terça-feira, 13 de maio de 2014
Memória de outro tamanho
O nosso desejo de salas grandes, monumentos imensos e pradarias sem fim ser afinal uma memória. De quando éramos pequenos.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
São sempre precisos Dois para um diálogo.
Uma vez no Rio de Janeiro perguntei ao meu amigo que era filho de pais portugueses, que tinha crescido em França e que estava a viver há um ano e tal no Rio, em que língua ele pensava. Ele disse-me que às vezes dava por si a pensar em inglês.
Uns anos mais tarde, no tempo em que estive mais enamorado, por uma moça que era de outra terra, no primeiro dia desse amor tive de ir de manhã tratar de um documento às finanças a Queluz, numa época em que estava tudo em obras e a repartição era nuns barracões pré-fabricados à volta da estação, e fiz toda a viagem de comboio e passei todo o tempo a conversar com a minha amada na minha cabeça, sozinho, explicando-lhe que lugares eram aqueles, o que já neles vivera, e quais as regras daquela terra.
Eu ainda não sabia que iria um dia ter um ofício internacional, que me faria passar todo o dia a falar com estrangeiros, o ano inteiro a viajar, e que um dia grande parte dos meus amigos mais íntimos seriam estrangeiros. Não sabia que um dia, enquanto vestiria o pijama, iria dar por mim a pensar em inglês.
Percebi nesse instante estarmos a falar com alguém sempre que pensamos. Quando estamos enamorados, falamos com o amado. Muitas das vezes estamos a falar com os nossos pais, ou com os nossos chefes ou colegas de trabalho. Mas com quem estamos a falar a maior parte do tempo?
Com quem estamos a falar quando pensamos que estamos a falar sozinhos? Quando pensamos que estamos a pensar? São sempre precisos Dois para uma conversa.
Com quem estamos a falar quando pensamos que estamos a falar sozinhos? Quando pensamos que estamos a pensar? São sempre precisos Dois para uma conversa.
E antes de haver as palavras, com quem eram trocados os sentidos que brotavam dentro da cabeça dos senhores de há muito muito tempo? Será que pensavam por gestos? Por grunhidos?
De quem era a língua em que falavam?
De quem era a língua em que falavam?
sábado, 2 de novembro de 2013
Condenados a acreditar
Condenados a que saber seja acreditar, não há então razão para identificar algo como crença como se tudo o resto não o fosse.
A não ser que seja para desacreditar.
A não ser que seja para desacreditar.
sábado, 19 de outubro de 2013
Ela, que os tinha 40, quando a vi pela primeira vez no escuro pareceu-me ter 16 anos
No escuro somos todos crianças.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Passarmos pela primeira vez sem sabermos
Passarmos pela primeira vez sem sabermos e descobrirmos no fim, porque foi diferente, que foi uma coisa nova.
Como quando nos cruzamos pela primeira vez com um poema de determinado autor, sobre quem nunca pensámos e nada sabemos, e de repente, acabámos de ler um poema do Hölderlin pela primeira vez.
E é como um cheiro estranho que sentimos subitamente, uma dor num sítio onde nunca nos tinha doído, ou talvez o primeiro período.
E depois a irreversibilidade, e um serão comum, um passeio no campo ou uma ida aos correios, subitamente ficará connosco para sempre.
Deve ter sido sempre assim, e continuar a sê-lo, com as coisas que, consoante as necessidades da época, são menos valorizadas — e portanto, não antecipadas — pela sociedade em nós.
Vivemos as coisas na primeira vez que ouvimos falar delas e chama-se a isso cultura. E portanto de tudo o quanto é desprezado mantêm-se puras as primeiras vezes, e nelas a liberdade de sofrer as consequências da ignorância.
Como alguém que descobrisse por acidente a sensação do toque da mão alheia entre as suas pernas.
A cultura que conseguimos ter hoje tirou-nos o sexo ingénuo, sem carga exterior, sem mais nada.
Mas deixou-nos os poemas.
Ainda há tantas coisas das quais somos virgens.
(e para as quais morreremos virgens)
((e o segredo dessas coisas é a nossa liberdade))
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Os
Talvez todos os plurais sejam generalizações.
Como esta.
Talvez todas as afirmações sejam generalizações.
Talvez mesmo todas as palavras.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Ideia para obra de arte inspirada no recente caso Snoeden de cuja o autor não tem forças para empreender decidindo desse modo de livre e expontânea vontade abortá-la tornando-a pública esperando assim não hajam repercussões que o impliquem nesse banal mas curioso caso
Escrever um poema sobre o segredo.
Abrir várias contas de e-mail anónimas no Gmail a partir de vários computadores públicos para não localizarem o meu IP.
Enviar o poema de umas contas para as outras com as palavras no assunto: CIA, Terrorism, Anonymous, Sabotage, Al Qaeda, etc.
Esperar, sem nunca poder saber (esperar, portanto, para sempre), que o poema fosse lido por um agente do pentágono, a quem este seria, natural e unicamente, dedicado.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
sábado, 22 de junho de 2013
Definição
Não te esqueças que amar é deixar de haver diferença entre amante e amado.
E que isso já é alguma coisa.
E que isso já é alguma coisa.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Oração
Fizeste-me tanta falta, estes meses todos.
Por onde andaste?
Estiveste sempre aqui, calada, sem perguntares nada. Como se não estivesses?
Não falei contigo e quase me fiz esquecer quem sou.
Não me senti sozinho. Mas senti que não estava lá.
Onde me vais levar agora? Fazes-me tão feliz.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Primeiro amor
Não há mais nenhum amor como o primeiro porque só o ingénuo pode amar, e quem poderá ser ingénuo se não antes do primeiro amor?
terça-feira, 11 de setembro de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
O tempo não vai justificar o quanto cresci
Ao acordar, cheiro na minha pele o cheiro da pele dos meus avós.
Penso naqueles que foram privados dos avós. Vão acordar um dia, sentir em si o cheiro, e não vão saber o que ele significa...
Penso no dia em que os meus avós acordaram e sentiram o seu cheiro de adultos pela primeira vez.
Quando a velhice de alguém deu amor à nossa infância, envelhecer traz-nos surpresas inesperdas.
domingo, 5 de agosto de 2012
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Não nos conhecemos
Com base naquilo que consigo saber hoje, parece-me que muitas vezes - não posso dizer todas, porque como poderia eu saber de todas as vezes? - aquilo que julgamos serem as nossas maiores qualidades são os nossos maiores defeitos.
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