista tem de ser arrogante. E não há nenhum mal nisso. Depois de ser arrogante, pode ser ao mesmo tempo simpático, amável, generoso, educado, cortês, delicado - tudo isso são características que um artista, como qualquer boa pessoa, pode e deve cultivar. Mas a humildade não. Só se for perante Deus e, mesmo assim, depende o que cada um entende por Deus. Talvez assim tenha chegado a uma definição de Deus que sinto verdadeira. Deus: a única coisa perante a qual um artista deve ser humilde.
Os grandes artistas são alguém que tem a coragem de olhar nos olhos. Olhar nos olhos o destino, olhar nos olhos os outros, acima de tudo, olhar-se nos olhos a si próprio. Há mais arrogância que isso? Na Coreia (do Norte e do Sul) é má educação olhar nos olhos uma pessoa com quem não sejamos íntimos. É verdade que os artistas com as suas obras nos fazem sentir íntimos deles. Mas isso é porque são capazes de nos dar a ilusão de que os conhecemos, porque na verdade são eles que nos conhecem a nós, e bem demais. Os artistas conhecem-nos melhor que nós próprios nos conhecemos.
Olhar nos olhos um artista é que é arrogância. Porque enquanto que eles nos conhecem melhor que nós a nós próprios, nós nem um miligrama deles conseguimos compreender. E se achamos que sim ainda pior. Ser um grande artista é poder olhar nos olhos alguém mas não o fazer a não ser através da alma. Quando olhamos nos olhos um artista e exigimos que não sejam arrogantes, somos nós que o estamos a ser, por acharmos que somos dignos de pedir o que quer que seja. Pedir? Nós, que não lhes demos nada, ainda lhes exigimos que não sejam arrogantes? Ainda lhes pedimos coisas? Nós é que não merecemos a sua Arte. Não admira que não olhem para nós. Não admira que sejam arrogantes connosco. Quando o mar de críticos só sabe falar do carácter deles quando eles acabam de por uma posta da sua alma ali em exposição para todos verem, não me surpreende que não tenham paciência para os seres pequeninos que lhes apontam o dedo.
E assim concluo que afinal os artistas não são arrogantes. Comparados com o público até são bastante humildes.
Nova definição de artista: ser humilde sendo arrogante.
Nunca confio num artista que não seja assim.
Ser artista é ser arrogante, então ser um grande artista só pode ser o cúmulo da arrogância. Fazer uma obra e achar que os outros vão estar interessados? Ou o caso contrário, que ainda é pior, que é fazer uma obra só para si?? Isso além de arrogância já é egocentrismo. Não há por onde escapar, um artista tem de ser arrogante. E não há nenhum mal nisso. Depois de ser arrogante, pode ser ao mesmo tempo simpático, amável, generoso, educado, cortês, delicado - tudo isso são características que um artista, como qualquer boa pessoa, pode e deve cultivar. Mas a humildade não. Só se for perante Deus e, mesmo assim, depende o que cada um entende por Deus. Talvez assim tenha chegado a uma definição de Deus que sinto verdadeira. Deus: a única coisa perante a qual um artista deve ser humilde.
Os grandes artistas são alguém que tem a coragem de olhar nos olhos. Olhar nos olhos o destino, olhar nos olhos os outros, acima de tudo, olhar-se nos olhos a si próprio. Há mais arrogância que isso? Na Coreia (do Norte e do Sul) é má educação olhar nos olhos uma pessoa com quem não sejamos íntimos. É verdade que os artistas com as suas obras nos fazem sentir íntimos deles. Mas isso é porque são capazes de nos dar a ilusão de que os conhecemos, porque na verdade são eles que nos conhecem a nós, e bem demais. Os artistas conhecem-nos melhor que nós próprios nos conhecemos.
Olhar nos olhos um artista é que é arrogância. Porque enquanto que eles nos conhecem melhor que nós a nós próprios, nós nem um miligrama deles conseguimos compreender. E se achamos que sim ainda pior. Ser um grande artista é poder olhar nos olhos alguém mas não o fazer a não ser através da alma. Quando olhamos nos olhos um artista e exigimos que não sejam arrogantes, somos nós que o estamos a ser, por acharmos que somos dignos de pedir o que quer que seja. Pedir? Nós, que não lhes demos nada, ainda lhes exigimos que não sejam arrogantes? Ainda lhes pedimos coisas? Nós é que não merecemos a sua Arte. Não admira que não olhem para nós. Não admira que sejam arrogantes connosco. Quando o mar de críticos só sabe falar do carácter deles quando eles acabam de por uma posta da sua alma ali em exposição para todos verem, não me surpreende que não tenham paciência para os seres pequeninos que lhes apontam o dedo.
E assim concluo que afinal os artistas não são arrogantes. Comparados com o público até são bastante humildes.
Nova definição de artista: ser humilde sendo arrogante.
Nunca confio num artista que não seja assim.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Poema VII
Fazes esculturas no chá
de não lhe tocares
Aumentas-me a sede
ao respirares
Quando deixas o calor entrar
nos espaços entre as coisas
Constróis na água quente
a beleza dos não lugares
Abraças o passar do tempo
sem nada forçares
Deixas nascer o alimento
fecundado por olhares
E quando nessa flor
acordas o paladar
Libertas nele a cor
do meu sangue a escaldar
de não lhe tocares
Aumentas-me a sede
ao respirares
Quando deixas o calor entrar
nos espaços entre as coisas
Constróis na água quente
a beleza dos não lugares
Abraças o passar do tempo
sem nada forçares
Deixas nascer o alimento
fecundado por olhares
E quando nessa flor
acordas o paladar
Libertas nele a cor
do meu sangue a escaldar
Poema VI
Se cada gargalhada
for acabada por ti
e cada lágrima
como aquela que vi
Ao cruzarmos as nossas vidas
até agora mal vividas
talvez conseguíssemos nunca terminar
de juntos celebrar
uma abraço a cada choque
um casamento a cada toque
e seguir a nossa sorte
sem medo nem agonias
for acabada por ti
e cada lágrima
como aquela que vi
Ao cruzarmos as nossas vidas
até agora mal vividas
talvez conseguíssemos nunca terminar
de juntos celebrar
uma abraço a cada choque
um casamento a cada toque
e seguir a nossa sorte
sem medo nem agonias
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Poema V
Não querias que eu dissesse
aquelas coisas que te faziam corar.
Mas como podia parar
se a cada palavra dita
fazias bonita
a tua beleza aumentar?
Dizias que era especial o que eu fazia
mas estavas enganada.
O que era especial era o que acontecia
quando o que eu fazia te encontrava.
aquelas coisas que te faziam corar.
Mas como podia parar
se a cada palavra dita
fazias bonita
a tua beleza aumentar?
Dizias que era especial o que eu fazia
mas estavas enganada.
O que era especial era o que acontecia
quando o que eu fazia te encontrava.
Poema IV
Quando te conheci
Não sonhei que viesses a ser para mim
Metade da toda que és hoje
E se a tua beleza
Não cabe na minha poesia
É para mim um mistério
Como tu cabes em ti
Não sonhei que viesses a ser para mim
Metade da toda que és hoje
E se a tua beleza
Não cabe na minha poesia
É para mim um mistério
Como tu cabes em ti
Os olhos
Há uns dias cruzei-me na rua com um amigo. Parámos e falámos de coisas intelectuais e interessantes. Falámos de livros e ele apresentou-me um amigo seu. Esta história começa quando o amigo está a falar e eu reparo nos olhos dele.
Emprenhados pelo Sol laranja de fim de tarde, eram da cor do mel brilhante, como âmbar, mas mais bonitos. Eram intensos e eram elegantes. Fiquei a ouvi-lo mas a certa altura foi como se a voz dele se separasse do corpo e, subitamente, ficasse silêncio, enquanto na minha cabeça fazia um zoom de 46 vezes, 3000 mega-pixels aos olhos dele.
Dei por mim a pensar que aqueles olhos tinham algo de fulminante. Nunca senti atração por um rapaz, mas por aqueles olhos, sim, naqueles olhos eu podia ser feliz. Fiz o zoom out - 46 vezes e 3000 mega-pixels para trás - e vi-me debruçado sobre aqueles olhos, que agora pertenciam a uma moça. Linda de morrer, toda a sua beleza correspondia à daqueles olhos. Como diz o John Cusack no Hi Fidelity, ela compatia a cem por cento com os meus sentidos. E foi aí que percebi pela primeira vez na vida, que os olhos são a única parte do corpo humano que, pelo menos à vista, é igual entre homens e mulheres. E vi a mulher linda que aquele rapaz podia ter sido, no lugar do barbudo que ali estava. Pensei no que poderia ter acontecido entre nós se ele tivesse nascido mulher. E foi assim que nos olhos de um rapaz eu vi a mulher dos meus sonhos.
E percebi que não há nada de homossexual em apreciar os olhos de outros rapazes. Os olhos não têm género, e talvez sejam até a única forma de um rapaz heterossexual ou de uma lésbica apreciarem sexualmente um rapaz .
(a frase Os olhos dela não fazem o meu génro acaba de perder qualquer sentido)
Emprenhados pelo Sol laranja de fim de tarde, eram da cor do mel brilhante, como âmbar, mas mais bonitos. Eram intensos e eram elegantes. Fiquei a ouvi-lo mas a certa altura foi como se a voz dele se separasse do corpo e, subitamente, ficasse silêncio, enquanto na minha cabeça fazia um zoom de 46 vezes, 3000 mega-pixels aos olhos dele.
Dei por mim a pensar que aqueles olhos tinham algo de fulminante. Nunca senti atração por um rapaz, mas por aqueles olhos, sim, naqueles olhos eu podia ser feliz. Fiz o zoom out - 46 vezes e 3000 mega-pixels para trás - e vi-me debruçado sobre aqueles olhos, que agora pertenciam a uma moça. Linda de morrer, toda a sua beleza correspondia à daqueles olhos. Como diz o John Cusack no Hi Fidelity, ela compatia a cem por cento com os meus sentidos. E foi aí que percebi pela primeira vez na vida, que os olhos são a única parte do corpo humano que, pelo menos à vista, é igual entre homens e mulheres. E vi a mulher linda que aquele rapaz podia ter sido, no lugar do barbudo que ali estava. Pensei no que poderia ter acontecido entre nós se ele tivesse nascido mulher. E foi assim que nos olhos de um rapaz eu vi a mulher dos meus sonhos.
E percebi que não há nada de homossexual em apreciar os olhos de outros rapazes. Os olhos não têm género, e talvez sejam até a única forma de um rapaz heterossexual ou de uma lésbica apreciarem sexualmente um rapaz .
(a frase Os olhos dela não fazem o meu génro acaba de perder qualquer sentido)
sábado, 1 de novembro de 2008
Poema III
Quando me abraçavas
Sentia que pedias perdão por não seres minha mulher.
Quando me abraçavas
Sentia a tua alma quente nas tuas mãos frias
Quando me abraçavas
Sentia que querias ser mais que uma qualquer mas não sabias
Quando me abraçavas
Sentia que dizias que ali eras mais que uma despedida
Quando me abraçavas
Sentia que já então esculpias a nossa promessa de vida
Quando me abraçavas
Sentia que juravas não querer esquecer
Quando me abraçavas
Sentia que não era só o frio da tua cidade que estavas a aquecer
Quando me abraçavas
Sentia que fugias do beijo que me querias dar
Quando me abraçavas
Sentia que pedias que não te deixasse escapar
Quando me abraçavas
Sentia que nos casavas
Quando me abraçavas
Sentia que nos abraçavas
Quando me abraçavas
Sentia que pedias perdão por não seres minha mulher.
Quando me abraçavas
Sentia a tua alma quente nas tuas mãos frias
Quando me abraçavas
Sentia que querias ser mais que uma qualquer mas não sabias
Quando me abraçavas
Sentia que dizias que ali eras mais que uma despedida
Quando me abraçavas
Sentia que já então esculpias a nossa promessa de vida
Quando me abraçavas
Sentia que juravas não querer esquecer
Quando me abraçavas
Sentia que não era só o frio da tua cidade que estavas a aquecer
Quando me abraçavas
Sentia que fugias do beijo que me querias dar
Quando me abraçavas
Sentia que pedias que não te deixasse escapar
Quando me abraçavas
Sentia que nos casavas
Quando me abraçavas
Sentia que nos abraçavas
Quando me abraçavas
Poema II
Mulher robusta
Que encontras nos próprios passos
O caminho da beleza
Mini poema sobre a mulher dos meus sonhos.
Que encontras nos próprios passos
O caminho da beleza
Mini poema sobre a mulher dos meus sonhos.
Poema I
Eu tinha encontrado em ti
Aquilo que via quando olhava para dentro
Mas que nunca seria capaz de pôr cá fora
E tu ensinaste-me que sim
E chamámos-lhe Ana.
Poema para a minha futura mulher que não sei quem virá a ser, sobre a nossa filha que ainda não nasceu.
Aquilo que via quando olhava para dentro
Mas que nunca seria capaz de pôr cá fora
E tu ensinaste-me que sim
E chamámos-lhe Ana.
Poema para a minha futura mulher que não sei quem virá a ser, sobre a nossa filha que ainda não nasceu.
sábado, 25 de outubro de 2008
Pequenos pedaços de mim
Tive uma ex-namorada. Devia dizer que a tive ou que a tenho? Será que as ex-namoradas também se têm, no presente, como resultado do que já foi? Eu sinto que sim, pelo menos. Tive-a de um maneira que não posso voltar a não a ter. Foi minha - e eu dela - de uma forma que faz que ela esteja para sempre comigo, mesmo que eu não queira (e não queria mesmo, gostava de ser capaz de destilar todo o meu sistema, com uma daquelas máquinas que há para purificar o sangue só que para a alma. Curiosamente, a Vida parece ser uma máquina dessas). Houve uma ex-namorada. Não, houve também não está bem.
Não posso julgar o que passou com os tempos verbais de hoje. Têm de ser os tempos verbais justos, do tempo dela. Sem a ter tido, não seria hoje quem sou, não teria aprendido com a experiencia de a ter, as coisas que eu antes dela não tinha e que tenho já sem a ter. Ela pode ter feito mais estragos que coisas boas, mas foi assim como um desbastar do calhau antes de começar a escultura, e alguém tem de fazer esse trabalho. Foi ela. Prestemos-lhe essa honra. Aprendi muito com ela. Tenho uma ex-namorada.
Parece que já não namoramos há muito tempo. De facto já passou algum tempo. Mas ela ainda tem coisas minhas na casa dela. Com que coragem é que eu lhas posso pedir (ou de que serve pedir) se eu sei que ela as tem porque quer ficar com um bocado de mim para sempre?
Eu sei que ela nunca me vai poder devolver aquelas lágrimas que me tirou, porque também não as tem. Lágrimas são sempre a fundo perdido.
Mas será que eu sou mesmo fútil ao ponto de ser capaz de lhe pedir que me devolva os meus livros, discos e filmes? São só coisas, mas sinto que se lhas tirar é como se lhe tirasse uma costela. Ela quer tê-las como se fossem um relicário de mim, eu sei. Só que eu não quero os meus livros de volta para apagar o passado. Quero-os só porque são meus, e o passado está dentro da gente, os livros são para ser lidos e aposto que ela não os lê. Mas será que são realmente meus? Talvez sejam algo que perdi quando, ao pertencemos um ao outro, na mistura de um com o outro e na separação e reconstrução de novo dos dois sozinhos, em tigelas separadas depois da receita estar pronta. Será que os meus livros são como aqueles tesouros que se perdem nos naufrágios?
Em todo o caso, ganhei e perdi muito mais com essa relação que DVDs. Perdi a minha ingenuidade (levou uns socos valentes) e a minha inocência não ficou intacta (está hoje suspensa num arame de trapezista que lhe dá um aspeto muito mais poético). Em compensação, ganhei um armamento de Rambo para resistir às agressões emocionais. Hoje mato víboras com passos de dança e afasto demónios com expressões solenes no Bairro Alto.
É por isso que me parece de uma grande futilidade estar a falar de livros, discos com música e com filmes a esta hora. São o menos importante de tudo isto. E em todo o caso não é tão fútil como se falasse no dinheiro que gastei com ela. Porque o dinheiro não existe, é muito feio misturar dinheiro e amor nas mesmas frases. São dois assuntos que não se podem misturar. Um desrói o outro.
Estes objetos sagrados não são como dinheiro. São pedaços de mim que ela tem em seu poder e que existem. Têm uma história.
Eu nunca lhos dei. Mas dei-me a mim e se já foi muito feio pedir-me de volta, porque quem dá não tira. Não posso voltar a fazê-lo. Em todo o caso, há mais pedaços de mim aí espalhados pelo mundo (alguns bem espalhados, aliás, alguns que quando os dei foi para nunca os ter de volta e assim é muito bonito, assim não há melhor coisa na vida). Não quero recolher tudo o que é meu e anda aí no mundo. É bom espalharmo-nos. Se pudesse, deixava um livro a cada pessoa que estimo a cada encontro. Adoro dar prendas. É sempre bom aprendermos a libertarmo-nos de nós próprios.
Não posso julgar o que passou com os tempos verbais de hoje. Têm de ser os tempos verbais justos, do tempo dela. Sem a ter tido, não seria hoje quem sou, não teria aprendido com a experiencia de a ter, as coisas que eu antes dela não tinha e que tenho já sem a ter. Ela pode ter feito mais estragos que coisas boas, mas foi assim como um desbastar do calhau antes de começar a escultura, e alguém tem de fazer esse trabalho. Foi ela. Prestemos-lhe essa honra. Aprendi muito com ela. Tenho uma ex-namorada.
Parece que já não namoramos há muito tempo. De facto já passou algum tempo. Mas ela ainda tem coisas minhas na casa dela. Com que coragem é que eu lhas posso pedir (ou de que serve pedir) se eu sei que ela as tem porque quer ficar com um bocado de mim para sempre?
Eu sei que ela nunca me vai poder devolver aquelas lágrimas que me tirou, porque também não as tem. Lágrimas são sempre a fundo perdido.
Mas será que eu sou mesmo fútil ao ponto de ser capaz de lhe pedir que me devolva os meus livros, discos e filmes? São só coisas, mas sinto que se lhas tirar é como se lhe tirasse uma costela. Ela quer tê-las como se fossem um relicário de mim, eu sei. Só que eu não quero os meus livros de volta para apagar o passado. Quero-os só porque são meus, e o passado está dentro da gente, os livros são para ser lidos e aposto que ela não os lê. Mas será que são realmente meus? Talvez sejam algo que perdi quando, ao pertencemos um ao outro, na mistura de um com o outro e na separação e reconstrução de novo dos dois sozinhos, em tigelas separadas depois da receita estar pronta. Será que os meus livros são como aqueles tesouros que se perdem nos naufrágios?
Em todo o caso, ganhei e perdi muito mais com essa relação que DVDs. Perdi a minha ingenuidade (levou uns socos valentes) e a minha inocência não ficou intacta (está hoje suspensa num arame de trapezista que lhe dá um aspeto muito mais poético). Em compensação, ganhei um armamento de Rambo para resistir às agressões emocionais. Hoje mato víboras com passos de dança e afasto demónios com expressões solenes no Bairro Alto.
É por isso que me parece de uma grande futilidade estar a falar de livros, discos com música e com filmes a esta hora. São o menos importante de tudo isto. E em todo o caso não é tão fútil como se falasse no dinheiro que gastei com ela. Porque o dinheiro não existe, é muito feio misturar dinheiro e amor nas mesmas frases. São dois assuntos que não se podem misturar. Um desrói o outro.
Estes objetos sagrados não são como dinheiro. São pedaços de mim que ela tem em seu poder e que existem. Têm uma história.
Eu nunca lhos dei. Mas dei-me a mim e se já foi muito feio pedir-me de volta, porque quem dá não tira. Não posso voltar a fazê-lo. Em todo o caso, há mais pedaços de mim aí espalhados pelo mundo (alguns bem espalhados, aliás, alguns que quando os dei foi para nunca os ter de volta e assim é muito bonito, assim não há melhor coisa na vida). Não quero recolher tudo o que é meu e anda aí no mundo. É bom espalharmo-nos. Se pudesse, deixava um livro a cada pessoa que estimo a cada encontro. Adoro dar prendas. É sempre bom aprendermos a libertarmo-nos de nós próprios.
Exploração divina
Vi num programa de televisão que alguns tipos de seguros têm uma cláusula em letras pequeninas que diz "Não cobre actos de Deus".
Bolas, realmente não há direito. Por actos de deus, referem-se a tufões que possam cair em cima da nossa casa, ou a tremores de terra. Que visão do mundo esta em que só os desastres naturais é que são Deus? Fico entristecido quando vejo que há pessoas - isto é, civilizações inteiras (porque para compreender determinada civilização, não há melhor que olhar para a papelada das suas seguradoras) - dizia eu - civilizações para quem Deus existe, mas não é mais que um requintado anarquista fazedor de maremotos.
Hoje, Deus não está morto, mas já não é o Velhinho de Barbas Brancas no Céu, é o Velho de Barbas Brancas à porta do Metro na estação da Baixa-Chiado, de muletas a gritar com um braço no ar Panfleto Anarquista! (que vi uma vez há cerca de cinco anos atrás e nunca mais).
Ao mesmo tempo, fico encantado com o pudor religioso com que as seguradoras se recusam a deixar o cliente fazer dinheiro à custa do senhor. Parece-me muito nobre. Apostar a sorte das pessoas sim, mas é melhor não fazer apostas com Nosso Senhor, que nunca se sabe, ele tem vantagem, e pode entrar no jogo à séria. Exato, deve ser isso então. Não fosse deus por-se para aí a fazer seguros, a rebentar com os bens e a lixar as seguradoras. Estes tipos são espertos.
Ao mesmo tempo, será que devo respeitar um negócio cuja prosperidade depende de deixar Deus de fora?
Bolas, realmente não há direito. Por actos de deus, referem-se a tufões que possam cair em cima da nossa casa, ou a tremores de terra. Que visão do mundo esta em que só os desastres naturais é que são Deus? Fico entristecido quando vejo que há pessoas - isto é, civilizações inteiras (porque para compreender determinada civilização, não há melhor que olhar para a papelada das suas seguradoras) - dizia eu - civilizações para quem Deus existe, mas não é mais que um requintado anarquista fazedor de maremotos.
Hoje, Deus não está morto, mas já não é o Velhinho de Barbas Brancas no Céu, é o Velho de Barbas Brancas à porta do Metro na estação da Baixa-Chiado, de muletas a gritar com um braço no ar Panfleto Anarquista! (que vi uma vez há cerca de cinco anos atrás e nunca mais).
Ao mesmo tempo, fico encantado com o pudor religioso com que as seguradoras se recusam a deixar o cliente fazer dinheiro à custa do senhor. Parece-me muito nobre. Apostar a sorte das pessoas sim, mas é melhor não fazer apostas com Nosso Senhor, que nunca se sabe, ele tem vantagem, e pode entrar no jogo à séria. Exato, deve ser isso então. Não fosse deus por-se para aí a fazer seguros, a rebentar com os bens e a lixar as seguradoras. Estes tipos são espertos.
Ao mesmo tempo, será que devo respeitar um negócio cuja prosperidade depende de deixar Deus de fora?
O regresso ou O Napoleão dos blogues
Como se isto fosse um livro do nosso saudoso Machado de Assis, devo afirmar que o post anterior não era sério.
É certo que a irritação ainda cá está, e me faz franzir o sobrolho desconfiado das minhas próprias ideias.
Mas como podia eu acabar com esta tribuna estilo folhetim virtual, por causa de uma irritação, quando há tanta coisa para dizer, por dizer, tanta coisa ainda para ser pensada, tanta coisa a acontecer e por acontecer e quando, tenho de admitir, me apetece tanto escrever? Acabar com o que já se começou por uma irritação parece-me agora de uma meninice inqualificável. Era como se o Napoleão tivesse parado a invasão porque lhe doía a barriga, ou porque se viu ao espelho e se achou feio (ele era feio). Temos que ser fortes. Este blogue tem de ser como a invasão do Napoleão. Não estou por menos.
Onde iria eu escrever? No meu diário? Também. Mas que piada tem um diário quando se pode ter um lugar onde quando se escreve se é posto à prova por todos aqueles que estão interessados em fazê-lo? É um valente antídoto para a auto-complacência. Enquanto no meu diário posso ser choramingas, aqui tenho de me mostrar forte. Enquanto que no diário posso ser pseudo-poético, aqui, a ser alguma coisa, terá sempre que ser o mais poético e o menos pseudo (é difícil, eu sou muito pseudo).
Mas o mais importante é a verdade. É ela que tem de ser protegida. E sozinho não consigo. Agradeço a todos os que estão comigo. Só o facto de lerem isto, faz mais por Ela (pela Verdade) do que poderíamos pensar. Mas isso não é mérito meu.
É certo que a irritação ainda cá está, e me faz franzir o sobrolho desconfiado das minhas próprias ideias.
Mas como podia eu acabar com esta tribuna estilo folhetim virtual, por causa de uma irritação, quando há tanta coisa para dizer, por dizer, tanta coisa ainda para ser pensada, tanta coisa a acontecer e por acontecer e quando, tenho de admitir, me apetece tanto escrever? Acabar com o que já se começou por uma irritação parece-me agora de uma meninice inqualificável. Era como se o Napoleão tivesse parado a invasão porque lhe doía a barriga, ou porque se viu ao espelho e se achou feio (ele era feio). Temos que ser fortes. Este blogue tem de ser como a invasão do Napoleão. Não estou por menos.
Onde iria eu escrever? No meu diário? Também. Mas que piada tem um diário quando se pode ter um lugar onde quando se escreve se é posto à prova por todos aqueles que estão interessados em fazê-lo? É um valente antídoto para a auto-complacência. Enquanto no meu diário posso ser choramingas, aqui tenho de me mostrar forte. Enquanto que no diário posso ser pseudo-poético, aqui, a ser alguma coisa, terá sempre que ser o mais poético e o menos pseudo (é difícil, eu sou muito pseudo).
Mas o mais importante é a verdade. É ela que tem de ser protegida. E sozinho não consigo. Agradeço a todos os que estão comigo. Só o facto de lerem isto, faz mais por Ela (pela Verdade) do que poderíamos pensar. Mas isso não é mérito meu.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Ilusão
Está-me a irritar a minha mania de que sei tudo. Vou parar por uns tempos até não saber nada.
Saber sofrer
Talvez a Selecção Portuguesa de futebol seja exemplo claro da maneira de pensar moderna dos portugueses: Não arrisca sofrer, e por isso não marca.
Os portugueses não querem sofrer, mas é preciso apostar a vitória para a poder ter. Nunca pode marcar quem não está disposto a sofrer. E existe sofrimento maior que viver uma vida de 0-0?
Mesmo perdendo no final - porque perdemos sempre - a vida é sempre preferível se se tiver marcado pelo menos uma vez.
Os portugueses não querem sofrer, mas é preciso apostar a vitória para a poder ter. Nunca pode marcar quem não está disposto a sofrer. E existe sofrimento maior que viver uma vida de 0-0?
Mesmo perdendo no final - porque perdemos sempre - a vida é sempre preferível se se tiver marcado pelo menos uma vez.
Os sentimentos dos outros
Numa conversa com uma amiga a quem vou chamar Bruna, falámos sobre mulheres e homens. Tendo sempre em conta que tudo o que dizíamos eram generalizações, dissemos muitas coisas. Ela disse-me que eu achar que os homens tinham a obrigação de ser fortes era como dizer que as mulheres eram fracas. Eu disse que não, que cada género tinha as suas qualidades e defeitos, para cada talento uma fraqueza, como por exemplo, os homens serem tendencialmente fortes mas insensíveis aos sentimentos dos outros.
A Bruna não disse, mas eu tive a sensação que ficou no ar a ideia de que ser insensível também era uma vantagem, como se fosse um luxo que o homem tem, o de poder ser bruto.
Não sinto que seja. Os homens insensíveis aos sentimentos que não são seus, sofrem quando perdem aqueles de quem gostam por não saberem fazê-los felizes. Quando não conseguem exprimir aquilo que sentem. Quando sentem a besta incompreendida que são. Podem não sentir os sofrimentos dos outros, mas sentem bem os seus. Sofrem muito essa incapacidade de serem bons. Garanto-vos que é uma das nossas maiores tragédias.
A Bruna não disse, mas eu tive a sensação que ficou no ar a ideia de que ser insensível também era uma vantagem, como se fosse um luxo que o homem tem, o de poder ser bruto.
Não sinto que seja. Os homens insensíveis aos sentimentos que não são seus, sofrem quando perdem aqueles de quem gostam por não saberem fazê-los felizes. Quando não conseguem exprimir aquilo que sentem. Quando sentem a besta incompreendida que são. Podem não sentir os sofrimentos dos outros, mas sentem bem os seus. Sofrem muito essa incapacidade de serem bons. Garanto-vos que é uma das nossas maiores tragédias.
domingo, 19 de outubro de 2008
Intimidade
Tenho uma amiga, que não interessa quem é, que está a tentar acabar com a antiga tradição de cumprimentar e despedir de uma pessoa com dois beijos no rosto.
O principal argumento dela, é que os beijos são uma intimidade excessiva para se ter com alguém que, muitas vezes, mal conhecemos. Eu tomo a liberdade de acrescentar outro, que descobri com a ajuda preciosa de outra amiga, a Madalena: banalizar o ato de dar beijos passando a usá-los como um cumprimento, destruiu todo o valor do beijo enquanto acção, tendo feito com que passasse a importar, não se se beija, mas onde se beija. É por isso que uma namorada ou namorado pode sentir que não é amado quando o seu amor não o beijar na boca, mas só na face. Que sociedade podre é esta em que uma pessoa pode pensar que não é amada porque lhe dão um beijo? Se passássemos a dar beijos na cara só quando sentíamos uma vontade que não conseguíamos controlar, muito mais valor teria um beijo dado a alguém de quem se gosta, ou a quem se quer dar carinho, seja entre amigos ou casais.
A minha amiga tem bons argumentos a seu favor. Mas a minha amiga propõe o aperto de mão europeu como alternativa ao beijo facial. Aquilo com que ela não contava era com a intimidade brutal que é para mim enquanto rapaz tocar as mãos de uma rapariga. Com o beijo banalizado, as mãos eram santas. As mãos eram o primeiro portal da virgindade do corpo.
Um toque na mão de uma mulher por quem me sinto atraído é mil vezes mais sensual que um rápido e fugaz beijo na face, que - mesmo que tentemos saborear e fazer com que dure o máximo possível - isso nunca passa de um esforço vão, pois conforme os nossos lábios lá estão, já não estão, e nunca dá para saborear. É tão rápido que nem dá tempo para pensar. Eu já tentei de tudo. Impulsionar a cabeça com mais força, para a frente, para melhor sentir a face desejada, já tentei friccionar os lábios contra a bochecha doce, ou mesmo mexê-los, já tentei até inspirar profundamente quando o meu nariz se aproximava dos cabelos de uma mulher que eu desejava para sentir o máximo dela que pudesse. Não consegui com isto mais que fazer com que pensassem que eu era um psicopata. Fui ridículo.
Mas com um aperto de mão tudo muda. O aperto de mão é um tocar, um enlaçar, um apertar, um sentir a pele lisa da outra mão com as nossas mãos - especialmente porque as mulheres não sabem dar apertos de mão como os homens - talvez por falta de treino - e concentram o fundamental do aperto de mão nos dedos e não na palma da mão (como o homem), o que faz com que seja um gesto de uma tal ternura encantatória, de uma subtileza e de uma sensualidade real sentir a mão da mulher, que o beijo bem pode ser enterrado.
Lembro-me das mulheres estrangeiras que já cumprimentei com aperto de mão e de como, as que eram giras, me fizeram tremer ao sentir aquela palma da mão, durante aquele segundo em que, como dois namorados, demos as mãos. Sou levado a concluir que o aperto de mão feminino é uma forma de sedução muito mais eficaz e precisa que o beijo na face.
E é agora que percebo que, esperta como é, a minha amiga sabe isto tudo. Por bluff diz que quer acabar com os beijos por causa da intimidade, mas isso é só uma estratégia para seduzir melhor os rapazes e ainda passar por santinha. Eu aqui a pensar que estou a fazer um post muito inteligente e ela já sabia isto tudo. Miúda, tu és de mais.
O principal argumento dela, é que os beijos são uma intimidade excessiva para se ter com alguém que, muitas vezes, mal conhecemos. Eu tomo a liberdade de acrescentar outro, que descobri com a ajuda preciosa de outra amiga, a Madalena: banalizar o ato de dar beijos passando a usá-los como um cumprimento, destruiu todo o valor do beijo enquanto acção, tendo feito com que passasse a importar, não se se beija, mas onde se beija. É por isso que uma namorada ou namorado pode sentir que não é amado quando o seu amor não o beijar na boca, mas só na face. Que sociedade podre é esta em que uma pessoa pode pensar que não é amada porque lhe dão um beijo? Se passássemos a dar beijos na cara só quando sentíamos uma vontade que não conseguíamos controlar, muito mais valor teria um beijo dado a alguém de quem se gosta, ou a quem se quer dar carinho, seja entre amigos ou casais.
A minha amiga tem bons argumentos a seu favor. Mas a minha amiga propõe o aperto de mão europeu como alternativa ao beijo facial. Aquilo com que ela não contava era com a intimidade brutal que é para mim enquanto rapaz tocar as mãos de uma rapariga. Com o beijo banalizado, as mãos eram santas. As mãos eram o primeiro portal da virgindade do corpo.
Um toque na mão de uma mulher por quem me sinto atraído é mil vezes mais sensual que um rápido e fugaz beijo na face, que - mesmo que tentemos saborear e fazer com que dure o máximo possível - isso nunca passa de um esforço vão, pois conforme os nossos lábios lá estão, já não estão, e nunca dá para saborear. É tão rápido que nem dá tempo para pensar. Eu já tentei de tudo. Impulsionar a cabeça com mais força, para a frente, para melhor sentir a face desejada, já tentei friccionar os lábios contra a bochecha doce, ou mesmo mexê-los, já tentei até inspirar profundamente quando o meu nariz se aproximava dos cabelos de uma mulher que eu desejava para sentir o máximo dela que pudesse. Não consegui com isto mais que fazer com que pensassem que eu era um psicopata. Fui ridículo.
Mas com um aperto de mão tudo muda. O aperto de mão é um tocar, um enlaçar, um apertar, um sentir a pele lisa da outra mão com as nossas mãos - especialmente porque as mulheres não sabem dar apertos de mão como os homens - talvez por falta de treino - e concentram o fundamental do aperto de mão nos dedos e não na palma da mão (como o homem), o que faz com que seja um gesto de uma tal ternura encantatória, de uma subtileza e de uma sensualidade real sentir a mão da mulher, que o beijo bem pode ser enterrado.
Lembro-me das mulheres estrangeiras que já cumprimentei com aperto de mão e de como, as que eram giras, me fizeram tremer ao sentir aquela palma da mão, durante aquele segundo em que, como dois namorados, demos as mãos. Sou levado a concluir que o aperto de mão feminino é uma forma de sedução muito mais eficaz e precisa que o beijo na face.
E é agora que percebo que, esperta como é, a minha amiga sabe isto tudo. Por bluff diz que quer acabar com os beijos por causa da intimidade, mas isso é só uma estratégia para seduzir melhor os rapazes e ainda passar por santinha. Eu aqui a pensar que estou a fazer um post muito inteligente e ela já sabia isto tudo. Miúda, tu és de mais.
domingo, 12 de outubro de 2008
Cumprir
Seria de pensar que prometer fosse uma coisa fácil. No contemporâneo, em que desapareceu o pudor que fazia com que prometer significasse comprometer, seria de pensar que prometer fosse canja. Que toda a gente pudesse prometer e que o difícil fosse cumprir. Mas não. Porque toda a gente promete e ninguém cumpre, tornou-se dificílimo prometer alguma coisa e fazer com que acreditarem em nós. É por isso que já nem há sequer a coragem de prometer seja o que for. É por isso, por exemplo, que ninguém se casa.
Mas, das profundezas da Geração Descrente, houve quem tivesse a coragem de prometer.
Por entre o mar dos desiludidos, Os Pontos Negros prometeram. Os Golpes prometeram. O Tiago Guillul e a sua banda já tinham prometido. E com eles prometemos nós, todos aqueles que espalhámos a mensagem e acreditámos. E ontem, tornando o MusicBox a CaixaDeMúsica que até lá nunca fora, eles tiveram a ousadia de cumprir. E nós com eles.
Mas, das profundezas da Geração Descrente, houve quem tivesse a coragem de prometer.
Por entre o mar dos desiludidos, Os Pontos Negros prometeram. Os Golpes prometeram. O Tiago Guillul e a sua banda já tinham prometido. E com eles prometemos nós, todos aqueles que espalhámos a mensagem e acreditámos. E ontem, tornando o MusicBox a CaixaDeMúsica que até lá nunca fora, eles tiveram a ousadia de cumprir. E nós com eles.
A bandeira que eles hastearam ontem - com a ajuda de outros, que com nobreza de caráter respondem apenas aos nomes Amor Fúria ou FlorCaveira - hastearam-na para Sempre. Na História. Na História porque foi vivida no presente. Ontem aconteceu no MusicBox a melhor noite de rock português em que eu já estive presente. Acredito mesmo, a melhor noite de rock português que qualquer um dos que lá esteve presenciou até hoje, dada a sua idade.
Só é História aquilo que é vivido. Só conta aquilo que é verdade. Ontem o rock português foi verdade.
Verdade para quem? Para aqueles, que novos de espírito, ainda souberam acreditar.
Há duas formas de acreditar. Uma, envolve a fé. A outra, a razão. A que envolve a fé, consiste em acreditar naquilo que não se vê, só se sente. Naquilo que se sabe que é possível - é, no presente, apesar de só ir acontecer no futuro. Os que acreditaram assim, tiveram a oportunidade de estar lá no momento em que o futuro se tornou presente. E isso chama-se viver.
A outra forma de acreditar, que envolve a razão, consiste em ler textos como este, em ler as revistas, em ouvir contar a noite magnífica que aconteceu ontem e que uns eleitos presenciaram, e suspirar Acredito que tenha sido bom... Esta forma de acreditar fica para todos os que não estiveram ontem no MusicBox.
Quem deixou ontem o MusicBox a abarrotar era, de facto, novo. Novo de idade. Uma grande percentagem do público era mais novo que eu (e eu sou novo). Sei que a noite de ontem os mudará para sempre. A geração que aclamará Os Pontos Negros, Os Golpes, o Tiago Guillul, o Samuel Úria e todos os outros é a geração que hoje tem menos de vinte e dois anos.
A minha geração - a dos vinte e dois anos para cima - nem vê-la. Convidei trinta amigos, veio um. Mas não foram só os meus amigos que faltram, foi uma geração inteira. Não há nada que me alivie a raiva perante esta gente que, cansada, triste, precocemente velha, não tem forças para realmente viver o seu tempo (quanto mais algum dia aspirar a viver o passado ou o futuro - sim, porque é preciso dignidade para viver o passado e o futuro). A geração que deixar passar ao lado - e eu ainda tenho fé que não vai deixar - bandas como Os Pontos Negros, Os Golpes ou o Tiago Guillul, é uma geração merecedora do grito de Almada Negreiros através da História:
Abaixo a Geração!
Quem me dera ver-me livre desta geração que faz o seu Tempo ser de Não Glória e só está preocupada com porcarias. A geração que nem promete, nem cumpre.
O melhor refrão dos nossos tempos é para ela.
Felizmente que a nova geração está já aí.
Quem me dera ver-me livre desta geração que faz o seu Tempo ser de Não Glória e só está preocupada com porcarias. A geração que nem promete, nem cumpre.
O melhor refrão dos nossos tempos é para ela.
Felizmente que a nova geração está já aí.
sábado, 11 de outubro de 2008
Os Ricos de Espírito
Ia a conduzir nas ruas da cidade, no meu carro preto. O teto estava aberto e deixava entrar a brisa da metrópole. O meu carro é baixo e é fantástico conduzi-lo. Parece que andamos colados ao chão, seja na auto-estrada seja na cidade. Desta vez estava na cidade. O rádio estava ligado. A estação era a Radar.
Então lá vem o tempo de antena do senhor Zé Pedro, o famoso guitarrista solo e ex-heroinómano dos Xutos & Pontapés, isto é, o Keith Richards português. Na edição de hoje do seu programa Zé Pedro Rock & Roll fez um bonito discurso. Defendeu as bandas portuguesas de música popular rock. Disse como era importante prestarmos atenção à nossa música, como ela era importante e tinha um lugar precioso a nossa cultura, como não devíamos sempre compará-la com a estrangeira mas julgá-la pelo que vale. E depois, apresentou a sua proposta do dia, em defesa da música portuguesa, como ele bem a defende. Apresentou uns tais que dão pelo nome de X-Wife.
Em primeiro lugar, já ouvi X-Wife no programa do Zé Pedro praí umas quinze vezes. Em segundo, os X-Wife não fazem música portuguesa. Os X-Wife são portugueses. Mas a música que fazem é anglo-saxónica. Promover os X-Wife não é promover a música portuguesa, é promover que os portugueses não façam música portuguesa e façam ainda mais música anglo-saxónica. Promover os X-Wife é promover a destruição da música portuguesa.
Como é que se pode dizer que é portuguesa uma música da qual eu, como português, não consigo perceber uma só palavra da letra porque, além de ser em inglês e o sotaque dele ser impossível, ele cantar de forma a eu não perceber nada?
Os X-Wife são uma boa banda. Só cometem um gravíssimo erro artístico. Cantam fora da cultura. Ao cantarem em inglês, os X-Wife colocaram-se por vontade própria fora da cultura lusófona. Mas enganam-se aqueles que pensam que eles se integraram na cultura anglo-saxónica. Porque eles queriam isso, mas não conseguem. Para um falante nativo de inglês, os X-Wife não são mais que uns nativos de um povo autóctone, que ainda não aprendeu bem a língua do império. São assim uma espécie de povo exótico, que os fará rir dado o esforço que faz por se fazer compreender.
Ser poliglota é bom. É ótimo. É excelente. Mas abdicar da própria cultura é um erro. Porque empobrece quem o faz. Porque quem o faz, ou o faz inconscientemente, porque já vive noutra cultura, porque a sua cultura de origem já não lhe diz nada, ou se o faz por moda, é apenas um pobre de espírito. Pobre de espírito no sentido mais literal que esta expressão pode ter, na medida em que a nossa cultura faz parte do nosso Ser.
Por muito que gostassem de ter nascido na inglaterra, os X-Wife não são ingleses. Ao terem nascido em Portugal, serão para sempre portugueses. Ao rejeitarem sê-lo, só ficam a perder.
O Zé Pedro admira-se como é que os X-Wife ainda não se afirmaram mais em Portugal. A resposta parece-me óbvia. Não se afirmaram aqui porque eles não gostam da sua cultura. Se não gostam da sua cultura, os portugueses também não gostam deles. Podem ser muito populares por entre a malta do bairro alto. Mas nunca serão na lusofonia. Será popular na sua cultura quem a souber abraçar e re-inventar, sempre dentro da tradição. Não há cultura sem tradição.
Se o Zé Pedro quer falar de cultura portuguesa, devia falar antes do concerto que vai haver este Sábado à noite - hoje - no MusicBox (que só nessa noite passará a chamar-se CaixaDeMúsica), em Lisboa, no Cais do Sodré, onde tocarão Os Golpes, Tiago Guillul e Os Pontos Negros, numa noite que passará a fazer parte da história da música popular portuguesa. Os Pontos Negros apresentarão o seu primeiro álbum de originais Magnífico Material Inútil, Os Golpes darão o seu primeiro concerto depois de atingida a sua maturidade enquanto banda e Tiago Guillul - o Midas português, que em tudo o que toca transforma em Pop - surgirá enquanto o justo mentor.
Se o Zé Pedro quisesse realmente defender a música popular portuguesa, promovia-a, em vez de defender os traidores da nação.
É mais português isto que X-Wife. Muito mais. Incrivelmente mais.
Então lá vem o tempo de antena do senhor Zé Pedro, o famoso guitarrista solo e ex-heroinómano dos Xutos & Pontapés, isto é, o Keith Richards português. Na edição de hoje do seu programa Zé Pedro Rock & Roll fez um bonito discurso. Defendeu as bandas portuguesas de música popular rock. Disse como era importante prestarmos atenção à nossa música, como ela era importante e tinha um lugar precioso a nossa cultura, como não devíamos sempre compará-la com a estrangeira mas julgá-la pelo que vale. E depois, apresentou a sua proposta do dia, em defesa da música portuguesa, como ele bem a defende. Apresentou uns tais que dão pelo nome de X-Wife.
Em primeiro lugar, já ouvi X-Wife no programa do Zé Pedro praí umas quinze vezes. Em segundo, os X-Wife não fazem música portuguesa. Os X-Wife são portugueses. Mas a música que fazem é anglo-saxónica. Promover os X-Wife não é promover a música portuguesa, é promover que os portugueses não façam música portuguesa e façam ainda mais música anglo-saxónica. Promover os X-Wife é promover a destruição da música portuguesa.
Como é que se pode dizer que é portuguesa uma música da qual eu, como português, não consigo perceber uma só palavra da letra porque, além de ser em inglês e o sotaque dele ser impossível, ele cantar de forma a eu não perceber nada?
Os X-Wife são uma boa banda. Só cometem um gravíssimo erro artístico. Cantam fora da cultura. Ao cantarem em inglês, os X-Wife colocaram-se por vontade própria fora da cultura lusófona. Mas enganam-se aqueles que pensam que eles se integraram na cultura anglo-saxónica. Porque eles queriam isso, mas não conseguem. Para um falante nativo de inglês, os X-Wife não são mais que uns nativos de um povo autóctone, que ainda não aprendeu bem a língua do império. São assim uma espécie de povo exótico, que os fará rir dado o esforço que faz por se fazer compreender.
Ser poliglota é bom. É ótimo. É excelente. Mas abdicar da própria cultura é um erro. Porque empobrece quem o faz. Porque quem o faz, ou o faz inconscientemente, porque já vive noutra cultura, porque a sua cultura de origem já não lhe diz nada, ou se o faz por moda, é apenas um pobre de espírito. Pobre de espírito no sentido mais literal que esta expressão pode ter, na medida em que a nossa cultura faz parte do nosso Ser.
Por muito que gostassem de ter nascido na inglaterra, os X-Wife não são ingleses. Ao terem nascido em Portugal, serão para sempre portugueses. Ao rejeitarem sê-lo, só ficam a perder.
O Zé Pedro admira-se como é que os X-Wife ainda não se afirmaram mais em Portugal. A resposta parece-me óbvia. Não se afirmaram aqui porque eles não gostam da sua cultura. Se não gostam da sua cultura, os portugueses também não gostam deles. Podem ser muito populares por entre a malta do bairro alto. Mas nunca serão na lusofonia. Será popular na sua cultura quem a souber abraçar e re-inventar, sempre dentro da tradição. Não há cultura sem tradição.
Se o Zé Pedro quer falar de cultura portuguesa, devia falar antes do concerto que vai haver este Sábado à noite - hoje - no MusicBox (que só nessa noite passará a chamar-se CaixaDeMúsica), em Lisboa, no Cais do Sodré, onde tocarão Os Golpes, Tiago Guillul e Os Pontos Negros, numa noite que passará a fazer parte da história da música popular portuguesa. Os Pontos Negros apresentarão o seu primeiro álbum de originais Magnífico Material Inútil, Os Golpes darão o seu primeiro concerto depois de atingida a sua maturidade enquanto banda e Tiago Guillul - o Midas português, que em tudo o que toca transforma em Pop - surgirá enquanto o justo mentor.
Se o Zé Pedro quisesse realmente defender a música popular portuguesa, promovia-a, em vez de defender os traidores da nação.
É mais português isto que X-Wife. Muito mais. Incrivelmente mais.
Vem aí a Crise IV
Se me perguntassem qual a solução para esta crise (ninguém me pergunta) a minha resposta seria:
A instauração de uma ditadura ecologista internacional.
A esquerda já teve as suas ditaduras. Fracassaram.
A direita também. Fracassaram.
É tempo de dar a oportunidade... aos verdes.
Sob o jugo da Internacional Ecologista, vai ser ver as grandes pradarias com milhões de pessoas a plantar árvores à lei do chicote. Rusgas para prender quem desperdiçasse energia. Nacionalização das empresas poluentes. Investimento de todos os meios económicos na construção de fontes de energia renováveis. Regulação da economia de forma a tornar cada país auto-suficiente em termos de produção.
Com isto no lugar das suásticas, das foices e dos martelos, parece que já oiço da minha janela as multidões na rua a gritar Viva a ditadura ecologista, viva o partido global ecologista, viva a nova ordem mundial.
Viva.
A instauração de uma ditadura ecologista internacional.
A esquerda já teve as suas ditaduras. Fracassaram.
A direita também. Fracassaram.
É tempo de dar a oportunidade... aos verdes.
Sob o jugo da Internacional Ecologista, vai ser ver as grandes pradarias com milhões de pessoas a plantar árvores à lei do chicote. Rusgas para prender quem desperdiçasse energia. Nacionalização das empresas poluentes. Investimento de todos os meios económicos na construção de fontes de energia renováveis. Regulação da economia de forma a tornar cada país auto-suficiente em termos de produção.
Com isto no lugar das suásticas, das foices e dos martelos, parece que já oiço da minha janela as multidões na rua a gritar Viva a ditadura ecologista, viva o partido global ecologista, viva a nova ordem mundial.
Viva.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Vem aí a crise III
O maior de todos os sintomas de que a crise chegou é alguém achar que isto merece passar na televisão. Um efeito do photoshop, um mentecapto a abanar-se durante quatro minutos sem parar, uma voz alucinada. É o conceito de arte popular de hoje.
E pensar que arte popular já foi assim (e assim) e nos conseguia abanar sem se abanar.
Felizmente a crise vai por tudo no lugar.
Este post é dedicado a uma pessoa especial que vai saber quem é.
E pensar que arte popular já foi assim (e assim) e nos conseguia abanar sem se abanar.
Felizmente a crise vai por tudo no lugar.
Este post é dedicado a uma pessoa especial que vai saber quem é.
Viver para sempre (no presente)
Não sei. Talvez seja de mim. Talvez seja dos outros.
Sei que falo com as pessoas, conto-lhes coisas - e não estou a falar assim de coisas com muitos detalhes, ou de coisas em que as pessoas não estavam interessadas - estou a falar de conversas inteiras sobre um assunto.
Sei que, passados um mês, seis meses, uma semana - depende da pessoa - há pessoas com quem conversei que não se lembram de termos sequer falado de este ou aquele assunto! Pessoas que me deram a conhecer um livro ou um filme... e não se lembram disso. Pessoas a quem contei isto ou aquilo que era muito grave. Não se lembram... E não estou a falar de pessoas que, passado um pouco dizem eh, não me lembrava, tens razão. Não. Estou a falar de pessoas que não se conseguem lembrar.
É habitual esquecer-me se já contei tal coisa a tal pessoa. Mas a diferença é que, se me lembrarem, lembro-me!
Mas há pessoas que não.
Não tenho explicação para isto. Talvez as drogas. Mas nem todas as pessoas em quem estou a pensar tomam drogas. Talvez o mundo moderno, em que a quantidade de informação que passa por nós é imensa, não lhes permita armazenar tudo. Não sei.
O que sei é que isto traz grandes vantagens no campo da paixão. O maior inimigo da paixão era a habituação. Mas agora, com a nova e moderníssima amnésia, ninguém se lembra de nada, a habituação acabou! Estas pessoas nunca se fartarão das suas paixões. Isso fa-las-há eternas! Só acabarão quando a própria amnésia os fizer esquecer as próprias paixões. Mas até lá, estas pessoas ouvirão repetidamente as mesmas histórias uns dos outros, farão os mesmos passeios românticos repetidas vezes dizendo sempre as mesmas coisas, oferecendo sempre flores iguais e, com sorte, cada noite passada juntos será como a primeira! Com sorte, a estas pessoas, aquela curiosidade miudinha, aquela vergonha que nos revela quando pensamos que nos protege, nunca passará, impedindo para sempre que a relação amadureça!
E ainda dizem que as drogas não são boas para a sociedade.
Um - Acalmam as pessoas e impedem a luta de classes
Dois - Tornam as pessoas mais simples
Três - Não deixam que ninguém se torne demasiado esperto (quem não odeia intelectuais?)
Quatro - Permite diversão mesmo quando as vidas são infelizes
Cinco - Fazem com que a paixão não acabe...
... etc, etc.
O mundo moderno é maravilhoso. Se tivermos sorte, muita sorte, talvez esta falta de memória das experiências vividas alastre a todas as pessoas e chegue mesmo a deixar de existir o tempo. As pessoas não se lembrarão da infância ou do passado e será como se vivêssemos para sempre, e no presente. Como os animaizinhos! São tão queridos os animaizinhos!
Se tivermos muita muita sorte, talvez até a paixão dure para sempre e o amor acabe! Talvez nunca mais tenhamos de sofrer por amor!
Sei que falo com as pessoas, conto-lhes coisas - e não estou a falar assim de coisas com muitos detalhes, ou de coisas em que as pessoas não estavam interessadas - estou a falar de conversas inteiras sobre um assunto.
Sei que, passados um mês, seis meses, uma semana - depende da pessoa - há pessoas com quem conversei que não se lembram de termos sequer falado de este ou aquele assunto! Pessoas que me deram a conhecer um livro ou um filme... e não se lembram disso. Pessoas a quem contei isto ou aquilo que era muito grave. Não se lembram... E não estou a falar de pessoas que, passado um pouco dizem eh, não me lembrava, tens razão. Não. Estou a falar de pessoas que não se conseguem lembrar.
É habitual esquecer-me se já contei tal coisa a tal pessoa. Mas a diferença é que, se me lembrarem, lembro-me!
Mas há pessoas que não.
Não tenho explicação para isto. Talvez as drogas. Mas nem todas as pessoas em quem estou a pensar tomam drogas. Talvez o mundo moderno, em que a quantidade de informação que passa por nós é imensa, não lhes permita armazenar tudo. Não sei.
O que sei é que isto traz grandes vantagens no campo da paixão. O maior inimigo da paixão era a habituação. Mas agora, com a nova e moderníssima amnésia, ninguém se lembra de nada, a habituação acabou! Estas pessoas nunca se fartarão das suas paixões. Isso fa-las-há eternas! Só acabarão quando a própria amnésia os fizer esquecer as próprias paixões. Mas até lá, estas pessoas ouvirão repetidamente as mesmas histórias uns dos outros, farão os mesmos passeios românticos repetidas vezes dizendo sempre as mesmas coisas, oferecendo sempre flores iguais e, com sorte, cada noite passada juntos será como a primeira! Com sorte, a estas pessoas, aquela curiosidade miudinha, aquela vergonha que nos revela quando pensamos que nos protege, nunca passará, impedindo para sempre que a relação amadureça!
E ainda dizem que as drogas não são boas para a sociedade.
Um - Acalmam as pessoas e impedem a luta de classes
Dois - Tornam as pessoas mais simples
Três - Não deixam que ninguém se torne demasiado esperto (quem não odeia intelectuais?)
Quatro - Permite diversão mesmo quando as vidas são infelizes
Cinco - Fazem com que a paixão não acabe...
... etc, etc.
O mundo moderno é maravilhoso. Se tivermos sorte, muita sorte, talvez esta falta de memória das experiências vividas alastre a todas as pessoas e chegue mesmo a deixar de existir o tempo. As pessoas não se lembrarão da infância ou do passado e será como se vivêssemos para sempre, e no presente. Como os animaizinhos! São tão queridos os animaizinhos!
Se tivermos muita muita sorte, talvez até a paixão dure para sempre e o amor acabe! Talvez nunca mais tenhamos de sofrer por amor!
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Vem aí a crise II
Ontem, no dia em que a bolsa de São Paulo caiu 15%, pesquisei no Google "blosa de São Paulo cai". Por lapso (ou talvez não e o Freud tenha uma explicação para isto), escrevi blosa e não bolsa. Logo o Google me perguntou se eu não procurava antes Blusa de São Paulo Cai.
Temos inevitavelmente de ler nisto um sinal dos tempos. As pessoas andam à procura de blusas, quais bolsas? O mundo está é com falta de amor, não de bolsas. Façam cair as bolsas e as blusas! O povo quer amar-se.
Temos inevitavelmente de ler nisto um sinal dos tempos. As pessoas andam à procura de blusas, quais bolsas? O mundo está é com falta de amor, não de bolsas. Façam cair as bolsas e as blusas! O povo quer amar-se.
Mas os portugueses estão bem preparados para a crise. Estão sim senhor. Ontem, o Ministro das Finanças de Portugal - Teixeira dos Santos - disse que os portugueses podem estar descansados porque caso haja uma recessão económica, as suas poupanças no banco não serão nunca ameaçadas.
Todos sabemos que, nos países realmente capitalistas, se houver recessão, nenhum governo tem dinheiro para restituir a todos os seus cidadãos as poupanças que tinham no banco. Excepto em Portugal. E porquê?
Porque nenhum português tem poupanças. Que poupanças? Onde é que no mundo inteiro há um português com poupanças? Os portugueses são um povo sério, um povo que faz mover a economia, um povo que consome. Poupar para quê? Aliás, poupar o quê? O dinheiro que não temos? Os portugueses consumiram e gastaram o dinheiro que não existia, mas o banco disse-nos que não havia problema. E assim sendo, está tudo bem.
Os portugueses estão bem preparados para a crise. Até porque nunca viveram de outra maneira. Crise? Que crise? Para os portugueses esta crise vai ser como ginjas. Crise... Só se formos todos viver para refugios nucleares subterrâneos é que passa a ser mais crise que agora. E só porque deixamos de poder ver o mar enquanto pensamos na vida, senão nem assim era crise. Há o Canal Benfica no refúgio?
É por isso que acho que os portugueses deviam ser destacados e enviados para todo o Mundo. Em pequenos grupos, de talvez cinco portugueses para cada aldeia do mundo, iríamos dar formação e aulas de como viver na crise. Todos os grupos seriam acompanhados de alguns assistentes brasileiros, talvez vinte, que, já bastante treinados por nós ao longo de uns séculos, ensinariam as pessoas do mundo inteiro os prazeres da vida - a cantar, a dançar, a cozinhar, a fazer amor - e por alguns angolanos e moçambicanos, talvez dez, que iriam ensinar aos povos do mundo o que é realmente divertir-se com poucos meios e até não poder mais e a como ter estilo com roupa barata.
E assim a lusofonia encontraria uma vez mais a sua função ancestral na caminhada cósmica e milenar da raça humana.
Já repararam como na nossa língua amar é quase igual a a mar? Como se significasse fazer-se ao mar? Melhor, como se significasse fazer-se mar? Fazer-se de novo em mar, de onde todos nascemos? Devolver-se ao mar, ao caos, no amor? Todos nascemos do mar e do amar dos nossos pais. Isto não é um acaso.
O que vais fazer agora? Vou a mar.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Vem aí a crise I
Mas porquê? Porque vem aí a crise logo agora que eu tinha comprado umas calças de ganga novas e justinhas para exibir no Bairro Alto? Bolas pá...
Parece-me que a crise só acontece porque há falta de Amor no mundo. Ninguém deixava que a crise acontecesse se tivesse alguma coisa valiosa o suficiente porque lutar. E para proteger. Uma moça linda com olhos de índia para amar. É por isso que o sistema activa esta espécie de instinto suicida e se auto-destrói. Quando percebe que não se consegue sustentar emocionalmente. Dizem que os mercados não se estão a auto-regular. Eu não vejo melhor exemplo de auto-regulação que um sistema que percebe que não vale a pena tanto trabalho se não há ninguém em casa para nos afetar com os seus doces afetos.
Este sistema foi afetado por isso. É um pena. Eu gostava dele. O capitalismo tinha coisas incríveis. Vai ser incrível poder contar aos meus netos que vivi no tempo do capitalismo - como a minha mãe conta que viveu na Alemanha Comunista - e que, ao contrário do Comunismo, o Capitalismo tinha muitas coisas boas. Mas pronto, não se pode ter só uma parte. Uma forma traz sempre o seu conteúdo.
Talvez agora, obrigados a lutar para viver, os homens da minha geração se tornem mesmo homens e as mulheres mesmo mulheres, e se amem todos uns aos outros, quando só isso tivermos para nos fazer felizes. Não mais sofás aveludados, não mais o fetiche das roupas caras, não mais os carros velozes. Não mais o algodão doce. É uma pena, já disse. Mas talvez assim voltemos a amar. Talvez assim um abraço volte a valer um abraço. Talvez as pessoas voltem a dar beijos por gosto.
Ao contrário do que os analistas prevêem, acho que a natalidade vai subir com a crise. Pelo menos se depender de mim vai.
Parece-me que a crise só acontece porque há falta de Amor no mundo. Ninguém deixava que a crise acontecesse se tivesse alguma coisa valiosa o suficiente porque lutar. E para proteger. Uma moça linda com olhos de índia para amar. É por isso que o sistema activa esta espécie de instinto suicida e se auto-destrói. Quando percebe que não se consegue sustentar emocionalmente. Dizem que os mercados não se estão a auto-regular. Eu não vejo melhor exemplo de auto-regulação que um sistema que percebe que não vale a pena tanto trabalho se não há ninguém em casa para nos afetar com os seus doces afetos.
Este sistema foi afetado por isso. É um pena. Eu gostava dele. O capitalismo tinha coisas incríveis. Vai ser incrível poder contar aos meus netos que vivi no tempo do capitalismo - como a minha mãe conta que viveu na Alemanha Comunista - e que, ao contrário do Comunismo, o Capitalismo tinha muitas coisas boas. Mas pronto, não se pode ter só uma parte. Uma forma traz sempre o seu conteúdo.
Talvez agora, obrigados a lutar para viver, os homens da minha geração se tornem mesmo homens e as mulheres mesmo mulheres, e se amem todos uns aos outros, quando só isso tivermos para nos fazer felizes. Não mais sofás aveludados, não mais o fetiche das roupas caras, não mais os carros velozes. Não mais o algodão doce. É uma pena, já disse. Mas talvez assim voltemos a amar. Talvez assim um abraço volte a valer um abraço. Talvez as pessoas voltem a dar beijos por gosto.
Ao contrário do que os analistas prevêem, acho que a natalidade vai subir com a crise. Pelo menos se depender de mim vai.
Sobre uma geração em festa
(ver posts anteriores)
Os trajes académicos até que são bonitos. Juro que os chego a achar bonitos. O mau não são os trajes, são mesmo as pessoas que lá vão dentro. Mais perigoso que um corpo mal intencionado, é que esteja numa farda bonita. Porque é que os regimes mais terríveis tinham sempre as melhores fardas? Porquê tanto esforço e preocupação? Talvez fosse preciso esconder as intenções.
Dão-me raiva as pessoas que criticam a tradição académica por acharem que os trajes são feios. Os trajes são a única coisa boa. Tudo o resto é que é assustador.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Sobre a alma e o amor
(ver posts anteriores)
Se o Amor nos leva a, através daqueles que amamos, nos encontrarmos a nós próprios, então sentir Amor leva-nos a sentir a Alma.
Se o Amor nos leva a, através daqueles que amamos, nos encontrarmos a nós próprios, então sentir Amor leva-nos a sentir a Alma.
O que é a alma
Durante toda a minha vida não soube o que era a Alma. Achem-me ignorante os que souberem, porque eu era. Pensava A Alma não existe, a alma é uma coisa inventada pela igreja, só existe o corpo.
Pobre ignorância. Ontem li na parede da casa de uma pessoa, uma coisa que me fez perceber que esta não era a maneira certa de por a questão. Não se trata de se existe ou não. Sim, uma pessoa é o seu corpo. Mas a Alma é uma palavra e tem um significado que se refere a uma coisa.
Alma significa Sentimento de Nós Próprios.
Muitos podem discordar, argumentar, conversar ou esclarecer-me sobre isto. Mas em vinte e dois anos nunca tinha encontrado definição que me parecesse mais verdadeira.
A Alma sente-se. Como o Amor.
Pobre ignorância. Ontem li na parede da casa de uma pessoa, uma coisa que me fez perceber que esta não era a maneira certa de por a questão. Não se trata de se existe ou não. Sim, uma pessoa é o seu corpo. Mas a Alma é uma palavra e tem um significado que se refere a uma coisa.
Alma significa Sentimento de Nós Próprios.
Muitos podem discordar, argumentar, conversar ou esclarecer-me sobre isto. Mas em vinte e dois anos nunca tinha encontrado definição que me parecesse mais verdadeira.
A Alma sente-se. Como o Amor.
Amorosamente imaturos
Oiço dizer que Os rapazes bons já têm todos namorada. Que Não há raparigas fixes. Que ninguém Conhece ninguém de jeito. E é assim que vemos o Amor hoje.
Todos queremos amar. Mesmo quem não acredita no Amor, gostava de acreditar. Ninguém sabe explicar o que é o Amor, mas todos sabem quando o sentem. Ahh, então é isto o amor sentimos. Eu também não sei explicar o que é o Amor. Só há uma coisa, pequena, que descobri. O Amor não se encontra. Não basta procurar. O Amor acontece, mas acontece porque nós fazemos com que aconteça. Procurar tem de ser agir. Procurar ter de ser construir. Procura-construção.
A procura-construção dá trabalho e leva tempo. Mas esta forma de pensar é completamente alienigena à minha geração. Graças ao capitalismo, habituamo-nos a pensar e a viver fora do tempo. Viver fora do tempo é, por exemplo, não termos mais consciência que, para comer um bife, é preciso esperar o tempo que a vaca ou o porco levam a crescer, o tempo que levam a ser alimentados, para que finalmente os possamos comer. O mesmo é verdade para uma alface, ou para uma maçã. É verdade para tudo. Antigamente, quando éramos nós que produzíamos a nossa comida - nós ou o nosso vizinho com quem trocávamos galinhas por batatas - víamos as coisas crescer e sabíamos que tínhamos de investir na coisa para ela ser grande, boa e gostosa. Da mesma forma, tínhamos de ser nós a construir a nossa casa. Não bastava comprá-la. O mesmo para as famílias. Tinham de ser as pessoas a construí-las.
No capitalismo tudo é comprado. Temos de trabalhar, é certo, mas tudo pode ser comprado no momento. Ninguém pensa que está, neste instante, nalgum campo no Alentejo, a crescer a alface que vamos comer daqui a uns meses. Mas está. Perceber o tempo já é um grande passo.
Mas a minha geração tem outra deficiência. Além de não compreender o tempo, é ainda mais difícil para nós conseguir imaginar o esforço e o tempo e a dedicação necessárias para que as alfaces fiquem boas. Hoje as coisas só passam a existir já prontas. A vida é um super-mercado. Compramos a nossa roupa, a nossa personalidade, os nossos gostos. Consumimos. Queremos, e temos, tudo na hora. Sem esforço.
Mas as pessoas trabalham! dir-se-á. A minha geração não. Não gostamos. Não é bem o nosso tipo de coisa. Ou talvez não tenhamos jeito. A minha geração prefere depender dos pais. Isso sim, é bom. E é por isso que a minha geração não aprendeu a tirar prazer do trabalho. Só nos dá prazer o que implicar estar parado, descansado, relaxado. É um estilo de vida. Quando se passa o dia-a-dia da vida parado, o único divertimento acima desse é estar mais-que-parado. Já não basta estar fisicamente estático, é preciso estar intelectualmente estático. É preciso fumar charros ou ficar entupido de cerveja, para chegar aos níveis sub-zero do relaxamento. O -1, o -2, o -3, como os andares de garagem do meu prédio. Quando já não é humanamente possível ser mais inútil, fuma-se um pouco e passa-se a conseguir.
Uns quantos de nós, mais esforçados, ainda se dão ao trabalho (imagine-se, ao trabalho) de se auto-consrtuirem e melhorarem, independentes (uns mais, outros menos) daquilo que a sociedade de consumo diz que eles devem ser. Lêem livros que não são os que a Escola, ou a Sociedade, diz que eles devem ler. Vêm filmes que não são publicitados como os outros, vestem umas roupas que gostam e não as que todos usam. Têm trabalho a auto-construir-se e isso é admirável.
Mas quase ninguém tem trabalho em alguma coisa que não seja o EU. É por isso que ninguém sabe amar. Porque amar é uma construção. Porque amar dá trabalho e leva tempo. Porque amar é acreditar em algo que não existe e torná-lo possível.
Uma vez um amigo meu disse a outro amigo meu uma frase de que nunca me esqueci: Precisas de uma mulher que faça de ti um homem. Amar o outro é fazer dele ou dela um homem ou uma mulher. É por isso que todos os rapazes de jeito já têm namorda, assim como todas as grandes mulheres já estão casadas. Porque encontraram alguém que fez deles grandes.
Por isso não se encontra o amor. As pessoas falam de encontrar o amor como se vivessem num super-mercado gigante e estivessem a dizer que não encontram a secção do amor. Ai, não encontro o Amor em lado nenhum... Desculpe, o Amor está em que prateleira?
O Amor faz-se.
Amar alguém é encontrarmos a pessoa que nos permite sermos nós. Na era do individualismo capitalista, as pessoas só se sabem fazer sozinhas. Ninguém se faz sozinho tão bem como se poderia fazer acompanhado pelo Amor. São as pessoas que nos amam e que amamos que nos fazem.
Quando conhecemos alguém novo, essa pessoa nunca é a pessoa que sonhámos amar. Ninguém é. Mas o Amor é uma espécie de radar que vê para além do tempo e nos permite ver tudo o que aquela pessoa poderia ser conosco. Um lado dessa pessoa que pode nunca se ter revelado à própria pessoa, mas que se ela se entregar à outra pode vir a transformar-se e a ter algo que já era seu mas que o próprio não sabia que tinha ou podia ter. O Amor é criador. Desperta coisas que o próprio nunca despertou porque nunca se interessou por elas e nem sabia que as tinha. É aquilo que vivemos juntos, a história partilhada vivida em conjunto que nos permite sermos. É um investimento. Não se trata de fazer da pessoa o que gostamos contra a vontade dela, ou de mudá-la. Isso é o que de mais horrível se pode tentar fazer, é o oposto do Amor. Amor é ajudar a pessoa a ser mais ela própria. A ser-se em toda a sua glória.
Não deixa de ser muito curioso que na minha geração os namoros sejam contratos, quase como casamentos, mas sem aquilo que mais assusta a minha geração. A ideia de para sempre. Ou seja, o tempo. Os namoros são para sempre até deixarem de ser. São exatamente um casamento, já que a maioria não dura até ao fim. O ser humano sempre encontrará formas rebuscadas de contornar os seus problemas. O que nunca irá acontecer é as pessoas ficarem sozinhas. Um dia, vai haver um grande despertar.
Todos queremos amar. Mesmo quem não acredita no Amor, gostava de acreditar. Ninguém sabe explicar o que é o Amor, mas todos sabem quando o sentem. Ahh, então é isto o amor sentimos. Eu também não sei explicar o que é o Amor. Só há uma coisa, pequena, que descobri. O Amor não se encontra. Não basta procurar. O Amor acontece, mas acontece porque nós fazemos com que aconteça. Procurar tem de ser agir. Procurar ter de ser construir. Procura-construção.
A procura-construção dá trabalho e leva tempo. Mas esta forma de pensar é completamente alienigena à minha geração. Graças ao capitalismo, habituamo-nos a pensar e a viver fora do tempo. Viver fora do tempo é, por exemplo, não termos mais consciência que, para comer um bife, é preciso esperar o tempo que a vaca ou o porco levam a crescer, o tempo que levam a ser alimentados, para que finalmente os possamos comer. O mesmo é verdade para uma alface, ou para uma maçã. É verdade para tudo. Antigamente, quando éramos nós que produzíamos a nossa comida - nós ou o nosso vizinho com quem trocávamos galinhas por batatas - víamos as coisas crescer e sabíamos que tínhamos de investir na coisa para ela ser grande, boa e gostosa. Da mesma forma, tínhamos de ser nós a construir a nossa casa. Não bastava comprá-la. O mesmo para as famílias. Tinham de ser as pessoas a construí-las.
No capitalismo tudo é comprado. Temos de trabalhar, é certo, mas tudo pode ser comprado no momento. Ninguém pensa que está, neste instante, nalgum campo no Alentejo, a crescer a alface que vamos comer daqui a uns meses. Mas está. Perceber o tempo já é um grande passo.
Mas a minha geração tem outra deficiência. Além de não compreender o tempo, é ainda mais difícil para nós conseguir imaginar o esforço e o tempo e a dedicação necessárias para que as alfaces fiquem boas. Hoje as coisas só passam a existir já prontas. A vida é um super-mercado. Compramos a nossa roupa, a nossa personalidade, os nossos gostos. Consumimos. Queremos, e temos, tudo na hora. Sem esforço.
Mas as pessoas trabalham! dir-se-á. A minha geração não. Não gostamos. Não é bem o nosso tipo de coisa. Ou talvez não tenhamos jeito. A minha geração prefere depender dos pais. Isso sim, é bom. E é por isso que a minha geração não aprendeu a tirar prazer do trabalho. Só nos dá prazer o que implicar estar parado, descansado, relaxado. É um estilo de vida. Quando se passa o dia-a-dia da vida parado, o único divertimento acima desse é estar mais-que-parado. Já não basta estar fisicamente estático, é preciso estar intelectualmente estático. É preciso fumar charros ou ficar entupido de cerveja, para chegar aos níveis sub-zero do relaxamento. O -1, o -2, o -3, como os andares de garagem do meu prédio. Quando já não é humanamente possível ser mais inútil, fuma-se um pouco e passa-se a conseguir.
Uns quantos de nós, mais esforçados, ainda se dão ao trabalho (imagine-se, ao trabalho) de se auto-consrtuirem e melhorarem, independentes (uns mais, outros menos) daquilo que a sociedade de consumo diz que eles devem ser. Lêem livros que não são os que a Escola, ou a Sociedade, diz que eles devem ler. Vêm filmes que não são publicitados como os outros, vestem umas roupas que gostam e não as que todos usam. Têm trabalho a auto-construir-se e isso é admirável.
Mas quase ninguém tem trabalho em alguma coisa que não seja o EU. É por isso que ninguém sabe amar. Porque amar é uma construção. Porque amar dá trabalho e leva tempo. Porque amar é acreditar em algo que não existe e torná-lo possível.
Uma vez um amigo meu disse a outro amigo meu uma frase de que nunca me esqueci: Precisas de uma mulher que faça de ti um homem. Amar o outro é fazer dele ou dela um homem ou uma mulher. É por isso que todos os rapazes de jeito já têm namorda, assim como todas as grandes mulheres já estão casadas. Porque encontraram alguém que fez deles grandes.
Por isso não se encontra o amor. As pessoas falam de encontrar o amor como se vivessem num super-mercado gigante e estivessem a dizer que não encontram a secção do amor. Ai, não encontro o Amor em lado nenhum... Desculpe, o Amor está em que prateleira?
O Amor faz-se.
Amar alguém é encontrarmos a pessoa que nos permite sermos nós. Na era do individualismo capitalista, as pessoas só se sabem fazer sozinhas. Ninguém se faz sozinho tão bem como se poderia fazer acompanhado pelo Amor. São as pessoas que nos amam e que amamos que nos fazem.
Quando conhecemos alguém novo, essa pessoa nunca é a pessoa que sonhámos amar. Ninguém é. Mas o Amor é uma espécie de radar que vê para além do tempo e nos permite ver tudo o que aquela pessoa poderia ser conosco. Um lado dessa pessoa que pode nunca se ter revelado à própria pessoa, mas que se ela se entregar à outra pode vir a transformar-se e a ter algo que já era seu mas que o próprio não sabia que tinha ou podia ter. O Amor é criador. Desperta coisas que o próprio nunca despertou porque nunca se interessou por elas e nem sabia que as tinha. É aquilo que vivemos juntos, a história partilhada vivida em conjunto que nos permite sermos. É um investimento. Não se trata de fazer da pessoa o que gostamos contra a vontade dela, ou de mudá-la. Isso é o que de mais horrível se pode tentar fazer, é o oposto do Amor. Amor é ajudar a pessoa a ser mais ela própria. A ser-se em toda a sua glória.
Não deixa de ser muito curioso que na minha geração os namoros sejam contratos, quase como casamentos, mas sem aquilo que mais assusta a minha geração. A ideia de para sempre. Ou seja, o tempo. Os namoros são para sempre até deixarem de ser. São exatamente um casamento, já que a maioria não dura até ao fim. O ser humano sempre encontrará formas rebuscadas de contornar os seus problemas. O que nunca irá acontecer é as pessoas ficarem sozinhas. Um dia, vai haver um grande despertar.
domingo, 5 de outubro de 2008
Prato na mesa (é só comer)
Uma amiga disse-me que eu parecia estar contente. E é verdade, ela tem razão.
Desde há uns dias atrás sinto-me inteiro. Sinto-me completo. Acabado de fazer como um bolo. Como se a construção do EU adulto tivesse, sem aviso, terminado, e tivesse tocado um TRRIMMM mudo do micro-ondas da vida e eu estivesse a fumegar como um prato acabado de cozinhar. De um dia para o outro. Daqui para a frente vai ser só viver.
Desde há uns dias atrás sinto-me inteiro. Sinto-me completo. Acabado de fazer como um bolo. Como se a construção do EU adulto tivesse, sem aviso, terminado, e tivesse tocado um TRRIMMM mudo do micro-ondas da vida e eu estivesse a fumegar como um prato acabado de cozinhar. De um dia para o outro. Daqui para a frente vai ser só viver.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Cultura da solidão
Porque é que toda a gente em Lisboa em 2008 quer ser independente e livre, se todos se sentem sozinhos?
Já ninguém está disposto a sacrificar-se por ninguém. Mesmo que alguém esteja disposto a isso, não encontra ninguém que esteja também, então não se pode entregar.
Estamos uns verdadeiros animais. E ainda nos julgamos uma malta muito cosmopolita aqui na capital. Porque deixámos de nos conseguir sacrificar?
Já ninguém está disposto a sacrificar-se por ninguém. Mesmo que alguém esteja disposto a isso, não encontra ninguém que esteja também, então não se pode entregar.
Estamos uns verdadeiros animais. E ainda nos julgamos uma malta muito cosmopolita aqui na capital. Porque deixámos de nos conseguir sacrificar?
Por não nos terem ensinado? Por já nos sacrificamos suficiente noutras coisas? Por podemos dar-nos ao luxo de não nos sacrificarmos?
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Histórias do Verão III
Este Verão fui pela primeira vez ao Andanças. Fui só no último fim-de-semana - nada de abusos ou doses profissionais não fosse o meu metabolismo não aguentar - porque nisto dos festivais começava a perecer-me que estava a entrar numa espécie de pré-reforma.
O meu amor por dançar já vem de muito longe. Mesmo assim, só este ano venci o preconceito de ir a São Pedro do Sul. Desiludido com o Sudoeste massificado, com um Paredes de Coura desinspirado, com o Vilar de Mouros já morto (imagino que ter deixado de haver festival não impede os festivaleiros da velha guarda de continuaram a ir - acampam e montam um rádio com leitor de Mp3 e tá feito o festival, que vive é das pessoas - era o que eu faria, mas eu não sou da velha guarda - não me sinto velho nem tenho nada para guardar), com um Super Bock Super Rock que é um evento de propaganda (acho que para o ano se vai chamar só Super-Bock-Feira-da-Cerveja para realçar o que interessa) e porque o Oeiras Alive! é em Lisboa e a graça do Verão é acampar, lá fui eu com o Bruno para o Andanças. Os dois pela primeira vez.
Admito que a verdade é que nunca lá tinha ido - entre outras razões - por medo dessas criaturas perigosas: os friques. Tinha medo que me obrigassem a usar túnicas, ou que fosse preciso ter rastas para poder entrar. Ou que não houvessem casas de banho, ou até que à entrada fizessem algum tipo de teste ou charada para tirar a limpo se eu era frique ou estava disfarçado - um teste tipo obrigarem-me a fazer um ritmo no djembé com os pés - e que eu não fosse capaz e tivesse de voltar para Lisboa.
Não só vim a descobrir que não fazem nenhuma destas coisas, como que, de todos os festivais de Verão a que já fui no nosso Portugal, este é o melhor. Isso mesmo, o melhor. O que tem menos friques, o mais repousante, aquele em que vi menos drogas, o mais higiénico e aquele em em que vi mais pessoas bonitas e aquele em que me diverti mais. Incrível não é? Todos estes anos enganado.
Estávamos lá há um dia e, na manhã de Sábado, porque ainda era muito cedo para dançar, eu, o Bruno e duas amigas nossas (uma delas completamente nova, outra um feliz reencontro daqueles que me faz amar portugal - uma colega minha da escola primária, dois anos mais nova que eu e que nestes praí catorze anos que estive sem a ver se tornou numa bela e adorável pessoa) fomos andar. Queríamos descobrir as famosas cachoeiras de São Pedro do Sul.
Atravessámos uma pequena e linda floresta e chegámos. O silêncio da Natureza. O repouso da água a escorrer, em misteriosas correntezas que se perdiam entre as pedras e árvores e outras plantas. A cachoeirinha estava vazia àquela hora, com uma exceção. Uma elegante moça, de pele morena, de bikini, completamente nua da cintura para cima que, estendida numa toalha numa rocha no alto da cachoeira, nos olhava como uma deusa marinha. Como pareceu tolerar a nossa presença, mergulhámos. Subimos as rochas. Vimos borboletas e pequenos insetos voadores, alguns azuis, outros vermelhos, nunca antes vistos. Molhádos de água doce vimos cabras a pastar à nossa volta. O cheio fantástico da erva e dos bosques. O quente do Sol no corpo. Inspirámos fundo o oxigénio em bruto que brota da terra. Ficámos felizes. Não há nada como a Natureza. E a moça sempre ali, a olhar para nós a fingir que não olhava e nós para ela.
Desejámos a Natureza e o nosso desejo foi concedido. Como se tivéssemos atravessado uma fronteira de um bosque encantado, a dado momento, começaram a chegar pessoas. Chegou um rapaz. Chegou uma rapariga. Tudo bem. A certa altura chegou um rapaz, magro e de cabelo comprido igualzinho a este, e banhou-se exatamente assim como esse se banha na fotografia. E aí sim, a cachoeira desaguou realmente na Natureza dele e fez os nossos calções de praia parecerem umas coisas rídiculas e tão sem graça como se fôssemos uns turistas - que éramos - que tendo oportunidade de provar a excecionalidade da Naturza, preferimos provar uma espécie de versão higeanizada de plástico, um MacDonalds da vida campestre. Uma monstruosidade quase tão aberrante como fazer sexo com preservativo. E a menina de peitos desnudos sempre a olhar a cena toda, lá do alto da sua cachoeira.
O rapaz nu da nossa história, que era uma espécie de Jesus Cristo que gostava de ter sido o Mogli, escalou a rocha como quem a farejava e foi sentar-se ao lado da nossa rapariga semi-nua, que consentiu, sorrindo enigmáticamente (de notar que o rapaz não se sentou na rocha sem antes limpar o assento com um ramo cheio de folhinhas que arrancou de um arbusto). O Sol brilhava e as borboletas pousavam nos ombros deles e nos nossos e toda a gente era feliz.
Enquanto isto se passava, estava eu a fingir que a cena não era nada de especial e a mostar as cabrinhas tão giras a pastar à minha colega da escola primária - tentando por segundos desviar o olhar de Adão e Eva - quando vindo não sei de onde salta de trás de um arbusto - literalmente de trás de um arbusto - uma espanhola completamente nua a passear dois cães que corriam soltos à volta dela (os Espanhóis têm este jeito caraterístico de entrar em cena). Logo saltou de trás de outro arbusto o seu par, um rapaz também nuzinho como ela que gritava Javíííí, javíííí ou outra espanholada qualquer. Enquanto eu e a minha amiga continuávamos a figir que aquilo não era nada de mais, na outra ponta, onde estava o Bruno e a nossa outra amiga, surge outro grupo, de pessoas loiras e nuas, que o Bruno mais tarde me disse que tinham formas muito interessantes. Já era tarde e deu-nos imensa vontade de ir dançar.
Escusado será dizer que, desde a primeira moça de peito moreno à última loira, tive vontade de me despir e nadar nu pelo lago e pela cachoeira. Não o fiz mas está para breve a iniciação ao nudismo. Mas escrevi isto tudo até aqui nem foi por isso. Foi porque, há duas horas atrás, estava no comboio a caminho de casa e, à minha frente estava sentada a rapariga desnuda da cachoeira.
Muito mais feia. Nem uma gota do brilho e tensão sexual que inspirava no cimo daquela cascata. Só feiura, e ainda por cima uma feiura banal. Ali, vestida com umas roupinhas da feira, roxas e com uns folhos nas alças, uns óculos de Sol grandes de mais para a forma da cabeça dela que lhe ficavam péssimos e umas calças pretas muito cafonas, em condições normais nem teria reparado nela. Sentei-me ali a pensar Já te vi praticamente nua a tomar banho numa nascente. Penso que ela não me reconheceu (afinal, havia outras coisas a chamar mais a atenção naquela manhã de Agosto). Saiu na Amadora. Quando se levantou para sair, como eu já estava com a atenção predisposta, aí sim, vi-a de costas e, na justeza das calças, era mais que possível intuir aquele corpo fulgurante que eu já tinha visto.
Acho que se andássemos todos nus, passariam a ser completamente outras as pessoas do nosso dia a dia que consideramos atraentes, bonitas ou sexys. Certas raparigas que parecem mais gordas vestidas que despidas (basta ir à praia com elas para saber) passariam a ser mais apreciadas, assim como as que não sabem escolher roupa. Por outro lado, as meninas sem sal mas com bom gosto ficariam a perder. Quanto nos engana, formata, tipifica e estereotipifica a roupa que usamos!
Assim não surpreende que aquela rapariga se tivesse despido naquela manhã de Verão. Ela sabe bem como é que o corpo dela fica melhor. Quem sabe, o que a leva a despir-se até é o desejo inconsciente de se ver livre das suas roupas horríveis. São as pessoas mais próximas da natureza, mais selvagens. O certo é que nunca mais vou voltar a olhar para uma rapariga muito mal vestida da mesma maneira.
Ir a São Pedro do Sul no Verão pode ser como vislumbrar um bocadinho de um mapa qualquer do mundo do resto do ano.
O meu amor por dançar já vem de muito longe. Mesmo assim, só este ano venci o preconceito de ir a São Pedro do Sul. Desiludido com o Sudoeste massificado, com um Paredes de Coura desinspirado, com o Vilar de Mouros já morto (imagino que ter deixado de haver festival não impede os festivaleiros da velha guarda de continuaram a ir - acampam e montam um rádio com leitor de Mp3 e tá feito o festival, que vive é das pessoas - era o que eu faria, mas eu não sou da velha guarda - não me sinto velho nem tenho nada para guardar), com um Super Bock Super Rock que é um evento de propaganda (acho que para o ano se vai chamar só Super-Bock-Feira-da-Cerveja para realçar o que interessa) e porque o Oeiras Alive! é em Lisboa e a graça do Verão é acampar, lá fui eu com o Bruno para o Andanças. Os dois pela primeira vez.
Admito que a verdade é que nunca lá tinha ido - entre outras razões - por medo dessas criaturas perigosas: os friques. Tinha medo que me obrigassem a usar túnicas, ou que fosse preciso ter rastas para poder entrar. Ou que não houvessem casas de banho, ou até que à entrada fizessem algum tipo de teste ou charada para tirar a limpo se eu era frique ou estava disfarçado - um teste tipo obrigarem-me a fazer um ritmo no djembé com os pés - e que eu não fosse capaz e tivesse de voltar para Lisboa.
Não só vim a descobrir que não fazem nenhuma destas coisas, como que, de todos os festivais de Verão a que já fui no nosso Portugal, este é o melhor. Isso mesmo, o melhor. O que tem menos friques, o mais repousante, aquele em que vi menos drogas, o mais higiénico e aquele em em que vi mais pessoas bonitas e aquele em que me diverti mais. Incrível não é? Todos estes anos enganado.
Estávamos lá há um dia e, na manhã de Sábado, porque ainda era muito cedo para dançar, eu, o Bruno e duas amigas nossas (uma delas completamente nova, outra um feliz reencontro daqueles que me faz amar portugal - uma colega minha da escola primária, dois anos mais nova que eu e que nestes praí catorze anos que estive sem a ver se tornou numa bela e adorável pessoa) fomos andar. Queríamos descobrir as famosas cachoeiras de São Pedro do Sul.
Atravessámos uma pequena e linda floresta e chegámos. O silêncio da Natureza. O repouso da água a escorrer, em misteriosas correntezas que se perdiam entre as pedras e árvores e outras plantas. A cachoeirinha estava vazia àquela hora, com uma exceção. Uma elegante moça, de pele morena, de bikini, completamente nua da cintura para cima que, estendida numa toalha numa rocha no alto da cachoeira, nos olhava como uma deusa marinha. Como pareceu tolerar a nossa presença, mergulhámos. Subimos as rochas. Vimos borboletas e pequenos insetos voadores, alguns azuis, outros vermelhos, nunca antes vistos. Molhádos de água doce vimos cabras a pastar à nossa volta. O cheio fantástico da erva e dos bosques. O quente do Sol no corpo. Inspirámos fundo o oxigénio em bruto que brota da terra. Ficámos felizes. Não há nada como a Natureza. E a moça sempre ali, a olhar para nós a fingir que não olhava e nós para ela.
Desejámos a Natureza e o nosso desejo foi concedido. Como se tivéssemos atravessado uma fronteira de um bosque encantado, a dado momento, começaram a chegar pessoas. Chegou um rapaz. Chegou uma rapariga. Tudo bem. A certa altura chegou um rapaz, magro e de cabelo comprido igualzinho a este, e banhou-se exatamente assim como esse se banha na fotografia. E aí sim, a cachoeira desaguou realmente na Natureza dele e fez os nossos calções de praia parecerem umas coisas rídiculas e tão sem graça como se fôssemos uns turistas - que éramos - que tendo oportunidade de provar a excecionalidade da Naturza, preferimos provar uma espécie de versão higeanizada de plástico, um MacDonalds da vida campestre. Uma monstruosidade quase tão aberrante como fazer sexo com preservativo. E a menina de peitos desnudos sempre a olhar a cena toda, lá do alto da sua cachoeira.
O rapaz nu da nossa história, que era uma espécie de Jesus Cristo que gostava de ter sido o Mogli, escalou a rocha como quem a farejava e foi sentar-se ao lado da nossa rapariga semi-nua, que consentiu, sorrindo enigmáticamente (de notar que o rapaz não se sentou na rocha sem antes limpar o assento com um ramo cheio de folhinhas que arrancou de um arbusto). O Sol brilhava e as borboletas pousavam nos ombros deles e nos nossos e toda a gente era feliz.
Enquanto isto se passava, estava eu a fingir que a cena não era nada de especial e a mostar as cabrinhas tão giras a pastar à minha colega da escola primária - tentando por segundos desviar o olhar de Adão e Eva - quando vindo não sei de onde salta de trás de um arbusto - literalmente de trás de um arbusto - uma espanhola completamente nua a passear dois cães que corriam soltos à volta dela (os Espanhóis têm este jeito caraterístico de entrar em cena). Logo saltou de trás de outro arbusto o seu par, um rapaz também nuzinho como ela que gritava Javíííí, javíííí ou outra espanholada qualquer. Enquanto eu e a minha amiga continuávamos a figir que aquilo não era nada de mais, na outra ponta, onde estava o Bruno e a nossa outra amiga, surge outro grupo, de pessoas loiras e nuas, que o Bruno mais tarde me disse que tinham formas muito interessantes. Já era tarde e deu-nos imensa vontade de ir dançar.
Escusado será dizer que, desde a primeira moça de peito moreno à última loira, tive vontade de me despir e nadar nu pelo lago e pela cachoeira. Não o fiz mas está para breve a iniciação ao nudismo. Mas escrevi isto tudo até aqui nem foi por isso. Foi porque, há duas horas atrás, estava no comboio a caminho de casa e, à minha frente estava sentada a rapariga desnuda da cachoeira.
Muito mais feia. Nem uma gota do brilho e tensão sexual que inspirava no cimo daquela cascata. Só feiura, e ainda por cima uma feiura banal. Ali, vestida com umas roupinhas da feira, roxas e com uns folhos nas alças, uns óculos de Sol grandes de mais para a forma da cabeça dela que lhe ficavam péssimos e umas calças pretas muito cafonas, em condições normais nem teria reparado nela. Sentei-me ali a pensar Já te vi praticamente nua a tomar banho numa nascente. Penso que ela não me reconheceu (afinal, havia outras coisas a chamar mais a atenção naquela manhã de Agosto). Saiu na Amadora. Quando se levantou para sair, como eu já estava com a atenção predisposta, aí sim, vi-a de costas e, na justeza das calças, era mais que possível intuir aquele corpo fulgurante que eu já tinha visto.
Acho que se andássemos todos nus, passariam a ser completamente outras as pessoas do nosso dia a dia que consideramos atraentes, bonitas ou sexys. Certas raparigas que parecem mais gordas vestidas que despidas (basta ir à praia com elas para saber) passariam a ser mais apreciadas, assim como as que não sabem escolher roupa. Por outro lado, as meninas sem sal mas com bom gosto ficariam a perder. Quanto nos engana, formata, tipifica e estereotipifica a roupa que usamos!
Assim não surpreende que aquela rapariga se tivesse despido naquela manhã de Verão. Ela sabe bem como é que o corpo dela fica melhor. Quem sabe, o que a leva a despir-se até é o desejo inconsciente de se ver livre das suas roupas horríveis. São as pessoas mais próximas da natureza, mais selvagens. O certo é que nunca mais vou voltar a olhar para uma rapariga muito mal vestida da mesma maneira.
No comboio mandei uma mensagem ao Bruno, que me diria que se acabara de cruzar com o meu professor de Forró, com quem estive no Andanças e que praticamente não vejo desde lá.
Apercebi-me o quanto estamos todos tão ligados. Invadimos os silêncios e entramos na cabeça uns dos outros pelas mensagens, já vimos nus os nossos vizinhos no comboio, vivemos todos nos mesmos lugares sem sabermos.
A vida é um sem fim de andanças cruzadas.
Apercebi-me o quanto estamos todos tão ligados. Invadimos os silêncios e entramos na cabeça uns dos outros pelas mensagens, já vimos nus os nossos vizinhos no comboio, vivemos todos nos mesmos lugares sem sabermos.
A vida é um sem fim de andanças cruzadas.
Ir a São Pedro do Sul no Verão pode ser como vislumbrar um bocadinho de um mapa qualquer do mundo do resto do ano.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
O nosso mundo
Quando ficamos em casa sozinhos e trancados começamos a pensar que somos uma merda. Mas depois, quando saímos à rua e vemos como são as outras pessoas, ficamos bem mais otimistas.
Talvez isto seja a essência de muitas problemas modernos. Não só das depressões. Hoje em dia, com tantos mundos alternativos onde viver - sejam o mundo da publicidade com pessoas com corpos esculturais, seja a internet onde todas as relações são fingidas - as pessoas ficam desfasadas da realidade e começam a viver em função de um mundo que não existe. Assim tornam-se incapazes de interagir no mundo real, que não conhecem.
Enquanto não for possível viver só nos paraísos artificiais, vai ser sempre preciso sair à rua.
A solução de um problema está sempre contida nele próprio. Como numa equação matemática. A solução já lá está. É só resolvê-la. A solução para quem tem medo de sair de casa é sair de casa. Problema resolvido.
Talvez isto seja a essência de muitas problemas modernos. Não só das depressões. Hoje em dia, com tantos mundos alternativos onde viver - sejam o mundo da publicidade com pessoas com corpos esculturais, seja a internet onde todas as relações são fingidas - as pessoas ficam desfasadas da realidade e começam a viver em função de um mundo que não existe. Assim tornam-se incapazes de interagir no mundo real, que não conhecem.
Enquanto não for possível viver só nos paraísos artificiais, vai ser sempre preciso sair à rua.
A solução de um problema está sempre contida nele próprio. Como numa equação matemática. A solução já lá está. É só resolvê-la. A solução para quem tem medo de sair de casa é sair de casa. Problema resolvido.
domingo, 28 de setembro de 2008
Histórias do Verão II
Este Verão estava na praia com uma amiga minha das antigas - como quase todas (uma amiga só pode ser antiga) - podemos chamar-lhe Catarina. Estávamos os dois mais uma amiga dela.
Era o fim daquela tarde e ainda estava muito calor. Já tínhamos dormido e acordado ao Sol, adormecido outra vez e voltado a acordar ao Sol. Rochas enormes davam-nos a sensação de segurança. Há muito tempo que estávamos em silêncio. Ouvíamos a cadência do mar. Talvez inspirado por só ouvir coisas bonitas durante umas horas, tive um tal sentimento de liberdade, que comecei a cantar o Hallelujah, do Leonard Cohen.
Estava a cantá-la numa versão mais próxima da do Jeff Buckley que, adolescentes nos anos 90, a Catarina e eu, inevitavelmente conhecemos primeiro que a original. Estava a cantar baixinho (que é o nível máximo do respeito que conheço) acompanhado pelas ondas.
Estava a cantá-la numa versão mais próxima da do Jeff Buckley que, adolescentes nos anos 90, a Catarina e eu, inevitavelmente conhecemos primeiro que a original. Estava a cantar baixinho (que é o nível máximo do respeito que conheço) acompanhado pelas ondas.
De repente a Catarina disse Não cantes isso, é uma música muito triste.
Triste?
Sim, é muito triste.
Desde esse dia que isto não me sai da cabeça. Não ponho em causa o que a faz sentir triste. Talvez eu cante mal. O que quer que seja, será um motivo válido só por ser dela. Mas, se o Hallelujah é triste, então o que é alegre? A resposta, como nos bons filmes, já tocava ao fundo mas só aí dei por ela. Estávamos em Sagres, onde nessa noite como na anterior, decorria o Super Bock Sagres Surf Fest. Ouvia-se Reagge por todo o lado naquela praia repleta de pessoas com rastas.
Eu gosto de reagge. E é verdade que o Reagge nos permite balançar o corpo de maneiras que o Hallelujah não permite. Mas nenhum reagge alguma vez me trouxe a felicidade que me trouxe - hoje de manhã outra vez - o Hallelujah, a tocar pela janela aberta que deixava entrar o Sol, ou como naquele fim de tarde, a olhar o mar.
São gostos, dirão. Claro que são gostos. Mas porque é que as pessoas estão a precisar de puxar a felicidade tão ao máximo para serem capazes de a sentir? É uma pena que as pessoas não tenham mais trabalho de aprender a ouvir. É que é isso que faz com que depois, tudo o que não seja imensamente festivo, soe triste. Andarão as pessoas mais tristes que nunca e a precisar de muita alegria injetada, ou, mais que isso, estão tristes porque já não sabem ver a alegria nas coisas a não ser que seja sublinhada a vermelho, recortada do resto, ampliada vezes mil até já não ser nada do que era? A não ser que não haja qualquer dúvida que uma coisa é para ser feliz?
Com a cultura de massas, a televisão, a internet, a rádio, tudo a tocar ao mesmo tempo, as pessoas sempre a falarem, tanto nas lojas como na escola, como no trabalho, uma palavra não tem mais o valor divino que lhe é natural. Tudo é fugaz. Deixamos de ter atenção às coisas porque as coisas vêm direcionadas por nós. Tudo vem com instruções, soluções e previamente interpretado, estilo batatas pré-fritas congeladas. Já não aprendemos a interpretar. como não aprendemos a cozinhar. Já não sabemos por a atenção nas coisas para ver onde está a essência. Se não soa alegre não é alegre. Não há tempo para prestar mais atenção. Somos a pior geração de detetives da história. Não admira que ande toda a gente à nora à procura das causas e dos sentidos de tudo. Não é o nosso mundo no século XX que está um caos, as nossas cabeças é que estão.
E agora a canção que tem na letra a resposta a todo o problema deste meu post. E haverá alguma felicidade mais absoluta que a de encontrar a Fé numa mulher?
Podemos dizer
Com a cultura de massas, a televisão, a internet, a rádio, tudo a tocar ao mesmo tempo, as pessoas sempre a falarem, tanto nas lojas como na escola, como no trabalho, uma palavra não tem mais o valor divino que lhe é natural. Tudo é fugaz. Deixamos de ter atenção às coisas porque as coisas vêm direcionadas por nós. Tudo vem com instruções, soluções e previamente interpretado, estilo batatas pré-fritas congeladas. Já não aprendemos a interpretar. como não aprendemos a cozinhar. Já não sabemos por a atenção nas coisas para ver onde está a essência. Se não soa alegre não é alegre. Não há tempo para prestar mais atenção. Somos a pior geração de detetives da história. Não admira que ande toda a gente à nora à procura das causas e dos sentidos de tudo. Não é o nosso mundo no século XX que está um caos, as nossas cabeças é que estão.
E agora a canção que tem na letra a resposta a todo o problema deste meu post. E haverá alguma felicidade mais absoluta que a de encontrar a Fé numa mulher?
Podemos dizer
Hallelujah
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Baby I have been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you.
I've seen your flag on the marble arch
Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
And remember when I moved in you
The holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Este post é dedicado à Catarina, que é das pessoas que conheço com melhor gosto musical. Esta versão é só para ela e talvez eu devesse ter tentado cantá-la assim. Eu sei que ela gosta. À anos 00. O erro foi meu, eu é que estou desatualizado, Catarina, desculpa.
Linhas tortas
Ás vezes é preciso fazer coisas más para se poder ter a vontade de as reparar e fazer coisas boas.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Partilhar a solidão
Há muitos blogues. Há muitos blogues porque há muitas pessoas que se sentem sozinhas. Os blogues ajudam-nas. Acalmam o sentimento e às vezes conseguem fazer com que não o sintamos. Mas assim não acabam com ele. Pelo contrário, permitem que se possa chegar ao sintoma seguinte: ainda mais solidão. E aí já se sente, com blogue e tudo.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A geração está em festa
Ontem foi um dia solarengo. Calmo e silencioso, dava a impressão de se ouvir o movimento do mar ao longe.
Era de tarde e era uma tarde como só em Lisboa pode haver. E eu estava a trabalhar, descansado.
Subitamente ouve-se ao longe um som grave indistinto. Não pára. Começa a aumentar de volume. Parecem explosões, gritos. As pessoas para quem trabalho, mais velhas que eu, olharam para mim assustados incapazes de achar explicação. Mas não ficaram muito tempo com essa expressão. Deu logo lugar a um sorriso condescendente quando lhes disse a explicação provável contemporânea para a algazarra. Devem ser as praxes.
E foi assim que fomos para a varanda ver desfilar a minha geração.
Umas centenas de pessoas, ora vestidos de capa e batina preta, ora de t-shirt branca com a cara pintada e os cabelos enfarinhados, seguravam com uma mão uma cerveja e com a outra um estandarte - como as legiões romanas fizeram outrora - em que estava escrito o nome do seu curso. Urravam. Gritavam as iniciais dos cursos com a energia com que gritariam gritos de guerra. Com um ar sério, os mais velhos tentavam coordenar esta multidão de hooligans com os cérebros temperados em álcool, que disfarçados de estudantes, marchavam não pela rua, mas pelo passeio.
A minha geração sente-se rebelde. Mas que rebeldia é esta que não ousa sair do passeio? Que pára na passadeira? Que avisa a polícia que vai manifestar-se e, pior, manifestar-se sobre nada? Que revolução de vida é essa em que do outro lado da rua as mães, amorosas, fotografam, num comovente esforço de registo da infância interminável dos filhos?
Estes pequenos rebeldes estavam bêbados demais para perceberem que estavam numa festa de aniversário enorme, em que eles, criançada, foram postos para correrem um bocado até se cansarem. É que os meninos, quando ficam grandes, requerem brincadeiras cada vez mais dispendiosas. O Estado paga, pois é preciso divertir estes meninos grandes. Que sorte a deles. Noutros regimes seriam mandados para a guerra. E é assim que em 2008 se gasta a energia que há. Não a melhorar o mundo ou na construção de algo para partilhar com os outros. Gasta-se inconsequentemente. Mas quem sou eu para julgar. Talvez o mundo já esteja tão perto da perfeição que nos possamos dar a estes luxos.
Os recém-licenciados queixam-se de não terem emprego. Se isto faz parte de se tornar licenciado, eu se tivesse uma empresa também não lhes dava emprego.
Nada disto me importava se eu não tivesse de partilhar o mundo com eles. E pensar que daqui a uns anos os filhos destas pessoas vão ser colegas dos meus filhos na escola.
Era de tarde e era uma tarde como só em Lisboa pode haver. E eu estava a trabalhar, descansado.
Subitamente ouve-se ao longe um som grave indistinto. Não pára. Começa a aumentar de volume. Parecem explosões, gritos. As pessoas para quem trabalho, mais velhas que eu, olharam para mim assustados incapazes de achar explicação. Mas não ficaram muito tempo com essa expressão. Deu logo lugar a um sorriso condescendente quando lhes disse a explicação provável contemporânea para a algazarra. Devem ser as praxes.
E foi assim que fomos para a varanda ver desfilar a minha geração.
Umas centenas de pessoas, ora vestidos de capa e batina preta, ora de t-shirt branca com a cara pintada e os cabelos enfarinhados, seguravam com uma mão uma cerveja e com a outra um estandarte - como as legiões romanas fizeram outrora - em que estava escrito o nome do seu curso. Urravam. Gritavam as iniciais dos cursos com a energia com que gritariam gritos de guerra. Com um ar sério, os mais velhos tentavam coordenar esta multidão de hooligans com os cérebros temperados em álcool, que disfarçados de estudantes, marchavam não pela rua, mas pelo passeio.
A minha geração sente-se rebelde. Mas que rebeldia é esta que não ousa sair do passeio? Que pára na passadeira? Que avisa a polícia que vai manifestar-se e, pior, manifestar-se sobre nada? Que revolução de vida é essa em que do outro lado da rua as mães, amorosas, fotografam, num comovente esforço de registo da infância interminável dos filhos?
Estes pequenos rebeldes estavam bêbados demais para perceberem que estavam numa festa de aniversário enorme, em que eles, criançada, foram postos para correrem um bocado até se cansarem. É que os meninos, quando ficam grandes, requerem brincadeiras cada vez mais dispendiosas. O Estado paga, pois é preciso divertir estes meninos grandes. Que sorte a deles. Noutros regimes seriam mandados para a guerra. E é assim que em 2008 se gasta a energia que há. Não a melhorar o mundo ou na construção de algo para partilhar com os outros. Gasta-se inconsequentemente. Mas quem sou eu para julgar. Talvez o mundo já esteja tão perto da perfeição que nos possamos dar a estes luxos.
Os recém-licenciados queixam-se de não terem emprego. Se isto faz parte de se tornar licenciado, eu se tivesse uma empresa também não lhes dava emprego.
Nada disto me importava se eu não tivesse de partilhar o mundo com eles. E pensar que daqui a uns anos os filhos destas pessoas vão ser colegas dos meus filhos na escola.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
O Amor verdadeiro
O Amor verdadeiro parece inexplicável pela lógica. Sente-se que é uma coisa em que se acredita e que se sabe, numa espécie de sabedoria silenciosa e surda. Sente-se e não se sabe porquê, nem de onde vem, e que parece que sai de dentro do nosso peito e o quer fazer explodir de emoções. E quando surge, parece que sempre cá esteve e que faz parte de nós. É uma verdade. E é em tudo igual à Fé. É uma coisa que nos move para a vida e que nos puxa e agarra e indica o caminho. Mas que não sabemos o que é, e que há gente que diz que não existe. Provavelmente dizem-no porque nunca o sentiram.
Como diz um extremamente sábio amigo meu a que decido que vou chamar Rafael neste blogue, as pessoas só sentem a fé se aprenderem a exercitar o músculo da fé de pequeninas. Ao Rafael ninguém ensinou e por isso ele não consegue. Uma espécie de capacidade telepática que tem de ser aprendida como quando se aprende a andar ou a falar, na altura certa. Eu sou como ele. Nunca aprendi a fé, como muitas pessoas nos dias de hoje parecem também não ter aprendido, ao contrário de muitas outras. Mas percebo de onde vem, e percebo a sua força. Digamos que se me concentrar, até consigo imaginar como é senti-la. Sentir que a estou a sentir mesmo sabendo que não é a verdadeira. Não tenho os instrumentos humanos que preciso para chegar a deus.
Passa-se exatamente o mesmo com o Amor. Há muitas pessoas que não acreditam no amor. Provavelmente nunca o sentiram. Eu, como um bom e devoto praticante, tenho pena dessas pessoas. Eu acredito no Amor e sei que existe. Mas aprendi-o de pequenino, com um fabuloso primeiro amor. Coitados dos que não tiveram essa sorte.
Até à chegada do romantismo, a ideia de amor não existia. Possivelmente os sentimentos estavam lá, como uma espécie de patologia, mas não eram estimulados nem aprefeiçoados. Como diz Don Draper em MadMen: O Amor foi uma coisa que nós (os publicitários) inventámos para vender papel higiênico. Se estivesse eu à mesa com ele nessa cena e não aquela bela judia, ter-lhe-ia respondido A partir do momento que inventaram Don, eu passei a acreditar. A partir do momento em que o inventaram, passou a existir.
Já pensaram na quantidade de sentimentos fantásticos que podem estar escondidos dentro do nosso potencial humano e que ainda não descobrimos? Que aprendidos e treinados na idade certa se revelarão até à idade adulta, mas que em adulto são impossíveis de auto-estimular? Que maravilhas andarão escondidas! Telepatia? Capacidade de levitação? Quem sabe. Mas sobretudo interessa-me pensar Qual será o próximo sentimento a ser descoberto? Qual nos fará passar para uma nova era, tal como passámos da era da Fé para a era do Amor?
Como diz um extremamente sábio amigo meu a que decido que vou chamar Rafael neste blogue, as pessoas só sentem a fé se aprenderem a exercitar o músculo da fé de pequeninas. Ao Rafael ninguém ensinou e por isso ele não consegue. Uma espécie de capacidade telepática que tem de ser aprendida como quando se aprende a andar ou a falar, na altura certa. Eu sou como ele. Nunca aprendi a fé, como muitas pessoas nos dias de hoje parecem também não ter aprendido, ao contrário de muitas outras. Mas percebo de onde vem, e percebo a sua força. Digamos que se me concentrar, até consigo imaginar como é senti-la. Sentir que a estou a sentir mesmo sabendo que não é a verdadeira. Não tenho os instrumentos humanos que preciso para chegar a deus.
Passa-se exatamente o mesmo com o Amor. Há muitas pessoas que não acreditam no amor. Provavelmente nunca o sentiram. Eu, como um bom e devoto praticante, tenho pena dessas pessoas. Eu acredito no Amor e sei que existe. Mas aprendi-o de pequenino, com um fabuloso primeiro amor. Coitados dos que não tiveram essa sorte.
Até à chegada do romantismo, a ideia de amor não existia. Possivelmente os sentimentos estavam lá, como uma espécie de patologia, mas não eram estimulados nem aprefeiçoados. Como diz Don Draper em MadMen: O Amor foi uma coisa que nós (os publicitários) inventámos para vender papel higiênico. Se estivesse eu à mesa com ele nessa cena e não aquela bela judia, ter-lhe-ia respondido A partir do momento que inventaram Don, eu passei a acreditar. A partir do momento em que o inventaram, passou a existir.
Já pensaram na quantidade de sentimentos fantásticos que podem estar escondidos dentro do nosso potencial humano e que ainda não descobrimos? Que aprendidos e treinados na idade certa se revelarão até à idade adulta, mas que em adulto são impossíveis de auto-estimular? Que maravilhas andarão escondidas! Telepatia? Capacidade de levitação? Quem sabe. Mas sobretudo interessa-me pensar Qual será o próximo sentimento a ser descoberto? Qual nos fará passar para uma nova era, tal como passámos da era da Fé para a era do Amor?
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Uma ida ao Lux
Fui o primeiro a chegar. A Madalena e a Marta vinham ter comigo mais tarde. Fui sozinho até à porta e, como rapaz galante que sou, entrei sem pagar.
A primeira vez que fui ao Lux foi com uma ex-namorada, que era grande fã do lugar e até era amiga de um porteiro. A segunda foi numa festa do meu curso. A terceira numa Pecha Kucha em que a Madalena ajudou à organização. Esta vez foi a quarta. Poucas vezes, para alguém que se alimenta das coisas da vida, que gosta da noite, da boemia, de dançar, de festas, de pessoas. Porque fui lá tão poucas vezes então?
Eu não sou sovina, mas tenho noção do valor do dinheiro. (Que eu saiba não sou descendente de judeus, mas curiosamente a maioria dos meus ídolos são - o Leonard Cohen, o Bob Dylan, o Billy Wilder, o Woody Allen, o Chico Buarque. Quem sabe sou descendente de Cristãos Novos. Essa ofensa que o Marquês de Pombal baniu com a punição de chicotadas nas costas para o povo, perda de bens para o clero e perda dos títulos para a nobreza. Tudo pela unificação da nação e do seu povo. Grande Marquês.).
Tenho noção do valor do dinheiro e julgo que 12 € de mínimo à entrada é muito para aquilo que a suposta melhor discoteca de Lisboa oferece.
Subi as escadas com as mãos nos bolsos e um cigarro imaginário na boca. Cheio de estilo portanto. Sentei-me com as pernas esticadas num daqueles sofás-cama que estão espalhados por todo o primeiro andar, que parecem ter sido comprados na feira da ladra e que além disso são desconfortáveis (o encosto é a grade de uma cama e as almofadas são uns rolos que não dão jeito para nada). Mas o meu estilo era tal que até os sofás-cama pareceram giros.
Um empregado veio ter comigo e perguntou-me o que queria tomar. Pedi um Martini com uma pedra de gelo. O Martini voltou com a conta. 6 Euros. Eu já sabia o preço porque da terceira vez que lá fora tinha perguntado e o choque da resposta tinha-me durado até àquela noite (e ainda não passou). Passei-lhe uma nota de 20 €. O rapaz responde-me não tem mais pequeno? É que não temos trocos.
Sem mecher a cabeça, levantei o olhar devagar e subtilmente para ele. Tive vontade de dizer Preços altos, notas altas, mas não disse. Disse-lhe Não.
Afinal tinham trocos. Quando chegou levantei-me. Fui passear pelo lugar. Vi coisas como dois empregados a arrastarem com os pés uma mesa baixa onde os clientes põem as bebidas e a subirem para cima dela com os pés para mudarem as lâmpadas de um candeeiro todo estiloso. Estiloso o candeeiro, mas não os modos deles. Tive também a oportunidade de reparar nos ténis sujos e feios de uma empregada, que ainda por cima usava umas rastas muito feias a cair pelas costas. Uma frique a servir no lux. O mundo está mudado pensei. Mas o toque final de charme ainda estava por vir. Entre as pessoas, tive a sorte de ver um segurança pegar numa das almofadas compridas e brincar com ela simulando um enorme falo que insistiu em abanar para cima e para baixo até me ver a olhar para ele o ter pousado.
A Marta e a Madalena chegaram e fomos dançar. Se a música não era muito o meu estilo, até era boa. O mesmo não se podia dizer dos dançarinos. A noite de Lisboa são crianças de 16 aos 18 anos - os únicos cujos pais podem pagar estas brincadeiras - e turistas ridículos que, bêbados, montam o seu próprio circo de aberrações no meio da pista.
Poder-se-ia pensar que eu dar importância a isto tudo faz de mim uma pessoa pretensiosa, elitista, um snob, o que se quiser chamar. Não penso assim. Há uns dias vi na televisão um documentário sobre uma organização de apoio humanitário em África, a AfriKids. Nele contaram uma história de uma senhora que, sozinha, toma conta de umas trinta crianças órfãs, financiada pela AfriKids. Nunca deixou morrer nenhuma, menos num dia, em que faltou o dinheiro para medicamentos. Nesse dia, ela correu toda a aldeia à procura de alguém que lhe pudesse dar o dinheiro e ninguém deu. Ninguém tinha. Juntou as poupanças, mas não chegavam. Tentou vender coisas mas não conseguiu juntar o dinheiro que era preciso. Os medicamentos que a criança precisava eram muito caros. Custavam cinco cêntimos de euro.
Pelo preço da vida de 240 crianças africanas, espero bom divertimento.
A primeira vez que fui ao Lux foi com uma ex-namorada, que era grande fã do lugar e até era amiga de um porteiro. A segunda foi numa festa do meu curso. A terceira numa Pecha Kucha em que a Madalena ajudou à organização. Esta vez foi a quarta. Poucas vezes, para alguém que se alimenta das coisas da vida, que gosta da noite, da boemia, de dançar, de festas, de pessoas. Porque fui lá tão poucas vezes então?
Eu não sou sovina, mas tenho noção do valor do dinheiro. (Que eu saiba não sou descendente de judeus, mas curiosamente a maioria dos meus ídolos são - o Leonard Cohen, o Bob Dylan, o Billy Wilder, o Woody Allen, o Chico Buarque. Quem sabe sou descendente de Cristãos Novos. Essa ofensa que o Marquês de Pombal baniu com a punição de chicotadas nas costas para o povo, perda de bens para o clero e perda dos títulos para a nobreza. Tudo pela unificação da nação e do seu povo. Grande Marquês.).
Tenho noção do valor do dinheiro e julgo que 12 € de mínimo à entrada é muito para aquilo que a suposta melhor discoteca de Lisboa oferece.
Subi as escadas com as mãos nos bolsos e um cigarro imaginário na boca. Cheio de estilo portanto. Sentei-me com as pernas esticadas num daqueles sofás-cama que estão espalhados por todo o primeiro andar, que parecem ter sido comprados na feira da ladra e que além disso são desconfortáveis (o encosto é a grade de uma cama e as almofadas são uns rolos que não dão jeito para nada). Mas o meu estilo era tal que até os sofás-cama pareceram giros.
Um empregado veio ter comigo e perguntou-me o que queria tomar. Pedi um Martini com uma pedra de gelo. O Martini voltou com a conta. 6 Euros. Eu já sabia o preço porque da terceira vez que lá fora tinha perguntado e o choque da resposta tinha-me durado até àquela noite (e ainda não passou). Passei-lhe uma nota de 20 €. O rapaz responde-me não tem mais pequeno? É que não temos trocos.
Sem mecher a cabeça, levantei o olhar devagar e subtilmente para ele. Tive vontade de dizer Preços altos, notas altas, mas não disse. Disse-lhe Não.
Afinal tinham trocos. Quando chegou levantei-me. Fui passear pelo lugar. Vi coisas como dois empregados a arrastarem com os pés uma mesa baixa onde os clientes põem as bebidas e a subirem para cima dela com os pés para mudarem as lâmpadas de um candeeiro todo estiloso. Estiloso o candeeiro, mas não os modos deles. Tive também a oportunidade de reparar nos ténis sujos e feios de uma empregada, que ainda por cima usava umas rastas muito feias a cair pelas costas. Uma frique a servir no lux. O mundo está mudado pensei. Mas o toque final de charme ainda estava por vir. Entre as pessoas, tive a sorte de ver um segurança pegar numa das almofadas compridas e brincar com ela simulando um enorme falo que insistiu em abanar para cima e para baixo até me ver a olhar para ele o ter pousado.
A Marta e a Madalena chegaram e fomos dançar. Se a música não era muito o meu estilo, até era boa. O mesmo não se podia dizer dos dançarinos. A noite de Lisboa são crianças de 16 aos 18 anos - os únicos cujos pais podem pagar estas brincadeiras - e turistas ridículos que, bêbados, montam o seu próprio circo de aberrações no meio da pista.
Poder-se-ia pensar que eu dar importância a isto tudo faz de mim uma pessoa pretensiosa, elitista, um snob, o que se quiser chamar. Não penso assim. Há uns dias vi na televisão um documentário sobre uma organização de apoio humanitário em África, a AfriKids. Nele contaram uma história de uma senhora que, sozinha, toma conta de umas trinta crianças órfãs, financiada pela AfriKids. Nunca deixou morrer nenhuma, menos num dia, em que faltou o dinheiro para medicamentos. Nesse dia, ela correu toda a aldeia à procura de alguém que lhe pudesse dar o dinheiro e ninguém deu. Ninguém tinha. Juntou as poupanças, mas não chegavam. Tentou vender coisas mas não conseguiu juntar o dinheiro que era preciso. Os medicamentos que a criança precisava eram muito caros. Custavam cinco cêntimos de euro.
Pelo preço da vida de 240 crianças africanas, espero bom divertimento.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Uma frase que mudou a minha vida
O que caracteriza o homem imaturo é desejar morrer nobremente por uma causa, enquanto que o que caracteriza o homem maduro é desejar viver humildemente por ela
- Wilhelm Stekel
- Wilhelm Stekel
Sobre Sobre o Elogio ao trabalho
Ao fim de consideráveis dias a trabalhar com afinco, percebi que é muito duro trabalhar sem ter a tal pessoa para quem voltar ao fim do dia. Felizes os que têm. Mas isso toda a gente sabe. Trabalhar por amar, amar por trabalhar. Um alimenta o outro.
domingo, 21 de setembro de 2008
Sobre o elogio ao trabalho ou O Homenzinho Português
(ver posts anteriores)
Basta ser português para saber que a maior ambição de um português normal é trabalhar o menos possível (felizmente a nossa História é feita de muitos portugueses anormais, os melhores - mas isso é para outro post). Os estudos comprovam-no. Parece que no último semestre, a produtividade dos portugueses voltou a descer.
Diz um amigo meu de há muito tempo, com grande sabedoria - vamos chamar-lhe, para fins deste blogue, Roberto - que só em Portugal se ouve aquela frase fantástica Hoje tive o dia todo sem fazer nada! (seguida de um esfregar de mãos) como se isso significasse que se teve um dia fantástico. Sublime. Um dia invejado por todos. O dia perfeito. E o pior é que é realmente invejado. Fui para o Brasil, estive lá 12 dias na praia, sem fazer nada! Foram os melhores dias da minha vida ou então Epá, hoje quando chegar a casa, não vou fazer nada!, por exemplo, são normalmente seguidas de um coro que canta que sorte, quem me dera.
Os homens que dizem isto são homens pequenos e é exatamente por não trabalharem que o são.
Os homenzinhos portugueses não tem a coragem de sofrer trabalhando. É por isso que face à mais pequena contrariedade, o homenzinho português desiste, se desmotiva, entristece. É por isso que é capaz de sofrer com uma coisa como o Futebol. O homenzinho português não está treinado para sofrer. Pelo contrário. Desde petiz, o português é treinado por suas mães e seus pais a não trabalhar. Como é dura a vida, que faz com que tenhamos de trabalhar para sobreviver, pensa o português adulto, que já descobriu a verdade, e acrescenta Vou dar aos meus filhos a maior felicidade da vida enquanto podem tê-la, enquanto são pequeninos, pois não quero que sofram. E o que faz o homenzinho português? Dá tudo ao filho e cultiva a preguiça no seu rebento. Quando chegamos à adolescência, somos profissionais no descanso. E se dormir fosse modalidade olímpica, eramos uma potência.
A preguiça é a causa direta da nossa infelicidade crónica portuguesa. Nem estou a falar em trabalhar para melhorar a nossa situação económica, ou cultural, ou social. Isso é óbvio. Estou a falar de como é impossível que um homemzinho seja amado por uma mulher. Não, o homemzinho português tem de ser amado por uma Mulherzona. Alguém duvida que é por isso que tantas mulheres portuguesas são tão brutas, tão amargas, tão entristecidas, tão amassadas da vida? Alguém ainda não se apercebeu que é por isso que têm de se transformar em camiões, tanques de guerra humanos, frios, que levam tudo à frente e gritam e são agressivas? É precisamente por isso e por mais nada. Tudo bem para o homemzinho, que gosta de mulheres assim. Mas não para os homens.
Não podemos dizer que as mulherzonas não têm culpa de ser mulherzonas. A educarem os seus filhos como homenzinhos, mimados e atrofiados, e a educarem as suas filhas como quem treina cães de caça, não conseguem quebrar o ciclo. Mas a culpa é só indireta, porque se reflete na geração seguinte. Quem pode quebrar o ciclo, na hora, no segundo, são os homens (este parágrafo pressupõe a coisa óbvia que é os homenzinhos não serem capazes de educar ninguém).
Eu acho bem que as mulheres trabalhem, e não é isso que faz delas mulherzonas. O trabalho é só condição da vida. O que faz delas mulherzonas é não terem em casa um homem que seja capaz de lhes dar segurança e proteção. Um homem que sintam que é mais forte, que já sofreu mais que elas, que aguenta mais que elas. Um homem capaz de as abraçar com honra de ser um ser superior, não a ela, mas superior àquilo que já foi, superior à criancinha que era, superior ao homemzinho que era. Não há destes por aí. Não há nas casas, mas também não há na rua, nem nos bares ,nem nas praias, nem nos locais de trabalho (existem alguns locais de trabalho em Portugal, ainda em período experimental).
Já ouviram falar no mito de que as mulheres israelitas são as mais bonitas do mundo? Parece que é mesmo verdade. Não sei se já ouviram falar no mito de que os judeus são uns trabalhadores gananciosos e obsessivos como um raio. Já?
Este post é dedicado ao Roberto, que sabe quem é.
Basta ser português para saber que a maior ambição de um português normal é trabalhar o menos possível (felizmente a nossa História é feita de muitos portugueses anormais, os melhores - mas isso é para outro post). Os estudos comprovam-no. Parece que no último semestre, a produtividade dos portugueses voltou a descer.
Diz um amigo meu de há muito tempo, com grande sabedoria - vamos chamar-lhe, para fins deste blogue, Roberto - que só em Portugal se ouve aquela frase fantástica Hoje tive o dia todo sem fazer nada! (seguida de um esfregar de mãos) como se isso significasse que se teve um dia fantástico. Sublime. Um dia invejado por todos. O dia perfeito. E o pior é que é realmente invejado. Fui para o Brasil, estive lá 12 dias na praia, sem fazer nada! Foram os melhores dias da minha vida ou então Epá, hoje quando chegar a casa, não vou fazer nada!, por exemplo, são normalmente seguidas de um coro que canta que sorte, quem me dera.
Os homens que dizem isto são homens pequenos e é exatamente por não trabalharem que o são.
Os homenzinhos portugueses não tem a coragem de sofrer trabalhando. É por isso que face à mais pequena contrariedade, o homenzinho português desiste, se desmotiva, entristece. É por isso que é capaz de sofrer com uma coisa como o Futebol. O homenzinho português não está treinado para sofrer. Pelo contrário. Desde petiz, o português é treinado por suas mães e seus pais a não trabalhar. Como é dura a vida, que faz com que tenhamos de trabalhar para sobreviver, pensa o português adulto, que já descobriu a verdade, e acrescenta Vou dar aos meus filhos a maior felicidade da vida enquanto podem tê-la, enquanto são pequeninos, pois não quero que sofram. E o que faz o homenzinho português? Dá tudo ao filho e cultiva a preguiça no seu rebento. Quando chegamos à adolescência, somos profissionais no descanso. E se dormir fosse modalidade olímpica, eramos uma potência.
A preguiça é a causa direta da nossa infelicidade crónica portuguesa. Nem estou a falar em trabalhar para melhorar a nossa situação económica, ou cultural, ou social. Isso é óbvio. Estou a falar de como é impossível que um homemzinho seja amado por uma mulher. Não, o homemzinho português tem de ser amado por uma Mulherzona. Alguém duvida que é por isso que tantas mulheres portuguesas são tão brutas, tão amargas, tão entristecidas, tão amassadas da vida? Alguém ainda não se apercebeu que é por isso que têm de se transformar em camiões, tanques de guerra humanos, frios, que levam tudo à frente e gritam e são agressivas? É precisamente por isso e por mais nada. Tudo bem para o homemzinho, que gosta de mulheres assim. Mas não para os homens.
Não podemos dizer que as mulherzonas não têm culpa de ser mulherzonas. A educarem os seus filhos como homenzinhos, mimados e atrofiados, e a educarem as suas filhas como quem treina cães de caça, não conseguem quebrar o ciclo. Mas a culpa é só indireta, porque se reflete na geração seguinte. Quem pode quebrar o ciclo, na hora, no segundo, são os homens (este parágrafo pressupõe a coisa óbvia que é os homenzinhos não serem capazes de educar ninguém).
Eu acho bem que as mulheres trabalhem, e não é isso que faz delas mulherzonas. O trabalho é só condição da vida. O que faz delas mulherzonas é não terem em casa um homem que seja capaz de lhes dar segurança e proteção. Um homem que sintam que é mais forte, que já sofreu mais que elas, que aguenta mais que elas. Um homem capaz de as abraçar com honra de ser um ser superior, não a ela, mas superior àquilo que já foi, superior à criancinha que era, superior ao homemzinho que era. Não há destes por aí. Não há nas casas, mas também não há na rua, nem nos bares ,nem nas praias, nem nos locais de trabalho (existem alguns locais de trabalho em Portugal, ainda em período experimental).
Já ouviram falar no mito de que as mulheres israelitas são as mais bonitas do mundo? Parece que é mesmo verdade. Não sei se já ouviram falar no mito de que os judeus são uns trabalhadores gananciosos e obsessivos como um raio. Já?
Este post é dedicado ao Roberto, que sabe quem é.
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