sábado, 12 de junho de 2010

The Coming of Wisdom with Time

Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.
 
 
William Butler Yeats

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Formas exóticas de ser nuvem

O céu abriu muito bonito hoje.

Estou agora a olhar para uma esfera celeste iluminada, de nuvens em concha gigantesca branca no céu, muito alta, como um grande cone, um grande túnel, que tem no centro um céu branco branco branco com uma pérola a brilhar para nós. A parte de cima de cada nuvem explode de cor-de-sol. Muitos mundos nos céus e com muitas possibilidades cada um, com brilhos, cores, segredos atrás de cada nuvem. Parece uma versão abstracta do mundo dos humanos. Mas para as nuvens, talvez sejamos nós uma versão abstracta do seu mundo. E cada árvore, cada pessoa, seja uma forma exótica de ser nuvem.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Manifesto

Quanto melhor conheço os seres humanos, mais gosto de seres humanos.

sábado, 5 de junho de 2010

As modas

Maravilhosa invenção que nos permite ter amigos!

Viva a cultura popular.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Técnicas de sedução racionalistas

Sê fraco.

Os outros vão adorar dominar-te.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Aconteceu História

Foi há uns dias. Estávamos cá. Todos. Eu, vocês. E vimos.

A institucionalização da separação entre a direita política e o catolicismo em Portugal, marcada pelo apoio da totalidade dos partidos da direita a uma candidatura presidencial que não partilha a visão do mundo da Igreja Católica, é um momento de viragem civilizacional.

Até hoje nunca tinha havido homogeneidade do laicismo na política.

Ao assumir o seu laicismo, a direita portuguesa junta-se à maioria das direitas do ocidente e vem confirmar o que já sabíamos mas até hoje não era assumido: a esquerda e a direita são hoje apenas duas propostas diferentes para controlar o dinheiro.

Os chamados conservadores defendem que o dinheiro se deve manter onde está, nos seus bolsos. Os chamados progressistas defendem que deve ser roubado de onde está e posto num lugar novo, nos seus bolsos.

Nenhuma utopia civilizacional, nenhum transcendente. Apenas combate entre egoísmos organizados.

O capitalismo cumpriu-se.

E é quando se cumpre que começa a ruir. Porque não serve.




A partir de hoje, nenhum cristão poderá dizer que é de direita.

domingo, 30 de maio de 2010

A felicidade

Se do mundo se tirassem todas as pessoas infelizes,

e ficassem só as felizes, de forma a criar um mundo novo, só-feliz,

não resultaria, pois são as pessoas infelizes

que fazem das felizes aquilo que elas são.

Gaga-pensamentos

Há pessoas que se fazem passar por pensadores sérios que dizem que não gostam de Lady Gaga. E outras, do mesmo grupo socio-cultural (chamemos-lhes assim), que dizem que adoram a Lady Gaga.

Mas as motivações são, nas primeiras, apenas o ódio ao povo e vontade de pertencer às elites culturais - manifestado pelo ódio ao que é comercial - e nas segundas, serem de tal modo realmente ultra-snobes que chegam ao ponto de terem de disfarçar fingindo que são do povo porque gostam daquilo que o povo gosta.

E no meio disto, onde é que fica a Vida?

Se gostam, assumam que é porque aquelas notas vos excitam pra caralho, que é porque as danças dela vos despertam a libido, ou, se não gostam, assumam que é porque vos repugna aquela mulher meio atrasada mental que não sabe nem dançar nem cantar. Isto ou qualquer outra coisa. Se quiserem. Se não quiserem também está bem.

A Lady Gaga parece-me um dos maiores génios contemporâneos. Odeio-a por tudo aquilo que ela representa: a sociedade em que vivemos hoje de pessoas que só pensam no seu próprio prazer, de pessoas cheias de sentimentos maus, de pessoas superficiais, e acima de tudo, alienadas. Mas amo-a por ela ser um absoluto génio em responder àquilo que o mundo pede. Porque se pede, há uma razão para pedir, e o mundo tem todo o direito de pedir o que quiser. Ela é um génio em perceber exactamente o que isso é, quem são essas pessoas de hoje e em saber falar do sofrimento delas. Amo-a por ela declarar aos berros a todo o mundo que somos uma sociedade de absolutos chalados, de pessoas enlouquecidas, apodrecidas, superficiais, sem norte, sem solução à vista, uma absoluta cambada de alienados.

E é tão comovente o sofrimento que dá para ver nos olhos desta mulher, naqueles videoclipes. Deve ser uma pessoa tão solitária. Ela tão-feia-tão-feia, ali, a mostrar-nos a todos como realmente somos.

Haverá melodia mais grandiosamente excitante que o refrão do Bad Romance? Algo mais épico? E aquela violência? Aquilo é que é estar vivo. Haverá personagem e mulher mais corajosa? Não há. Não há porque hoje não há ninguém que tenha a coragem de dizer a verdade, que é  

I want your love
And I want your revenge
I want your love
I don’t wanna be friends
O o o o o

Porque é que ninguém diz isto? Porque é que anda tudo a fingir que somos todos muito amigos e que o amor não custa? Que quando se perde a pessoa que amamos não há nada que a traga de volta, muito menos a amizade, até porque essa amizade não existe, não é nada comparada com amar?

É que não serve de nada ser amigo de quem se ama em honra dos momentos muito especiais que se viveram, porque isso não é viver, isso é forçarmos-nos a não sentirmos o que sentimos e não sentir é a morte. É o absoluto oposto do amor. É rebaixarmos-nos, não perante os outros, mas perante nós próprios. É não ter orgulho nem honra. A Lady Gaga sabe isto tudo e porra, ela tem a minha idade. 24 anos e olhem onde ela está e olhem para nós. Ela e o Cristiano Ronaldo e Nós Todos.

Claro que o Marylin Manson já nos tinha dito isto tudo há quinze anos. Mas quando ele fica velhinho, está cá a Gaga para nos lembrar.

Claro que o meu mundo era um Mundo onde estas pessoas feias-bonitas não precisassem de existir.  Mas claro que a culpa não é dos artistas. A culpa é nossa.

Nós somos a Lady Gaga.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A mesma coisa

Fidelidade e amor são duas palavras para a mesma coisa.



(isto pode parecer uma constatação óbvia, mas não é óbvia para muitas pessoas)

Consequência e causa

A sociedade ocidental a ruir e certas pessoas que deviam estar preocupadas muito contentinhas consigo mesmas.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dar amor

Ao compreendermos porque não merecemos ser amados por quem queríamos ser, passamos a aceitar o nosso sofrimento.

Receber é uma consequência de dar e não o contrário. Mas não basta dar. É preciso dar o que o outro quer receber, não o que nós queremos dar-lhe.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Já foi tudo feito antes de nós

O critério da originialidade leva invariavelmente, depois de se ter aprendido um bocadinho, ao sentimento de que já foi tudo feito antes de nós. Bastaria isso para provar que esse critério não nos permite criar, nem viver. A originalidade leva à inacção. Ou pior, à destruição do que existia antes.

Tanto quanto sei hoje, pelo que me foi mostrado pelo mundo, viver é tudo menos original. Antes de nós viveram milhões, e viveram como nós vivemos. Pois a vida é precisamente a repetição, o fazer tudo outra vez, recomeçar a cada vida nova todas as etapas da vida que nos gerou.

É essa a nossa originalidade. A de revivermos, dando vida de novo ao que já estava morto, à nossa maneira.

A única originalidade que há está na nossa origem. Aquilo que foi feito antes de nós, fomos nós. Éramos nós. Os que fazíamos e os que éramos feitos.

Olhem à nossa volta. Está tanta coisa morta. Há tanta coisa por fazer.

domingo, 16 de maio de 2010

Para sempre

Um momento que me marcou para sempre foi aquele dia no jardim.

Um grupo de actores fazia teatro de rua. Propunham ser mudos. Estavam sempre sérios e eram muito expressivos. Comunicavam batendo em malas de viagem vazias, cada um tinha a sua. Moviam-se em bando, como pássaros, para onde ia o primeiro ia também o segundo, vestidos com roupas minimalistas escuras. Interpelavam os transeuntes com um olhar esbugalhado e ensandecido, assustador, e ficavam parados fitando-nos, batendo nas malas, pedindo-nos para batermos também, esperando uma reacção.

A reacção era contorná-los. Parecia ter sido ganha a proposta estética. Desafiava o outro.

No meio das pessoas passou devagarinho uma velhinha, pequenina, corcunda, de bengala, já sem dentes e com um olhar muito antigo. Ela não percebeu a proposta. Quando eles não perceberam que ela era uma velhinha e ficaram a bater nas suas malas, ela ficou a olhá-los, sem perceber porque não a deixavam passar. Nos olhos deles viu-se imediatamente que não aguentavam o bluff de não serem seres humanos, mas não podiam parar a sua performance. Não sabiam o que fazer e continuaram a bater nas malas e a olhá-la. A senhora ficou a olhá-los com um olhar esgazeado e começou a gemer, como se chorasse, mas zangada. Ela começou a tocar-lhes, pequenina. Foi aí que se percebeu que ela era louca. Quando começou a passar-lhes as mãos pelo peito e pela cara eles não sabiam o que fazer e ficaram quietos. As personagens não estavam programadas para encontrar a vida.

Ela segurava-lhes nas mãos quando chegou a neta e a levou dali dizendo que era a brincar avó, eram actores, era a fingir.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Actos

Parece-me, hoje, nesta fase da minha vida, que muitas pessoas - muitos de nós - não passam dos Primeiros Actos das suas vidas. Desistimos quando começam os problemas, antes do início do Segundo Acto.

Daqueles que temos a coragem de viver esse longo e difícil Segundo Acto, infelizmente a grande maioria de nós desiste antes de chegar ao Terceiro.

Hoje, nesta fase da minha vida, em que tento viver o Segundo Acto, a minha grande ambição é conhecer aqueles que tiveram a coragem de viver o Terceiro. São tão poucos. E tão admiráveis.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Amar a mãe

Ao ver na televisão a Procissão do Adeus em Fátima percebi que é com a nossa mãe que aprendemos a amar.

Todas as mães que não amem incondicionalmente a sua família estão a criar futuros adultos incapazes de amar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Comunidade auto-sustentável

As únicas ideologias políticas dignas de serem consideradas são aquelas que gerem seres humanos fortes o suficiente para morrerem a lutar por elas.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

De mãos dadas

Sem Amor nunca teremos alguém para nos acompanhar no enterro dos nossos pais.

domingo, 9 de maio de 2010

Usar a verdade para a mentira

O perigo do esoterismo, do New Age, dos cultos ao sobrenatural, das videntes, dos espiritismos organizados, da psicologia e afins auto-ajudas - ou seja, de todas as falsas religiões - é usar o poder avassalador e verdadeiro da Fé de alguém para aquilo que não é o essencial para essa pessoa e para a humanidade. Usar a Fé para o Mal.

As falsas religiões são paliativos onde as verdadeiras procuram a cura.

sábado, 8 de maio de 2010

Só o Amor

Só o Amor permite a Verdade.

Experimentem dizer a verdade a alguém que não vos ame. Depois a alguém que vos ame. Saberão logo do que estou a falar. Quem não nos ama exige a mentira. Só quem nos ama nos permite sermos verdadeiros. Não acreditar no amor é condenar-se a viver eternamente numa prisão de fingimento.

Quando amamos alguém, amamos a verdade dessa pessoa. A diferença entre a paixão e o amor, é que a paixão é pela mentira, enquanto o amor é pela verdade. A paixão é pelo que pensamos que alguém é, o amor pelo que sabemos que a pessoa é.

Assim, também só a Verdade permite o Amor.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Holocausto I

Os nazis do século XXI serão ecologistas.

domingo, 2 de maio de 2010

Amar é perder

Quanto mais se ama mais se perde.

A coragem de amar é a coragem de ousar sofrer perder alguém.

O saldo de uma vida mede-se pelas pessoas cujos caixões vimos somados às pessoas que viram o nosso caixão.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Alegoria do Ténis

Todos somos animados pela mesma vida.

Como um cordão (atacador em Portugal) que ao ser colocado nos buracos do ténis dá a ilusão de ser dois cordões, e a cada buraco em que passa a ilusão de ser um cordão novo, quando na verdade é apenas um só cordão, único.

Pois nós somos os buracos do ténis e é um só cordão que nos anima a todos.

Dentro de cada outro estou eu.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mais uma pedra

(a oitava)

A casa de pedra em Guimarães.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Cuidar

Mesmo quem não teve filhos vai um dia precisar que alguém cuide de si.

O que quem não teve filhos não considerou é que não é justo para alguém de quem nós não cuidámos na infância ter de cuidar de nós na velhice.

Dando-se o caso dessa pessoa ter, mesmo sem filhos, alguém que cuide dele, é de lembrar que foi preciso que alguém tenha cuidado desse filho para que, chegado o tempo, ele possa agora cuidar desse que não teve filhos.


Há por fim a saída de substituir o amor pelo dinheiro e tornar o cuidar num serviço, coisa que é tão horrenda que nem tenho palavras.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Um grão de areia no universo

A felicidade de descobrirmos que somos só um grão de areia na gigantesca criação que é o Universo é a de ficarmos a saber que somos alguma coisa, por muito pequena que seja. É a felicidade da descoberta do que realmente somos. Do fim do engano.

Não há espaço para o susto ou para a tristeza no confronto com a nossa pequenês, só para o espanto e para a maravilha da perfeição de fazermos, comprovadamente, parte de uma criação em que cada grão de areia desse Universo é pensado em tal pormenor e grandeza.

E ficarmos a saber que afinal, se somos só um grão de areia, então é muito mais fácil do que pensávamos sermos Bons. É só sermos o melhor grão de areia que conseguirmos.

Que rico universo!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Milagre

Só essa cola entre as coisas que é a Fé faz tocarem-se elementos da vida que sem ela estão distantes, tornando a vida uma só coisa.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O nosso familiar morto

Sabem aquela atenção e cuidado que temos quando falamos com uma pessoa a quem sabemos que lhe acabou de morrer um familiar?

Era a atenção e cuidado com que devíamos falar a toda a gente.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Aproveitar a vida

Viver cada dia não como se fosse o último mas como se fosse o primeiro.

Olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Porque realmente É.




Se hoje for o último dia da minha vida, vivo sem esperança, e morro. Se hoje for o primeiro dia da minha vida, renasço e acredito.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ser anti-português é ser anti-brasileiro

Começo a ficar farto do recorrente clichê "se o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandeses talvez fosse melhor".

Em primeiro lugar, o Brasil não foi colonizado pelos holandeses. Sabem porquê? Porque os holandeses não foram capazes de o colonizar. Se os holandeses fossem capazes de colonizar o Brasil seriam (como) os portugueses, não seriam os holandeses (apesar de a independência da Holanda de Espanha se dever em grande parte à acção dos judeus portgueses radicados na holanda, mas isso é outro assunto).

Só os portugueses têm na sua cultura, na sua identidade intrínseca, no seu código genético civilizacional, as características que levaram à formação do Brasil.

O termo "colonizar" aplica-se quanto muito aos povos tupis e guaranis que habitavam o terrítório a que hoje chamamos Brasil, mas não ao país-Brasil. Os tupis foram colonizados. O Brasil não. Porque o Brasil não existia antes de os portugueses lá chegarem. Logo, os portugueses nunca colonizaram o Brasil. Fizeram mais que isso, pior que isso: os portugueses criaram o Brasil.

E o meu ponto é que só os portugueses poderiam ter criado o Brasil, mais nenhum povo do mundo.

Os territórios que foram espanhóis na América são hoje uma série de países que não se entendem nem têm unidade. Se o Brasil tivesse sido colonizado por Espanha seria hoje talvez um conjunto de dez países, ou então talvez cada estado do Brasil actual fosse um país independente. Acho que não preciso dizer a miséria que isso seria. Perderíamos este Brasil maravilhoso, toda esta cultura, que viajou da Bahia para o Rio de Janeiro, para São Paulo, passando pela Amazónia e por todo esse país branco preto mulato.

Isto que aconteceu com o resto da américa latina deve-se à falta de unidade nacional intrínseca espanhola. No código genético civilizacional dos espanhóis está a rivalidade consigo próprios, e o facto de serem um país composto ele próprio por uns cinco ou seis países. Isto levou a que cada um puxasse para o seu lado, o que deu uma catrefada de países e pouca unidade.

Pelo contrário, os territórios que foram holandeses na América são... o Suriname. Ninguém quer ser o Suriname. Os Brasileiros querem? Não me parece. Com todo o respeito... que país mais desinteressante comparado com o Brasil.

É que o Brasil nunca poderia ser o Suriname. O Suriname revela aquilo que os holandeses sabem fazer: colónias pequeninas, bem organizadas, bem geridas, mas que não têm interesse nenhum.

Só a megalomania portuguesa é que poderia gerar o Brasil. O desejo de fazer um ímpério. Assumindo o grande disparate e loucura disso. Assumindo todas as dificuldades, das quais nem tinham noção. Assumindo que isso daria um país desequilibrado. Um país grande de mais. Uma ideia inconcebível. Acham que algum racionalista holandês afirmaria "vamos fazer o Brasil?" Não, porque "fazer o Brasil" é impossível, só os portugueses seriam capazes de tamanha insanidade. De tamanho absurdo. De tamanha desproporção.

É aí que se vê a grande religiosidade portuguesa. A capacidade de acreditar em algo que a razão nega poder existir. A fé que é precisa para acreditar em criar o Brasil nenhum outro povo do mundo a tem.

Mesmo os ingleses, que têm tantas capacidades, se teoricamente considerassem esse projecto, pensariam, acertadamente "um país desse tamanho não, vamos tentar, um terço disso, é mais razoável, mais sensato". E provavelmente conseguiriam fazer um país interessante. Mas não seria o Brasil. E acontecer-lhes-ia o que aconteceu na América do Norte. As coisas escapar-lhes-iam das mãos. A competitividade do modelo anglo-saxónico é tal que os Estados Unidos da América se criaram sozinhos, contra os Ingleses, com ajuda dos franceses. Não foram os ingleses que o fizeram.

Voltando aos holandeses. Os holandeses não estavam interessados em colonizar. Os holandeses não se misturam com os outros povos, só querem comércio. Nem os ingleses. Os espanhóis só um bocadinho. Alguma vez o Caramarú seria outra coisa que não português? Olhem Cabo Verde, esse país de mestiços. Olhem o Apartheid, alguma vez poderia acontecer num país lusófono?

Toda a identidade brasileira em que eu tenho tanto orgulho e em que acho que os brasileiros têm tanto orgulho vem dessa multi-culturalidade que é uma atitude intrinsecamente portuguesa. No mundo ocidental, foram os portugueses que inventaram a miscigenação. Isso tem de ser dito. Os portugueses vão para um lugar e fundem-se com ele.

O Brasil só pode ser um país de brancos, negros, índios e asiáticos, unido nacionalmente como é, por causa dos portugueses. Um país que acolheu todos esses refugiados durante a guerra, que hoje estão todos integrados.

A miscigenação vem de os portugueses serem um povo completamente unido, como poucos, e de, simultaneamente, ser composto por uma mistura de lusitanos com celtas, iberos, mouros, judeus, negros, chineses, indianos, etc.

Essa frase bonita "Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro" do Gilberto Freyre (apelido português bonito, Freire, escrito à antiga com "y") só é possível por causa dos portugueses.

Só os portugueses - de todos os países colonizadores da história do mundo - é que transferiu a sua capital para um território ultramarino. A capital dos holandeses nunca foi na África do Sul, ou no Suriname ou na Indonésia. Mas a capital de Portugal já foi o Rio de Janeiro. Não percebem o que isso quer dizer? Quer dizer existir um povo que acredita em fundir-se com outro e dar origem a um povo maior. Esse povo maior é o Brasil.

Já agora, outro clichê quando se fala em portugueses no Brasil é a escravatura. Sim, os portugueses traficavam escravos. Também os holandeses e também todos os povos do mundo. Os próprios africanos foram os grandes inventores disso mesmo. Os romanos tinham escravos. Os egípcios tinham escravos. Os portugueses, como habitantes do planeta Terra e elementos da raça humana, tinham escravos. Apesar disso, em 1761, o Marquês de Pombal proibiu a entrada de novos escravos em Portugal continental.

Outro clichê, com o carimbo de propagação do grande Caetano Veloso (nome português) a quem, de vez em quando, dá vontade de dizer uns disparates, é que os portugueses só foram ao Brasil roubar ouro. Há no entando estudos que apontam para que hoje sejam extraídos por dia do Brasil mais recurssos naturais do que em todos os séculos em que Portugal e Brasil foram um só país.

Eu sei que toda essa angústia com a colonização vem de um trauma. Um trauma legítimo e com razão de ser. Mas há que fazer as pazes com o nosso passado. Nós portugueses fizemos as pazes com o povo que nos ocupou e, entre outros, nos criou: os romanos. Bem sei que leva tempo a sarar a ferida. Sei que hoje já ninguém sofreu diretamente as acções dos romanos, só as consequências. Mas os brasileiros também não dos portugueses. Os portugueses tiveram mais tempo para sarar a ferida, mas o meu ponto é que há muitas vantagens em sará-la. E sará-la o mais depressa possível, para que não fiquem órgãos tortos, ossos com altos, amnésia, cicatrizes grosseiras e feias. Eu como português, adoro os romanos. E bem sei que eles mataram muitos dos meus antepassados. Mas eu também sou descendente dos romanos. Tenho um pai romano que batia na minha mãe lusitana. Ou um pai celta-cristão que batia na minha mãe árabe. Ou um pai cristão que obrigou a minha mãe judia a converter-se ao cristianismo. Grandes tragédias, mas é preciso fazer as pazes com isso e não ficar a escarafunchar na ferida à procura de culpados. Quase todos os brasileiros têm no seu sangue o sangue dos culpados. Não adianta para nada fingir que esse sangue podia ser holandês, ou fingir que não é português, como todos os brasileiros não fossem em parte portugueses.

O Brasil é um país cheio de problemas, mas é um país. Sem os portugueses, não seria.

PS: E sem os Angolanos também não. Só quem nunca conheceu um angolano é que não sabe que a boa disposição brasileira vem diretamente de Angola. E Angola é um país lusófono. O Brasil também só o poderia ser sendo-o.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O demónio está à espreita

O maior perigo de ter Fé neste tempo de ateísmo é achar que, por se aspirar ao Bem, se está automaticamente do lado do Bem, do lado dos bons, e, por consequência, se pode fazer o que se quiser porque se está na equipa certa.

É por este perigo que o único caminho que existe é o da humildade. A humildade de assumir que nada sei. Que o caminho para o Bem é muito longo. Que para se chegar lá é preciso rigor para não se enveredar por desvios. Saber onde se quer chegar não significa que saibamos o caminho.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Paz Quente

Depois da Guerra Fria temos uma paz fria.

Talvez seja preciso travar a guerra quente para instalar uma paz verdadeira.

domingo, 14 de março de 2010

Maestro

Um grande artista é alguém que consegue, ao reger os músicos à sua frente, reger, simetricamente com os mesmos gestos, os corações do seu público, atrás de si.

Com os mesmos gestos.




Matar e ressuscitar, com os mesmos gestos.

Magoar e amar com os mesmos gestos.

Destruir e construir com os mesmos gestos.

Gritar e cantar.

Dançar.

Boa Vontade

O motivo pelo qual não devemos julgar os outros é porque - independentemente de se o nosso juízo é justo ou não - de nada serve uma sociedade em que as pessoas pautam a sua acção pelo que os outros vão achar dela.

Cada um deve agir pelo Bem porque esse é o seu dever, não por medo das represálias caso não o faça. Tampouco deve praticar um suposto Bem pelo desejo do aplauso.

Deve cada um praticar o Bem porque acredita Nele.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Casar

A maioria das pessoas casadas não é feliz, mas isso não é culpa do casamento. Essas pessoas não seriam mais felizes se fossem solteiras. Pelo contrário provavelmente.

Morrer jovem

Hoje a maioria das pessoas morre jovem sem saber.

Poupa-se na heroina.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Mais uma pedra

(a sétima)

Today


Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they've always talked about

still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They're strong as rocks.



- Frank O'Hara, 1950

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O que ninguém diz no meu país (está tudo a falar de escutas telefónicas ao Primeiro Ministro, ou de futebol ou de música pop)

O que ninguém diz é que, agora que nas sociedades ricas os jovens já não são a maioria da população, a lei de que os novos roubam os lugares aos velhos foi invertida pela lei de os novos são escravizados pelos velhos.

O que ninguém diz é que o egoísmo e ganância que levou a geração dos nossos pais a terem cada vez menos filhos para guardarem o dinheiro todo para si levou, no hemisfério norte, a uma civilização decadente de velhos. Europa, América Anglófona e até a China.

Em Portugal, o país mais velho do mundo em que tudo é medido em séculos, olhamos à volta e vemos todos os candidatos a Presidente da República Portuguesa com mais de 70 anos.

Vemos que vivemos numa sociedade em que no poder não estão os mais capazes, fortes ou viris, com todos os ganhos que isso traria, mas numa gerontocracia onde aqueles que, abortando todas as manifestações de força da juventude - nomeadamente através da estupidificação da mesma - se eternizam, seráficos, no topo.

Uma sociedade de velhos que não permitem a independência e liberdades dos filhos mantendo-os em casa até aos 30 anos. Que em lugar de lhes darem um chuto no cú os persuadem a ficar, no colinho do papá e da mamã, com direito a uma semanada para gastar em marijuana. Que os persuadem a, ao contrário deles, não cometerem esse erro terrível que é o de ter filhos, não fosse isso levá-los a mudar de postura.

Uma sociedade de Recibos Verdes, em que os novos trabalham e pagam impostos sem que isso lhes traga quaisquer benefícios junto da segurança social, já que esse dinheiro tem de ir para pagar o soro dos velhos senis que exigem ser mantidos vivos e que ultrapassam, em número, os novos.

Pessoas novas! Tomemos o lugar a estas pessoas que, para nosso mal e para o mal da civilização humana, não querem largar o poder! Ganhemos nós o dinheiro deles e, aqueles que tenham tido filhos, serão pelos seus filhos bem cuidados.

Não tenho ódio a ninguém. Tenho amor por todos, amor por todos aqueles que têm direito a ter uma vida e esta lhes é sugada por quem lha devia dar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Amor

Amar como eu amo é sentir-me um farol que de repente soubesse que de tanto brilhar lhe iam conceder poder ser barco.

As velas

Sentado sozinho à mesa de um restaurante lisboeta penso

Noutro tempo, cada uma destas velas acesas seria pela alma de alguém.

A diferença entre um mundo decorativo e um mundo com alma.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dos Segredos

Morrem segredos milenares, hoje.

Toda a sabedoria que só podia ser sabida pelas mulheres, passada de mãe para filha, de geração em geração desde a origem do mundo. Toda a sabedoria que só podia ser sabida pelos homens, passada de pai para filho, geração após geração desde o primeiro homem, morreu.

Morreu ou por ter sido descoberta, e pervertida, pelo sexo oposto, ou por ter sido calada para sempre como inútil.

Um cochicho mantido desde a origem do mundo, incessante, não-calado, um sussurrar de avó para neta, de irmão mais velho para irmão mais novo, morreu porque alguém disse que éramos todos iguais, que tanto fazia, que não havia nenhuma diferença entre homens e mulheres. E hoje somos todos iguais. Igualmente ignorantes.

Moças, se ainda tiverem uma avó, corram a perguntar-lhe como se lida com um Homem. Moços, se ainda tiverem um avô, perguntem-lhe como ser Homem.

Porque morrem segredos milenares, hoje.

Porque morrem em segredo, e são chorados com lágrimas de desconhecimento.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Um país-saudade

Os portugueses inventaram a Saudade.

Para haver a Saudade foi preciso alguém ter ido a algum lugar, e alguém ter ficado.

Viajámos Todo-o-Mundo.

E o país onde chegámos foi o Brasil.

Aí produzimos um país-saudoso-de-futuro, para com ele podermos ser para sempre assim, saudosos.

Lá repousa o meu Amor. Lá vivo.

E só agora compreendo realmente as palavras Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso Mais sofrer.
Chega, de saudade
a realidade, É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...



E só isto é que pode ser o Amor. O Amor impossível-possível. O Amor imerecido-merecido. O Amor que é eterno porque o Tempo que leva a senti-lo é todo o Oceano, é maior que o tempo de vida, é maior que nós. Só um Amor maior que nós é que é Amor.

E assim o meu coração bate-dói-dói, bate-dói-dói, e não sou mais que um trapo humano, um fantasma amoroso, um caco.

Sou finalmente uma pessoa.

Quando for enterrado no Kinkaku-ji, quero que esteja escrito na minha lápide:

Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo.
. - Padre António Vieira


Não te esqueças amor.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

domingo, 13 de dezembro de 2009

O perdão

Ela trabalha num daqueles balcões onde agora, nos centros comercias, vamos comprar esparguete com seis ingredientes e um molho.
Quando me atendeu foi fria, mas prestável. Disse-me o que tinham para beber, e eu escolhi. Nunca me olhou nos olhos. Mas não posso dizer que tenha sido antipática. Falava a olhar para baixo. Foi o normal do que uma portuguesa seria. Só que ela é africana.
Mas atrás de mim veio aquele rapazinho branco de nove anos, que ia comer esparguete à bolonhesa.
E há tantos anos que eu não via um olhar assim. Toda a cara dela se abriu sobre si própria, como uma flor. Iluminou-se com um sorriso rasgado enorme - tantos dentes! - que guardou incessante todo o tempo, quer olhasse para ele, ali todo direitinho a segurar sozinho no tabuleiro, quer não.
Ele fez-lhe muitas perguntas, ela ria-se, descontraída, esticava os braços, enrolava-se sobre si mesma, muito atenta, com muita atenção, debruçando-se para ele, com muita curiosidade. Falavam com puro prazer. Ela adora aquele menino. Por ele ser um menino. E ele adora-a, por ter aquela mulher feita, mas nova, no pico da beleza, toda para ele, como nenhum homem a tem, toda atenção. A sorrir e não esconder o que sente por não haver mal, por não haver nenhum risco em expor o amor, assim, nos olhos. O olhar dela era um olhar de puro Amor. Puro Amor e Bondade. Um olhar que tudo perdoava. Olhou-o como uma mãe olha um filho. Como a minha mãe, talvez um dia, me tenha olhado.
Despediram-se como se encontraram. Falavam os dois como se se conhecessem há muitos muitos anos, desde antes de terem aquela idade, como velhos amigos em que um se atrasou a crescer - toda ela menina e todo ele homem - como se fossem amigos desde o mundo que está para lá das barrigas das mães. Afastaram-se como se se fossem voltar a ver, ali mesmo, mais um milhão de vezes. Para sempre.
Eles não sabem que um dia ela vai voltar para a ilha de São Tomé (de onde é também o rapaz que cozinhou a minha massa recheada com espinafres, que me disse que o paraíso é lá e que quer voltar) e que nunca mais se verão. Não sabem isso, mas sabem que não faz mal, porque aquele olhar dela é para sempre.
Desde pequeno que nunca mais ninguém olhou assim para mim. Já sou crescido, a minha mãe gosta de mim de outra maneira. Assim, só talvez um dia a minha mulher, se gostar de mim. Mas é difícil, porque aquele olhar só se faz a uma criança, e crescer significa deixar de ser olhado assim para passar a olhar assim. Mas quais as consequências de nunca mais na vida ser olhado com amor, de nunca mais ser perdoado por se ser quem é?
Mas, se não ser mais filho significa deixar de receber este olhar, nunca ter filhos significa nunca na vida o fazer. Quais as consequências de nunca na vida ter o privilégio de se entregar assim a alguém?
Se ela quando me atendeu olhava para baixo, era porque o que ela esperava vinha dessa direcção.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dar as mãos

Para que duas pessoas sejam felizes juntas não é necessário que tenham um passado igual, mas um futuro.

Não aquilo que foram mas aquilo que serão.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O amor espande-se

Nada passará através do ódio. Só através do Amor.

Porque só o Amor tem espaço para alguma coisa lá dentro. Um espaço chamado dúvida.

Porque o ódio atrofia, mas o Amor faz crescer.


A prova disto é que o mundo existe. Só existe porque há mais Amor que ódio no mundo. Por algum estranho motivo, o Amor vence sempre.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Línguas

Já vos aconteceu estarem a falar com alguém de Amor e responderem-vos com política, sociologia ou economia?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Casais

O sucesso de uma relação só depende de que uma das partes se sacrifique pela outra.

Há casos em que as duas se sacrificam, uma pela outra, e aí temos a felicidade. Mas é raro duas pessoas assim encontrarem-se.


E a isto se resume o assunto mais debatido de todos.

sábado, 28 de novembro de 2009

Eu sou mestiço

Arte portuguesa que não seja mestiça é mentirosa.

Porque é que não há mais Arte em Portugal?

Porque com critérios racionalistas geográficos e ideológicos, convenceram os portugueses que eles eram só europeus.

Quando tiraram o Mundo a Portugal tiraram Portugal ao Mundo.

Um artista que não saiba quem é não é artista.

E para começar, nem sabemos de onde viemos porque não sabemos onde fomos. Somos como uma criança, filha de pais divorciados, a quem convenceram que nunca teve mãe.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As intenções

Tudo é único.

Cada lufada de energia que nasce em nós só pode ser gasta de uma maneira.

Não volta.

A disciplina deve ser a reunião de condições para que, quando a energia vem, possa ser aproveitada como queremos.

Esse como está no tempo e está no espaço. A vida é uma bala. Uma só. E como contra um alvo giratório, há que disparar no momento certo.

A vida é uma bala que guardamos durante vinte anos, e que depois, disparamos.

Quem viva sem considerar que na vida tem apenas uma hipótese, necessariamente já não tem nenhuma.

Só há um gesto. Só há uma acção. Só há um resultado.

O homem que diz vou não vai, porque quando foi já não quis.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Tem samba

Finalmente. A banda que eu teria se tivesse talento. Agora só faltam os originais.

Depressão

O Calor Humano: um blogue tão deprimente que as pessoas deprimidas até se convencem que são felizes.

sábado, 21 de novembro de 2009

Moda

Será que os sindicalistas da fábrica da Gillette também têm aquelas barbas compridas?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pátria

Em Lisboa, por baixo do viaduto depois do Lux (quer dizer luxo em francês), dorme uma pessoa sem casa que tem a bandeira de Portugal colada à caixa de cartão sob a qual dorme.

Não tem casa mas tem pátria.

É um homem a quem não podemos chamar sem-abrigo.

domingo, 15 de novembro de 2009

Voz

Ao ouvir o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa a cantar As sete últimas palavras do Nosso Salvador na Cruz do Haydn, a gente pensa para quê falar se não for para sair isto?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A todos os meus mortos

Aceitar viver com consciência da morte permite-nos amar os mortos. Deixar de viver só no presente.

Quando se aceita Deus passa-se a viver na eternidade.

Porquê deixar de fora da vida tanto amor?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Instaurar datas comemorativas pessoais

Nove de Novembro, o dia em que percebi a felicidade da tristeza. Que bater o mais possível no fundo era fantástico porque depois de cada depressão vem uma enorme felicidade. A partir daqui passei a ficar feliz de cada vez que ficava triste.

Felicidade que vem de percebermos que é natural estar triste e que nós não somos o centro do mundo por isso está tudo bem. O centro do mundo estar triste - aí a situação era preocupante. Mas o centro do mundo nunca fica triste.







O meu sonho é um dia casar-me e juntar as minhas datas às da minha mulher, às dos nossos filhos e às comuns e celebrarmos em conjunto cada uma delas. As datas comemorativas não são feriados, porque neste reino trabalha-se todos os dias.


Nota: Se a ingenuidade deste post vos incomodar não voltem a este blogue.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Os pequeninos

Talvez só com Fé se possa ter o espírito jovem até ao fim, pois é saber que em relação a Deus somos sempre os pequeninos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma tatuagem que tivesse que renovar todos os dias

Será que, numa sociedade com tanto medo do compromisso, as tatuagens estarem na moda tem a ver com um colmatar histérico de uma necessidade natural humana de compromisso?

No entanto, o compromisso real é aquele que pode ser desfeito e nós escolhemos não desafazer. Quando passa a uma obrigação deixa de estar vivo.

Um anel pode tirar-se, uma tatuagem não.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Encontrar as ideias que faltam nos buracos entre as ideias que já tenho

A vida é várias coisas ao mesmo tempo.

Este mês, desde que te foste embora, tenho estado a descobrir as ideias que me faltam nos buracos entre as ideias que já tenho. Para te poder amar melhor.

Em Lisboa a tua marca ficou por toda a parte. Nos nossos passeios, unimos a cidade, como agora uno as minhas ideias, e nos dois casos é com contigo que o faço. A nossa mulher é a cola da nossa vida.

Contigo, porque para ti, consigo viver melhor. Tu que vieste de fora, deste-me o que já cá estava. Memórias para uma cidade inteira.

Agora, onde quer que eu vá, tu estás lá, à minha espera. Toda a cidade unida por ti, como se fosse a nossa casa e estivesses ora na sala ora na cozinha.

E fizeste a tudo na minha vida o que fizeste a Lisboa. Juntaste, colaste, aproximaste.

Quando não te tinha, procurava-te. Agora já não tenho de te procurar porque já estás em tudo. Agora tenho-te e posso finalmente viver.

Depois foste embora, mas não estás longe. O amor ficou. O que juntaste vai ficar para sempre junto.

Não escrevia desde que te vi pela primeira vez. Deus é o tempo, e Ele trouxe-te. Estive com Ele a aprender a amar-te melhor. Ficaria mais tempo. Dois anos para te dar um beijo. Ou foram vinte e três anos? Ou um dia?

É preciso tempo para amar.

Porque amar não é só o amor. É o antes e o depois. E se o amor for amor, cada depois é um antes, e cada antes é um depois.

Só a vida isso permite, porque só a vida é tempo, e só no tempo pode haver amor. Porque só a vida permite amar para sempre e só amar para sempre permite viver.

Obrigado, meu amor, por me dares a vida.

A nossa primeira mãe dá-nos a vida, a nossa segunda mãe é a mulher que nos dá o viver.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A origem do mal

Antidumping. Antitrust. Back-office. Benchmarking. Cash-flow. Clearing. Crash. Cross-selling. Currency. Dealer. Downsizing. Factoring. Front-office. Fixing. Franchising. Holding. Jet-lag. Joint-venture. Leasing. Management. Outdoor. Rent-a-car. Share. Trust. Turnover. Workstation.



Toda esta linguagem é boa. Com ela, quando esse sistema ruir, saber-se-há de que cultura veio o mal.

Mesmo no Brasil dizem cancer no lugar de câncro já com esta filosofia.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Erros

Os erros da nossa vida a maior parte das vezes não são coisas que fizemos.

São as coisas que não fizemos para estarmos a fazer essas.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cinema

Mas este é o lado que toda a gente já conhece!

domingo, 14 de junho de 2009

Tua alma na gente

O António Variações morreu há vinte e cinco anos e continua tão vivo como nesse dia.

É por isso que não há homenagens. Nada mudou (desde o dia em que nos deste a possibilidade de ter uma verdadeira vida) desde esse dia de Santo António.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Á procura da nitidez

Se todas as pessoas de todas as idades fizessem o seu testamento,
e à medida que a vida os transformasse,
o fossem alterando,
saberíamos todos como a morte vive connosco,
e passaríamos a valorizar muito mais cada momento vivos
e a saber quais são as nossas prioridades.

Se falares português e tiveres uma ideia incrível, é melhor escreveres uma canção, porque filosofar, só é possível em alemão

.



Língua,
de Caetano Veloso.




Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
A Minha pátria é minha LÍNGUA!
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão

Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria!
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem

Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Só o amor salva

Porque só o amor nos faz mendigar por fazer bem aos outros.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Sol

É tão bonito pensar que a cada segundo que passa, há mais um pedaço do mundo a apanhar directamente com Sol.

Luz como aquela que vejo chegar agora.

terça-feira, 2 de junho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Não saber

As certezas destróem a poesia.

Só as nossas incertezas são nossas amigas.

As nossas dúvidas são a nossa maior riqueza.

domingo, 31 de maio de 2009

Verão

Só o Verão é a verdadeira vida.

No Verão a casa cheira a pinheiros. Nos corredores cheira a árvores e há vento. Há vento dentro de casa, e parece tão natural que dou comigo a nem me lembrar que não é sempre assim.

Oiço o vento. Carregado com sons de coisas a aconter. Coisas a acontecer dentro do próprio vento.

A cozinha da minha casa no Verão cheira a louro e a temperos e à minha mãe.

No Verão a rua e a cidade cheiram a família. Como as casas das famílias em que cada casa cheira de sua maneira - cheira àquela família, e sempre que lá vamos cheira a eles - e nos prédios o cheiro sente-se até do lado de cá da porta da rua, como nos meus visinhos de baixo da casa da Costa, em que todo o primeiro andar cheirava a eles, e na minha varanda, que dava para o quintal deles, cheirava também.

No Verão a rua cheira aos cheiros misturados de todas as famílias de pessoas. Talvez por as pessoas estarem todas de janelas abertas, ou por andarem todas na rua (adoro ver pessoas na rua, assim frescas, com pouca roupa).

No Verão, quando durmo de janela aberta, cheira a noite, a quente e a cidade, e consigo saber tudo o que se está a passar lá fora só pelos cheiros - e também pelas buzinas e pelos gritos das pessoas felizes.

Também gosto de gritos no Verão. Todos os gritos no Verão são bons. Não consigo imaginar um grito incomodativo no Verão. São sempre de felicidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A democracia

A democracia não é podermos viver todos juntos sendo iguais.

A democracia é podermos viver todos juntos sendo diferentes.

As qualidades

Amor. Quando duas pessoas valorizam um no outro as mesmas qualidades do outro que o outro valoriza em si.

Não descobri isto sozinho.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Nove meses

Nove meses de blogue e cresci tanto. Sinto que me pari um novo.

Dez posts de silêncio








































...

terça-feira, 12 de maio de 2009

"O princípio de todos os males é a desatenção"

Vivemos. Há lugares da vida que nunca tínhamos pensado possíveis. Se estivermos com atenção, afinal a vida pode ser muito mais do que tínhamos imaginado.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Justiça

Igualdade não é justiça.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Arrependimento

Arrependi-me de escrever o texto anterior e agora já sei porquê.

Porque nada é para nada.


(é isto uma semana de vida)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Amor é o Bem

O Amor é uma força que nos leva, por si só, ao Bem.

Há imensas teorias sobre porque é que quando alguém namora ou está casado é sempre mais cobiçado que quando está solteiro (para desgraça do próprio).

Há teorias que falam sobre virilidade; sobre ser bom na cama; sobre o ser humano gostar de disputar o que é cobiçado; sobre alguém que está comprometido o estar porque é bom namorado ou marido e quem não está é porque há algo de errado com ele. Mas tudo isso são coisas menores. São só consequências da real coisa que faz essa pessoa ser assim, especial, brilhante. As pessoas comprometidas são combiçadas porque os outros sentem que o Amor está com elas.

E o Amor faz-nos bons. O amor faz-nos fazer as coisas bem. O Amor faz-nos Bem. O Amor é o Bem.

(As pessoas até ficam mais bonitas quando estão enamoradas...)


Li na internet uns textos disparatados que me deram a conhecer uma grande problemática darwinista do momento. Até é um pecado poético falar destas coisas assim, mas fa-lo-ei porque às vezes é preciso ir ganhar no terreno do adversário, não podemos ficar sempre em casa. A grande questão darwinista da semana é Porque é que as mulheres têm orgasmos?

Segundo eles e elas (também há senhoras a estudar o assunto), só os homens deviam tê-los, para que isso levásse à ejaculação, que é a sua função (é nestes momentos que se sente como a ciência é uma coisa que devia ser mais censurada que a pornografia).

As teorias dominantes falam de clitóris que são para as mulheres o que os mamilos são para os homens (que não tendo mamas também os têm). Como se o clitóris fosse uma coisa que ficou ali esquecida. Toda a gente que sabe o que é um clitóris, sabe que não é o mesmo que um mamilo.

Falam-se também de ursos. Teorias que comparam os Seres Humanos aos ursos, em que os machos dominantes têm mais tempo para copular e que portanto só esses dão orgasmos às fémeas, já que os outros têm de dar rapidinhas, ejacular e fugir quando o macho dominante se aproxima. Assim, a fémea ao ter orgasmos sabe que está com um grande macho dominante e que é com esse que deve ficar.

Havia outras teorias ainda mais ridículas.

Nenhuma me convenceu.

Se estes cientistas ainda fossem humanos, saberiam que, para nós, pessoas, a resposta é o Amor.

Saberiam que um homem que ama uma mulher deixa muitas vezes de sentir vontade de ter prazer com ela, deixa de olhar de maneira sexual para ela. Quem já amou sabe isto. Aquela vontade de ter prazer, que sente com todas as boazonas que passam na rua, desaparece com a pessoa amada. E falta de vontade de ter prazer é assim sinal de amor. Porque o homem que ama deixa de pensar em si. Deixa de pensar em si e no seu prazer e concentra-se só na mulher que ama e em fazê-la feliz, e em dar-lhe prazer a ela. Por isso as mulheres têm orgasmos, não para saberem que estão com o macho dominante, mas para saberem que estão com alguém que as ama.

Claro que há uma vida inteira de formas de dar amor que não têm nada a ver com orgasmos. Mas quanto mais enamorado, mais tenho a certeza que eles só podem ser para isso. Porque de facto, todas as outras utilizações que pudessem haver, são nada ao lado do Amor.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Canção para o país do Mar

Há um país humilde que se chama apenas porto, porque sabe que o seu povo não é da terra.

O seu povo está sempre em movimento, mas também não é nómada. É um povo que vive no mar.

À noite, vem a Terra. Para descansar na praia, à luz de uma fogueira, e partir em novas aventuras milenares. É um país que não fica em casa.

Um povo que sabe que, se cada povo fosse um órgão da Humanidade, ele seria certamente o Sangue.

Se fosse um povo da montanha, o seu país chamar-se-ia Montanhal.

Assim, chama-se Portugal. Nosso porto-pátria.


Esta canção é para esse país, por um muito sub-valorizado seu artista.



Queda do Império
por Vitorino


Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz
Foi nas ondas do mar
Do mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império mil almas
Por pau de canela e mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja luanda
Sempre em flor.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A vida

Tudo é irreversível.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Infelicidade

A rapariga que diz que não ri para não ganhar rugas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Histórias

Havia uma vez, num lugar, duas pessoas tão felizes juntas, que ao fim do dia, quando ela se deitava sobre o colo dele e o abraçava para ouvir, até adormecer, as suas histórias da mais pura e sonhadora felicidade, a ele lhe bastava contar o resumo do dia que acabaram de passar juntos.

Pelos outros

Só pode ter brio em si quem ama.

Definições

Deus: a única companhia de quem está só.

Casa: o único lugar onde um homem pode chorar.

Envelhecer: gostar de viver.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Morte

Se não morrêssemos, seríamos uma raça com muito menos interesse.

Seríamos, certamente, seres imensamente arrogantes.

Pelo contrário, sermos assim como somos, faz de cada um de nós um herói.

Mais heróico a cada dia que aguenta vivo.

sábado, 11 de abril de 2009

Datas

A melhor banda portuguesa em actividade apresenta o seu primeiro disco no primeiro dia de Maio no Santiago Alquimista, um lugar de Cerveja e Refresco, em Lisboa, Portugal.

(BAR = Beer and Refreshment)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Para abrigar as feridas

A cada dia que passa construo a minha casa com as estacas que me espetam no coração.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Macaquinho do chinês

O jogo do macaquinho do chinês é a mais perfeita metáfora da sedução.

domingo, 5 de abril de 2009

As desabraçadas

Sábado.

Estou no carro às 4:25 da manhã. Saí do trabalho.

Se esta fosse uma civilização digna, não havia a esta hora, no meu país inteiro, nenhuma mulher que não estivesse abraçada.

Mas não pareciam nada abraçadas as mulheres que eu via no passeio, a sair do Bairro Alto.

Especialmente aquela que deitada no chão vomitava para o lado, para os pés da amiga. Essa parecia bastante desabraçada.

O que é que ela está aqui a fazer? Como é que não há ninguém para a pegar ao colo?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Distrair-se

Não sei se já escrevi esta frase aqui. Mas uma vez uma pessoa muito importante disse-ma e bastou uma vez para que nunca me tenha esquecido dela.

As pessoas falam em distrair-se como se não soubessem que essa palavra significa estar desconcentrado.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O cinismo

O cinismo é um escudo contra o Bem.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Os impostos

Há umas centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto, ao contrário do que se pensa quando se é novo. E é bom que seja assim, menos nos casos em que as pessoas páram de crescer e ficam reféns das suas idiosincrasias opinativas juvenis para o resto da vida.


Até hoje nunca tinha compreendido a tentação de ter um negócio criminoso. Pensava Não é muito mais simples ter um negócio permitido pela lei?

Essa tentação só se compreende quando se começa a pagar impostos.


Qualquer opinião sobre a sociedade que não tenha isto em conta (e mais as outras tais centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto) não é válida.


Assumir isto é definir mais claramente os motivos pelos quais, sabendo-o, se continua a não ter um negócio criminoso.

terça-feira, 31 de março de 2009

Amar

Amar é passar a ter um motivo para gostarmos de ser nós.

Por termos o previlégio de amar quem amamos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Braços

Amar alguém é passar a ter quatro braços, dois dos quais andam por aí no mundo a fazer coisas boas para nós sem nós os controlarmos, e nós por eles.

Para poder viver

A coisa mais importante para poder viver é compreender como ninguém é perfeito. Em linguagem religiosa: só Deus é perfeito.

E saber aceitar.

Nenhuma decisão na nossa vida pode ser baseada nos defeitos das pessoas à nossa volta. Só nas qualidades.

Pois no topo dessa lista de pessoas não perfeitas, estamos sempre nós.

Aceitar os outros pensando como é que eles me aceitam a mim?

segunda-feira, 23 de março de 2009

Isto para mim ainda é ontem

Às vezes saio do trabalho às sete da manhã.

Mas confesso, gosto mesmo bué.

Quando se sai do trabalho às sete da manhã, as escadas do prédio cheiram a café.

Lá dentro das casas ouvimos as crianças a acordarem e as mães a mandarem-nas lavar os dentes.

E quando vamos de carro para casa, as outras pessoas conduzem ainda devagarinho, sem pressas nem ânsias, porque ainda estão a viver a pensar nos sonhos que tiveram.

Na rádio, os locutores ainda falam baixo, sussurram e dizem coisas meigas.

Na IC19, as pessoas que têm hortas na berma da estrada acabaram de chegar e esperguiçam-se antes de começaram a trabalhar. Da mesma maneira que um pouco antes se esperguiçavam os distribuidores de publicidades que estavam no Marquês de Pombal vestidos de esponjas de detergente CIF.

As madrugadas em Lisboa parecem um filme do Ozu.

As madrugadas são a mais bela parte do dia. Foi hoje quando vinha para casa, que a sua beleza me fez perceber finalmente como apreciar os prédios portugueses em toda sua beleza e sentido. Quando vamos a Espanha, vemos aqueles prédios em tijolo e pensamos Claro, faz sentido, são quentes, acolhedores, com toldos, que agradáveis, como os espanhóis. Quando vamos a França, vemos aqueles prédios elegantes, educados, altivos, e agradáveis, também eles como os franceses, e pensamos Faz sentido. O mesmo para o resto dos lugares do mundo. Mas até hoje ainda não tinha percebido essa unidade absoluta das construções da nossa civilização. Agora percebi. É que todas as casas, prédios e construções portuguesas de qualquer tipo, parecem que foram banhadas pelo Mar. Pertencem a uma arquitectura marinha. Parece que cada tijolo foi banhado em água salgada, baptizado numa bacia que cada pedreiro tem do seu lado, antes de ser posto em cima dos anteriores, todos abençoados. E o mesmo para as tintas, dissolvidas em água do mar. E os azulejos, magníficos azulejos onde se podia surfar. Os prédios portugueses sabem a mar.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Provas

A cada dia que passa sou capaz de ver mais provas de que Deus existe.

Mas a questão não parece ser se existe.

A questao parece ser:

Sim, Existe. Mas o que fazer com isso?

terça-feira, 17 de março de 2009

Caminhar

Hoje vi um passarinho preto a levantar voo à frente do meu carro, quando eu ia na direcção dele na estrada.

Como deve ser maravilhoso voar. Deve ser parecido com nadar debaixo de água, quando impulsionamos o nosso corpo com os nossos movimentos e magicamente ele se move, navega.

Talvez os pássaros estejam já tão habituados a voar que não sintam mais essa excitação, essa maravilha, como especial. Tal como nós já não sentimos o andar.

Mas como é incrível também o andar.

Uma perna, outra perna, movimento. Em frente. Para trás. Lentamente, rápido, mais rápido.

De ora em diante vou tentar caminhar como se voasse. Glorificando o caminho valorizando-o. Percebendo que, como no ar, ele não existe antes de ser caminhado.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A loucura

A loucura é assim como quando nos enganamos a dizer uma palavra, só que em todas as coisas.



É preciso estar atento.

Agradecer

Nunca têm vontade de, se fosse possível, juntar na mesma sala todos os vossos antepassados até à pré-história e de lhes agradecer?

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ser para sempre uma criança

Quero ser para sempre uma criança: nunca parar de crescer.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Trocar de corpo

Uma vez quando estava no sétimo ano, perguntei à minha colega de carteira, que era a pior aluna da turma, se ela já pensara como seria se fosse possível por o nosso cérebro no corpo de outra pessoa e o dessa pessoa no nosso.

Ela respondeu Ficávamos a pensar com as ideias de outra pessoa.

terça-feira, 3 de março de 2009

As flores

As flores que dão menos trabalho são os cactos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O que arde

Para ele até àquele dia, O que arde cura significara sempre O que cura arde.

Ele tomava os charopes, mas pensava que meter os dedos na ficha não o ia ajudar na tosse. Ele achava até que o provérbio estava errado. Os seus pensamentos eram tristes nesses anos, e revelam a barbárie em que vivia.

Mas a Tradição, a mãe-de-tudo, a quem ele não hesitara voltar as costas, tinha algo guardado para ele, e fê-lo arder, arder.

E lá ia ele, pensando que escolhia os ardores e que, dentro deles, escolhia até os melhores.

Mas naquele dia ele não pode mais escolher e finalmente percebeu que a secular sapiência estava certa.

Todas as dores ensinam e afinal a sabedoria está ao alcance de todos. As pessoas que se sentem estúpidas que dêem uma cabeçada na parede e logo vêem.

Entre golpes que lhe tiraram pedaços do animal que nascera, sentiu vindos de todos os lados e a acertarem-lhe por dentro e por fora ardores que laqueavam artérias sem as quais afinal o sangue só fluia para onde devia.

Ele ouvira dizer, uma vez na televisão, que as pessoas saudáveis são aquelas que, em vez de ficarem paradas a pensar nas coisas, as vivem. Aquelas que não ficam a pensar durante anos Será que devo ter um filho? Será que mereço? Será que sou capaz? Sim? Não? acabando por ter um, mas sim as que têm o filho e pronto.

Talvez tenhamos então de ser um bocadinho menos saudáveis para ser melhores pensou ele.

Talvez tenhamos de ser um bocadinho doentes no corpo para podermos ser um bocadinho mais saudáveis na alma. Talvez até a própria ideia de saúde seja uma doença.

Talvez um animal-homem doente seja um humano-homem saudável.

Porque depois de arder, ele percebeu que afinal parecia que tudo o que nos mata um pouco nos faz maiores, como a dor do parto que mata fazendo a vida ficar maior.

Foi nesse dia que escreveu no caderno que sempre o acompanhava, no bolso: Direito número um dos homens: direito ao sofrimento.

Afinal os seus cabelos brancos não eram sinal de morte, mas de vida.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O equívoco

O equívoco começa nas pessoas não saberem que o comunismo é uma ramificação do cristianismo.

Continua em as pessoas acharem que o folclore português são só os Pauliteiros de Miranda.

Acaba em as pessoas pressistirem em chamar cantor de intrevenção ao Zeca Afonso.

Começa mesmo a doer. Cantor de intrevenção, tipo Polícia de intervenção.

A questão é em Portugal a Arte continuar a ser confundida com política. O José Saramago é o da esquerda, o António Lobo Antunes é o do centro, a Agustina Bessa-Luís é a da direita.

Se em Portugal se soubesse o que significa Arte, já se tinha percebido que o Zeca Afonso era um dos maiores de sempre.

Na triste e limitadora necessidade de definições da tradição ango-saxónica de rotular e empacotar tudo como quem embala para o capitalismo, chamemos-lhe pelo menos músico folk (que tal inventarmos folc, para o folclore português?).

A primeira canção que o Bob Dylan escreveu era sobre um sindicalista de esquerda que foi assassinado lá numas minas nos Estados Unidos. O Bob Dylan também é um cantor de intervenção? Pelo menos o capitalismo salvou-o de ser.

Porque, sim, o Zeca era comunista, mas isso é só um partido, uma ideologia. Coisas menores quando comparadas com a Arte.

A relação com o divino, que o comunismo não lhe permitiria, está nas canções. A dor. O amor. A vida. O drama. A sobrevivência. A potência do sentir. A saudade. A inteligência. A luta por aquilo em que se acredita. O olhar que atravessa as barreiras e concilia o inconciliado.

É que a alma dele era muito maior. Eu nem sei bem de que tamanho era.


Por José Afonso


Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria

Desde então a lavrar
No meu peito a alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

As poças de lama

Eu trabalho à noite. Saio por volta das quatro e meia da manhã. A hora de saída que está combinada é às quatro, mas uma pessoa acaba sempre por ficar mais uns minutos a arrumar as coisas e à conversa.

Aconteceu que hoje saí mais cedo. Eram umas três horas quando o patrão disse que por hoje estávamos terminados. E por hoje terminados arrumei as coisas. E saí.

Este inverno tem chovido imenso em Lisboa. Todos os dias chove e a humidade no ar é imensa, parece que conseguimos comê-la. Além disso, está muito frio. Atravessava a IC19, vazia (uma visão incrível). Chovia. Aquela estrada tão deserta e eu ali, o seu único dono. Aquela estrada tão deserta e eu a sentir-me tão sozinho.

Pensei que ainda queria ver alguma pessoa antes de ir dormir. Algum ser humano, alguém vivo. Antes de partir para o dia de amanhã, queria sentir que hoje ainda olhava para alguém que nunca tivesse visto antes, ou que fazia alguma coisa que nunca tinha feito.

Ia na IC19 e saí na primeira saída que apareceu. Fui conduzindo pelo subúrbio a dentro, sem saber para onde ia. Fui atravessando as ruas desertas e húmidas, iluminadas pela luz quente laranja.

Não sei como é ao pé das vossas casas, nem que cor vocês associam à noite. Mas aqui nos subúrbios, à noite é tudo laranja. As luzes laranja reflectiam-se nas poças de água na estrada escura, nas janelas escuras e nas montras escuras. Ninguém na rua. Não encontrei nem uma pessoa.

Caramba, nem um gangue! No meu tempo, no subúrbio à noite, havia gangues. Haviam grupos de pessoal novo a atirar caixotes do lixo para a estrada. Havia pessoal sentado em muros a fumar charros. Agora já não há nada. Só pilhas e pilhas de janelas sem luz amontoadas em forma de prédios (às vezes, com sorte, vemos a meio da noite uma luz de cozinha acesa - basta ver a cor da luz para se saber que é uma cozinha, assim uma espécie de branco embaciado - onde alguma mulher bebe chocolate quente por não conseguir dormir ou algum filho se masturba - nesses casos normalmente só vemos a luz da televisão acesa).

À noite no subúrbio, não se vendo gente, vemos milhões de carros vazios, assim uma espécie de carcaças abandonadas que são os corpos reais das pessoas que ficam ali quando elas se despem e levam o essencial para casa.

Que não haja ninguém na rua por estar frio eu ainda posso tentar perceber, mas que à noite no subúrbio, já nem nos carros se veja animação? É muito triste. Nem um só vidro de carro embaciado, nem um só par de pernas nuas oscilando. Depois dizem que não há bebés. Se não se faz amor à noite faz-se quando?

Antigamente, no subúrbio, fossem gangues, fossem apaixonados, havia pelo menos pessoas que escolhiam ser livres, tanto quanto podiam. Não eram capitalistas. Mesmo que fossem só adolescentes, eram pessoas que escolhiam não se limitar a seguir um plano. Tinham a ousadia de sair de casa à hora que quisessem. A grande coragem de se abrir às experiêcias de vida e à natureza selvagem e incontrolável do Ser Humano. Felizes nós porque já não há bandidos à noite na rua. Sim, não há porque estão presos a um estilo de vida que nos afasta uns dos outros. Presos à solidão.


Continuei a conduzir. A ver os prédios, as lojas, os cantos misteriosos. E foi assim que cheguei à minha escola primária.

A penúltima vez que lá tinha ido fora há uns dois anos. A última, foi num sonho que tive o Verão passado quando dormi na casa nova do meu amigo mais antigo, com quem passei a escola primária.

Não sei como acontece com vocês, mas comigo, eu sonho sempre com os lugares muito adulterados em relação à realidade. Nos meus sonhos, todos os lugares são uma construção enorme, grandiosa, épica e labiríntica sobre a estrutura base do lugar com que sonho.

Mas vendo a minha escola primária, às três e tal da manhã, cá de fora das grades, ela parecia igual ao sonho. A minha escola primária estava mais real do que a realidade!

Andei de carro à volta dela. Parei o carro e saí. Ali estava eu, um grandecíssimo homem, enorme e de barba, que se eu vira ali à quinze anos atrás me faria sentir muito medo.

Olhei através das grades, à procura da árvore à qual trepávamos, eu e os meus amigos, que se chamava Casa da Árvore. E ela está lá. Vinte anos depois. E também cresceu. Está já velha, desgastada e enfraquecida. No meio de coisas novas.

Olhei melhor e agora vi muitos lugares que não reconheci, muitos espaços que não pareciam os mesmos. Pensei em saltar a grade da escola, mas não saltei. Queria partir à descoberta daquele lugar da minha infância.

Continuei a olhar, a tentar distinguir algo conhecido no escuro. E foi aí que as vi. Num cantinho escuro do pátio, entre dois muros, no espaço de uns quatro metros quadrados, continuam a formar-se, com a chuva e a terra, as mesmas poças de lama de sempre.

Vinte anos de poças de lama no mesmo lugar.

Uma das memórias antigas que tenho daquele espaço (que é muito mais que uma escola) é de, no cantinho ao pé da Casa da Árvore, passar a correr por cima das grandes poças de lama, atrás de outro menino com um pau na mão, um rapaz de óculos redondos um ano mais velho que eu (que hoje continuo a ver passar na rua e com quem nunca falei), com uma camisola vermelha rota debaixo do braço, no sovaco, coisa que eu nunca vira antes, e de eu pensar Como é que ele fez aquele buraco debaixo do braço? e de ele começar a atirar bolas de lama para os outros e eu e mais dois amigos nos desviarmos para não apanharmos também, porque as nossas mães iam ficar lixadas se chegássemos com uma bola de lama estampada nas nossas camisolas. Isto depois de termos estado a brincar à volta das grandes poças de água e lama que ali sempre se formavam enquanto começara já a chover e as contínuas já tinham chamado todos os meninos mas nós tínhamos desobedecido e ficado ali sozinhos até termos ficado só nós, rebeldes, o silêncio cinzento e a chuva, naquele lugar algo escondido (sim, porque as minhas escolas sempre foram construídas em terrenos íngremes, pelo que tinham montes de patamares que permitiam milhares de esconderijos), a sentirmos o recreio vazio, a brincar ao som da água a cair, com um silêncio próximo do que ouvi esta noite enquanto olhava para aquelas mesmas poças, que não esperava jamais reencontrar, que só vi por, no escuro, reflectirem as luzes laranja do meu país à noite.

E foi naquelas poças que encontrei a pessoa que estava à procura de ver antes de dormir. Esta noite recolhi o menino que me pareceu que tinha ficado vinte anos ali, à chuva e ao frio, com a camisola suja de lama e as costas molhadas, à porta da escola à minha espera, e que eu me tinha esquecido de vir buscar.

Abri-lhe a porta. Entrámos os dois no carro. E partimos.

Ao voltar para casa, no meu carro preto de pára-choques rebentado, senti uma força estranha no peito. Sabem aquela sensação, quando é Natal, de que o Natal veio demasiado cedo este ano? É que sinto que para mim o Natal foi hoje. O dia em que senti que era Natal foi hoje. Senti-o tão forte. Apetece-me estar com a minha família à volta de uma lareira a dar presentes, com crianças à minha volta. Talvez seja isso. Não há Natal sem crianças.

A minha ex-namorada não é do subúrbio. Uma pessoa impaciente e ansiosa, andou numa escola primária noutra parte da cidade. A escola primária em que ela andou já não existe. Foi transformada numa rotunda, ao pé da casa dela. Por isso esta noite, dois anos ou mais depois, perdoo-lhe tudo.


PS: Os erros ortográficos deste texto não são só culpa deste computador não ter corretor ortográfico. Também são saudosismo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O som do mundo

Foi por acaso que fiquei muitos dias sem me cruzar com uma televisão e que, nesses dias, também não ouvi rádio, não pus discos a tocar e o meu telemóvel esteve sem som.

E nem sequer teria dado conta de nada disto. Ou não tivesse subitamente, de um segundo para o outro, deixado de ouvir barulhos. Num segundo de pura lucidez sensorial, desapareceram aquelas canções que trauteava interiormente em frenesim, repetidas sem parar a todas as horas do dia. Deixei de ouvir um constante genérico de filme a passar na minha cabeça. Como se o ruído tivesse sido desligado. Como se tivese ficado surdo instantaneamente.

Mas não era surdez. De repente tudo tinha um som.

Estava sentado em silêncio e num sopro comecei a ouvir o Mundo.

E tudo passou a ouvir-se. Todos os objectos passaram a estar presentes, e eu ganhei uma nova forma de os sentir. Os sons naturais passaram a ser uma sinfonia e recuperei a minha ligação com o mundo.

E digo-vos, o som do Mundo é alucinantemente belo.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A alma da pátria

Portugal, este país-pergunta. Este país-mistério. Este país que nenhum de nós compreende e que é tão fascinante. O país que criou o Brasil (!), o país minúsculo que rebentou na Ibéria e nasceu à força de querer existir. Um país que ninguém sabe o que está a fazer. Um país que cada vez mais parece só Alma. Cada vez mais pobres, cada vez mais humildes (humildade é virtude). Um país que não é só o seu povo, nem só as suas elites, um país que é uma ideia incrível.

Um país mistério que ninguém sabe para onde vai. E a porta desse país, a porta da Europa para a vastidão do mundo, tem agora devolvida a si a sua proa, o Cais das Colunas. Mas as indecisões quanto ao futuro do Terreiro do Paço são o símbolo da indecisão do que fazer a este país que o contém.

Há muita gente que acha que se devia tornar o Terreiro do Paço numa espécie de grande esplanada à espanhola. Consagrariamos assim definitivamente a boémia nacional e assumiríamos que somos uma nação de foliões. Podia ser bom. Há também quem ache que talvez se devesse tirar de lá os ministérios e fazer, quem sabe, uns hotéis para ingleses, umas lojas caras, à fracesa, dando assim sentido ao nome Praça do Comércio. Poderíamos assumir assim melhor a nossa humildade e carácter servil, e ser criados dos ricos. Porque quem leu o que disse Jesus sabe que a pobreza é uma virtude. Há ainda, quem sabe, outras opções, como fazer dele, por exemplo, um jardim, num estilo mais ecologista tipo norte da Europa.

Eu não sei, mas acho que não. Acho que devíamos simplesmente limpá-lo, tirar lá os carros a passar à volta, conferir-lhe a dignidade do silêncio, e deixá-lo como está, consagrando-o definitivamente como um símbolo da alma de portugal. Um relicário da nossa identidade. E deixá-lo em repouso, no mais próximo que se conseguisse de torná-lo um Templo. Sempre iluminado à noite como tem estado, de frente para o mundo, um país que é uma porta aberta para o oceano. Com aquele relógio no meio de anjos, a contar o tique-taque do nosso futuro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Excerto de uma carta a uma pessoa muito especial


Pois é -------, sinto ter dentro de mim uma estrela que brilha cada vez mais forte e mais pesada (mas de um peso bom) e que me faz forte (fortíssimo) para enfrentar tudo na vida. Acho que se chama felicidade.

O sentido da vida

Procurar a dignidade a cada momento.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A cura para o ateísmo

A tal falta de provas de que Deus existe é a mesma falta de provas de que Deus não existe.

A única coisa que podemos provar é que não sabemos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ano novo com amigos velhos

O primeiro chá do ano foi tomado com os meus amigos.

Os amigos e amigas verdadeiros. Os que o quiseram tomar comigo.

A um ano completamente novo. É mentira que não seja nada de especial o que aí vem. É o futuro. A possibilidade de fazermos da vida de todos o que formos capazes.

No entanto, cheguei a pensar que 2009 seria nunca mais voltar a dormir. Depois de o novo ano chegar exactamente no mesmo lugar onde tinha chegado 2008, 365 dias antes, fomos repousar.

Dei por mim sozinho, numa cama de casal, num quarto antigo, com uma humidade antiga (da Serra de Sintra que é a nossa casa), onde antes dormiam os bisavós da minha querida amiga.

Sozinho. Eu, que acredito tão pouco em dormir sozinho.

Dormir só é divino se estivermos com alguém. Se não é só utilitário. E isso é feio. Dormir abraçado, dormir aninhado, dormir aconchegado, dormir amado, dormir partilhado. Cheios do calor que é humano. Isto é que é digno. Partilharmos juntos a inevitabilidade de sermos humanos e mortais. O respirar. A pele. Impossível sozinho.

Por isso não dormi.

Eu nunca tive insónias. Adormeço mal chego à cama, vou para a cama quando tenho sono. Durmo e é bom. Dormir é maravilhoso.

Mas ali estava eu, só comigo. Só numa cama desconhecida, num ano desconhecido. Os meus amigos dormiam nos quartos à volta e ouvia-os respirar e era bom senti-los nisso. Os amigos e amigas a mudarem de posição na cama. As camas a estalarem de serem antigas e eu com 365 dias em que pensar.

Este ano fomos menos que no ano anterior. Muitos amigas e amigos nossos estavam noutras casas, noutras festas, noutros lugares, com outras pessoas. Pessoas de quem, quero acreditar, não gostam mais do que gostam de nós. Mas o capitalismo destrói tudo.


Como o aquecedor que o meu patrão tem em casa. Quando todos os outros aquecedores do mundo falharam com ele, avariados por este desolador Inverno, o aquecedor do quarto de adolescente dele, com mais de vinte anos, resistiu. É ainda hoje esse que o aquece. Todos os outros eram mais recentes. Ainda há quem ache que o que é novo é bom só por ser novo?

No capitalismo, é preciso vender. Logo, as vendas não podem parar. Não basta o ritmo da vida humano, das pessoas - vender um aquecedor, um computador, um sofá, uma caneca de chá por pessoa que dure para toda a sua vida, e até para os filhos, netos, bisnetos. Não. Ao capitalismo o ritmo humano não chega.

As vendas não podem parar. Por isso é preciso vender muito mais que um. Como as pessoas não são estúpidas, a única forma de nos obrigar a fazê-lo foi pôr prazos de validade às coisas. Tudo é construído para se estragar. Primeiro estragava ao fim de dez anos. Depois cinco. Agora dois. Espero estar enganado, mas ainda vamos ver aquecedores descartáveis de uma utilização. Um aparelhinho que se activa, aquece a sala e depois se deita fora. Um dia tudo vai ser consumível e, por isso, além de gerar lixo, será etéreo.

Quando tudo é etéreo, o tempo perde o seu valor. E sem o tempo, nada se pode construir. Quando somos apenas uns repositores de produtos, sentimentos, sensações, não temos nada para pôr em cima do que estava antes. Se temos constantemente de repor o básico nunca chegamos ao que vem depois. Ao grandioso. À vida humana.

Porque se não percebemos o tempo, também não percebemos que vamos morrer. E que antes de morrer temos de viver aquilo que queremos realmente viver, e não outras coisas. E que para viver essas coisas, é preciso tempo, para as construir.

É por vivermos numa sociedade sem tempo que é cada vez mais difícil fazer amigos. E mais difícil ainda, encontrar o amor de uma pessoa. (no amor, fazer e manter são sinónimos).

O amor - seja por um aquecedor, por um amigo ou por uma mulher - precisa de tempo. Nesta sociedade em que tudo é substituível, onde há gente que muda de casa de dois em dois anos (não sei como isto é possível - chamam-me materialista por ser apegado aos objectos importantes, mas materialismo é é ser capaz de mudar de casa e de carro e gostar), há gente que por eles, imagino que se pudessem, mudavam até de Mãe e de Pai todos os meses. Como mudam de mulher. E de amigos.

Com o consumo e os horários de trabalho, o capitalismo tirou-nos a capacidade de perceber que a vida é uma unidade única e contínua e não se divide em dias, como pensamos.

É assim que o capitalismo nos escraviza. Porque nos impede de construir coisas. De dar um passo hoje. Outro amanhã. Outro depois. E continuar assim durante vinte anos - o período áureo de cada pessoa - sem parar e, quem sabe, tornar-se um grande guitarrista, escrever um livro, ou fazer um filme. Isso é que é ser livre. Mas não. Hoje a vida é no máximo escrever num blogue. Compartimentando tudo em dias, em pequenas unidades, para que possam ser consumidas em pequenas doses, pois o corpo já não aguenta mais que uns dois ou três parágrafos. Os livros só ainda não são vendidos em fascículos com um capítulo cada porque no capitalismo as pessoas não são cultas e por isso não compram livros.


E é por isso que há pessoas que passam a Passagem de Ano com pessoas que não são os seus amigos. Que mal conhecem. E com quem nem gostam muito de estar. Mas toda a gente está solteira. E com o capitalismo é preciso aproveitar cada tempo livre, cada feriado, cada meia hora, para engatar. É preciso engatar gajas. É preciso engatar sem fim para se poder dormir acompanhado. Eu escolhi dormir sozinho, mas estar com os meus amigos nas doze badaladas. Com os meus amigos e amigas e com mais ninguém. Com nenhum desconhecido (havia o namorado de uma das minhas melhores amigas mas namorados são família).


E é pelos mesmos motivos que toda a gente está também tão empenhada em destruir o Natal. É bom destruir a Passagem de Ano, mas aos destruidores, dar cabo do Natal dá ainda mais prazer.

Nos dias que o antecederam, cada vez que liguei a rádio, havia alguém a destruir o Natal. Primeiro foi um jovem cozinheiro, a quem perguntaram, risonhos, aqueles que ainda acreditam Então e receitas para a consoada? Ao que o senhor responde, nervoso Ahh, eu não gosto do Natal, acho uma época muito hipócrita, desagradável, para mim são as mesmas receitas do resto do ano. Este cozinheiro não sabe certamente que a função mais digna do seu ofício da comida é ser elemento de união das pessoas em família, e que, ao contrário do que ele pensa porque certamente está sozinho, isto é mais importante que os prazeres egocêntricos de comer um delicioso rosbife.

No dia seguinte, foi o José Luis Peixoto, a quem pediram Então e umas canções de Natal, o que é que nos trazes? (talvez por saberem que no fundo as pessoas boas gostam do Natal, os locutores de rádio apelam todos ao espírito, mesmo que não sejam pessoas boas. E isso é bom e faz-lhes bem) ao que o escritor responde Ahh, eu gosto sempre de desconstruir o Natal e por isso trouxe aqui umas músicas diferentes, umas coisas africanas. Desconstruir o Natal? Mas o Natal precisa é de ser construído. O Natal é uma construção tão bonita, de que serve desmanchá-la? Desconstruí-la?

Um dia em que pelo menos em metade do mundo as pessoas apanham aviões, atravessam oceanos ou longos quilómetros de carro ou até só o centro da cidade, seja o que for, para estarem todas reunidas em família, numa lógica completamente anti-produtiva no sentido capitalista da expressão, apenas guiados pelo seu amor e vontade de estarem com a sua família, de volta à sua tribo, as pessoas que são sangue do seu sangue, não é um acontecimento espectacularmente bonito e original? Eu acho que é.

Dão-se prendas. Mais bonito ainda. Só vê nisto capitalismo quem é pobre de espírito (literalmente).

Fui à Livraria Bertrand comprar um livro para oferecer à minha adorada avó. Fui dos primeiros clientes do dia 24 de Dezembro. Estava lá às Nove e Trinta da manhã. Entro na estimada loja e a primeira coisa que oiço são os empregados a comentarem com o segurança, zangados O Natal é o pior dia do ano! enquanto arrastavam ao pontapé caixotes de livros. Fui à Fnac. Na caixa, estou a pagar e despeço-me da senhora da caixa com um sorridente Então feliz Natal, felicidades ao que me responde O Natal? Tomara que passe..

Os desconstruidores do Natal estão a ter um tal sucesso na sua empreitada, que conheço até pessoas que este ano não fizeram árvore de Natal. Adivinhe-se, foi para não gastar dinheiro em electricidade. Outros, por motivos ecológicos. Mas o capitalismo já pôs as pessoas todas doidas?

As pessoas que conspiram contra o Natal são as que não percebem que é o dia mais original do ano inteiro, em que tudo é mais diferente, em que as regras se invertem e na véspera do qual, ironicamente, é mais divertido trabalhar caso se trabalhe numa loja. No ano passado trabalhei numa perfumaria dia 24, aquilo é que foi diversão. O triplo dos funcionários na loja, todos em galhofa, como se estivessem perante uma guerra sem vítimas e por isso divertida. Uma multidão de pessoas, uma confusão anárquica de compras e de coisas a serem feitas. Os enfeites de Natal. Clientes fantásticos que há vários anos que só compram perfume naquele dia do ano. Mas sobre perfumes falo noutro dia.


Para mim, a Passagem do Ano é como um Natal para os amigos. Mas os amigos dignos desse nome, os verdadeiros, os de sempre, a família não-biológica. É por isso que não compreendo como podem as pessoas preferir passar o ano com conhecidos com quem podem estar todo o resto do ano. Seja a ver fogos de artifício, seja a fazer sexo, seja bêbados ou a dançar. Só pode ser com amigos. Passar o ano a conhecer pessoas novas é um desastre. É o único dia em que não se fazem novos amigos.

É, sim, o dia em que os amigos se juntam todos e pensam - por gestos e não por palavras - no que significa a vida que viveram juntos. Que partilharam todos estes anos. Que é de todos mas é uma só, porque sem um amigo não havia o outro.

Podem fazer-se viagens para o estrangeiro noutras férias. No Natal está-se com as pessoas com quem se deve estar (goste-se delas ou não se goste, o dever é tentar que a família funcione) e na Passagem de Ano está-se com as pessoas de quem se gosta. A não ser que não se tenha família e não se goste de ninguém.


Foi nisto que pensei quando estava ali na cama, com os meus amigos a dormirem à minha volta, naquela casa de pedra antiga.

Pensei que com a família e o patrão, são a maior riqueza que eu tenho.

Feliz ano novo para todos.

E profundamente obrigado aos meus quatro leitores por visitarem este blogue.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Palavras

É impressão minha ou a palavra asceta é muito pomposa para um asceta?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Amar é gostar de não receber só porque é aquela pessoa

Um dia ela disse-me que só se sentia segura no amor quando ele adivinhava tudo o que ela sentia.

E aí, jesus, o amor era deslumbrante. Aí o amor era uma corrida dos dois amantes pela cidade (onde se passavam a sentir e a portar como se estivessem no seu quarto - uma cidade conquistada à força da paixão) e uma corrida pelo quarto (que se tornava a sua cidade, cheio de lugares novos para descobrir).

Mas quando ele não adivinhava o que ela estava a sentir, ela sentia-se muito insegura.

Quando ela ficava triste e ele não adivinhava o gesto simples e concreto que tinha de fazer para a deixar feliz ela naturalmente ficava triste, como se esse fosse o seu estado natural sem ele. Porque quando ele não a adivinhava era como se não estivesse com ela. Ela só o sentia quando ele a adivinhava. Como uma flor para ser regada - e as flores não se regam sozinhas - ela sabia que o trabalho do amante era adivinhar como regá-la. E ela estava certa.

Esse é o bom amante. O amante que é como a chuva - porque a quer ter cuidada e só para si e não uma flor selvagem, que bebe a sua água aqui e ali e até da terra que outros pisaram.

Ele queria que ela só bebesse da sua água, só que não sabia ser como a chuva.

Mas os maus amantes são, ainda assim, amantes.
Os amantes não conseguem ser felizes um sem o outro. Mas por estarem infelizes não são menos amantes. Não conseguir também é amar. Sim. O trabalho um do outro é regarem-se mutuamente, se querem ser um sistema único. Só que o mau amante é aquele que não adivinha tudo, mas que, ainda assim, tenta.

O mau amante é mais difícil de amar. Mas não se ama menos. É só mais difícil. Mas o mau amante não está sozinho no seu mal amar, se não não tinha o nome que tem.

E como se sofre por amar um mau amante!

É um amor sofrido, desgastante, ensopado de outras regas.

Sim, ela sabia que ela própria também não adivinhava tudo o que ele sentia. E sabia até que isso não era por o amar pouco. Mas isso não a impedia de ficar insegura quando ele não a adivinhava. Ela queria era sentir-se amada, o resto não interessava. A reciprocidade do mal amar nunca foi reconfortante.

Ele dizia à beira do choro Mas explica-me, o que posso fazer para te fazer feliz? Mas o pobre não sabia que a única coisa que tinha a fazer era justamente não perguntar e adivinhar. Pois o que tinha de ser feito não podia ser dito. Há coisas que não se podem dizer assim. Se se dissessem morriam, como se o silêncio fosse o seu oxigénio.

Uma coisa eles sabiam. Só estavam felizes quando o outro estava feliz.

Passou muito tempo. Infelizes juntos, amavam. E eles batalharam, batalharam por se amarem melhor. Mas seria mentira dizer que passaram a conseguir adivinhar tudo o que o outro pensava.

Não conseguiram e houve um dia que desistiram.

Nesse dia, ao contrário do que esperavam, o amor não se foi embora.

O amor ficou e batalhava, batalhava sozinho contra eles, para se manter vivo. Eles bem o tentaram matar, como se mata um bebé porque nos faz perder o juízo e não nos permite descontrair. Tentaram afogá-lo em lágrimas. Ou gritar-lhe até ele ficar surdo - como se talvez aí desistisse de os chatear - mas ele continou lá, a berrar, a dizer Eu estou vivo.

Decidiram aceitá-lo. Não havia nada a fazer. Não se mata o que é imortal. Acolheram-no e afastaram-se um do outro. Mas claro que a distância não matou o que está em todo o lado.

Passou tempo. Aproximaram-se.

Houve mais um dia em que, como tantos outros, ela estava triste. Como em tantos outros, ele não percebeu. E foi igual a todos os outros. Tão igual, tão igual, que só aí ela viu o que nunca tinha visto. Numa tristeza igual à primeira tisteza de todas.

E da soma de duas coisas iguais nasceu uma diferente.

O amor.

Desta vez, ela lembrou-se da priemira vez em que ele não a percebeu. O tempo tinha passado. Lembrou-se daquela vez que se sentiu tão sozinha e de como ele tentou tanto tanto, sem nunca conseguir percebê-la.

E o quanto ela o amou quando se lembrou do jeito dele de não a perceber! Aquela cara de indiferença dele, ali, igual a sempre, e agora ela só sentia o amor. Aquela cara de alheamento dele, como quem não está nem ali, como quem nem a vê, como quem está sozinho, sendo ele próprio e ela so via amor. Amor. Amor.

Passou a conseguir ser feliz também quando ele, apesar de a amar, não a compreendia. Foi assim. Até lhe pareceu que foi de um momento para o outro (mesmo que não tenha sido).

E foi assim que passou pela primeira vez, não a amar, mas a amar outra pessoa e não a si mesma.

Deixou de amar como uma flor e passou a amar como uma árvore. Sentiu algo maior que ela, pela primeira vez. Algo que não era só o que ela tinha previsto antes, o que ela tinha pensado antes, o que ela já sabia que queria. Não. Algo novo. Percebeu como tinha sido burra. Percebeu como isso não tinha mal agora que já não era.

Ela estava a amar alguém diferente dela, alguém que não correspondia ao seu perfil traçado como objectivo, racionalmente naquele caderno de quando tinha dezassete anos. Pela primeira vez, ela amou alguém por essa pessoa ser quem era e não por se encaixar na lista de itens que ela tinha traçado para o amor da sua vida.

O amor deixou de ser um objectivo e passou a ser um estado.

Nesse momento ela percebeu que o amor é avassalador e é amor porque destói todas as nossas listas de adjectivos idealizadas, porque ao trazer o que é novo, desconhecido e imprevisto traz consigo a vida.

A vida deliciosa, imprevista, nova. E foi assim que ela se passou a conhecer melhor. A saber quem era porque amou algo que não conhecia. Algo que ainda não sabia.

Nesse dia, ela saiu pela primeira vez do egoismo. E gostou.