sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Os pequeninos
terça-feira, 15 de Setembro de 2009
Uma tatuagem que tivesse que renovar todos os dias
No entanto, o compromisso real é aquele que pode ser desfeito e nós escolhemos não desafazer. Quando passa a uma obrigação deixa de estar vivo.
Um anel pode tirar-se, uma tatuagem não.
segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
Encontrar as ideias que faltam nos buracos entre as ideias que já tenho
Este mês, desde que te foste embora, tenho estado a descobrir as ideias que me faltam nos buracos entre as ideias que já tenho. Para te poder amar melhor.
Em Lisboa a tua marca ficou por toda a parte. Nos nossos passeios, unimos a cidade, como agora uno as minhas ideias, e nos dois casos é com contigo que o faço. A nossa mulher é a cola da nossa vida.
Contigo, porque para ti, consigo viver melhor. Tu que vieste de fora, deste-me o que já cá estava. Memórias para uma cidade inteira.
Agora, onde quer que eu vá, tu estás lá, à minha espera. Toda a cidade unida por ti, como se fosse a nossa casa e estivesses ora na sala ora na cozinha.
E fizeste a tudo na minha vida o que fizeste a Lisboa. Juntaste, colaste, aproximaste.
Quando não te tinha, procurava-te. Agora já não tenho de te procurar porque já estás em tudo. Agora tenho-te e posso finalmente viver.
Depois foste embora, mas não estás longe. O amor ficou. O que juntaste vai ficar para sempre junto.
Não escrevia desde que te vi pela primeira vez. Deus é o tempo, e Ele trouxe-te. Estive com Ele a aprender a amar-te melhor. Ficaria mais tempo. Dois anos para te dar um beijo. Ou foram vinte e três anos? Ou um dia?
É preciso tempo para amar.
Porque amar não é só o amor. É o antes e o depois. E se o amor for amor, cada depois é um antes, e cada antes é um depois.
Só a vida isso permite, porque só a vida é tempo, e só no tempo pode haver amor. Porque só a vida permite amar para sempre e só amar para sempre permite viver.
Obrigado, meu amor, por me dares a vida.
A nossa primeira mãe dá-nos a vida, a nossa segunda mãe é a mulher que nos dá o viver.
segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
quinta-feira, 2 de Julho de 2009
A origem do mal
Toda esta linguagem é boa. Com ela, quando esse sistema ruir, saber-se-há de que cultura veio o mal.
Mesmo no Brasil dizem cancer no lugar de câncro já com esta filosofia.
terça-feira, 23 de Junho de 2009
Erros
quarta-feira, 17 de Junho de 2009
domingo, 14 de Junho de 2009
Tua alma na gente
É por isso que não há homenagens. Nada mudou (desde o dia em que nos deste a possibilidade de ter uma verdadeira vida) desde esse dia de Santo António.
terça-feira, 9 de Junho de 2009
Á procura da nitidez
e à medida que a vida os transformasse,
o fossem alterando,
saberíamos todos como a morte vive connosco,
e passaríamos a valorizar muito mais cada momento vivos
e a saber quais são as nossas prioridades.
Se falares português e tiveres uma ideia incrível, é melhor escreveres uma canção, porque filosofar, só é possível em alemão
Língua,
de Caetano Veloso.
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
A Minha pátria é minha LÍNGUA!
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria!
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.
segunda-feira, 8 de Junho de 2009
quarta-feira, 3 de Junho de 2009
O Sol
Luz como aquela que vejo chegar agora.
terça-feira, 2 de Junho de 2009
segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Não saber
Só as nossas incertezas são nossas amigas.
As nossas dúvidas são a nossa maior riqueza.
domingo, 31 de Maio de 2009
Verão
No Verão a casa cheira a pinheiros. Nos corredores cheira a árvores e há vento. Há vento dentro de casa, e parece tão natural que dou comigo a nem me lembrar que não é sempre assim.
Oiço o vento. Carregado com sons de coisas a aconter. Coisas a acontecer dentro do próprio vento.
A cozinha da minha casa no Verão cheira a louro e a temperos e à minha mãe.
No Verão a rua e a cidade cheiram a família. Como as casas das famílias em que cada casa cheira de sua maneira - cheira àquela família, e sempre que lá vamos cheira a eles - e nos prédios o cheiro sente-se até do lado de cá da porta da rua, como nos meus visinhos de baixo da casa da Costa, em que todo o primeiro andar cheirava a eles, e na minha varanda, que dava para o quintal deles, cheirava também.
No Verão a rua cheira aos cheiros misturados de todas as famílias de pessoas. Talvez por as pessoas estarem todas de janelas abertas, ou por andarem todas na rua (adoro ver pessoas na rua, assim frescas, com pouca roupa).
No Verão, quando durmo de janela aberta, cheira a noite, a quente e a cidade, e consigo saber tudo o que se está a passar lá fora só pelos cheiros - e também pelas buzinas e pelos gritos das pessoas felizes.
Também gosto de gritos no Verão. Todos os gritos no Verão são bons. Não consigo imaginar um grito incomodativo no Verão. São sempre de felicidade.
sexta-feira, 22 de Maio de 2009
A democracia
A democracia é podermos viver todos juntos sendo diferentes.
As qualidades
Não descobri isto sozinho.
terça-feira, 19 de Maio de 2009
terça-feira, 12 de Maio de 2009
"O princípio de todos os males é a desatenção"
segunda-feira, 11 de Maio de 2009
segunda-feira, 4 de Maio de 2009
Arrependimento
Porque nada é para nada.
quarta-feira, 29 de Abril de 2009
O Amor é o Bem
Há imensas teorias sobre porque é que quando alguém namora ou está casado é sempre mais cobiçado que quando está solteiro (para desgraça do próprio).
Há teorias que falam sobre virilidade; sobre ser bom na cama; sobre o ser humano gostar de disputar o que é cobiçado; sobre alguém que está comprometido o estar porque é bom namorado ou marido e quem não está é porque há algo de errado com ele. Mas tudo isso são coisas menores. São só consequências da real coisa que faz essa pessoa ser assim, especial, brilhante. As pessoas comprometidas são combiçadas porque os outros sentem que o Amor está com elas.
E o Amor faz-nos bons. O amor faz-nos fazer as coisas bem. O Amor faz-nos Bem. O Amor é o Bem.
(As pessoas até ficam mais bonitas quando estão enamoradas...)
Li na internet uns textos disparatados que me deram a conhecer uma grande problemática darwinista do momento. Até é um pecado poético falar destas coisas assim, mas fa-lo-ei porque às vezes é preciso ir ganhar no terreno do adversário, não podemos ficar sempre em casa. A grande questão darwinista da semana é Porque é que as mulheres têm orgasmos?
Segundo eles e elas (também há senhoras a estudar o assunto), só os homens deviam tê-los, para que isso levásse à ejaculação, que é a sua função (é nestes momentos que se sente como a ciência é uma coisa que devia ser mais censurada que a pornografia).
As teorias dominantes falam de clitóris que são para as mulheres o que os mamilos são para os homens (que não tendo mamas também os têm). Como se o clitóris fosse uma coisa que ficou ali esquecida. Toda a gente que sabe o que é um clitóris, sabe que não é o mesmo que um mamilo.
Falam-se também de ursos. Teorias que comparam os Seres Humanos aos ursos, em que os machos dominantes têm mais tempo para copular e que portanto só esses dão orgasmos às fémeas, já que os outros têm de dar rapidinhas, ejacular e fugir quando o macho dominante se aproxima. Assim, a fémea ao ter orgasmos sabe que está com um grande macho dominante e que é com esse que deve ficar.
Havia outras teorias ainda mais ridículas.
Nenhuma me convenceu.
Se estes cientistas ainda fossem humanos, saberiam que, para nós, pessoas, a resposta é o Amor.
Saberiam que um homem que ama uma mulher deixa muitas vezes de sentir vontade de ter prazer com ela, deixa de olhar de maneira sexual para ela. Quem já amou sabe isto. Aquela vontade de ter prazer, que sente com todas as boazonas que passam na rua, desaparece com a pessoa amada. E falta de vontade de ter prazer é assim sinal de amor. Porque o homem que ama deixa de pensar em si. Deixa de pensar em si e no seu prazer e concentra-se só na mulher que ama e em fazê-la feliz, e em dar-lhe prazer a ela. Por isso as mulheres têm orgasmos, não para saberem que estão com o macho dominante, mas para saberem que estão com alguém que as ama.
Claro que há uma vida inteira de formas de dar amor que não têm nada a ver com orgasmos. Mas quanto mais enamorado, mais tenho a certeza que eles só podem ser para isso. Porque de facto, todas as outras utilizações que pudessem haver, são nada ao lado do Amor.
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Canção para o país do Mar
O seu povo está sempre em movimento, mas também não é nómada. É um povo que vive no mar.
À noite, vem a Terra. Para descansar na praia, à luz de uma fogueira, e partir em novas aventuras milenares. É um país que não fica em casa.
Um povo que sabe que, se cada povo fosse um órgão da Humanidade, ele seria certamente o Sangue.
Se fosse um povo da montanha, o seu país chamar-se-ia Montanhal.
Assim, chama-se Portugal. Nosso porto-pátria.
Esta canção é para esse país, por um muito sub-valorizado seu artista.
Queda do Império
por Vitorino
Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz
Foi nas ondas do mar
Do mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império mil almas
Por pau de canela e mazagão
Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja luanda
Sempre em flor.
quinta-feira, 23 de Abril de 2009
quarta-feira, 22 de Abril de 2009
quarta-feira, 15 de Abril de 2009
Histórias
Definições
Casa: o único lugar onde um homem pode chorar.
Envelhecer: gostar de viver.
terça-feira, 14 de Abril de 2009
Morte
sábado, 11 de Abril de 2009
Datas
sexta-feira, 10 de Abril de 2009
Para abrigar as feridas
quarta-feira, 8 de Abril de 2009
domingo, 5 de Abril de 2009
As desabraçadas
Estou no carro às 4:25 da manhã. Saí do trabalho.
Se esta fosse uma civilização digna, não havia a esta hora, no meu país inteiro, nenhuma mulher que não estivesse abraçada.
Mas não pareciam nada abraçadas as mulheres que eu via no passeio, a sair do Bairro Alto.
Especialmente aquela que deitada no chão vomitava para o lado, para os pés da amiga. Essa parecia bastante desabraçada.
O que é que ela está aqui a fazer? Como é que não há ninguém para a pegar ao colo?
sexta-feira, 3 de Abril de 2009
Distrair-se
As pessoas falam em distrair-se como se não soubessem que essa palavra significa estar desconcentrado.
quinta-feira, 2 de Abril de 2009
quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Os impostos
Até hoje nunca tinha compreendido a tentação de ter um negócio criminoso. Pensava Não é muito mais simples ter um negócio permitido pela lei?
Essa tentação só se compreende quando se começa a pagar impostos.
Qualquer opinião sobre a sociedade que não tenha isto em conta (e mais as outras tais centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto) não é válida.
Assumir isto é definir mais claramente os motivos pelos quais, sabendo-o, se continua a não ter um negócio criminoso.
terça-feira, 31 de Março de 2009
Amar
Por termos o previlégio de amar quem amamos.
segunda-feira, 30 de Março de 2009
Braços
Para poder viver
E saber aceitar.
Nenhuma decisão na nossa vida pode ser baseada nos defeitos das pessoas à nossa volta. Só nas qualidades.
Pois no topo dessa lista de pessoas não perfeitas, estamos sempre nós.
Aceitar os outros pensando como é que eles me aceitam a mim?
segunda-feira, 23 de Março de 2009
Isto para mim ainda é ontem
Mas confesso, gosto mesmo bué.
Quando se sai do trabalho às sete da manhã, as escadas do prédio cheiram a café.
Lá dentro das casas ouvimos as crianças a acordarem e as mães a mandarem-nas lavar os dentes.
E quando vamos de carro para casa, as outras pessoas conduzem ainda devagarinho, sem pressas nem ânsias, porque ainda estão a viver a pensar nos sonhos que tiveram.
Na rádio, os locutores ainda falam baixo, sussurram e dizem coisas meigas.
Na IC19, as pessoas que têm hortas na berma da estrada acabaram de chegar e esperguiçam-se antes de começaram a trabalhar. Da mesma maneira que um pouco antes se esperguiçavam os distribuidores de publicidades que estavam no Marquês de Pombal vestidos de esponjas de detergente CIF.
As madrugadas em Lisboa parecem um filme do Ozu.
As madrugadas são a mais bela parte do dia. Foi hoje quando vinha para casa, que a sua beleza me fez perceber finalmente como apreciar os prédios portugueses em toda sua beleza e sentido. Quando vamos a Espanha, vemos aqueles prédios em tijolo e pensamos Claro, faz sentido, são quentes, acolhedores, com toldos, que agradáveis, como os espanhóis. Quando vamos a França, vemos aqueles prédios elegantes, educados, altivos, e agradáveis, também eles como os franceses, e pensamos Faz sentido. O mesmo para o resto dos lugares do mundo. Mas até hoje ainda não tinha percebido essa unidade absoluta das construções da nossa civilização. Agora percebi. É que todas as casas, prédios e construções portuguesas de qualquer tipo, parecem que foram banhadas pelo Mar. Pertencem a uma arquitectura marinha. Parece que cada tijolo foi banhado em água salgada, baptizado numa bacia que cada pedreiro tem do seu lado, antes de ser posto em cima dos anteriores, todos abençoados. E o mesmo para as tintas, dissolvidas em água do mar. E os azulejos, magníficos azulejos onde se podia surfar. Os prédios portugueses sabem a mar.
quarta-feira, 18 de Março de 2009
Provas
Mas a questão não parece ser se existe.
A questao parece ser:
Sim, Existe. Mas o que fazer com isso?
terça-feira, 17 de Março de 2009
Caminhar
Como deve ser maravilhoso voar. Deve ser parecido com nadar debaixo de água, quando impulsionamos o nosso corpo com os nossos movimentos e magicamente ele se move, navega.
Talvez os pássaros estejam já tão habituados a voar que não sintam mais essa excitação, essa maravilha, como especial. Tal como nós já não sentimos o andar.
Mas como é incrível também o andar.
Uma perna, outra perna, movimento. Em frente. Para trás. Lentamente, rápido, mais rápido.
De ora em diante vou tentar caminhar como se voasse. Glorificando o caminho valorizando-o. Percebendo que, como no ar, ele não existe antes de ser caminhado.
segunda-feira, 9 de Março de 2009
A loucura
É preciso estar atento.
Agradecer
quinta-feira, 5 de Março de 2009
quarta-feira, 4 de Março de 2009
Trocar de corpo
Ela respondeu Ficávamos a pensar com as ideias de outra pessoa.
terça-feira, 3 de Março de 2009
quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
O que arde
Ele tomava os charopes, mas pensava que meter os dedos na ficha não o ia ajudar na tosse. Ele achava até que o provérbio estava errado. Os seus pensamentos eram tristes nesses anos, e revelam a barbárie em que vivia.
Mas a Tradição, a mãe-de-tudo, a quem ele não hesitara voltar as costas, tinha algo guardado para ele, e fê-lo arder, arder.
E lá ia ele, pensando que escolhia os ardores e que, dentro deles, escolhia até os melhores.
Mas naquele dia ele não pode mais escolher e finalmente percebeu que a secular sapiência estava certa.
Todas as dores ensinam e afinal a sabedoria está ao alcance de todos. As pessoas que se sentem estúpidas que dêem uma cabeçada na parede e logo vêem.
Entre golpes que lhe tiraram pedaços do animal que nascera, sentiu vindos de todos os lados e a acertarem-lhe por dentro e por fora ardores que laqueavam artérias sem as quais afinal o sangue só fluia para onde devia.
Ele ouvira dizer, uma vez na televisão, que as pessoas saudáveis são aquelas que, em vez de ficarem paradas a pensar nas coisas, as vivem. Aquelas que não ficam a pensar durante anos Será que devo ter um filho? Será que mereço? Será que sou capaz? Sim? Não? acabando por ter um, mas sim as que têm o filho e pronto.
Talvez tenhamos então de ser um bocadinho menos saudáveis para ser melhores pensou ele.
Talvez tenhamos de ser um bocadinho doentes no corpo para podermos ser um bocadinho mais saudáveis na alma. Talvez até a própria ideia de saúde seja uma doença.
Talvez um animal-homem doente seja um humano-homem saudável.
Porque depois de arder, ele percebeu que afinal parecia que tudo o que nos mata um pouco nos faz maiores, como a dor do parto que mata fazendo a vida ficar maior.
Foi nesse dia que escreveu no caderno que sempre o acompanhava, no bolso: Direito número um dos homens: direito ao sofrimento.
Afinal os seus cabelos brancos não eram sinal de morte, mas de vida.
quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
O equívoco
Continua em as pessoas acharem que o folclore português são só os Pauliteiros de Miranda.
Acaba em as pessoas pressistirem em chamar cantor de intrevenção ao Zeca Afonso.
Começa mesmo a doer. Cantor de intrevenção, tipo Polícia de intervenção.
A questão é em Portugal a Arte continuar a ser confundida com política. O José Saramago é o da esquerda, o António Lobo Antunes é o do centro, a Agustina Bessa-Luís é a da direita.
Se em Portugal se soubesse o que significa Arte, já se tinha percebido que o Zeca Afonso era um dos maiores de sempre.
Na triste e limitadora necessidade de definições da tradição ango-saxónica de rotular e empacotar tudo como quem embala para o capitalismo, chamemos-lhe pelo menos músico folk (que tal inventarmos folc, para o folclore português?).
A primeira canção que o Bob Dylan escreveu era sobre um sindicalista de esquerda que foi assassinado lá numas minas nos Estados Unidos. O Bob Dylan também é um cantor de intervenção? Pelo menos o capitalismo salvou-o de ser.
Porque, sim, o Zeca era comunista, mas isso é só um partido, uma ideologia. Coisas menores quando comparadas com a Arte.
A relação com o divino, que o comunismo não lhe permitiria, está nas canções. A dor. O amor. A vida. O drama. A sobrevivência. A potência do sentir. A saudade. A inteligência. A luta por aquilo em que se acredita. O olhar que atravessa as barreiras e concilia o inconciliado.
É que a alma dele era muito maior. Eu nem sei bem de que tamanho era.
Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia
Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar
No meu peito a alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo
quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
As poças de lama
Aconteceu que hoje saí mais cedo. Eram umas três horas quando o patrão disse que por hoje estávamos terminados. E por hoje terminados arrumei as coisas. E saí.
Este inverno tem chovido imenso em Lisboa. Todos os dias chove e a humidade no ar é imensa, parece que conseguimos comê-la. Além disso, está muito frio. Atravessava a IC19, vazia (uma visão incrível). Chovia. Aquela estrada tão deserta e eu ali, o seu único dono. Aquela estrada tão deserta e eu a sentir-me tão sozinho.
Pensei que ainda queria ver alguma pessoa antes de ir dormir. Algum ser humano, alguém vivo. Antes de partir para o dia de amanhã, queria sentir que hoje ainda olhava para alguém que nunca tivesse visto antes, ou que fazia alguma coisa que nunca tinha feito.
Ia na IC19 e saí na primeira saída que apareceu. Fui conduzindo pelo subúrbio a dentro, sem saber para onde ia. Fui atravessando as ruas desertas e húmidas, iluminadas pela luz quente laranja.
Não sei como é ao pé das vossas casas, nem que cor vocês associam à noite. Mas aqui nos subúrbios, à noite é tudo laranja. As luzes laranja reflectiam-se nas poças de água na estrada escura, nas janelas escuras e nas montras escuras. Ninguém na rua. Não encontrei nem uma pessoa.
Caramba, nem um gangue! No meu tempo, no subúrbio à noite, havia gangues. Haviam grupos de pessoal novo a atirar caixotes do lixo para a estrada. Havia pessoal sentado em muros a fumar charros. Agora já não há nada. Só pilhas e pilhas de janelas sem luz amontoadas em forma de prédios (às vezes, com sorte, vemos a meio da noite uma luz de cozinha acesa - basta ver a cor da luz para se saber que é uma cozinha, assim uma espécie de branco embaciado - onde alguma mulher bebe chocolate quente por não conseguir dormir ou algum filho se masturba - nesses casos normalmente só vemos a luz da televisão acesa).
À noite no subúrbio, não se vendo gente, vemos milhões de carros vazios, assim uma espécie de carcaças abandonadas que são os corpos reais das pessoas que ficam ali quando elas se despem e levam o essencial para casa.
Que não haja ninguém na rua por estar frio eu ainda posso tentar perceber, mas que à noite no subúrbio, já nem nos carros se veja animação? É muito triste. Nem um só vidro de carro embaciado, nem um só par de pernas nuas oscilando. Depois dizem que não há bebés. Se não se faz amor à noite faz-se quando?
Antigamente, no subúrbio, fossem gangues, fossem apaixonados, havia pelo menos pessoas que escolhiam ser livres, tanto quanto podiam. Não eram capitalistas. Mesmo que fossem só adolescentes, eram pessoas que escolhiam não se limitar a seguir um plano. Tinham a ousadia de sair de casa à hora que quisessem. A grande coragem de se abrir às experiêcias de vida e à natureza selvagem e incontrolável do Ser Humano. Felizes nós porque já não há bandidos à noite na rua. Sim, não há porque estão presos a um estilo de vida que nos afasta uns dos outros. Presos à solidão.
Continuei a conduzir. A ver os prédios, as lojas, os cantos misteriosos. E foi assim que cheguei à minha escola primária.
A penúltima vez que lá tinha ido fora há uns dois anos. A última, foi num sonho que tive o Verão passado quando dormi na casa nova do meu amigo mais antigo, com quem passei a escola primária.
Não sei como acontece com vocês, mas comigo, eu sonho sempre com os lugares muito adulterados em relação à realidade. Nos meus sonhos, todos os lugares são uma construção enorme, grandiosa, épica e labiríntica sobre a estrutura base do lugar com que sonho.
Mas vendo a minha escola primária, às três e tal da manhã, cá de fora das grades, ela parecia igual ao sonho. A minha escola primária estava mais real do que a realidade!
Andei de carro à volta dela. Parei o carro e saí. Ali estava eu, um grandecíssimo homem, enorme e de barba, que se eu vira ali à quinze anos atrás me faria sentir muito medo.
Olhei através das grades, à procura da árvore à qual trepávamos, eu e os meus amigos, que se chamava Casa da Árvore. E ela está lá. Vinte anos depois. E também cresceu. Está já velha, desgastada e enfraquecida. No meio de coisas novas.
Olhei melhor e agora vi muitos lugares que não reconheci, muitos espaços que não pareciam os mesmos. Pensei em saltar a grade da escola, mas não saltei. Queria partir à descoberta daquele lugar da minha infância.
Continuei a olhar, a tentar distinguir algo conhecido no escuro. E foi aí que as vi. Num cantinho escuro do pátio, entre dois muros, no espaço de uns quatro metros quadrados, continuam a formar-se, com a chuva e a terra, as mesmas poças de lama de sempre.
Vinte anos de poças de lama no mesmo lugar.
Uma das memórias antigas que tenho daquele espaço (que é muito mais que uma escola) é de, no cantinho ao pé da Casa da Árvore, passar a correr por cima das grandes poças de lama, atrás de outro menino com um pau na mão, um rapaz de óculos redondos um ano mais velho que eu (que hoje continuo a ver passar na rua e com quem nunca falei), com uma camisola vermelha rota debaixo do braço, no sovaco, coisa que eu nunca vira antes, e de eu pensar Como é que ele fez aquele buraco debaixo do braço? e de ele começar a atirar bolas de lama para os outros e eu e mais dois amigos nos desviarmos para não apanharmos também, porque as nossas mães iam ficar lixadas se chegássemos com uma bola de lama estampada nas nossas camisolas. Isto depois de termos estado a brincar à volta das grandes poças de água e lama que ali sempre se formavam enquanto começara já a chover e as contínuas já tinham chamado todos os meninos mas nós tínhamos desobedecido e ficado ali sozinhos até termos ficado só nós, rebeldes, o silêncio cinzento e a chuva, naquele lugar algo escondido (sim, porque as minhas escolas sempre foram construídas em terrenos íngremes, pelo que tinham montes de patamares que permitiam milhares de esconderijos), a sentirmos o recreio vazio, a brincar ao som da água a cair, com um silêncio próximo do que ouvi esta noite enquanto olhava para aquelas mesmas poças, que não esperava jamais reencontrar, que só vi por, no escuro, reflectirem as luzes laranja do meu país à noite.
E foi naquelas poças que encontrei a pessoa que estava à procura de ver antes de dormir. Esta noite recolhi o menino que me pareceu que tinha ficado vinte anos ali, à chuva e ao frio, com a camisola suja de lama e as costas molhadas, à porta da escola à minha espera, e que eu me tinha esquecido de vir buscar.
Abri-lhe a porta. Entrámos os dois no carro. E partimos.
Ao voltar para casa, no meu carro preto de pára-choques rebentado, senti uma força estranha no peito. Sabem aquela sensação, quando é Natal, de que o Natal veio demasiado cedo este ano? É que sinto que para mim o Natal foi hoje. O dia em que senti que era Natal foi hoje. Senti-o tão forte. Apetece-me estar com a minha família à volta de uma lareira a dar presentes, com crianças à minha volta. Talvez seja isso. Não há Natal sem crianças.
A minha ex-namorada não é do subúrbio. Uma pessoa impaciente e ansiosa, andou numa escola primária noutra parte da cidade. A escola primária em que ela andou já não existe. Foi transformada numa rotunda, ao pé da casa dela. Por isso esta noite, dois anos ou mais depois, perdoo-lhe tudo.
PS: Os erros ortográficos deste texto não são só culpa deste computador não ter corretor ortográfico. Também são saudosismo.
segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009
O som do mundo
E nem sequer teria dado conta de nada disto. Ou não tivesse subitamente, de um segundo para o outro, deixado de ouvir barulhos. Num segundo de pura lucidez sensorial, desapareceram aquelas canções que trauteava interiormente em frenesim, repetidas sem parar a todas as horas do dia. Deixei de ouvir um constante genérico de filme a passar na minha cabeça. Como se o ruído tivesse sido desligado. Como se tivese ficado surdo instantaneamente.
Mas não era surdez. De repente tudo tinha um som.
Estava sentado em silêncio e num sopro comecei a ouvir o Mundo.
E tudo passou a ouvir-se. Todos os objectos passaram a estar presentes, e eu ganhei uma nova forma de os sentir. Os sons naturais passaram a ser uma sinfonia e recuperei a minha ligação com o mundo.
E digo-vos, o som do Mundo é alucinantemente belo.
sábado, 24 de Janeiro de 2009
A alma da pátria
Um país mistério que ninguém sabe para onde vai. E a porta desse país, a porta da Europa para a vastidão do mundo, tem agora devolvida a si a sua proa, o Cais das Colunas. Mas as indecisões quanto ao futuro do Terreiro do Paço são o símbolo da indecisão do que fazer a este país que o contém.
Há muita gente que acha que se devia tornar o Terreiro do Paço numa espécie de grande esplanada à espanhola. Consagrariamos assim definitivamente a boémia nacional e assumiríamos que somos uma nação de foliões. Podia ser bom. Há também quem ache que talvez se devesse tirar de lá os ministérios e fazer, quem sabe, uns hotéis para ingleses, umas lojas caras, à fracesa, dando assim sentido ao nome Praça do Comércio. Poderíamos assumir assim melhor a nossa humildade e carácter servil, e ser criados dos ricos. Porque quem leu o que disse Jesus sabe que a pobreza é uma virtude. Há ainda, quem sabe, outras opções, como fazer dele, por exemplo, um jardim, num estilo mais ecologista tipo norte da Europa.
Eu não sei, mas acho que não. Acho que devíamos simplesmente limpá-lo, tirar lá os carros a passar à volta, conferir-lhe a dignidade do silêncio, e deixá-lo como está, consagrando-o definitivamente como um símbolo da alma de portugal. Um relicário da nossa identidade. E deixá-lo em repouso, no mais próximo que se conseguisse de torná-lo um Templo. Sempre iluminado à noite como tem estado, de frente para o mundo, um país que é uma porta aberta para o oceano. Com aquele relógio no meio de anjos, a contar o tique-taque do nosso futuro.
terça-feira, 13 de Janeiro de 2009
Excerto de uma carta a uma pessoa muito especial
sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009
A cura para o ateísmo
A única coisa que podemos provar é que não sabemos.
sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009
Ano novo com amigos velhos
Os amigos e amigas verdadeiros. Os que o quiseram tomar comigo.
A um ano completamente novo. É mentira que não seja nada de especial o que aí vem. É o futuro. A possibilidade de fazermos da vida de todos o que formos capazes.
No entanto, cheguei a pensar que 2009 seria nunca mais voltar a dormir. Depois de o novo ano chegar exactamente no mesmo lugar onde tinha chegado 2008, 365 dias antes, fomos repousar.
Dei por mim sozinho, numa cama de casal, num quarto antigo, com uma humidade antiga (da Serra de Sintra que é a nossa casa), onde antes dormiam os bisavós da minha querida amiga.
Sozinho. Eu, que acredito tão pouco em dormir sozinho.
Dormir só é divino se estivermos com alguém. Se não é só utilitário. E isso é feio. Dormir abraçado, dormir aninhado, dormir aconchegado, dormir amado, dormir partilhado. Cheios do calor que é humano. Isto é que é digno. Partilharmos juntos a inevitabilidade de sermos humanos e mortais. O respirar. A pele. Impossível sozinho.
Por isso não dormi.
Eu nunca tive insónias. Adormeço mal chego à cama, vou para a cama quando tenho sono. Durmo e é bom. Dormir é maravilhoso.
Mas ali estava eu, só comigo. Só numa cama desconhecida, num ano desconhecido. Os meus amigos dormiam nos quartos à volta e ouvia-os respirar e era bom senti-los nisso. Os amigos e amigas a mudarem de posição na cama. As camas a estalarem de serem antigas e eu com 365 dias em que pensar.
Este ano fomos menos que no ano anterior. Muitos amigas e amigos nossos estavam noutras casas, noutras festas, noutros lugares, com outras pessoas. Pessoas de quem, quero acreditar, não gostam mais do que gostam de nós. Mas o capitalismo destrói tudo.
Como o aquecedor que o meu patrão tem em casa. Quando todos os outros aquecedores do mundo falharam com ele, avariados por este desolador Inverno, o aquecedor do quarto de adolescente dele, com mais de vinte anos, resistiu. É ainda hoje esse que o aquece. Todos os outros eram mais recentes. Ainda há quem ache que o que é novo é bom só por ser novo?
No capitalismo, é preciso vender. Logo, as vendas não podem parar. Não basta o ritmo da vida humano, das pessoas - vender um aquecedor, um computador, um sofá, uma caneca de chá por pessoa que dure para toda a sua vida, e até para os filhos, netos, bisnetos. Não. Ao capitalismo o ritmo humano não chega.
As vendas não podem parar. Por isso é preciso vender muito mais que um. Como as pessoas não são estúpidas, a única forma de nos obrigar a fazê-lo foi pôr prazos de validade às coisas. Tudo é construído para se estragar. Primeiro estragava ao fim de dez anos. Depois cinco. Agora dois. Espero estar enganado, mas ainda vamos ver aquecedores descartáveis de uma só utilização. Um aparelhinho que se activa, aquece a sala e depois se deita fora. Um dia tudo vai ser consumível e, por isso, além de gerar lixo, será etéreo.
Quando tudo é etéreo, o tempo perde o seu valor. E sem o tempo, nada se pode construir. Quando somos apenas uns repositores de produtos, sentimentos, sensações, não temos nada para pôr em cima do que estava antes. Se temos constantemente de repor o básico nunca chegamos ao que vem depois. Ao grandioso. À vida humana.
Porque se não percebemos o tempo, também não percebemos que vamos morrer. E que antes de morrer temos de viver aquilo que queremos realmente viver, e não outras coisas. E que para viver essas coisas, é preciso tempo, para as construir.
É por vivermos numa sociedade sem tempo que é cada vez mais difícil fazer amigos. E mais difícil ainda, encontrar o amor de uma pessoa. (no amor, fazer e manter são sinónimos).
O amor - seja por um aquecedor, por um amigo ou por uma mulher - precisa de tempo. Nesta sociedade em que tudo é substituível, onde há gente que muda de casa de dois em dois anos (não sei como isto é possível - chamam-me materialista por ser apegado aos objectos importantes, mas materialismo é é ser capaz de mudar de casa e de carro e gostar), há gente que por eles, imagino que se pudessem, mudavam até de Mãe e de Pai todos os meses. Como mudam de mulher. E de amigos.
Com o consumo e os horários de trabalho, o capitalismo tirou-nos a capacidade de perceber que a vida é uma unidade única e contínua e não se divide em dias, como pensamos.
É assim que o capitalismo nos escraviza. Porque nos impede de construir coisas. De dar um passo hoje. Outro amanhã. Outro depois. E continuar assim durante vinte anos - o período áureo de cada pessoa - sem parar e, quem sabe, tornar-se um grande guitarrista, escrever um livro, ou fazer um filme. Isso é que é ser livre. Mas não. Hoje a vida é no máximo escrever num blogue. Compartimentando tudo em dias, em pequenas unidades, para que possam ser consumidas em pequenas doses, pois o corpo já não aguenta mais que uns dois ou três parágrafos. Os livros só ainda não são vendidos em fascículos com um capítulo cada porque no capitalismo as pessoas não são cultas e por isso não compram livros.
E é por isso que há pessoas que passam a Passagem de Ano com pessoas que não são os seus amigos. Que mal conhecem. E com quem nem gostam muito de estar. Mas toda a gente está solteira. E com o capitalismo é preciso aproveitar cada tempo livre, cada feriado, cada meia hora, para engatar. É preciso engatar gajas. É preciso engatar sem fim para se poder dormir acompanhado. Eu escolhi dormir sozinho, mas estar com os meus amigos nas doze badaladas. Com os meus amigos e amigas e com mais ninguém. Com nenhum desconhecido (havia o namorado de uma das minhas melhores amigas mas namorados são família).
E é pelos mesmos motivos que toda a gente está também tão empenhada em destruir o Natal. É bom destruir a Passagem de Ano, mas aos destruidores, dar cabo do Natal dá ainda mais prazer.
Nos dias que o antecederam, cada vez que liguei a rádio, havia alguém a destruir o Natal. Primeiro foi um jovem cozinheiro, a quem perguntaram, risonhos, aqueles que ainda acreditam Então e receitas para a consoada? Ao que o senhor responde, nervoso Ahh, eu não gosto do Natal, acho uma época muito hipócrita, desagradável, para mim são as mesmas receitas do resto do ano. Este cozinheiro não sabe certamente que a função mais digna do seu ofício da comida é ser elemento de união das pessoas em família, e que, ao contrário do que ele pensa porque certamente está sozinho, isto é mais importante que os prazeres egocêntricos de comer um delicioso rosbife.
No dia seguinte, foi o José Luis Peixoto, a quem pediram Então e umas canções de Natal, o que é que nos trazes? (talvez por saberem que no fundo as pessoas boas gostam do Natal, os locutores de rádio apelam todos ao espírito, mesmo que não sejam pessoas boas. E isso é bom e faz-lhes bem) ao que o escritor responde Ahh, eu gosto sempre de desconstruir o Natal e por isso trouxe aqui umas músicas diferentes, umas coisas africanas. Desconstruir o Natal? Mas o Natal precisa é de ser construído. O Natal é uma construção tão bonita, de que serve desmanchá-la? Desconstruí-la?
Um dia em que pelo menos em metade do mundo as pessoas apanham aviões, atravessam oceanos ou longos quilómetros de carro ou até só o centro da cidade, seja o que for, para estarem todas reunidas em família, numa lógica completamente anti-produtiva no sentido capitalista da expressão, apenas guiados pelo seu amor e vontade de estarem com a sua família, de volta à sua tribo, as pessoas que são sangue do seu sangue, não é um acontecimento espectacularmente bonito e original? Eu acho que é.
Dão-se prendas. Mais bonito ainda. Só vê nisto capitalismo quem é pobre de espírito (literalmente).
Fui à Livraria Bertrand comprar um livro para oferecer à minha adorada avó. Fui dos primeiros clientes do dia 24 de Dezembro. Estava lá às Nove e Trinta da manhã. Entro na estimada loja e a primeira coisa que oiço são os empregados a comentarem com o segurança, zangados O Natal é o pior dia do ano! enquanto arrastavam ao pontapé caixotes de livros. Fui à Fnac. Na caixa, estou a pagar e despeço-me da senhora da caixa com um sorridente Então feliz Natal, felicidades ao que me responde O Natal? Tomara que passe..
Os desconstruidores do Natal estão a ter um tal sucesso na sua empreitada, que conheço até pessoas que este ano não fizeram árvore de Natal. Adivinhe-se, foi para não gastar dinheiro em electricidade. Outros, por motivos ecológicos. Mas o capitalismo já pôs as pessoas todas doidas?
As pessoas que conspiram contra o Natal são as que não percebem que é o dia mais original do ano inteiro, em que tudo é mais diferente, em que as regras se invertem e na véspera do qual, ironicamente, é mais divertido trabalhar caso se trabalhe numa loja. No ano passado trabalhei numa perfumaria dia 24, aquilo é que foi diversão. O triplo dos funcionários na loja, todos em galhofa, como se estivessem perante uma guerra sem vítimas e por isso divertida. Uma multidão de pessoas, uma confusão anárquica de compras e de coisas a serem feitas. Os enfeites de Natal. Clientes fantásticos que há vários anos que só compram perfume naquele dia do ano. Mas sobre perfumes falo noutro dia.
Para mim, a Passagem do Ano é como um Natal para os amigos. Mas os amigos dignos desse nome, os verdadeiros, os de sempre, a família não-biológica. É por isso que não compreendo como podem as pessoas preferir passar o ano com conhecidos com quem podem estar todo o resto do ano. Seja a ver fogos de artifício, seja a fazer sexo, seja bêbados ou a dançar. Só pode ser com amigos. Passar o ano a conhecer pessoas novas é um desastre. É o único dia em que não se fazem novos amigos.
É, sim, o dia em que os amigos se juntam todos e pensam - por gestos e não por palavras - no que significa a vida que viveram juntos. Que partilharam todos estes anos. Que é de todos mas é uma só, porque sem um amigo não havia o outro.
Podem fazer-se viagens para o estrangeiro noutras férias. No Natal está-se com as pessoas com quem se deve estar (goste-se delas ou não se goste, o dever é tentar que a família funcione) e na Passagem de Ano está-se com as pessoas de quem se gosta. A não ser que não se tenha família e não se goste de ninguém.
Foi nisto que pensei quando estava ali na cama, com os meus amigos a dormirem à minha volta, naquela casa de pedra antiga.
Pensei que com a família e o patrão, são a maior riqueza que eu tenho.
Feliz ano novo para todos.
E profundamente obrigado aos meus quatro leitores por visitarem este blogue.
quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
Amar é gostar de não receber só porque é aquela pessoa
E aí, jesus, o amor era deslumbrante. Aí o amor era uma corrida dos dois amantes pela cidade (onde se passavam a sentir e a portar como se estivessem no seu quarto - uma cidade conquistada à força da paixão) e uma corrida pelo quarto (que se tornava a sua cidade, cheio de lugares novos para descobrir).
Mas quando ele não adivinhava o que ela estava a sentir, ela sentia-se muito insegura.
Quando ela ficava triste e ele não adivinhava o gesto simples e concreto que tinha de fazer para a deixar feliz ela naturalmente ficava triste, como se esse fosse o seu estado natural sem ele. Porque quando ele não a adivinhava era como se não estivesse com ela. Ela só o sentia quando ele a adivinhava. Como uma flor para ser regada - e as flores não se regam sozinhas - ela sabia que o trabalho do amante era adivinhar como regá-la. E ela estava certa.
Esse é o bom amante. O amante que é como a chuva - porque a quer ter cuidada e só para si e não uma flor selvagem, que bebe a sua água aqui e ali e até da terra que outros pisaram.
Ele queria que ela só bebesse da sua água, só que não sabia ser como a chuva.
Mas os maus amantes são, ainda assim, amantes.
Os amantes não conseguem ser felizes um sem o outro. Mas por estarem infelizes não são menos amantes. Não conseguir também é amar. Sim. O trabalho um do outro é regarem-se mutuamente, se querem ser um sistema único. Só que o mau amante é aquele que não adivinha tudo, mas que, ainda assim, tenta.
O mau amante é mais difícil de amar. Mas não se ama menos. É só mais difícil. Mas o mau amante não está sozinho no seu mal amar, se não não tinha o nome que tem.
E como se sofre por amar um mau amante!
É um amor sofrido, desgastante, ensopado de outras regas.
Sim, ela sabia que ela própria também não adivinhava tudo o que ele sentia. E sabia até que isso não era por o amar pouco. Mas isso não a impedia de ficar insegura quando ele não a adivinhava. Ela queria era sentir-se amada, o resto não interessava. A reciprocidade do mal amar nunca foi reconfortante.
Ele dizia à beira do choro Mas explica-me, o que posso fazer para te fazer feliz? Mas o pobre não sabia que a única coisa que tinha a fazer era justamente não perguntar e adivinhar. Pois o que tinha de ser feito não podia ser dito. Há coisas que não se podem dizer assim. Se se dissessem morriam, como se o silêncio fosse o seu oxigénio.
Uma coisa eles sabiam. Só estavam felizes quando o outro estava feliz.
Passou muito tempo. Infelizes juntos, amavam. E eles batalharam, batalharam por se amarem melhor. Mas seria mentira dizer que passaram a conseguir adivinhar tudo o que o outro pensava.
Não conseguiram e houve um dia que desistiram.
Nesse dia, ao contrário do que esperavam, o amor não se foi embora.
O amor ficou e batalhava, batalhava sozinho contra eles, para se manter vivo. Eles bem o tentaram matar, como se mata um bebé porque nos faz perder o juízo e não nos permite descontrair. Tentaram afogá-lo em lágrimas. Ou gritar-lhe até ele ficar surdo - como se talvez aí desistisse de os chatear - mas ele continou lá, a berrar, a dizer Eu estou vivo.
Decidiram aceitá-lo. Não havia nada a fazer. Não se mata o que é imortal. Acolheram-no e afastaram-se um do outro. Mas claro que a distância não matou o que está em todo o lado.
Passou tempo. Aproximaram-se.
Houve mais um dia em que, como tantos outros, ela estava triste. Como em tantos outros, ele não percebeu. E foi igual a todos os outros. Tão igual, tão igual, que só aí ela viu o que nunca tinha visto. Numa tristeza igual à primeira tisteza de todas.
E da soma de duas coisas iguais nasceu uma diferente.
O amor.
Desta vez, ela lembrou-se da priemira vez em que ele não a percebeu. O tempo tinha passado. Lembrou-se daquela vez que se sentiu tão sozinha e de como ele tentou tanto tanto, sem nunca conseguir percebê-la.
E o quanto ela o amou quando se lembrou do jeito dele de não a perceber! Aquela cara de indiferença dele, ali, igual a sempre, e agora ela só sentia o amor. Aquela cara de alheamento dele, como quem não está nem ali, como quem nem a vê, como quem está sozinho, sendo ele próprio e ela so via amor. Amor. Amor.
Passou a conseguir ser feliz também quando ele, apesar de a amar, não a compreendia. Foi assim. Até lhe pareceu que foi de um momento para o outro (mesmo que não tenha sido).
E foi assim que passou pela primeira vez, não a amar, mas a amar outra pessoa e não a si mesma.
Deixou de amar como uma flor e passou a amar como uma árvore. Sentiu algo maior que ela, pela primeira vez. Algo que não era só o que ela tinha previsto antes, o que ela tinha pensado antes, o que ela já sabia que queria. Não. Algo novo. Percebeu como tinha sido burra. Percebeu como isso não tinha mal agora que já não era.
Ela estava a amar alguém diferente dela, alguém que não correspondia ao seu perfil traçado como objectivo, racionalmente naquele caderno de quando tinha dezassete anos. Pela primeira vez, ela amou alguém por essa pessoa ser quem era e não por se encaixar na lista de itens que ela tinha traçado para o amor da sua vida.
O amor deixou de ser um objectivo e passou a ser um estado.
Nesse momento ela percebeu que o amor é avassalador e é amor porque destói todas as nossas listas de adjectivos idealizadas, porque ao trazer o que é novo, desconhecido e imprevisto traz consigo a vida.
A vida deliciosa, imprevista, nova. E foi assim que ela se passou a conhecer melhor. A saber quem era porque amou algo que não conhecia. Algo que ainda não sabia.
Nesse dia, ela saiu pela primeira vez do egoismo. E gostou.
domingo, 28 de Dezembro de 2008
A beleza
Antes de dormirmos, abraça-se-me à alma ensinando-me a ser eu.
Ela, a Mulher.
Uma mulher tão perfeita que qualquer coisa que lhe chame é um elogio à palavra que se uso. Não tenho como elogiá-la, e é por isso que lhe ofereço poemas. Poemas dos maiores mestres, já que os meus já são todos dela. Já que não a posso elogiar, ao menos elogio os poetas que há tanto tempo queria mas não podia por não ter como. Com ela consigo. Até isso ela me deu. Uma poesia maior.
Fico sempre em silêncio quando estamos juntos. O maior de todos os presentes, o presente silencioso. Porque o meu silêncio mais o silêncio dela tudo preenche.
Uma pessoa tão linda assim deve comover-se quando se olha ao espelho. Talvez não se consiga pentear sem se etenecer um pouco. Talvez seja por isso que muitas mulheres bonitas se tornam frias e insensíveis. Têm de ser assim, para não chorarem ou se beijarem no espelho todas as manhãs.
Mas não esta mulher e é por isso que se mantém linda. Ela não sabe que o é. Eu ter vindo ao mundo tem como única função explicar-lhe.
terça-feira, 23 de Dezembro de 2008
Os tempos estão a mudar
Vários passos aleatórios para a felicidade
- Perceber que cada minuto da nossa vida é sagrado e que devemos honrá-lo como tal, apreciando-o e celebrando a sua existência.
- Percebermos que a maior parte das vezes só alimentamos os nossos problemas porque não os resolvemos de uma vez por todas e que pensar neles não serve de nada, só resolvê-los. Pensar neles é agravá-los.
domingo, 21 de Dezembro de 2008
O meu sonho
quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008
Sobre experimentar
Em busca da expressão toda
quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008
O amor dela
Ela chorava todo o amor que deu a quem não lho deu de volta. Ela chorava toda a bondade que sofreu e que não lhe foi retribuida. Ela chorava ser tão boa num mundo de tão maus.
Então eu disse-lhe o que, num sermão, me disse António Vieira e que por sua vez lhe foi dito a ele pela Bíblia e que um dia também ela dirá a alguém.
Jesus amava os homens. Jesus amava os homens e os homens não sabiam que ele os amava e Jesus não os amava menos por isso. Jesus amou, amou os homens e sofreu, sofreu por eles. E nunca quis que se soubesse do seu amor nem que o seu amor fosse pago. Então era masoquista foram as palavras dela. Não. Jesus não queria que o seu amor fosse pago porque quando algo está pago, acaba a transação. Vai-se embora e é o fim da obrigação. Jesus nunca quis que o seu amor fosse pago para que o seu amor fosse eterno. Jesus nunca trocou ou vendeu o amor, só deu. E a forma mais nobre de amar é, como se diz, dando amor. E dando-o porque dá-lo nos faz feliz. E não por esperarmos outra coisa em troca. O único amor é o que é dado, para sempre. Sem o pedir de volta.
E numa luz que se fez na cara dela e num sorriso que sorriu ela compreendeu. Soube (dentro dela) que a ideia de negócio só lhe tinha sido ensinada pelo capitalismo e que não era real. Deixou de chorar por não mais sentir culpa nem vergonha de amar sem ser retribuida e partiu, feliz. E naquele momento, parado na rua a vê-la partir, via-a tornar-se mais nela própria.
No início daquela noite, ela mostrara-me o seu casaco novo de inverno, lindo, que fazia dela uma sensualíssima mulher, pondo o longo capuz do casaco sobre a cabeça e dizendo Faz-me parecer uma monge.
segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008
Sobre a descoberta de hoje
Apesar de muito intensa, não é ainda do campo do amor eterno de há anos como este manifesto a toda a beleza do mundo em forma de puro pedaço de paraíso em som e imagem, apesar dos pontos de contacto.
Post-Scriptum: E depois disto, ainda há hoje quem, em resposta a este post, me venha privadamente argumentar que fio-dental é que é... Ainda bem que há gostos diferentes.
Post-Scriptum parte II: Há até quem me critique por usar camisolas de alças brancas (são os mesmos).
Descoberta de hoje
sábado, 6 de Dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008
Vamos petiscar
Ora isto é de facto uma grande vantagem se os concertos forem maus. Pela primeira vez, a organização de um evento tem a visão (e tiro-lhes sinceramente o chapéu por terem percebido o público contemporâneo) de perceber que o mundo de hoje em dia se baseia em provar. Provar daqui, provar dali, dizer Mnham, este David Fonseca é ótimo, vamos embora, hummm, este Rui Reininho também é engraçado, vamos embora, haaa, que porreiros estes Pontos Negros, chau.
Basicamente agora vai-se a concertos como se ouvem mp3 em casa. Não se ouve nada a sério. Vai-se ouvindo. Conhece-se umas músicas. É a geração do Olha esta canção tão gira mas não tenho paciência para as outras. Este estilo de festival premia, portanto, as bandas de duas ou três canções boas. Espero sinceramente que na edição do próximo ano em vez de no cartaz virem apenas as horas a que cada banda toca em simultâneo, venha também a hora a que tocam a sua melhor canção, ou o single, e que isso seja concertado de forma a que nunca seja à mesma hora, sempre a horas diferentes, para que dê para o espectador apanhar todos os singles ou melhores canções de todas, já que não dá para ver mais que isso.
Mas este festival não é só isto. É muito bom porque se a pessoa estiver a gostar pode ficar, se não estiver pode ir-se embora. GENIAL! Então agora posso pagar para ir a concertos maus e tenho a vantagem de me ir embora?! Espetacular.
Sejamos sérios. Claro que este conceito de festival é para pessoas que não gostam de todas as bandas que lá estão, ou gostam mais de umas e menos de outras e só irão aos concertos daquelas de que gostam. Então para quê pagar por bandas que não se vai ver porque não se gosta?? Ou que não se gosta realmente? E 40 euros? É que um bilhete para uma banda da qual se gosta realmente custa 25, 30 euros (está bem, se for brasileiro sabe-se lá porquê custa sempre 50)
Acho que estamos a chegar ao cerne da questão. As pessoas que se identificam com este conceito de festival não gostam das bandas. Gostam é de saltitar. É que quando eu gosto de uma banda, gosto de ver o seu espetáculo de uma ponta à outra e de berrar e chorar baba e ranho por mais. Gosto de berrar por um encore, gosto de não ouvir mais nada nesse dia e ir para casa a cantar, quando chego pôr todos os discos a tocar em cadeia e ficar o próximo mês a sonhar com aquela noite mágica.
Imaginemos um festival com concertos em simultâneo do Leonard Cohen, do Jeff Buckley (eu sei que infelizmente já não é vivo, é só um exemplo já que todos os artistas que admiramos morrerão um dia), do Bob Dylan, do Chico Buarque, do Caetano Veloso e do Morrissey. Isto passa pela cabeça de alguém? Poderia passar, são tudo artistas tãaaaao diferentes! Pelo menos o Dylan, o Caetano e o Morrissey são. Porque não pô-los todos ao mesmo tempo? Sabem porquê? Porque são todos mesmo bons.
Está bem, digam-me que, além de os gostos variarem, há espaço na vida para concertos muito bons e para concertos só bons, ou médios. Concertos muito sérios e concertos just for fun (excepcionalmente uso uma expressão em inglês porque identifico o tipo de pessoas que a usam com a superficialidade que ela contém). Mas porque há de ser assim? Porque é que eu hei de ir a um conerto assim assim? É que os artistas que adoramos vão todos morrer um dia, como o Jeff Buckley... Podem estar a morrer agora, enquanto eu estou a esrever este post... E o dinheiro não é infinito, nem o tempo (que é dinheiro), por isso não dá para irmos a todos! Para quê ir a concertos medianos só por ir? Só para ver quatro ou cinco canções?
Eu sei porque é. É porque vivemos numa cultura em que as pessoas não têm paciência nem se esforçam para nada que lhes dê prazer, em que o que é um bocadinho difícil de gostar, não é gostável, em que o que implica dedicação, esforço (como ficar 6 horas a ver concertos maus para guardar um lugar à frente para ver o Bob Dylan a quinze metros de nós e com os nossos próprios olhos, não em ecrãs (só um à parte - qualquer dia fazem-se festivais de verão em que são actores a fazer de músicos e põe-se a passar um DVD dos músicos ao vivo no ecrã gigante e ninguém nota a diferença)) não vale a pena, em que não se cultiva um gosto artístico, uma cultura em que as pessoas não gostam realmente de nada nem de ninguém porquê dá trabalhoooo.
Como no sexo. Vivemos numa cultura de rapidinhas. De quecas fernéticas de mudar de um para outro parceiro para experimentar, experimentar, experimentar sabe-se lá o quê, talvez a estupidez de quem vive assim, ou talvez experimentar a vida. E porquê experimentar a vida? Porque não vivê-la? Eu pessoalmente - assumo, é uma questão de gosto como na música, admito - não gosto de rapidinhas. Gosto de disfrutar, de saborear, gosto de me apaixonar por uma pessoa com quem me estou a partilhar (sim, a mim!), gosto de degostar do acto de conhecer a pessoa - delicadamente, lentamente, com tempo, sem pressas - gosto de a saborear, gosto de a ter sempre ao meu lado e chorar quando não está. Não gosto de experimentar - voltando à expressão inicial, de provar, nem de deitar fora. Especialmente porque deitar uma coisa fora gera lixo e o lixo é o grande problema do Séc. XXI.
E como sou no sexo sou na Arte. Quando eu gosto de uma coisa, eu gosto dela arrebatadoramente, loucamente, incondicionalmente, até ao limite de mim próprio. Gosto de comprar todos os DVDs, todos os livros, todos os discos (eu ainda compro discos pessoal dos mp3 que quando o computador se avaria e ficam sem toda a sua música para ouvir nem dão conta porque não gostam realmente de música!), ver todas as exposições, etc. Como quando gosto de uma mulher gosto mesmo dela.
Podem ainda dizer-me Mas pode-se gostar muito de umas coisas e menos de outras, comer muito de umas e só provar de outras. Sim, pode-se. Mas qual é o interesse? Qual é o interesse se se pode estar sempre a comer coisas espectaculares? Qual é o interesse de comer uma fatia de uma pizza do Pizza Hut se se pode comer uma do melhor restaurante italiano de Lisboa? É que neste caso o preço não é assim tão diferente. 40 euros é muito dinheiro para petiscar, é o que eu vos digo.
Para terminar, este festival faz outra coisa espectacular. Como está tudo a acontecer ao mesmo tempo, cada crítico também só ouve Quatro ou cinco canções. Assim, todos os concertos podem ter sido uma merda, que a organização e o artista podem sempre afirmar Ahh, que pena, só ouviste a pior parte do concerto. Antevê-se, portanto, um sucesso na crítica.
Esta é a primeira edição de um festival que vai continuar entre nós por muitos e longos anos.
Valores à lá carte
segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008
Os objectos
sábado, 29 de Novembro de 2008
Um canção para todas as pessoas que não gostam da vida
Gostava de hoje dedicar uma a todas as pessoas que não gostam da vida.
Força Estranha
Eu vi um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redor
do caminho daquele menino,
Eu pus os meus pés no riacho.
E acho que nunca os tirei.
O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei.
Eu vi a mulher preparando
outra pessoa
O tempo parou para eu olhar para aquela barriga.
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou.
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.
Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
o tempo não pára
e no entanto ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo,
do fogo das coisas que são.
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.
Eu vi muitos homens brigando.
Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta,
E a coisa mais certa de todas as coisas.
não vale um caminho sob o sol.
É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.
Caetano Veloso
As meninas e o amor
- Parte I
- Parte II
sexta-feira, 28 de Novembro de 2008
Poema XII
Meticulosas degradações
subtrações
experiências
na era em que a única arte é a da morte.
Quando um dia sobre os despojos da guerra
só eu e tu restarmos
Quando já não houverem coisas
só meias coisas, escombros
Quando só restarem mulheres enlouquecidas
e homens gastos, ratos
Quando todos os outros falharam
endoideceram
ou se fecharam em caixas e casas,
Aí nos encontraremos, sobreviventes porque inteiros,
eu e tu, mulher sã.
Simples mãe da dignidade, que não pensa, vive
e não destruiu o seu sorriso.
Tratarei de te manter assim,
pois é o meu ofício.
Não há loucura nas flores, nem nas lagoas, nem nos vestidos
de noiva.
Sozinhos eternamente, acompanhados por sermos únicos,
o mundo será nosso
e construiremos cabanas
com trapos
a que outros chamaram bandeiras.
quinta-feira, 27 de Novembro de 2008
Bons I
"- A minha política é ser amigo de todos."
- Rui Nabeiro
Uma das pessoas mais exemplares à face da terra.
Olhar as estrelas
segunda-feira, 24 de Novembro de 2008
Só
sábado, 22 de Novembro de 2008
Poema XI
Está dentro de nós
e é uma porta de entrada,
onde só a dignidade passa
quando se torna a carapaça
contra a nossa intensa idade.
Contra a explosão dos tempos,
o temporal,
a tempestade.
segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
O pré-fabricado
domingo, 16 de Novembro de 2008
Poema IX
Vinga antes sobre mim esse desejo
de um prazer que te mate
pouco a pouco.
Guarda esse fôlego.
Se vais morrer nos meus braços
deixa-me ser eu a matar-te
ensinando-te uma nova maneira de respirar.
Une-te a mim para sempre.
Eu sei que assusta porque só a morte é eterna
mas se te casares comigo um bocadinho todos os dias
prometo que morreremos juntos sem darmos conta.
quarta-feira, 12 de Novembro de 2008
A moral
- Já a pôs a tocar? - pode continuar:
Nada de original portanto, como tudo o resto neste banal - e ao qual uma amiga minha já chamou egocêntrico - blogue. Pois seja já que não há nada a perder.
Foi escrita ao som do
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
do contrabaixo. (Claro que eu a ouvi em disco, pois ainda compro discos).
Hoje estou a usar um perfume que gosto muito. É o truque das pessoas sozinhas, que procuram fazer-se acompanhar da melhor solidão possível. A minha cheira bem, e soa bem.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
Hoje estava no banho e consegui finalmente pôr por palavras uma ideia que já tinha à muito tempo. Lembrei-me dela porque na novela que dá há hora do almoço a duquesa portuguesa disse aos seus filhos nascidos no Brasil que O amor é uma coisa passageira, as coisas que ficam para sempre são a família e a moral.
Não podia estar mais de acordo. É por isso que se deve tentar construir uma família perfeita. Mas o interessante é que, mais que a família, a moral vem sempre carregada de um peso negativo, diz-se moral e arrepiam-se os cabelos atrás do pescoço. Diz-se moral e aperta-se-nos o coração. E é bom que assim seja.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
É bom que assim seja porque - e isto foi o que eu consegui pôr por palavras hoje - a moral é boa, o que é mau é obrigar alguém a segui-la. É mau porque é imoral. A moral tem de ser uma coisa que decidimos voluntariamente seguir. Claro, podem dar-nos uma ajuda. Mas obrigar não. E porquê? O Mestre do Tiro com Arco em O Zen e Arte do Tiro com Arco, já aqui citado uma vez noutro contexto, explica muito bem porquê, quando diz ao seu aluno para esticar um arco muito pesado sem fazer força nos braços, só nas mãos, e não lhe diz como. Passa uma semana e o aluno continua a tentar sem sucesso. Passam duas semanas e três e meses, e o aluno é levado ao desespero e à convicção de que é impossível ser virtuoso no tiro com arco. Vê a monstruosidade do seu falhanço. Então chega ao pé do mestre e implora-lhe uma vez mais Explique-me como mestre. E então o mestre explica, e ele consegue. E é aí que o aluno pergunta Porque me levou a este desespero mestre, porque me fez perder todo este tempo e chegar a tamanha frustração? Ao que o mestre respondeu Para que saibas o valor deste ensinamento.
É o mesmo com a moral. Pode-se explicar, mas não obrigar. Cada um tem de fazer muita merda para depois perceber qual é o caminho virtuoso.
Quando tiver filhos - muitos - vou ensinar-lhes a moral, sem os obrigar a segui-la.
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
TUM-TUM; TAM TAM, TUM...
terça-feira, 11 de Novembro de 2008
Sobre o saber ocupar lugar
Também não sabiam aquilo que todos sabiam.
Foi por isso que foram profetas.
Saber ocupa lugar
Ora isso é impossível. E era isso que queria dizer às pessoas que tiram conclusões sobre os outros partindo do princípio que os compreendem só porque sabem tudo sobre eles.
Saber tudo sobre alguém, não é saber tudo, na medida em que não se sabe só isso. Na medida em que sabemos algo sobre nós.
Saber tudo é impossível. Para saber umas coisas, é preciso não saber outras. E a cada coisa que aprendemos, estamos a destruir outra que sabíamos, que era o não sabermos. Cada pessoa devia ter muito cuidado com aquilo que aprende.
Partamos do princípio que é impossível alguém compreender completamente outra pessoa e talvez nos consigamos começar a compreender um pouco melhor. Prestar mais atenção ao que podemos, por termos noção do que não podemos.
domingo, 9 de Novembro de 2008
Poema VIII
Meu gracioso potente porte negro
Que vives a vida como a proa de um navio
Que me beijas a boca como uma mãe que mede a febre
e como uma filhinha que pede beijos antes de adormecer
Os teus lábios reanimam-me numa beira-mar só nossa
onde o único alimento é o sal dos teus cabelos.
Ao meu colo, envolta no teu xaile preto
Fazes lágrimas para me explicares a grandeza do mar
sábado, 8 de Novembro de 2008
A arrogância do artista
Tal grande artista não é humilde? Mas já não tinha sido humilde quando decidiu ser grande. Não foi humilde quando decidiu extravasar todos os seus limites e aspirou ser mais de si mesmo do que ele próprio pensava poder ser. Os grandes não foram talhados para a humildade. Por isso é que são grandes. São pessoas que não couberam em si - o que há de mais arrogante que isso? O ponto de partida deles já é a arrogância, não é um ponto de chegada.
Ser artista é ser arrogante, então ser um grande artista só pode ser o cúmulo da arrogância. Fazer uma obra e achar que os outros vão estar interessados? Ou o caso contrário, que ainda é pior, que é fazer uma obra só para si?? Isso além de arrogância já é egocentrismo. Não há por onde escapar, um artista tem de ser arrogante. E não há nenhum mal nisso. Depois de ser arrogante, pode ser ao mesmo tempo simpático, amável, generoso, educado, cortês, delicado - tudo isso são características que um artista, como qualquer boa pessoa, pode e deve cultivar. Mas a humildade não. Só se for perante Deus e, mesmo assim, depende o que cada um entende por Deus. Talvez assim tenha chegado a uma definição de Deus que sinto verdadeira. Deus: a única coisa perante a qual um artista deve ser humilde.
Os grandes artistas são alguém que tem a coragem de olhar nos olhos. Olhar nos olhos o destino, olhar nos olhos os outros, acima de tudo, olhar-se nos olhos a si próprio. Há mais arrogância que isso? Na Coreia (do Norte e do Sul) é má educação olhar nos olhos uma pessoa com quem não sejamos íntimos. É verdade que os artistas com as suas obras nos fazem sentir íntimos deles. Mas isso é porque são capazes de nos dar a ilusão de que os conhecemos, porque na verdade são eles que nos conhecem a nós, e bem demais. Os artistas conhecem-nos melhor que nós próprios nos conhecemos.
Olhar nos olhos um artista é que é arrogância. Porque enquanto que eles nos conhecem melhor que nós a nós próprios, nós nem um miligrama deles conseguimos compreender. E se achamos que sim ainda pior. Ser um grande artista é poder olhar nos olhos alguém mas não o fazer a não ser através da alma. Quando olhamos nos olhos um artista e exigimos que não sejam arrogantes, somos nós que o estamos a ser, por acharmos que somos dignos de pedir o que quer que seja. Pedir? Nós, que não lhes demos nada, ainda lhes exigimos que não sejam arrogantes? Ainda lhes pedimos coisas? Nós é que não merecemos a sua Arte. Não admira que não olhem para nós. Não admira que sejam arrogantes connosco. Quando o mar de críticos só sabe falar do carácter deles quando eles acabam de por uma posta da sua alma ali em exposição para todos verem, não me surpreende que não tenham paciência para os seres pequeninos que lhes apontam o dedo.
E assim concluo que afinal os artistas não são arrogantes. Comparados com o público até são bastante humildes.
Nova definição de artista: ser humilde sendo arrogante.
Nunca confio num artista que não seja assim.
quarta-feira, 5 de Novembro de 2008
Poema VII
de não lhe tocares
Aumentas-me a sede
ao respirares
Quando deixas o calor entrar
nos espaços entre as coisas
Constróis na água quente
a beleza dos não lugares
Abraças o passar do tempo
sem nada forçares
Deixas nascer o alimento
fecundado por olhares
E quando nessa flor
acordas o paladar
Libertas nele a cor
do meu sangue a escaldar
Poema VI
for acabada por ti
e cada lágrima
como aquela que vi
Ao cruzarmos as nossas vidas
até agora mal vividas
talvez conseguíssemos nunca terminar
de juntos celebrar
uma abraço a cada choque
um casamento a cada toque
e seguir a nossa sorte
sem medo nem agonias
terça-feira, 4 de Novembro de 2008
Poema V
aquelas coisas que te faziam corar.
Mas como podia parar
se a cada palavra dita
fazias bonita
a tua beleza aumentar?
Dizias que era especial o que eu fazia
mas estavas enganada.
O que era especial era o que acontecia
quando o que eu fazia te encontrava.
Poema IV
Não sonhei que viesses a ser para mim
Metade da toda que és hoje
E se a tua beleza
Não cabe na minha poesia
É para mim um mistério
Como tu cabes em ti
Os olhos
Emprenhados pelo Sol laranja de fim de tarde, eram da cor do mel brilhante, como âmbar, mas mais bonitos. Eram intensos e eram elegantes. Fiquei a ouvi-lo mas a certa altura foi como se a voz dele se separasse do corpo e, subitamente, ficasse silêncio, enquanto na minha cabeça fazia um zoom de 46 vezes, 3000 mega-pixels aos olhos dele.
Dei por mim a pensar que aqueles olhos tinham algo de fulminante. Nunca senti atração por um rapaz, mas por aqueles olhos, sim, naqueles olhos eu podia ser feliz. Fiz o zoom out - 46 vezes e 3000 mega-pixels para trás - e vi-me debruçado sobre aqueles olhos, que agora pertenciam a uma moça. Linda de morrer, toda a sua beleza correspondia à daqueles olhos. Como diz o John Cusack no Hi Fidelity, ela compatia a cem por cento com os meus sentidos. E foi aí que percebi pela primeira vez na vida, que os olhos são a única parte do corpo humano que, pelo menos à vista, é igual entre homens e mulheres. E vi a mulher linda que aquele rapaz podia ter sido, no lugar do barbudo que ali estava. Pensei no que poderia ter acontecido entre nós se ele tivesse nascido mulher. E foi assim que nos olhos de um rapaz eu vi a mulher dos meus sonhos.
E percebi que não há nada de homossexual em apreciar os olhos de outros rapazes. Os olhos não têm género, e talvez sejam até a única forma de um rapaz heterossexual ou de uma lésbica apreciarem sexualmente um rapaz .
(a frase Os olhos dela não fazem o meu génro acaba de perder qualquer sentido)
sábado, 1 de Novembro de 2008
Poema III
Sentia que pedias perdão por não seres minha mulher.
Quando me abraçavas
Sentia a tua alma quente nas tuas mãos frias
Quando me abraçavas
Sentia que querias ser mais que uma qualquer mas não sabias
Quando me abraçavas
Sentia que dizias que ali eras mais que uma despedida
Quando me abraçavas
Sentia que já então esculpias a nossa promessa de vida
Quando me abraçavas
Sentia que juravas não querer esquecer
Quando me abraçavas
Sentia que não era só o frio da tua cidade que estavas a aquecer
Quando me abraçavas
Sentia que fugias do beijo que me querias dar
Quando me abraçavas
Sentia que pedias que não te deixasse escapar
Quando me abraçavas
Sentia que nos casavas
Quando me abraçavas
Sentia que nos abraçavas
Quando me abraçavas
Poema II
Que encontras nos próprios passos
O caminho da beleza
Mini poema sobre a mulher dos meus sonhos.
Poema I
Aquilo que via quando olhava para dentro
Mas que nunca seria capaz de pôr cá fora
E tu ensinaste-me que sim
E chamámos-lhe Ana.
Poema para a minha futura mulher que não sei quem virá a ser, sobre a nossa filha que ainda não nasceu.
sábado, 25 de Outubro de 2008
Pequenos pedaços de mim
Não posso julgar o que passou com os tempos verbais de hoje. Têm de ser os tempos verbais justos, do tempo dela. Sem a ter tido, não seria hoje quem sou, não teria aprendido com a experiencia de a ter, as coisas que eu antes dela não tinha e que tenho já sem a ter. Ela pode ter feito mais estragos que coisas boas, mas foi assim como um desbastar do calhau antes de começar a escultura, e alguém tem de fazer esse trabalho. Foi ela. Prestemos-lhe essa honra. Aprendi muito com ela. Tenho uma ex-namorada.
Parece que já não namoramos há muito tempo. De facto já passou algum tempo. Mas ela ainda tem coisas minhas na casa dela. Com que coragem é que eu lhas posso pedir (ou de que serve pedir) se eu sei que ela as tem porque quer ficar com um bocado de mim para sempre?
Eu sei que ela nunca me vai poder devolver aquelas lágrimas que me tirou, porque também não as tem. Lágrimas são sempre a fundo perdido.
Mas será que eu sou mesmo fútil ao ponto de ser capaz de lhe pedir que me devolva os meus livros, discos e filmes? São só coisas, mas sinto que se lhas tirar é como se lhe tirasse uma costela. Ela quer tê-las como se fossem um relicário de mim, eu sei. Só que eu não quero os meus livros de volta para apagar o passado. Quero-os só porque são meus, e o passado está dentro da gente, os livros são para ser lidos e aposto que ela não os lê. Mas será que são realmente meus? Talvez sejam algo que perdi quando, ao pertencemos um ao outro, na mistura de um com o outro e na separação e reconstrução de novo dos dois sozinhos, em tigelas separadas depois da receita estar pronta. Será que os meus livros são como aqueles tesouros que se perdem nos naufrágios?
Em todo o caso, ganhei e perdi muito mais com essa relação que DVDs. Perdi a minha ingenuidade (levou uns socos valentes) e a minha inocência não ficou intacta (está hoje suspensa num arame de trapezista que lhe dá um aspeto muito mais poético). Em compensação, ganhei um armamento de Rambo para resistir às agressões emocionais. Hoje mato víboras com passos de dança e afasto demónios com expressões solenes no Bairro Alto.
É por isso que me parece de uma grande futilidade estar a falar de livros, discos com música e com filmes a esta hora. São o menos importante de tudo isto. E em todo o caso não é tão fútil como se falasse no dinheiro que gastei com ela. Porque o dinheiro não existe, é muito feio misturar dinheiro e amor nas mesmas frases. São dois assuntos que não se podem misturar. Um desrói o outro.
Estes objetos sagrados não são como dinheiro. São pedaços de mim que ela tem em seu poder e que existem. Têm uma história.
Eu nunca lhos dei. Mas dei-me a mim e se já foi muito feio pedir-me de volta, porque quem dá não tira. Não posso voltar a fazê-lo. Em todo o caso, há mais pedaços de mim aí espalhados pelo mundo (alguns bem espalhados, aliás, alguns que quando os dei foi para nunca os ter de volta e assim é muito bonito, assim não há melhor coisa na vida). Não quero recolher tudo o que é meu e anda aí no mundo. É bom espalharmo-nos. Se pudesse, deixava um livro a cada pessoa que estimo a cada encontro. Adoro dar prendas. É sempre bom aprendermos a libertarmo-nos de nós próprios.
Exploração divina
Bolas, realmente não há direito. Por actos de deus, referem-se a tufões que possam cair em cima da nossa casa, ou a tremores de terra. Que visão do mundo esta em que só os desastres naturais é que são Deus? Fico entristecido quando vejo que há pessoas - isto é, civilizações inteiras (porque para compreender determinada civilização, não há melhor que olhar para a papelada das suas seguradoras) - dizia eu - civilizações para quem Deus existe, mas não é mais que um requintado anarquista fazedor de maremotos.
Hoje, Deus não está morto, mas já não é o Velhinho de Barbas Brancas no Céu, é o Velho de Barbas Brancas à porta do Metro na estação da Baixa-Chiado, de muletas a gritar com um braço no ar Panfleto Anarquista! (que vi uma vez há cerca de cinco anos atrás e nunca mais).
Ao mesmo tempo, fico encantado com o pudor religioso com que as seguradoras se recusam a deixar o cliente fazer dinheiro à custa do senhor. Parece-me muito nobre. Apostar a sorte das pessoas sim, mas é melhor não fazer apostas com Nosso Senhor, que nunca se sabe, ele tem vantagem, e pode entrar no jogo à séria. Exato, deve ser isso então. Não fosse deus por-se para aí a fazer seguros, a rebentar com os bens e a lixar as seguradoras. Estes tipos são espertos.
Ao mesmo tempo, será que devo respeitar um negócio cuja prosperidade depende de deixar Deus de fora?
O regresso ou O Napoleão dos blogues
É certo que a irritação ainda cá está, e me faz franzir o sobrolho desconfiado das minhas próprias ideias.
Mas como podia eu acabar com esta tribuna estilo folhetim virtual, por causa de uma irritação, quando há tanta coisa para dizer, por dizer, tanta coisa ainda para ser pensada, tanta coisa a acontecer e por acontecer e quando, tenho de admitir, me apetece tanto escrever? Acabar com o que já se começou por uma irritação parece-me agora de uma meninice inqualificável. Era como se o Napoleão tivesse parado a invasão porque lhe doía a barriga, ou porque se viu ao espelho e se achou feio (ele era feio). Temos que ser fortes. Este blogue tem de ser como a invasão do Napoleão. Não estou por menos.
Onde iria eu escrever? No meu diário? Também. Mas que piada tem um diário quando se pode ter um lugar onde quando se escreve se é posto à prova por todos aqueles que estão interessados em fazê-lo? É um valente antídoto para a auto-complacência. Enquanto no meu diário posso ser choramingas, aqui tenho de me mostrar forte. Enquanto que no diário posso ser pseudo-poético, aqui, a ser alguma coisa, terá sempre que ser o mais poético e o menos pseudo (é difícil, eu sou muito pseudo).
Mas o mais importante é a verdade. É ela que tem de ser protegida. E sozinho não consigo. Agradeço a todos os que estão comigo. Só o facto de lerem isto, faz mais por Ela (pela Verdade) do que poderíamos pensar. Mas isso não é mérito meu.
segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
Ilusão
Saber sofrer
Os portugueses não querem sofrer, mas é preciso apostar a vitória para a poder ter. Nunca pode marcar quem não está disposto a sofrer. E existe sofrimento maior que viver uma vida de 0-0?
Mesmo perdendo no final - porque perdemos sempre - a vida é sempre preferível se se tiver marcado pelo menos uma vez.
Os sentimentos dos outros
A Bruna não disse, mas eu tive a sensação que ficou no ar a ideia de que ser insensível também era uma vantagem, como se fosse um luxo que o homem tem, o de poder ser bruto.
Não sinto que seja. Os homens insensíveis aos sentimentos que não são seus, sofrem quando perdem aqueles de quem gostam por não saberem fazê-los felizes. Quando não conseguem exprimir aquilo que sentem. Quando sentem a besta incompreendida que são. Podem não sentir os sofrimentos dos outros, mas sentem bem os seus. Sofrem muito essa incapacidade de serem bons. Garanto-vos que é uma das nossas maiores tragédias.
domingo, 19 de Outubro de 2008
Intimidade
O principal argumento dela, é que os beijos são uma intimidade excessiva para se ter com alguém que, muitas vezes, mal conhecemos. Eu tomo a liberdade de acrescentar outro, que descobri com a ajuda preciosa de outra amiga, a Madalena: banalizar o ato de dar beijos passando a usá-los como um cumprimento, destruiu todo o valor do beijo enquanto acção, tendo feito com que passasse a importar, não se se beija, mas onde se beija. É por isso que uma namorada ou namorado pode sentir que não é amado quando o seu amor não o beijar na boca, mas só na face. Que sociedade podre é esta em que uma pessoa pode pensar que não é amada porque lhe dão um beijo? Se passássemos a dar beijos na cara só quando sentíamos uma vontade que não conseguíamos controlar, muito mais valor teria um beijo dado a alguém de quem se gosta, ou a quem se quer dar carinho, seja entre amigos ou casais.
A minha amiga tem bons argumentos a seu favor. Mas a minha amiga propõe o aperto de mão europeu como alternativa ao beijo facial. Aquilo com que ela não contava era com a intimidade brutal que é para mim enquanto rapaz tocar as mãos de uma rapariga. Com o beijo banalizado, as mãos eram santas. As mãos eram o primeiro portal da virgindade do corpo.
Um toque na mão de uma mulher por quem me sinto atraído é mil vezes mais sensual que um rápido e fugaz beijo na face, que - mesmo que tentemos saborear e fazer com que dure o máximo possível - isso nunca passa de um esforço vão, pois conforme os nossos lábios lá estão, já não estão, e nunca dá para saborear. É tão rápido que nem dá tempo para pensar. Eu já tentei de tudo. Impulsionar a cabeça com mais força, para a frente, para melhor sentir a face desejada, já tentei friccionar os lábios contra a bochecha doce, ou mesmo mexê-los, já tentei até inspirar profundamente quando o meu nariz se aproximava dos cabelos de uma mulher que eu desejava para sentir o máximo dela que pudesse. Não consegui com isto mais que fazer com que pensassem que eu era um psicopata. Fui ridículo.
Mas com um aperto de mão tudo muda. O aperto de mão é um tocar, um enlaçar, um apertar, um sentir a pele lisa da outra mão com as nossas mãos - especialmente porque as mulheres não sabem dar apertos de mão como os homens - talvez por falta de treino - e concentram o fundamental do aperto de mão nos dedos e não na palma da mão (como o homem), o que faz com que seja um gesto de uma tal ternura encantatória, de uma subtileza e de uma sensualidade real sentir a mão da mulher, que o beijo bem pode ser enterrado.
Lembro-me das mulheres estrangeiras que já cumprimentei com aperto de mão e de como, as que eram giras, me fizeram tremer ao sentir aquela palma da mão, durante aquele segundo em que, como dois namorados, demos as mãos. Sou levado a concluir que o aperto de mão feminino é uma forma de sedução muito mais eficaz e precisa que o beijo na face.
E é agora que percebo que, esperta como é, a minha amiga sabe isto tudo. Por bluff diz que quer acabar com os beijos por causa da intimidade, mas isso é só uma estratégia para seduzir melhor os rapazes e ainda passar por santinha. Eu aqui a pensar que estou a fazer um post muito inteligente e ela já sabia isto tudo. Miúda, tu és de mais.
domingo, 12 de Outubro de 2008
Cumprir
Mas, das profundezas da Geração Descrente, houve quem tivesse a coragem de prometer.
Por entre o mar dos desiludidos, Os Pontos Negros prometeram. Os Golpes prometeram. O Tiago Guillul e a sua banda já tinham prometido. E com eles prometemos nós, todos aqueles que espalhámos a mensagem e acreditámos. E ontem, tornando o MusicBox a CaixaDeMúsica que até lá nunca fora, eles tiveram a ousadia de cumprir. E nós com eles.
A bandeira que eles hastearam ontem - com a ajuda de outros, que com nobreza de caráter respondem apenas aos nomes Amor Fúria ou FlorCaveira - hastearam-na para Sempre. Na História. Na História porque foi vivida no presente. Ontem aconteceu no MusicBox a melhor noite de rock português em que eu já estive presente. Acredito mesmo, a melhor noite de rock português que qualquer um dos que lá esteve presenciou até hoje, dada a sua idade.
Só é História aquilo que é vivido. Só conta aquilo que é verdade. Ontem o rock português foi verdade.
Verdade para quem? Para aqueles, que novos de espírito, ainda souberam acreditar.
Há duas formas de acreditar. Uma, envolve a fé. A outra, a razão. A que envolve a fé, consiste em acreditar naquilo que não se vê, só se sente. Naquilo que se sabe que é possível - é, no presente, apesar de só ir acontecer no futuro. Os que acreditaram assim, tiveram a oportunidade de estar lá no momento em que o futuro se tornou presente. E isso chama-se viver.
A outra forma de acreditar, que envolve a razão, consiste em ler textos como este, em ler as revistas, em ouvir contar a noite magnífica que aconteceu ontem e que uns eleitos presenciaram, e suspirar Acredito que tenha sido bom... Esta forma de acreditar fica para todos os que não estiveram ontem no MusicBox.
Quem deixou ontem o MusicBox a abarrotar era, de facto, novo. Novo de idade. Uma grande percentagem do público era mais novo que eu (e eu sou novo). Sei que a noite de ontem os mudará para sempre. A geração que aclamará Os Pontos Negros, Os Golpes, o Tiago Guillul, o Samuel Úria e todos os outros é a geração que hoje tem menos de vinte e dois anos.
A minha geração - a dos vinte e dois anos para cima - nem vê-la. Convidei trinta amigos, veio um. Mas não foram só os meus amigos que faltram, foi uma geração inteira. Não há nada que me alivie a raiva perante esta gente que, cansada, triste, precocemente velha, não tem forças para realmente viver o seu tempo (quanto mais algum dia aspirar a viver o passado ou o futuro - sim, porque é preciso dignidade para viver o passado e o futuro). A geração que deixar passar ao lado - e eu ainda tenho fé que não vai deixar - bandas como Os Pontos Negros, Os Golpes ou o Tiago Guillul, é uma geração merecedora do grito de Almada Negreiros através da História:
Quem me dera ver-me livre desta geração que faz o seu Tempo ser de Não Glória e só está preocupada com porcarias. A geração que nem promete, nem cumpre.
O melhor refrão dos nossos tempos é para ela.
Felizmente que a nova geração está já aí.
sábado, 11 de Outubro de 2008
Os Ricos de Espírito
Então lá vem o tempo de antena do senhor Zé Pedro, o famoso guitarrista solo e ex-heroinómano dos Xutos & Pontapés, isto é, o Keith Richards português. Na edição de hoje do seu programa Zé Pedro Rock & Roll fez um bonito discurso. Defendeu as bandas portuguesas de música popular rock. Disse como era importante prestarmos atenção à nossa música, como ela era importante e tinha um lugar precioso a nossa cultura, como não devíamos sempre compará-la com a estrangeira mas julgá-la pelo que vale. E depois, apresentou a sua proposta do dia, em defesa da música portuguesa, como ele bem a defende. Apresentou uns tais que dão pelo nome de X-Wife.
Em primeiro lugar, já ouvi X-Wife no programa do Zé Pedro praí umas quinze vezes. Em segundo, os X-Wife não fazem música portuguesa. Os X-Wife são portugueses. Mas a música que fazem é anglo-saxónica. Promover os X-Wife não é promover a música portuguesa, é promover que os portugueses não façam música portuguesa e façam ainda mais música anglo-saxónica. Promover os X-Wife é promover a destruição da música portuguesa.
Como é que se pode dizer que é portuguesa uma música da qual eu, como português, não consigo perceber uma só palavra da letra porque, além de ser em inglês e o sotaque dele ser impossível, ele cantar de forma a eu não perceber nada?
Os X-Wife são uma boa banda. Só cometem um gravíssimo erro artístico. Cantam fora da cultura. Ao cantarem em inglês, os X-Wife colocaram-se por vontade própria fora da cultura lusófona. Mas enganam-se aqueles que pensam que eles se integraram na cultura anglo-saxónica. Porque eles queriam isso, mas não conseguem. Para um falante nativo de inglês, os X-Wife não são mais que uns nativos de um povo autóctone, que ainda não aprendeu bem a língua do império. São assim uma espécie de povo exótico, que os fará rir dado o esforço que faz por se fazer compreender.
Ser poliglota é bom. É ótimo. É excelente. Mas abdicar da própria cultura é um erro. Porque empobrece quem o faz. Porque quem o faz, ou o faz inconscientemente, porque já vive noutra cultura, porque a sua cultura de origem já não lhe diz nada, ou se o faz por moda, é apenas um pobre de espírito. Pobre de espírito no sentido mais literal que esta expressão pode ter, na medida em que a nossa cultura faz parte do nosso Ser.
Por muito que gostassem de ter nascido na inglaterra, os X-Wife não são ingleses. Ao terem nascido em Portugal, serão para sempre portugueses. Ao rejeitarem sê-lo, só ficam a perder.
O Zé Pedro admira-se como é que os X-Wife ainda não se afirmaram mais em Portugal. A resposta parece-me óbvia. Não se afirmaram aqui porque eles não gostam da sua cultura. Se não gostam da sua cultura, os portugueses também não gostam deles. Podem ser muito populares por entre a malta do bairro alto. Mas nunca serão na lusofonia. Será popular na sua cultura quem a souber abraçar e re-inventar, sempre dentro da tradição. Não há cultura sem tradição.
Se o Zé Pedro quer falar de cultura portuguesa, devia falar antes do concerto que vai haver este Sábado à noite - hoje - no MusicBox (que só nessa noite passará a chamar-se CaixaDeMúsica), em Lisboa, no Cais do Sodré, onde tocarão Os Golpes, Tiago Guillul e Os Pontos Negros, numa noite que passará a fazer parte da história da música popular portuguesa. Os Pontos Negros apresentarão o seu primeiro álbum de originais Magnífico Material Inútil, Os Golpes darão o seu primeiro concerto depois de atingida a sua maturidade enquanto banda e Tiago Guillul - o Midas português, que em tudo o que toca transforma em Pop - surgirá enquanto o justo mentor.
Se o Zé Pedro quisesse realmente defender a música popular portuguesa, promovia-a, em vez de defender os traidores da nação.
É mais português isto que X-Wife. Muito mais. Incrivelmente mais.
Vem aí a Crise IV
A instauração de uma ditadura ecologista internacional.
A esquerda já teve as suas ditaduras. Fracassaram.
A direita também. Fracassaram.
É tempo de dar a oportunidade... aos verdes.
Sob o jugo da Internacional Ecologista, vai ser ver as grandes pradarias com milhões de pessoas a plantar árvores à lei do chicote. Rusgas para prender quem desperdiçasse energia. Nacionalização das empresas poluentes. Investimento de todos os meios económicos na construção de fontes de energia renováveis. Regulação da economia de forma a tornar cada país auto-suficiente em termos de produção.
Com isto no lugar das suásticas, das foices e dos martelos, parece que já oiço da minha janela as multidões na rua a gritar Viva a ditadura ecologista, viva o partido global ecologista, viva a nova ordem mundial.
Viva.
quinta-feira, 9 de Outubro de 2008
Vem aí a crise III
E pensar que arte popular já foi assim (e assim) e nos conseguia abanar sem se abanar.
Felizmente a crise vai por tudo no lugar.
Este post é dedicado a uma pessoa especial que vai saber quem é.
Viver para sempre (no presente)
Sei que falo com as pessoas, conto-lhes coisas - e não estou a falar assim de coisas com muitos detalhes, ou de coisas em que as pessoas não estavam interessadas - estou a falar de conversas inteiras sobre um assunto.
Sei que, passados um mês, seis meses, uma semana - depende da pessoa - há pessoas com quem conversei que não se lembram de termos sequer falado de este ou aquele assunto! Pessoas que me deram a conhecer um livro ou um filme... e não se lembram disso. Pessoas a quem contei isto ou aquilo que era muito grave. Não se lembram... E não estou a falar de pessoas que, passado um pouco dizem eh, não me lembrava, tens razão. Não. Estou a falar de pessoas que não se conseguem lembrar.
É habitual esquecer-me se já contei tal coisa a tal pessoa. Mas a diferença é que, se me lembrarem, lembro-me!
Mas há pessoas que não.
Não tenho explicação para isto. Talvez as drogas. Mas nem todas as pessoas em quem estou a pensar tomam drogas. Talvez o mundo moderno, em que a quantidade de informação que passa por nós é imensa, não lhes permita armazenar tudo. Não sei.
O que sei é que isto traz grandes vantagens no campo da paixão. O maior inimigo da paixão era a habituação. Mas agora, com a nova e moderníssima amnésia, ninguém se lembra de nada, a habituação acabou! Estas pessoas nunca se fartarão das suas paixões. Isso fa-las-há eternas! Só acabarão quando a própria amnésia os fizer esquecer as próprias paixões. Mas até lá, estas pessoas ouvirão repetidamente as mesmas histórias uns dos outros, farão os mesmos passeios românticos repetidas vezes dizendo sempre as mesmas coisas, oferecendo sempre flores iguais e, com sorte, cada noite passada juntos será como a primeira! Com sorte, a estas pessoas, aquela curiosidade miudinha, aquela vergonha que nos revela quando pensamos que nos protege, nunca passará, impedindo para sempre que a relação amadureça!
E ainda dizem que as drogas não são boas para a sociedade.
Um - Acalmam as pessoas e impedem a luta de classes
Dois - Tornam as pessoas mais simples
Três - Não deixam que ninguém se torne demasiado esperto (quem não odeia intelectuais?)
Quatro - Permite diversão mesmo quando as vidas são infelizes
Cinco - Fazem com que a paixão não acabe...
... etc, etc.
O mundo moderno é maravilhoso. Se tivermos sorte, muita sorte, talvez esta falta de memória das experiências vividas alastre a todas as pessoas e chegue mesmo a deixar de existir o tempo. As pessoas não se lembrarão da infância ou do passado e será como se vivêssemos para sempre, e no presente. Como os animaizinhos! São tão queridos os animaizinhos!
Se tivermos muita muita sorte, talvez até a paixão dure para sempre e o amor acabe! Talvez nunca mais tenhamos de sofrer por amor!
quarta-feira, 8 de Outubro de 2008
Vem aí a crise II
Temos inevitavelmente de ler nisto um sinal dos tempos. As pessoas andam à procura de blusas, quais bolsas? O mundo está é com falta de amor, não de bolsas. Façam cair as bolsas e as blusas! O povo quer amar-se.
Mas os portugueses estão bem preparados para a crise. Estão sim senhor. Ontem, o Ministro das Finanças de Portugal - Teixeira dos Santos - disse que os portugueses podem estar descansados porque caso haja uma recessão económica, as suas poupanças no banco não serão nunca ameaçadas.
Todos sabemos que, nos países realmente capitalistas, se houver recessão, nenhum governo tem dinheiro para restituir a todos os seus cidadãos as poupanças que tinham no banco. Excepto em Portugal. E porquê?
Porque nenhum português tem poupanças. Que poupanças? Onde é que no mundo inteiro há um português com poupanças? Os portugueses são um povo sério, um povo que faz mover a economia, um povo que consome. Poupar para quê? Aliás, poupar o quê? O dinheiro que não temos? Os portugueses consumiram e gastaram o dinheiro que não existia, mas o banco disse-nos que não havia problema. E assim sendo, está tudo bem.
Os portugueses estão bem preparados para a crise. Até porque nunca viveram de outra maneira. Crise? Que crise? Para os portugueses esta crise vai ser como ginjas. Crise... Só se formos todos viver para refugios nucleares subterrâneos é que passa a ser mais crise que agora. E só porque deixamos de poder ver o mar enquanto pensamos na vida, senão nem assim era crise. Há o Canal Benfica no refúgio?
É por isso que acho que os portugueses deviam ser destacados e enviados para todo o Mundo. Em pequenos grupos, de talvez cinco portugueses para cada aldeia do mundo, iríamos dar formação e aulas de como viver na crise. Todos os grupos seriam acompanhados de alguns assistentes brasileiros, talvez vinte, que, já bastante treinados por nós ao longo de uns séculos, ensinariam as pessoas do mundo inteiro os prazeres da vida - a cantar, a dançar, a cozinhar, a fazer amor - e por alguns angolanos e moçambicanos, talvez dez, que iriam ensinar aos povos do mundo o que é realmente divertir-se com poucos meios e até não poder mais e a como ter estilo com roupa barata.
E assim a lusofonia encontraria uma vez mais a sua função ancestral na caminhada cósmica e milenar da raça humana.
Já repararam como na nossa língua amar é quase igual a a mar? Como se significasse fazer-se ao mar? Melhor, como se significasse fazer-se mar? Fazer-se de novo em mar, de onde todos nascemos? Devolver-se ao mar, ao caos, no amor? Todos nascemos do mar e do amar dos nossos pais. Isto não é um acaso.
O que vais fazer agora? Vou a mar.
terça-feira, 7 de Outubro de 2008
Vem aí a crise I
Parece-me que a crise só acontece porque há falta de Amor no mundo. Ninguém deixava que a crise acontecesse se tivesse alguma coisa valiosa o suficiente porque lutar. E para proteger. Uma moça linda com olhos de índia para amar. É por isso que o sistema activa esta espécie de instinto suicida e se auto-destrói. Quando percebe que não se consegue sustentar emocionalmente. Dizem que os mercados não se estão a auto-regular. Eu não vejo melhor exemplo de auto-regulação que um sistema que percebe que não vale a pena tanto trabalho se não há ninguém em casa para nos afetar com os seus doces afetos.
Este sistema foi afetado por isso. É um pena. Eu gostava dele. O capitalismo tinha coisas incríveis. Vai ser incrível poder contar aos meus netos que vivi no tempo do capitalismo - como a minha mãe conta que viveu na Alemanha Comunista - e que, ao contrário do Comunismo, o Capitalismo tinha muitas coisas boas. Mas pronto, não se pode ter só uma parte. Uma forma traz sempre o seu conteúdo.
Talvez agora, obrigados a lutar para viver, os homens da minha geração se tornem mesmo homens e as mulheres mesmo mulheres, e se amem todos uns aos outros, quando só isso tivermos para nos fazer felizes. Não mais sofás aveludados, não mais o fetiche das roupas caras, não mais os carros velozes. Não mais o algodão doce. É uma pena, já disse. Mas talvez assim voltemos a amar. Talvez assim um abraço volte a valer um abraço. Talvez as pessoas voltem a dar beijos por gosto.
Ao contrário do que os analistas prevêem, acho que a natalidade vai subir com a crise. Pelo menos se depender de mim vai.
Sobre uma geração em festa
segunda-feira, 6 de Outubro de 2008
Sobre a alma e o amor
Se o Amor nos leva a, através daqueles que amamos, nos encontrarmos a nós próprios, então sentir Amor leva-nos a sentir a Alma.
O que é a alma
Pobre ignorância. Ontem li na parede da casa de uma pessoa, uma coisa que me fez perceber que esta não era a maneira certa de por a questão. Não se trata de se existe ou não. Sim, uma pessoa é o seu corpo. Mas a Alma é uma palavra e tem um significado que se refere a uma coisa.
Alma significa Sentimento de Nós Próprios.
Muitos podem discordar, argumentar, conversar ou esclarecer-me sobre isto. Mas em vinte e dois anos nunca tinha encontrado definição que me parecesse mais verdadeira.
A Alma sente-se. Como o Amor.
Amorosamente imaturos
Todos queremos amar. Mesmo quem não acredita no Amor, gostava de acreditar. Ninguém sabe explicar o que é o Amor, mas todos sabem quando o sentem. Ahh, então é isto o amor sentimos. Eu também não sei explicar o que é o Amor. Só há uma coisa, pequena, que descobri. O Amor não se encontra. Não basta procurar. O Amor acontece, mas acontece porque nós fazemos com que aconteça. Procurar tem de ser agir. Procurar ter de ser construir. Procura-construção.
A procura-construção dá trabalho e leva tempo. Mas esta forma de pensar é completamente alienigena à minha geração. Graças ao capitalismo, habituamo-nos a pensar e a viver fora do tempo. Viver fora do tempo é, por exemplo, não termos mais consciência que, para comer um bife, é preciso esperar o tempo que a vaca ou o porco levam a crescer, o tempo que levam a ser alimentados, para que finalmente os possamos comer. O mesmo é verdade para uma alface, ou para uma maçã. É verdade para tudo. Antigamente, quando éramos nós que produzíamos a nossa comida - nós ou o nosso vizinho com quem trocávamos galinhas por batatas - víamos as coisas crescer e sabíamos que tínhamos de investir na coisa para ela ser grande, boa e gostosa. Da mesma forma, tínhamos de ser nós a construir a nossa casa. Não bastava comprá-la. O mesmo para as famílias. Tinham de ser as pessoas a construí-las.
No capitalismo tudo é comprado. Temos de trabalhar, é certo, mas tudo pode ser comprado no momento. Ninguém pensa que está, neste instante, nalgum campo no Alentejo, a crescer a alface que vamos comer daqui a uns meses. Mas está. Perceber o tempo já é um grande passo.
Mas a minha geração tem outra deficiência. Além de não compreender o tempo, é ainda mais difícil para nós conseguir imaginar o esforço e o tempo e a dedicação necessárias para que as alfaces fiquem boas. Hoje as coisas só passam a existir já prontas. A vida é um super-mercado. Compramos a nossa roupa, a nossa personalidade, os nossos gostos. Consumimos. Queremos, e temos, tudo na hora. Sem esforço.
Mas as pessoas trabalham! dir-se-á. A minha geração não. Não gostamos. Não é bem o nosso tipo de coisa. Ou talvez não tenhamos jeito. A minha geração prefere depender dos pais. Isso sim, é bom. E é por isso que a minha geração não aprendeu a tirar prazer do trabalho. Só nos dá prazer o que implicar estar parado, descansado, relaxado. É um estilo de vida. Quando se passa o dia-a-dia da vida parado, o único divertimento acima desse é estar mais-que-parado. Já não basta estar fisicamente estático, é preciso estar intelectualmente estático. É preciso fumar charros ou ficar entupido de cerveja, para chegar aos níveis sub-zero do relaxamento. O -1, o -2, o -3, como os andares de garagem do meu prédio. Quando já não é humanamente possível ser mais inútil, fuma-se um pouco e passa-se a conseguir.
Uns quantos de nós, mais esforçados, ainda se dão ao trabalho (imagine-se, ao trabalho) de se auto-consrtuirem e melhorarem, independentes (uns mais, outros menos) daquilo que a sociedade de consumo diz que eles devem ser. Lêem livros que não são os que a Escola, ou a Sociedade, diz que eles devem ler. Vêm filmes que não são publicitados como os outros, vestem umas roupas que gostam e não as que todos usam. Têm trabalho a auto-construir-se e isso é admirável.
Mas quase ninguém tem trabalho em alguma coisa que não seja o EU. É por isso que ninguém sabe amar. Porque amar é uma construção. Porque amar dá trabalho e leva tempo. Porque amar é acreditar em algo que não existe e torná-lo possível.
Uma vez um amigo meu disse a outro amigo meu uma frase de que nunca me esqueci: Precisas de uma mulher que faça de ti um homem. Amar o outro é fazer dele ou dela um homem ou uma mulher. É por isso que todos os rapazes de jeito já têm namorda, assim como todas as grandes mulheres já estão casadas. Porque encontraram alguém que fez deles grandes.
Por isso não se encontra o amor. As pessoas falam de encontrar o amor como se vivessem num super-mercado gigante e estivessem a dizer que não encontram a secção do amor. Ai, não encontro o Amor em lado nenhum... Desculpe, o Amor está em que prateleira?
O Amor faz-se.
Amar alguém é encontrarmos a pessoa que nos permite sermos nós. Na era do individualismo capitalista, as pessoas só se sabem fazer sozinhas. Ninguém se faz sozinho tão bem como se poderia fazer acompanhado pelo Amor. São as pessoas que nos amam e que amamos que nos fazem.
Quando conhecemos alguém novo, essa pessoa nunca é a pessoa que sonhámos amar. Ninguém é. Mas o Amor é uma espécie de radar que vê para além do tempo e nos permite ver tudo o que aquela pessoa poderia ser conosco. Um lado dessa pessoa que pode nunca se ter revelado à própria pessoa, mas que se ela se entregar à outra pode vir a transformar-se e a ter algo que já era seu mas que o próprio não sabia que tinha ou podia ter. O Amor é criador. Desperta coisas que o próprio nunca despertou porque nunca se interessou por elas e nem sabia que as tinha. É aquilo que vivemos juntos, a história partilhada vivida em conjunto que nos permite sermos. É um investimento. Não se trata de fazer da pessoa o que gostamos contra a vontade dela, ou de mudá-la. Isso é o que de mais horrível se pode tentar fazer, é o oposto do Amor. Amor é ajudar a pessoa a ser mais ela própria. A ser-se em toda a sua glória.
Não deixa de ser muito curioso que na minha geração os namoros sejam contratos, quase como casamentos, mas sem aquilo que mais assusta a minha geração. A ideia de para sempre. Ou seja, o tempo. Os namoros são para sempre até deixarem de ser. São exatamente um casamento, já que a maioria não dura até ao fim. O ser humano sempre encontrará formas rebuscadas de contornar os seus problemas. O que nunca irá acontecer é as pessoas ficarem sozinhas. Um dia, vai haver um grande despertar.
domingo, 5 de Outubro de 2008
Prato na mesa (é só comer)
Desde há uns dias atrás sinto-me inteiro. Sinto-me completo. Acabado de fazer como um bolo. Como se a construção do EU adulto tivesse, sem aviso, terminado, e tivesse tocado um TRRIMMM mudo do micro-ondas da vida e eu estivesse a fumegar como um prato acabado de cozinhar. De um dia para o outro. Daqui para a frente vai ser só viver.
quarta-feira, 1 de Outubro de 2008
Cultura da solidão
Já ninguém está disposto a sacrificar-se por ninguém. Mesmo que alguém esteja disposto a isso, não encontra ninguém que esteja também, então não se pode entregar.
Estamos uns verdadeiros animais. E ainda nos julgamos uma malta muito cosmopolita aqui na capital. Porque deixámos de nos conseguir sacrificar?
terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Histórias do Verão III
O meu amor por dançar já vem de muito longe. Mesmo assim, só este ano venci o preconceito de ir a São Pedro do Sul. Desiludido com o Sudoeste massificado, com um Paredes de Coura desinspirado, com o Vilar de Mouros já morto (imagino que ter deixado de haver festival não impede os festivaleiros da velha guarda de continuaram a ir - acampam e montam um rádio com leitor de Mp3 e tá feito o festival, que vive é das pessoas - era o que eu faria, mas eu não sou da velha guarda - não me sinto velho nem tenho nada para guardar), com um Super Bock Super Rock que é um evento de propaganda (acho que para o ano se vai chamar só Super-Bock-Feira-da-Cerveja para realçar o que interessa) e porque o Oeiras Alive! é em Lisboa e a graça do Verão é acampar, lá fui eu com o Bruno para o Andanças. Os dois pela primeira vez.
Admito que a verdade é que nunca lá tinha ido - entre outras razões - por medo dessas criaturas perigosas: os friques. Tinha medo que me obrigassem a usar túnicas, ou que fosse preciso ter rastas para poder entrar. Ou que não houvessem casas de banho, ou até que à entrada fizessem algum tipo de teste ou charada para tirar a limpo se eu era frique ou estava disfarçado - um teste tipo obrigarem-me a fazer um ritmo no djembé com os pés - e que eu não fosse capaz e tivesse de voltar para Lisboa.
Não só vim a descobrir que não fazem nenhuma destas coisas, como que, de todos os festivais de Verão a que já fui no nosso Portugal, este é o melhor. Isso mesmo, o melhor. O que tem menos friques, o mais repousante, aquele em que vi menos drogas, o mais higiénico e aquele em em que vi mais pessoas bonitas e aquele em que me diverti mais. Incrível não é? Todos estes anos enganado.
Estávamos lá há um dia e, na manhã de Sábado, porque ainda era muito cedo para dançar, eu, o Bruno e duas amigas nossas (uma delas completamente nova, outra um feliz reencontro daqueles que me faz amar portugal - uma colega minha da escola primária, dois anos mais nova que eu e que nestes praí catorze anos que estive sem a ver se tornou numa bela e adorável pessoa) fomos andar. Queríamos descobrir as famosas cachoeiras de São Pedro do Sul.
Atravessámos uma pequena e linda floresta e chegámos. O silêncio da Natureza. O repouso da água a escorrer, em misteriosas correntezas que se perdiam entre as pedras e árvores e outras plantas. A cachoeirinha estava vazia àquela hora, com uma exceção. Uma elegante moça, de pele morena, de bikini, completamente nua da cintura para cima que, estendida numa toalha numa rocha no alto da cachoeira, nos olhava como uma deusa marinha. Como pareceu tolerar a nossa presença, mergulhámos. Subimos as rochas. Vimos borboletas e pequenos insetos voadores, alguns azuis, outros vermelhos, nunca antes vistos. Molhádos de água doce vimos cabras a pastar à nossa volta. O cheio fantástico da erva e dos bosques. O quente do Sol no corpo. Inspirámos fundo o oxigénio em bruto que brota da terra. Ficámos felizes. Não há nada como a Natureza. E a moça sempre ali, a olhar para nós a fingir que não olhava e nós para ela.
Desejámos a Natureza e o nosso desejo foi concedido. Como se tivéssemos atravessado uma fronteira de um bosque encantado, a dado momento, começaram a chegar pessoas. Chegou um rapaz. Chegou uma rapariga. Tudo bem. A certa altura chegou um rapaz, magro e de cabelo comprido igualzinho a este, e banhou-se exatamente assim como esse se banha na fotografia. E aí sim, a cachoeira desaguou realmente na Natureza dele e fez os nossos calções de praia parecerem umas coisas rídiculas e tão sem graça como se fôssemos uns turistas - que éramos - que tendo oportunidade de provar a excecionalidade da Naturza, preferimos provar uma espécie de versão higeanizada de plástico, um MacDonalds da vida campestre. Uma monstruosidade quase tão aberrante como fazer sexo com preservativo. E a menina de peitos desnudos sempre a olhar a cena toda, lá do alto da sua cachoeira.
O rapaz nu da nossa história, que era uma espécie de Jesus Cristo que gostava de ter sido o Mogli, escalou a rocha como quem a farejava e foi sentar-se ao lado da nossa rapariga semi-nua, que consentiu, sorrindo enigmáticamente (de notar que o rapaz não se sentou na rocha sem antes limpar o assento com um ramo cheio de folhinhas que arrancou de um arbusto). O Sol brilhava e as borboletas pousavam nos ombros deles e nos nossos e toda a gente era feliz.
Enquanto isto se passava, estava eu a fingir que a cena não era nada de especial e a mostar as cabrinhas tão giras a pastar à minha colega da escola primária - tentando por segundos desviar o olhar de Adão e Eva - quando vindo não sei de onde salta de trás de um arbusto - literalmente de trás de um arbusto - uma espanhola completamente nua a passear dois cães que corriam soltos à volta dela (os Espanhóis têm este jeito caraterístico de entrar em cena). Logo saltou de trás de outro arbusto o seu par, um rapaz também nuzinho como ela que gritava Javíííí, javíííí ou outra espanholada qualquer. Enquanto eu e a minha amiga continuávamos a figir que aquilo não era nada de mais, na outra ponta, onde estava o Bruno e a nossa outra amiga, surge outro grupo, de pessoas loiras e nuas, que o Bruno mais tarde me disse que tinham formas muito interessantes. Já era tarde e deu-nos imensa vontade de ir dançar.
Escusado será dizer que, desde a primeira moça de peito moreno à última loira, tive vontade de me despir e nadar nu pelo lago e pela cachoeira. Não o fiz mas está para breve a iniciação ao nudismo. Mas escrevi isto tudo até aqui nem foi por isso. Foi porque, há duas horas atrás, estava no comboio a caminho de casa e, à minha frente estava sentada a rapariga desnuda da cachoeira.
Muito mais feia. Nem uma gota do brilho e tensão sexual que inspirava no cimo daquela cascata. Só feiura, e ainda por cima uma feiura banal. Ali, vestida com umas roupinhas da feira, roxas e com uns folhos nas alças, uns óculos de Sol grandes de mais para a forma da cabeça dela que lhe ficavam péssimos e umas calças pretas muito cafonas, em condições normais nem teria reparado nela. Sentei-me ali a pensar Já te vi praticamente nua a tomar banho numa nascente. Penso que ela não me reconheceu (afinal, havia outras coisas a chamar mais a atenção naquela manhã de Agosto). Saiu na Amadora. Quando se levantou para sair, como eu já estava com a atenção predisposta, aí sim, vi-a de costas e, na justeza das calças, era mais que possível intuir aquele corpo fulgurante que eu já tinha visto.
Acho que se andássemos todos nus, passariam a ser completamente outras as pessoas do nosso dia a dia que consideramos atraentes, bonitas ou sexys. Certas raparigas que parecem mais gordas vestidas que despidas (basta ir à praia com elas para saber) passariam a ser mais apreciadas, assim como as que não sabem escolher roupa. Por outro lado, as meninas sem sal mas com bom gosto ficariam a perder. Quanto nos engana, formata, tipifica e estereotipifica a roupa que usamos!
Assim não surpreende que aquela rapariga se tivesse despido naquela manhã de Verão. Ela sabe bem como é que o corpo dela fica melhor. Quem sabe, o que a leva a despir-se até é o desejo inconsciente de se ver livre das suas roupas horríveis. São as pessoas mais próximas da natureza, mais selvagens. O certo é que nunca mais vou voltar a olhar para uma rapariga muito mal vestida da mesma maneira.
Apercebi-me o quanto estamos todos tão ligados. Invadimos os silêncios e entramos na cabeça uns dos outros pelas mensagens, já vimos nus os nossos vizinhos no comboio, vivemos todos nos mesmos lugares sem sabermos.
A vida é um sem fim de andanças cruzadas.
Ir a São Pedro do Sul no Verão pode ser como vislumbrar um bocadinho de um mapa qualquer do mundo do resto do ano.
segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
O nosso mundo
Talvez isto seja a essência de muitas problemas modernos. Não só das depressões. Hoje em dia, com tantos mundos alternativos onde viver - sejam o mundo da publicidade com pessoas com corpos esculturais, seja a internet onde todas as relações são fingidas - as pessoas ficam desfasadas da realidade e começam a viver em função de um mundo que não existe. Assim tornam-se incapazes de interagir no mundo real, que não conhecem.
Enquanto não for possível viver só nos paraísos artificiais, vai ser sempre preciso sair à rua.
A solução de um problema está sempre contida nele próprio. Como numa equação matemática. A solução já lá está. É só resolvê-la. A solução para quem tem medo de sair de casa é sair de casa. Problema resolvido.
domingo, 28 de Setembro de 2008
Histórias do Verão II
Estava a cantá-la numa versão mais próxima da do Jeff Buckley que, adolescentes nos anos 90, a Catarina e eu, inevitavelmente conhecemos primeiro que a original. Estava a cantar baixinho (que é o nível máximo do respeito que conheço) acompanhado pelas ondas.
Com a cultura de massas, a televisão, a internet, a rádio, tudo a tocar ao mesmo tempo, as pessoas sempre a falarem, tanto nas lojas como na escola, como no trabalho, uma palavra não tem mais o valor divino que lhe é natural. Tudo é fugaz. Deixamos de ter atenção às coisas porque as coisas vêm direcionadas por nós. Tudo vem com instruções, soluções e previamente interpretado, estilo batatas pré-fritas congeladas. Já não aprendemos a interpretar. como não aprendemos a cozinhar. Já não sabemos por a atenção nas coisas para ver onde está a essência. Se não soa alegre não é alegre. Não há tempo para prestar mais atenção. Somos a pior geração de detetives da história. Não admira que ande toda a gente à nora à procura das causas e dos sentidos de tudo. Não é o nosso mundo no século XX que está um caos, as nossas cabeças é que estão.
E agora a canção que tem na letra a resposta a todo o problema deste meu post. E haverá alguma felicidade mais absoluta que a de encontrar a Fé numa mulher?
Podemos dizer
Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Baby I have been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you.
I've seen your flag on the marble arch
Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
And remember when I moved in you
The holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah
Este post é dedicado à Catarina, que é das pessoas que conheço com melhor gosto musical. Esta versão é só para ela e talvez eu devesse ter tentado cantá-la assim. Eu sei que ela gosta. À anos 00. O erro foi meu, eu é que estou desatualizado, Catarina, desculpa.
Linhas tortas
sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Partilhar a solidão
quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
A geração está em festa
Era de tarde e era uma tarde como só em Lisboa pode haver. E eu estava a trabalhar, descansado.
Subitamente ouve-se ao longe um som grave indistinto. Não pára. Começa a aumentar de volume. Parecem explosões, gritos. As pessoas para quem trabalho, mais velhas que eu, olharam para mim assustados incapazes de achar explicação. Mas não ficaram muito tempo com essa expressão. Deu logo lugar a um sorriso condescendente quando lhes disse a explicação provável contemporânea para a algazarra. Devem ser as praxes.
E foi assim que fomos para a varanda ver desfilar a minha geração.
Umas centenas de pessoas, ora vestidos de capa e batina preta, ora de t-shirt branca com a cara pintada e os cabelos enfarinhados, seguravam com uma mão uma cerveja e com a outra um estandarte - como as legiões romanas fizeram outrora - em que estava escrito o nome do seu curso. Urravam. Gritavam as iniciais dos cursos com a energia com que gritariam gritos de guerra. Com um ar sério, os mais velhos tentavam coordenar esta multidão de hooligans com os cérebros temperados em álcool, que disfarçados de estudantes, marchavam não pela rua, mas pelo passeio.
A minha geração sente-se rebelde. Mas que rebeldia é esta que não ousa sair do passeio? Que pára na passadeira? Que avisa a polícia que vai manifestar-se e, pior, manifestar-se sobre nada? Que revolução de vida é essa em que do outro lado da rua as mães, amorosas, fotografam, num comovente esforço de registo da infância interminável dos filhos?
Estes pequenos rebeldes estavam bêbados demais para perceberem que estavam numa festa de aniversário enorme, em que eles, criançada, foram postos para correrem um bocado até se cansarem. É que os meninos, quando ficam grandes, requerem brincadeiras cada vez mais dispendiosas. O Estado paga, pois é preciso divertir estes meninos grandes. Que sorte a deles. Noutros regimes seriam mandados para a guerra. E é assim que em 2008 se gasta a energia que há. Não a melhorar o mundo ou na construção de algo para partilhar com os outros. Gasta-se inconsequentemente. Mas quem sou eu para julgar. Talvez o mundo já esteja tão perto da perfeição que nos possamos dar a estes luxos.
Os recém-licenciados queixam-se de não terem emprego. Se isto faz parte de se tornar licenciado, eu se tivesse uma empresa também não lhes dava emprego.
Nada disto me importava se eu não tivesse de partilhar o mundo com eles. E pensar que daqui a uns anos os filhos destas pessoas vão ser colegas dos meus filhos na escola.
quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
O Amor verdadeiro
Como diz um extremamente sábio amigo meu a que decido que vou chamar Rafael neste blogue, as pessoas só sentem a fé se aprenderem a exercitar o músculo da fé de pequeninas. Ao Rafael ninguém ensinou e por isso ele não consegue. Uma espécie de capacidade telepática que tem de ser aprendida como quando se aprende a andar ou a falar, na altura certa. Eu sou como ele. Nunca aprendi a fé, como muitas pessoas nos dias de hoje parecem também não ter aprendido, ao contrário de muitas outras. Mas percebo de onde vem, e percebo a sua força. Digamos que se me concentrar, até consigo imaginar como é senti-la. Sentir que a estou a sentir mesmo sabendo que não é a verdadeira. Não tenho os instrumentos humanos que preciso para chegar a deus.
Passa-se exatamente o mesmo com o Amor. Há muitas pessoas que não acreditam no amor. Provavelmente nunca o sentiram. Eu, como um bom e devoto praticante, tenho pena dessas pessoas. Eu acredito no Amor e sei que existe. Mas aprendi-o de pequenino, com um fabuloso primeiro amor. Coitados dos que não tiveram essa sorte.
Até à chegada do romantismo, a ideia de amor não existia. Possivelmente os sentimentos estavam lá, como uma espécie de patologia, mas não eram estimulados nem aprefeiçoados. Como diz Don Draper em MadMen: O Amor foi uma coisa que nós (os publicitários) inventámos para vender papel higiênico. Se estivesse eu à mesa com ele nessa cena e não aquela bela judia, ter-lhe-ia respondido A partir do momento que inventaram Don, eu passei a acreditar. A partir do momento em que o inventaram, passou a existir.
Já pensaram na quantidade de sentimentos fantásticos que podem estar escondidos dentro do nosso potencial humano e que ainda não descobrimos? Que aprendidos e treinados na idade certa se revelarão até à idade adulta, mas que em adulto são impossíveis de auto-estimular? Que maravilhas andarão escondidas! Telepatia? Capacidade de levitação? Quem sabe. Mas sobretudo interessa-me pensar Qual será o próximo sentimento a ser descoberto? Qual nos fará passar para uma nova era, tal como passámos da era da Fé para a era do Amor?
terça-feira, 23 de Setembro de 2008
Uma ida ao Lux
A primeira vez que fui ao Lux foi com uma ex-namorada, que era grande fã do lugar e até era amiga de um porteiro. A segunda foi numa festa do meu curso. A terceira numa Pecha Kucha em que a Madalena ajudou à organização. Esta vez foi a quarta. Poucas vezes, para alguém que se alimenta das coisas da vida, que gosta da noite, da boemia, de dançar, de festas, de pessoas. Porque fui lá tão poucas vezes então?
Eu não sou sovina, mas tenho noção do valor do dinheiro. (Que eu saiba não sou descendente de judeus, mas curiosamente a maioria dos meus ídolos são - o Leonard Cohen, o Bob Dylan, o Billy Wilder, o Woody Allen, o Chico Buarque. Quem sabe sou descendente de Cristãos Novos. Essa ofensa que o Marquês de Pombal baniu com a punição de chicotadas nas costas para o povo, perda de bens para o clero e perda dos títulos para a nobreza. Tudo pela unificação da nação e do seu povo. Grande Marquês.).
Tenho noção do valor do dinheiro e julgo que 12 € de mínimo à entrada é muito para aquilo que a suposta melhor discoteca de Lisboa oferece.
Subi as escadas com as mãos nos bolsos e um cigarro imaginário na boca. Cheio de estilo portanto. Sentei-me com as pernas esticadas num daqueles sofás-cama que estão espalhados por todo o primeiro andar, que parecem ter sido comprados na feira da ladra e que além disso são desconfortáveis (o encosto é a grade de uma cama e as almofadas são uns rolos que não dão jeito para nada). Mas o meu estilo era tal que até os sofás-cama pareceram giros.
Um empregado veio ter comigo e perguntou-me o que queria tomar. Pedi um Martini com uma pedra de gelo. O Martini voltou com a conta. 6 Euros. Eu já sabia o preço porque da terceira vez que lá fora tinha perguntado e o choque da resposta tinha-me durado até àquela noite (e ainda não passou). Passei-lhe uma nota de 20 €. O rapaz responde-me não tem mais pequeno? É que não temos trocos.
Sem mecher a cabeça, levantei o olhar devagar e subtilmente para ele. Tive vontade de dizer Preços altos, notas altas, mas não disse. Disse-lhe Não.
Afinal tinham trocos. Quando chegou levantei-me. Fui passear pelo lugar. Vi coisas como dois empregados a arrastarem com os pés uma mesa baixa onde os clientes põem as bebidas e a subirem para cima dela com os pés para mudarem as lâmpadas de um candeeiro todo estiloso. Estiloso o candeeiro, mas não os modos deles. Tive também a oportunidade de reparar nos ténis sujos e feios de uma empregada, que ainda por cima usava umas rastas muito feias a cair pelas costas. Uma frique a servir no lux. O mundo está mudado pensei. Mas o toque final de charme ainda estava por vir. Entre as pessoas, tive a sorte de ver um segurança pegar numa das almofadas compridas e brincar com ela simulando um enorme falo que insistiu em abanar para cima e para baixo até me ver a olhar para ele o ter pousado.
A Marta e a Madalena chegaram e fomos dançar. Se a música não era muito o meu estilo, até era boa. O mesmo não se podia dizer dos dançarinos. A noite de Lisboa são crianças de 16 aos 18 anos - os únicos cujos pais podem pagar estas brincadeiras - e turistas ridículos que, bêbados, montam o seu próprio circo de aberrações no meio da pista.
Poder-se-ia pensar que eu dar importância a isto tudo faz de mim uma pessoa pretensiosa, elitista, um snob, o que se quiser chamar. Não penso assim. Há uns dias vi na televisão um documentário sobre uma organização de apoio humanitário em África, a AfriKids. Nele contaram uma história de uma senhora que, sozinha, toma conta de umas trinta crianças órfãs, financiada pela AfriKids. Nunca deixou morrer nenhuma, menos num dia, em que faltou o dinheiro para medicamentos. Nesse dia, ela correu toda a aldeia à procura de alguém que lhe pudesse dar o dinheiro e ninguém deu. Ninguém tinha. Juntou as poupanças, mas não chegavam. Tentou vender coisas mas não conseguiu juntar o dinheiro que era preciso. Os medicamentos que a criança precisava eram muito caros. Custavam cinco cêntimos de euro.
Pelo preço da vida de 240 crianças africanas, espero bom divertimento.
segunda-feira, 22 de Setembro de 2008
Uma frase que mudou a minha vida
- Wilhelm Stekel
Sobre Sobre o Elogio ao trabalho
domingo, 21 de Setembro de 2008
Sobre o elogio ao trabalho ou O Homenzinho Português
Basta ser português para saber que a maior ambição de um português normal é trabalhar o menos possível (felizmente a nossa História é feita de muitos portugueses anormais, os melhores - mas isso é para outro post). Os estudos comprovam-no. Parece que no último semestre, a produtividade dos portugueses voltou a descer.
Diz um amigo meu de há muito tempo, com grande sabedoria - vamos chamar-lhe, para fins deste blogue, Roberto - que só em Portugal se ouve aquela frase fantástica Hoje tive o dia todo sem fazer nada! (seguida de um esfregar de mãos) como se isso significasse que se teve um dia fantástico. Sublime. Um dia invejado por todos. O dia perfeito. E o pior é que é realmente invejado. Fui para o Brasil, estive lá 12 dias na praia, sem fazer nada! Foram os melhores dias da minha vida ou então Epá, hoje quando chegar a casa, não vou fazer nada!, por exemplo, são normalmente seguidas de um coro que canta que sorte, quem me dera.
Os homens que dizem isto são homens pequenos e é exatamente por não trabalharem que o são.
Os homenzinhos portugueses não tem a coragem de sofrer trabalhando. É por isso que face à mais pequena contrariedade, o homenzinho português desiste, se desmotiva, entristece. É por isso que é capaz de sofrer com uma coisa como o Futebol. O homenzinho português não está treinado para sofrer. Pelo contrário. Desde petiz, o português é treinado por suas mães e seus pais a não trabalhar. Como é dura a vida, que faz com que tenhamos de trabalhar para sobreviver, pensa o português adulto, que já descobriu a verdade, e acrescenta Vou dar aos meus filhos a maior felicidade da vida enquanto podem tê-la, enquanto são pequeninos, pois não quero que sofram. E o que faz o homenzinho português? Dá tudo ao filho e cultiva a preguiça no seu rebento. Quando chegamos à adolescência, somos profissionais no descanso. E se dormir fosse modalidade olímpica, eramos uma potência.
A preguiça é a causa direta da nossa infelicidade crónica portuguesa. Nem estou a falar em trabalhar para melhorar a nossa situação económica, ou cultural, ou social. Isso é óbvio. Estou a falar de como é impossível que um homemzinho seja amado por uma mulher. Não, o homemzinho português tem de ser amado por uma Mulherzona. Alguém duvida que é por isso que tantas mulheres portuguesas são tão brutas, tão amargas, tão entristecidas, tão amassadas da vida? Alguém ainda não se apercebeu que é por isso que têm de se transformar em camiões, tanques de guerra humanos, frios, que levam tudo à frente e gritam e são agressivas? É precisamente por isso e por mais nada. Tudo bem para o homemzinho, que gosta de mulheres assim. Mas não para os homens.
Não podemos dizer que as mulherzonas não têm culpa de ser mulherzonas. A educarem os seus filhos como homenzinhos, mimados e atrofiados, e a educarem as suas filhas como quem treina cães de caça, não conseguem quebrar o ciclo. Mas a culpa é só indireta, porque se reflete na geração seguinte. Quem pode quebrar o ciclo, na hora, no segundo, são os homens (este parágrafo pressupõe a coisa óbvia que é os homenzinhos não serem capazes de educar ninguém).
Eu acho bem que as mulheres trabalhem, e não é isso que faz delas mulherzonas. O trabalho é só condição da vida. O que faz delas mulherzonas é não terem em casa um homem que seja capaz de lhes dar segurança e proteção. Um homem que sintam que é mais forte, que já sofreu mais que elas, que aguenta mais que elas. Um homem capaz de as abraçar com honra de ser um ser superior, não a ela, mas superior àquilo que já foi, superior à criancinha que era, superior ao homemzinho que era. Não há destes por aí. Não há nas casas, mas também não há na rua, nem nos bares ,nem nas praias, nem nos locais de trabalho (existem alguns locais de trabalho em Portugal, ainda em período experimental).
Já ouviram falar no mito de que as mulheres israelitas são as mais bonitas do mundo? Parece que é mesmo verdade. Não sei se já ouviram falar no mito de que os judeus são uns trabalhadores gananciosos e obsessivos como um raio. Já?
Este post é dedicado ao Roberto, que sabe quem é.
sábado, 20 de Setembro de 2008
Elogio ao trabalho
Ontem percebi exatamente porque o trabalho é a essência da civilização. Obviamente que sem trabalho não há casas, nem roupas, nem comida, nem pontes, nem Centros Comerciais. Mas essencialmente não é nisso que estou a pensar.
Estou a pensar em como o trabalho reduz o apetite sexual. Uma verdade absoluta. Ontem quando cheguei a casa, depois de umas semanas de oito horas de trabalho diárias consecutivas, senti que não há apetite que resista. Quer-se descansar. Quer-se dormir. É por isso que toda a boa mãe sabe instintivamente que só um homem trabalhador dá um bom marido. Não é só porque traz comida para casa. É sobretudo porque mais dificilmente será infiel. Não será infiel nas oito horas em que trabalha, nem nas duas que demora a ir para o trabalho e a voltar, nem nas duas reservadas para as refeições, nem nas duas que servem para ir às compras, nem nas outras duas que servem para cuidar da casa, nem nas últimas oito em que tem de dormir. E o melhor de tudo é que não terá vontade de ser.
E tudo encaixa na perfeição a partir daí. Foi este equilíbrio que permitiu que houvesse o casamento. Controlada a sexualidade, o que há de mais triste que chegar a casa depois de um dia de trabalho e estar sozinho? Tudo o que esse homem deseja é ter alguém de quem goste à sua espera. Arranjou-se um modo ideal de garantir isso. Como também não se pode passar demasiado tempo junto, entre duas e quatro horas, quando não se está nem a trabalhar nem a dormir, são o ideal.
E é assim que quanto mais trabalho há, menos sexo há e menos filhos há. É por isso que ter muitos filhos é olhado como algo pouco civilizado. Quem não trabalha tem muito tempo para fazer filhos e para os criar. Quem trabalha já tem trabalho. Há filhos também, mas menos.
Não pensem que me estou a queixar. Há algo de sublime no sofrimento e cansaço que o trabalho provoca. A sensação de que estamos gastos, vazios. Uma sensação que, também com muito trabalho, penso que os religiosos tentam alcançar. Estar estafado de trabalhar é uma experiência religiosa em si mesmo. E quem sofre aprende com a experiência e ecresce. Quem sofre aprende. Trabalhar é aprender a viver, é aprender a sofrer. Como diz o nosso Chico em Tem Mais Samba:
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Assim é. Porque há coisas que só se fazem bem se se tiver trabalhado, se já se tiver sido desgastado, amassado. As coisas da vida. Como são bonitas duas pessoas sofridas a dançar, duas pessoas sofridas a dormir abraçadas, pessoas que têm sofrimento em si para a libertar cantando, para libertar criando Arte, para se libertarem e tornarem as suas almas numa coisa maior. Uma civilização interior. Para se tornarem grandes. Grandes pessoas humanas.
E o grande problema de Portugal é que as pessoas fazem tudo para evitar o sofrimento. E como não sofrem, não crescem. Como não crescem, continuam a sofrer na mesma, porque não sofrer é impossível, mas sem a recompensa do trabalho, sem a recompensa não só material, da construção, mas sobretudo a recompensa espiritual. A recompensa espiritual de ter expandido a caixinha do sofrimento e, assim, cada tristeza da vida passar a custar menos a suportar, por termos expandido a nossa capacidade de armazenamento.
As pessoas têm o direito a sofrer, mas não sabem. Quem não sofre, trabalhando, amando, fica a perder. Tudo o que faz parte da vida é para ser vivido. Se não se viver na altura certa, viver-se-á mais tarde de outra forma, talvez muito mais desequilibrada. Porque como dizia nas suas lições o Mestre Zen do Tiro com Arco em O Zen e a Arte do Tiro com Arco: Quem procura um princípio fácil, encontrará necessariamente um fim difícil.
sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
Regresso ao futuro
Canção para alguém que não sei quem é
Gostava de dedicar esta canção do meu músico favorito de todos os tempos à minha futura namorada, que não sei quem é, mas que andará necessariamente por aí na Terra. Se ela se reconhecer nesta canção, por favor avise.
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.
Chico Buarque
quarta-feira, 17 de Setembro de 2008
Dar é preciso
Quem tiver amor para dar, dá-lo-á.
Se não conseguir dá-lo à pessoa que ama, dá-lo-á a outra pessoa.
É demasiado avassalador para estar guardado.
Quem não ama ninguém, nunca tem amor para dar.
Mas quem ama, induz em erro e faz com que o amem, mesmo quando aquele amor era para outro.
É por isso que é tão fácil ter amantes e tão difícil ser correspondido.
É que quando o amor está nos outros, conseguimos vê-lo.
E o amor é cobiçado.
Não devemos tentar guardar o amor.
É uma batalha duplamente perdida.
Nada é mais democrático que o amor.
Quem recebe volta sempre para dar.
Um dia apareceram umas pessoas que quiseram regular o mercado.
E não se podia dar a toda a gente, passou a ser preciso fazer reserva.
O amor estava contado e registado e até se cobravam taxas.
Foi preciso redistribuir artificialmente o que já estava naturalmente organizado.
Começou-se a quantificar.
E o valor do amor passou a ser medido ao ciúme.
E cobrou-se em vez de se dar.
E emprestou-se em vez de se receber.
E não mais se trocou.
Nunca mais floresceu selvagem aquilo que sempre foi nosso só por existir.
Passou a ser cultivado, destilado e empacotado.
E foi preciso inventar embalagens novas para o que antes andava à solta,
Novos nomes para os produtos complexos.
Novas maneiras de fazer o que sempre se fez.
Teve de se desaprender de como dar para poder comprar.
E é por isso que hoje nem todos têm.
Porque já não se dá, só se guarda.
E há cada vez menos.
Aviso à navegação através do tempo
Escola da vida
Sobre a amizade
Sobre a arte de dormir e o sonho e a cidade
Sobre a arte de dormir e a esquerda e a direita
O elogio do sono poderia ser interpretado pela esquerda como preguiça de um jovem favorecido de direita que não sabe o que custa trabalhar e ao mesmo tempo como um grito por socorro de um trabalhador da classe inferior explorado pelo capitalismo. A direita por seu lado, iria chamar-me preguiçoso relaxado de esquerda que não sabe que a vida custa graças ao qual a economia não cresce, ou podia ver nisto um exemplo de alguém que encontrou uma solução para como viver de forma saudável ou seja, como um dos seus.
Gostar de dormir faz de mim uma pessoa de direita ou de esquerda?
Para já, acho que faz de mim uma pessoa.
Como já disse antes, pessoas de esquerda e de direita a dormir abraçadas chegariam a conclusões bem mais claras.
A arte de dormir
Estranho paradoxo, que com a entrada na adolescência tenha começado a ser conhecido por dormir muito. E também por ser bem disposto e otimista. Nos últimos anos cheguei mesmo a ser apontado como exemplo de pessoa feliz.
Recentemente, comecei a trabalhar mais e tenho podido dormir pouco. Para algumas pessoas isto não será nada de especial, mas eu noto que fico incrivelmente mais mal disposto e chato para as outras pessoas. Sem paciência para ninguém. O meu sentido de humor quase desaparece. E todos sabemos que sentido de humor é sintoma de inteligência.
Será que é a falta de sono na nossa civilização - em que cada um tem de trabalhar no mínimo 8 horas por dia - a causa da má-disposição e pessimismo geral da grande maioria das pessoas? De eleições em que ganham políticos pessimistas? Das discussões familiares constantes? Da insatisfação? Do ódio?
Todos devíamos dormir pelo menos 10 horas por dia abraçados a alguém de quem gostamos. Se toda a gente fizesse isso, o mundo seria um lugar muito mais simpático. Menos evoluído, mas muito mais simpático.
Pena que os países latinos estejam a desaprender a arte da preguiça, a arte do descanso. Era um grande contributo que podíamos dar ao mundo. Naturalmente, o trabalho esmaga a preguiça e está a fazê-la desaparecer. O trabalho é ativo, o descanso é passivo.
Mas talvez esteja na hora de uma nova ofensiva do descanso, essa essência do ser humano. Urge inventar o descanso-ativo.
Países latinos - ao trabalho!
(ou melhor, ao descanso)
terça-feira, 16 de Setembro de 2008
O Sonho e a Cidade
segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
Sobre ter
Ter
domingo, 14 de Setembro de 2008
Coisa boa #3
Acordar cedo.
N'O livro das coisas boas
Era uma vez, na Cinemateca
sábado, 13 de Setembro de 2008
Bairrismo pós-moderno
O mundo real
O Mistério dos Olhares
sexta-feira, 12 de Setembro de 2008
Três coisas que fazem as raparigas menos bonitas
Mais uma pedra
Rock Bottom Riser
I love my mother
I love my father
I love my sisters, too.
I bought this guitar
To pledge my love
To pledge my love to you.
I am a rock bottom riser
And I owe it all to you
I am a rock bottom riser
And I owe it all to you
I saw a gold ring
At the bottom of the river
Glinting at my foolish heart
So my foolish heart
Had to go diving
Diving, diving, diving
Into the murk
And from the bottom of the river
I looked up for the sun
Which had shattered in the water
And pieces were rained down
Like gold rings
That passed through my hands
As I thrashed and I grabbed
I started rising, rising, rising
I left my mother
I left my father
I left my sisters, too
I left them standing on the banks
And they pulled me out
Of this mighty, mighty, mighty river
I am a rock bottom riser
And I owe it all to you
I am a rock bottom riser
And I owe it all to you
I love my mother
I love my father
I love my sisters, too.
I bought this guitar
To pledge my love
To pledge my love to you
de Bill Callahan
Sou um bocadinho assim. Como não comprei a viola, vou fazendo blogues.
quinta-feira, 11 de Setembro de 2008
Arrogância e humildade
O dia de hoje
A arte da subtileza
quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
Mais uma pedra
Pedra roliça não cria bolor.
Sobre a solidez, a solidão e a Arte
Será que não pode ser demasiado perfeita, como as pessoas sem defeitos, por quem não nos conseguimos apaixonar?
terça-feira, 9 de Setembro de 2008
A propósito da solidez e solidão vem-me à cabeça a frase do Almada Negreiros
Portugal, um povo para ser amado.
(talvez um bom slogan turístico)
Sobre a solidez e a solidão
Solidez e Solidão
Fazer grande Arte é um gesto pacifista
segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
Histórias do Verão I
O que eu sei acerca da verdade
A Av. Almirante Reis parece o Fallout
domingo, 7 de Setembro de 2008
Uma entrevista a um homem estátua
Sem medo da auto-crítica
Uma canção sobre a salvação do mundo (o amor entre a esquerda e a direita)
Conto de Fadas de Sintra a Lisboa
Ele era um cavalheiro
Todo ele transpirava elegância
Ela era gata borralheira
Tivera que limpar a sua infância
Ele velejava no verão
E esquiava no inverno
Ela trabalhava ao balcão
De um qualquer estabelecimento moderno
Ele gostava de reluzir em si
O estilo da capital
Ela já não conseguia distinguir as cores
Da bandeira nacional
Ele tinha entre os seus títulos
Uma futura ordem do infante
Ela achava o levantar do dedo mindinho
Algo deselegante
Mas ele um dia curvou-se a seus pés
E ela passou a ocupar o tempo
A descobrir o que era a cultura
E ele confinou-se aos seus aposentos
E descobriu a costura
Ela quis vir a entender o universo
E começou a ler Platão
E ele resolveu perceber o que era a justiça
Em frente à televisão
A ele de nada lhe valeu a aparência
Nem a casa no largo do rato
Porque ela sabia que era Cinderela
E enganou-o com um sapato
Ele que um dia fora príncipe
Agora rendia-se à evidência
Com mulheres que calçam o quarenta
É melhor revelar prudência
Hoje ele ainda beija os seus pés.
sábado, 6 de Setembro de 2008
A propósito do futebol e da salvação do mundo
Mais uma pedra
O primeiro comentário que recebi aqui, da minha maravilhosa amiga que sabe quem é, que merece ascender a post:
A educação pela pedra
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta;
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra; lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
por João Cabral de Melo Neto
Odeio futebol
A exceção (acordo ortográfico?) aberta hoje deve-se a ter descoberto que este ódio que me veio do berço (o meu pai não cuidava de mim recém-nascido porque estava a ver o Mundial de 86) talvez me tenha sido ainda mais proveitoso que pensava.
Ajudou-me, decerto, a ter mais tempo para coisas enriquecedoras. Mas mais, ajudou-me a perceber que uma das coisas que nos empobrece mais, nos corta ao meio e formata, são os clubes e as bandeiras da vida. Talvez por nunca ter treinado esse músculo do seguidismo, eu veja coisas boas na esquerda e na direita, nos religiosos e nos ateus.
Graças à indiferença desportiva, consegui perceber que grandes são o Cristiano Ronaldo, ou o Mourinho (o meu único verdadeiro ídolo no futebol) e não as camisolas coloridas com emblemas com passarinhos, seres mitológicos ou animais da selva.
Assim, a melhor equipa é a composta pelos melhores de cada uma. É que há qualidades em todos os lados.
Mas é aqui que me apercebo: formada a super equipa, não haveria ninguém à altura de a defrontar.
E então surge-se-me a solução da questão: além do sentimento de pertença, o ser humano precisa é do confronto.
A excelência interessa a poucos. Falta-lhe paixão. É por isso que quando vemos o Mourinho ou o Cristiano dá a sensação que eles não são bem humanos.
Quem dera houvesse políticos e artistas assim em Portugal.
sexta-feira, 5 de Setembro de 2008
Coisa boa #2
A Família.
N'O livro das coisas boas
A propósito do amor entre a esquerda e a direita
A solução para a salvação do mundo
quinta-feira, 4 de Setembro de 2008
O triunfo da amizade
É o mais próximo de um harém que é possível ter sem todas as coisas más de um harém.
Isto não é um comentário machista. É um comentário de amor, de alguém que ama umas quantas pessoas que conheceu ao longo da vida e não se quer desfazer delas. Os homens e as mulheres tem o dever de proteger e oferecer amor a quem amam. A amizade não é isso? É só o que faço. Na sociedade que tenta controlar os impulsos sexuais poligâmicos, para destruir o amor livre ainda há muito por fazer.
E fazer isto é ser um Homem. Chega de homenzinhos (elogio das mães e avós portuguesas aos filhos, com que alguns homenzinhos ficam satisfeitos).
Este post é uma homenagem às mulheres, que são os seres mais extraordinários da terra.
Coisa boa #1
A Praia.
N'O Livro das Coisas Boas
quarta-feira, 3 de Setembro de 2008
Mais uma pedra
Disse Søren Kierkegaard.
Agradecimentos ao Tiago Guillul.
O casamento
Dar-vos uma pedra
Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra
Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz
Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
Original de Carlos Edmundo de Ory, na versão portuguesa de Herberto Hélder