sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Os pequeninos

Talvez só com Fé se possa ter o espírito jovem até ao fim, pois é saber que em relação a Deus somos sempre os pequeninos.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Uma tatuagem que tivesse que renovar todos os dias

Será que, numa sociedade com tanto medo do compromisso, as tatuagens estarem na moda tem a ver com um colmatar histérico de uma necessidade natural humana de compromisso?

No entanto, o compromisso real é aquele que pode ser desfeito e nós escolhemos não desafazer. Quando passa a uma obrigação deixa de estar vivo.

Um anel pode tirar-se, uma tatuagem não.

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Encontrar as ideias que faltam nos buracos entre as ideias que já tenho

A vida é várias coisas ao mesmo tempo.

Este mês, desde que te foste embora, tenho estado a descobrir as ideias que me faltam nos buracos entre as ideias que já tenho. Para te poder amar melhor.

Em Lisboa a tua marca ficou por toda a parte. Nos nossos passeios, unimos a cidade, como agora uno as minhas ideias, e nos dois casos é com contigo que o faço. A nossa mulher é a cola da nossa vida.

Contigo, porque para ti, consigo viver melhor. Tu que vieste de fora, deste-me o que já cá estava. Memórias para uma cidade inteira.

Agora, onde quer que eu vá, tu estás lá, à minha espera. Toda a cidade unida por ti, como se fosse a nossa casa e estivesses ora na sala ora na cozinha.

E fizeste a tudo na minha vida o que fizeste a Lisboa. Juntaste, colaste, aproximaste.

Quando não te tinha, procurava-te. Agora já não tenho de te procurar porque já estás em tudo. Agora tenho-te e posso finalmente viver.

Depois foste embora, mas não estás longe. O amor ficou. O que juntaste vai ficar para sempre junto.

Não escrevia desde que te vi pela primeira vez. Deus é o tempo, e Ele trouxe-te. Estive com Ele a aprender a amar-te melhor. Ficaria mais tempo. Dois anos para te dar um beijo. Ou foram vinte e três anos? Ou um dia?

É preciso tempo para amar.

Porque amar não é só o amor. É o antes e o depois. E se o amor for amor, cada depois é um antes, e cada antes é um depois.

Só a vida isso permite, porque só a vida é tempo, e só no tempo pode haver amor. Porque só a vida permite amar para sempre e só amar para sempre permite viver.

Obrigado, meu amor, por me dares a vida.

A nossa primeira mãe dá-nos a vida, a nossa segunda mãe é a mulher que nos dá o viver.

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

A Arte

Oiçam o Sequeira Costa.

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

A origem do mal

Antidumping. Antitrust. Back-office. Benchmarking. Cash-flow. Clearing. Crash. Cross-selling. Currency. Dealer. Downsizing. Factoring. Front-office. Fixing. Franchising. Holding. Jet-lag. Joint-venture. Leasing. Management. Outdoor. Rent-a-car. Share. Trust. Turnover. Workstation.



Toda esta linguagem é boa. Com ela, quando esse sistema ruir, saber-se-há de que cultura veio o mal.

Mesmo no Brasil dizem cancer no lugar de câncro já com esta filosofia.

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Erros

Os erros da nossa vida a maior parte das vezes não são coisas que fizemos.

São as coisas que não fizemos para estarmos a fazer essas.

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Cinema

Mas este é o lado que toda a gente já conhece!

domingo, 14 de Junho de 2009

Tua alma na gente

O António Variações morreu há vinte e cinco anos e continua tão vivo como nesse dia.

É por isso que não há homenagens. Nada mudou (desde o dia em que nos deste a possibilidade de ter uma verdadeira vida) desde esse dia de Santo António.

terça-feira, 9 de Junho de 2009

Á procura da nitidez

Se todas as pessoas de todas as idades fizessem o seu testamento,
e à medida que a vida os transformasse,
o fossem alterando,
saberíamos todos como a morte vive connosco,
e passaríamos a valorizar muito mais cada momento vivos
e a saber quais são as nossas prioridades.

Se falares português e tiveres uma ideia incrível, é melhor escreveres uma canção, porque filosofar, só é possível em alemão

.



Língua,
de Caetano Veloso.




Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
A Minha pátria é minha LÍNGUA!
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão

Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria!
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem

Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Só o amor salva

Porque só o amor nos faz mendigar por fazer bem aos outros.

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

O Sol

É tão bonito pensar que a cada segundo que passa, há mais um pedaço do mundo a apanhar directamente com Sol.

Luz como aquela que vejo chegar agora.

terça-feira, 2 de Junho de 2009

Um país que não tem nome

Ribatejo.

Sertão.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Não saber

As certezas destróem a poesia.

Só as nossas incertezas são nossas amigas.

As nossas dúvidas são a nossa maior riqueza.

domingo, 31 de Maio de 2009

Verão

Só o Verão é a verdadeira vida.

No Verão a casa cheira a pinheiros. Nos corredores cheira a árvores e há vento. Há vento dentro de casa, e parece tão natural que dou comigo a nem me lembrar que não é sempre assim.

Oiço o vento. Carregado com sons de coisas a aconter. Coisas a acontecer dentro do próprio vento.

A cozinha da minha casa no Verão cheira a louro e a temperos e à minha mãe.

No Verão a rua e a cidade cheiram a família. Como as casas das famílias em que cada casa cheira de sua maneira - cheira àquela família, e sempre que lá vamos cheira a eles - e nos prédios o cheiro sente-se até do lado de cá da porta da rua, como nos meus visinhos de baixo da casa da Costa, em que todo o primeiro andar cheirava a eles, e na minha varanda, que dava para o quintal deles, cheirava também.

No Verão a rua cheira aos cheiros misturados de todas as famílias de pessoas. Talvez por as pessoas estarem todas de janelas abertas, ou por andarem todas na rua (adoro ver pessoas na rua, assim frescas, com pouca roupa).

No Verão, quando durmo de janela aberta, cheira a noite, a quente e a cidade, e consigo saber tudo o que se está a passar lá fora só pelos cheiros - e também pelas buzinas e pelos gritos das pessoas felizes.

Também gosto de gritos no Verão. Todos os gritos no Verão são bons. Não consigo imaginar um grito incomodativo no Verão. São sempre de felicidade.

sexta-feira, 22 de Maio de 2009

A democracia

A democracia não é podermos viver todos juntos sendo iguais.

A democracia é podermos viver todos juntos sendo diferentes.

As qualidades

Amor. Quando duas pessoas valorizam um no outro as mesmas qualidades do outro que o outro valoriza em si.

Não descobri isto sozinho.

terça-feira, 19 de Maio de 2009

Nove meses

Nove meses de blogue e cresci tanto. Sinto que me pari um novo.

Dez posts de silêncio








































...

terça-feira, 12 de Maio de 2009

"O princípio de todos os males é a desatenção"

Vivemos. Há lugares da vida que nunca tínhamos pensado possíveis. Se estivermos com atenção, afinal a vida pode ser muito mais do que tínhamos imaginado.

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Justiça

Igualdade não é justiça.

segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Arrependimento

Arrependi-me de escrever o texto anterior e agora já sei porquê.

Porque nada é para nada.


(é isto uma semana de vida)

quarta-feira, 29 de Abril de 2009

O Amor é o Bem

O Amor é uma força que nos leva, por si só, ao Bem.

Há imensas teorias sobre porque é que quando alguém namora ou está casado é sempre mais cobiçado que quando está solteiro (para desgraça do próprio).

Há teorias que falam sobre virilidade; sobre ser bom na cama; sobre o ser humano gostar de disputar o que é cobiçado; sobre alguém que está comprometido o estar porque é bom namorado ou marido e quem não está é porque há algo de errado com ele. Mas tudo isso são coisas menores. São só consequências da real coisa que faz essa pessoa ser assim, especial, brilhante. As pessoas comprometidas são combiçadas porque os outros sentem que o Amor está com elas.

E o Amor faz-nos bons. O amor faz-nos fazer as coisas bem. O Amor faz-nos Bem. O Amor é o Bem.

(As pessoas até ficam mais bonitas quando estão enamoradas...)


Li na internet uns textos disparatados que me deram a conhecer uma grande problemática darwinista do momento. Até é um pecado poético falar destas coisas assim, mas fa-lo-ei porque às vezes é preciso ir ganhar no terreno do adversário, não podemos ficar sempre em casa. A grande questão darwinista da semana é Porque é que as mulheres têm orgasmos?

Segundo eles e elas (também há senhoras a estudar o assunto), só os homens deviam tê-los, para que isso levásse à ejaculação, que é a sua função (é nestes momentos que se sente como a ciência é uma coisa que devia ser mais censurada que a pornografia).

As teorias dominantes falam de clitóris que são para as mulheres o que os mamilos são para os homens (que não tendo mamas também os têm). Como se o clitóris fosse uma coisa que ficou ali esquecida. Toda a gente que sabe o que é um clitóris, sabe que não é o mesmo que um mamilo.

Falam-se também de ursos. Teorias que comparam os Seres Humanos aos ursos, em que os machos dominantes têm mais tempo para copular e que portanto só esses dão orgasmos às fémeas, já que os outros têm de dar rapidinhas, ejacular e fugir quando o macho dominante se aproxima. Assim, a fémea ao ter orgasmos sabe que está com um grande macho dominante e que é com esse que deve ficar.

Havia outras teorias ainda mais ridículas.

Nenhuma me convenceu.

Se estes cientistas ainda fossem humanos, saberiam que, para nós, pessoas, a resposta é o Amor.

Saberiam que um homem que ama uma mulher deixa muitas vezes de sentir vontade de ter prazer com ela, deixa de olhar de maneira sexual para ela. Quem já amou sabe isto. Aquela vontade de ter prazer, que sente com todas as boazonas que passam na rua, desaparece com a pessoa amada. E falta de vontade de ter prazer é assim sinal de amor. Porque o homem que ama deixa de pensar em si. Deixa de pensar em si e no seu prazer e concentra-se só na mulher que ama e em fazê-la feliz, e em dar-lhe prazer a ela. Por isso as mulheres têm orgasmos, não para saberem que estão com o macho dominante, mas para saberem que estão com alguém que as ama.

Claro que há uma vida inteira de formas de dar amor que não têm nada a ver com orgasmos. Mas quanto mais enamorado, mais tenho a certeza que eles só podem ser para isso. Porque de facto, todas as outras utilizações que pudessem haver, são nada ao lado do Amor.

segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Canção para o país do Mar

Há um país humilde que se chama apenas porto, porque sabe que o seu povo não é da terra.

O seu povo está sempre em movimento, mas também não é nómada. É um povo que vive no mar.

À noite, vem a Terra. Para descansar na praia, à luz de uma fogueira, e partir em novas aventuras milenares. É um país que não fica em casa.

Um povo que sabe que, se cada povo fosse um órgão da Humanidade, ele seria certamente o Sangue.

Se fosse um povo da montanha, o seu país chamar-se-ia Montanhal.

Assim, chama-se Portugal. Nosso porto-pátria.


Esta canção é para esse país, por um muito sub-valorizado seu artista.



Queda do Império
por Vitorino


Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz
Foi nas ondas do mar
Do mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império mil almas
Por pau de canela e mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja luanda
Sempre em flor.

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

A vida

Tudo é irreversível.

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Infelicidade

A rapariga que diz que não ri para não ganhar rugas.

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Histórias

Havia uma vez, num lugar, duas pessoas tão felizes juntas, que ao fim do dia, quando ela se deitava sobre o colo dele e o abraçava para ouvir, até adormecer, as suas histórias da mais pura e sonhadora felicidade, a ele lhe bastava contar o resumo do dia que acabaram de passar juntos.

Pelos outros

Só pode ter brio em si quem ama.

Definições

Deus: a única companhia de quem está só.

Casa: o único lugar onde um homem pode chorar.

Envelhecer: gostar de viver.

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Morte

Se não morrêssemos, seríamos uma raça com muito menos interesse.

Seríamos, certamente, seres imensamente arrogantes.

Pelo contrário, sermos assim como somos, faz de cada um de nós um herói.

Mais heróico a cada dia que aguenta vivo.

sábado, 11 de Abril de 2009

Datas

A melhor banda portuguesa em actividade apresenta o seu primeiro disco no primeiro dia de Maio no Santiago Alquimista, um lugar de Cerveja e Refresco, em Lisboa, Portugal.

(BAR = Beer and Refreshment)

sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Para abrigar as feridas

A cada dia que passa construo a minha casa com as estacas que me espetam no coração.

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Macaquinho do chinês

O jogo do macaquinho do chinês é a mais perfeita metáfora da sedução.

domingo, 5 de Abril de 2009

As desabraçadas

Sábado.

Estou no carro às 4:25 da manhã. Saí do trabalho.

Se esta fosse uma civilização digna, não havia a esta hora, no meu país inteiro, nenhuma mulher que não estivesse abraçada.

Mas não pareciam nada abraçadas as mulheres que eu via no passeio, a sair do Bairro Alto.

Especialmente aquela que deitada no chão vomitava para o lado, para os pés da amiga. Essa parecia bastante desabraçada.

O que é que ela está aqui a fazer? Como é que não há ninguém para a pegar ao colo?

sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Distrair-se

Não sei se já escrevi esta frase aqui. Mas uma vez uma pessoa muito importante disse-ma e bastou uma vez para que nunca me tenha esquecido dela.

As pessoas falam em distrair-se como se não soubessem que essa palavra significa estar desconcentrado.

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

O cinismo

O cinismo é um escudo contra o Bem.

quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Os impostos

Há umas centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto, ao contrário do que se pensa quando se é novo. E é bom que seja assim, menos nos casos em que as pessoas páram de crescer e ficam reféns das suas idiosincrasias opinativas juvenis para o resto da vida.


Até hoje nunca tinha compreendido a tentação de ter um negócio criminoso. Pensava Não é muito mais simples ter um negócio permitido pela lei?

Essa tentação só se compreende quando se começa a pagar impostos.


Qualquer opinião sobre a sociedade que não tenha isto em conta (e mais as outras tais centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto) não é válida.


Assumir isto é definir mais claramente os motivos pelos quais, sabendo-o, se continua a não ter um negócio criminoso.

terça-feira, 31 de Março de 2009

Amar

Amar é passar a ter um motivo para gostarmos de ser nós.

Por termos o previlégio de amar quem amamos.

segunda-feira, 30 de Março de 2009

Braços

Amar alguém é passar a ter quatro braços, dois dos quais andam por aí no mundo a fazer coisas boas para nós sem nós os controlarmos, e nós por eles.

Para poder viver

A coisa mais importante para poder viver é compreender como ninguém é perfeito. Em linguagem religiosa: só Deus é perfeito.

E saber aceitar.

Nenhuma decisão na nossa vida pode ser baseada nos defeitos das pessoas à nossa volta. Só nas qualidades.

Pois no topo dessa lista de pessoas não perfeitas, estamos sempre nós.

Aceitar os outros pensando como é que eles me aceitam a mim?

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Isto para mim ainda é ontem

Às vezes saio do trabalho às sete da manhã.

Mas confesso, gosto mesmo bué.

Quando se sai do trabalho às sete da manhã, as escadas do prédio cheiram a café.

Lá dentro das casas ouvimos as crianças a acordarem e as mães a mandarem-nas lavar os dentes.

E quando vamos de carro para casa, as outras pessoas conduzem ainda devagarinho, sem pressas nem ânsias, porque ainda estão a viver a pensar nos sonhos que tiveram.

Na rádio, os locutores ainda falam baixo, sussurram e dizem coisas meigas.

Na IC19, as pessoas que têm hortas na berma da estrada acabaram de chegar e esperguiçam-se antes de começaram a trabalhar. Da mesma maneira que um pouco antes se esperguiçavam os distribuidores de publicidades que estavam no Marquês de Pombal vestidos de esponjas de detergente CIF.

As madrugadas em Lisboa parecem um filme do Ozu.

As madrugadas são a mais bela parte do dia. Foi hoje quando vinha para casa, que a sua beleza me fez perceber finalmente como apreciar os prédios portugueses em toda sua beleza e sentido. Quando vamos a Espanha, vemos aqueles prédios em tijolo e pensamos Claro, faz sentido, são quentes, acolhedores, com toldos, que agradáveis, como os espanhóis. Quando vamos a França, vemos aqueles prédios elegantes, educados, altivos, e agradáveis, também eles como os franceses, e pensamos Faz sentido. O mesmo para o resto dos lugares do mundo. Mas até hoje ainda não tinha percebido essa unidade absoluta das construções da nossa civilização. Agora percebi. É que todas as casas, prédios e construções portuguesas de qualquer tipo, parecem que foram banhadas pelo Mar. Pertencem a uma arquitectura marinha. Parece que cada tijolo foi banhado em água salgada, baptizado numa bacia que cada pedreiro tem do seu lado, antes de ser posto em cima dos anteriores, todos abençoados. E o mesmo para as tintas, dissolvidas em água do mar. E os azulejos, magníficos azulejos onde se podia surfar. Os prédios portugueses sabem a mar.

quarta-feira, 18 de Março de 2009

Provas

A cada dia que passa sou capaz de ver mais provas de que Deus existe.

Mas a questão não parece ser se existe.

A questao parece ser:

Sim, Existe. Mas o que fazer com isso?

terça-feira, 17 de Março de 2009

Caminhar

Hoje vi um passarinho preto a levantar voo à frente do meu carro, quando eu ia na direcção dele na estrada.

Como deve ser maravilhoso voar. Deve ser parecido com nadar debaixo de água, quando impulsionamos o nosso corpo com os nossos movimentos e magicamente ele se move, navega.

Talvez os pássaros estejam já tão habituados a voar que não sintam mais essa excitação, essa maravilha, como especial. Tal como nós já não sentimos o andar.

Mas como é incrível também o andar.

Uma perna, outra perna, movimento. Em frente. Para trás. Lentamente, rápido, mais rápido.

De ora em diante vou tentar caminhar como se voasse. Glorificando o caminho valorizando-o. Percebendo que, como no ar, ele não existe antes de ser caminhado.

segunda-feira, 9 de Março de 2009

A loucura

A loucura é assim como quando nos enganamos a dizer uma palavra, só que em todas as coisas.



É preciso estar atento.

Agradecer

Nunca têm vontade de, se fosse possível, juntar na mesma sala todos os vossos antepassados até à pré-história e de lhes agradecer?

quinta-feira, 5 de Março de 2009

Ser para sempre uma criança

Quero ser para sempre uma criança: nunca parar de crescer.

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Trocar de corpo

Uma vez quando estava no sétimo ano, perguntei à minha colega de carteira, que era a pior aluna da turma, se ela já pensara como seria se fosse possível por o nosso cérebro no corpo de outra pessoa e o dessa pessoa no nosso.

Ela respondeu Ficávamos a pensar com as ideias de outra pessoa.

terça-feira, 3 de Março de 2009

As flores

As flores que dão menos trabalho são os cactos.

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

O que arde

Para ele até àquele dia, O que arde cura significara sempre O que cura arde.

Ele tomava os charopes, mas pensava que meter os dedos na ficha não o ia ajudar na tosse. Ele achava até que o provérbio estava errado. Os seus pensamentos eram tristes nesses anos, e revelam a barbárie em que vivia.

Mas a Tradição, a mãe-de-tudo, a quem ele não hesitara voltar as costas, tinha algo guardado para ele, e fê-lo arder, arder.

E lá ia ele, pensando que escolhia os ardores e que, dentro deles, escolhia até os melhores.

Mas naquele dia ele não pode mais escolher e finalmente percebeu que a secular sapiência estava certa.

Todas as dores ensinam e afinal a sabedoria está ao alcance de todos. As pessoas que se sentem estúpidas que dêem uma cabeçada na parede e logo vêem.

Entre golpes que lhe tiraram pedaços do animal que nascera, sentiu vindos de todos os lados e a acertarem-lhe por dentro e por fora ardores que laqueavam artérias sem as quais afinal o sangue só fluia para onde devia.

Ele ouvira dizer, uma vez na televisão, que as pessoas saudáveis são aquelas que, em vez de ficarem paradas a pensar nas coisas, as vivem. Aquelas que não ficam a pensar durante anos Será que devo ter um filho? Será que mereço? Será que sou capaz? Sim? Não? acabando por ter um, mas sim as que têm o filho e pronto.

Talvez tenhamos então de ser um bocadinho menos saudáveis para ser melhores pensou ele.

Talvez tenhamos de ser um bocadinho doentes no corpo para podermos ser um bocadinho mais saudáveis na alma. Talvez até a própria ideia de saúde seja uma doença.

Talvez um animal-homem doente seja um humano-homem saudável.

Porque depois de arder, ele percebeu que afinal parecia que tudo o que nos mata um pouco nos faz maiores, como a dor do parto que mata fazendo a vida ficar maior.

Foi nesse dia que escreveu no caderno que sempre o acompanhava, no bolso: Direito número um dos homens: direito ao sofrimento.

Afinal os seus cabelos brancos não eram sinal de morte, mas de vida.

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

O equívoco

O equívoco começa nas pessoas não saberem que o comunismo é uma ramificação do cristianismo.

Continua em as pessoas acharem que o folclore português são só os Pauliteiros de Miranda.

Acaba em as pessoas pressistirem em chamar cantor de intrevenção ao Zeca Afonso.

Começa mesmo a doer. Cantor de intrevenção, tipo Polícia de intervenção.

A questão é em Portugal a Arte continuar a ser confundida com política. O José Saramago é o da esquerda, o António Lobo Antunes é o do centro, a Agustina Bessa-Luís é a da direita.

Se em Portugal se soubesse o que significa Arte, já se tinha percebido que o Zeca Afonso era um dos maiores de sempre.

Na triste e limitadora necessidade de definições da tradição ango-saxónica de rotular e empacotar tudo como quem embala para o capitalismo, chamemos-lhe pelo menos músico folk (que tal inventarmos folc, para o folclore português?).

A primeira canção que o Bob Dylan escreveu era sobre um sindicalista de esquerda que foi assassinado lá numas minas nos Estados Unidos. O Bob Dylan também é um cantor de intervenção? Pelo menos o capitalismo salvou-o de ser.

Porque, sim, o Zeca era comunista, mas isso é só um partido, uma ideologia. Coisas menores quando comparadas com a Arte.

A relação com o divino, que o comunismo não lhe permitiria, está nas canções. A dor. O amor. A vida. O drama. A sobrevivência. A potência do sentir. A saudade. A inteligência. A luta por aquilo em que se acredita. O olhar que atravessa as barreiras e concilia o inconciliado.

É que a alma dele era muito maior. Eu nem sei bem de que tamanho era.


Por José Afonso


Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria

Desde então a lavrar
No meu peito a alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia

Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

As poças de lama

Eu trabalho à noite. Saio por volta das quatro e meia da manhã. A hora de saída que está combinada é às quatro, mas uma pessoa acaba sempre por ficar mais uns minutos a arrumar as coisas e à conversa.

Aconteceu que hoje saí mais cedo. Eram umas três horas quando o patrão disse que por hoje estávamos terminados. E por hoje terminados arrumei as coisas. E saí.

Este inverno tem chovido imenso em Lisboa. Todos os dias chove e a humidade no ar é imensa, parece que conseguimos comê-la. Além disso, está muito frio. Atravessava a IC19, vazia (uma visão incrível). Chovia. Aquela estrada tão deserta e eu ali, o seu único dono. Aquela estrada tão deserta e eu a sentir-me tão sozinho.

Pensei que ainda queria ver alguma pessoa antes de ir dormir. Algum ser humano, alguém vivo. Antes de partir para o dia de amanhã, queria sentir que hoje ainda olhava para alguém que nunca tivesse visto antes, ou que fazia alguma coisa que nunca tinha feito.

Ia na IC19 e saí na primeira saída que apareceu. Fui conduzindo pelo subúrbio a dentro, sem saber para onde ia. Fui atravessando as ruas desertas e húmidas, iluminadas pela luz quente laranja.

Não sei como é ao pé das vossas casas, nem que cor vocês associam à noite. Mas aqui nos subúrbios, à noite é tudo laranja. As luzes laranja reflectiam-se nas poças de água na estrada escura, nas janelas escuras e nas montras escuras. Ninguém na rua. Não encontrei nem uma pessoa.

Caramba, nem um gangue! No meu tempo, no subúrbio à noite, havia gangues. Haviam grupos de pessoal novo a atirar caixotes do lixo para a estrada. Havia pessoal sentado em muros a fumar charros. Agora já não há nada. Só pilhas e pilhas de janelas sem luz amontoadas em forma de prédios (às vezes, com sorte, vemos a meio da noite uma luz de cozinha acesa - basta ver a cor da luz para se saber que é uma cozinha, assim uma espécie de branco embaciado - onde alguma mulher bebe chocolate quente por não conseguir dormir ou algum filho se masturba - nesses casos normalmente só vemos a luz da televisão acesa).

À noite no subúrbio, não se vendo gente, vemos milhões de carros vazios, assim uma espécie de carcaças abandonadas que são os corpos reais das pessoas que ficam ali quando elas se despem e levam o essencial para casa.

Que não haja ninguém na rua por estar frio eu ainda posso tentar perceber, mas que à noite no subúrbio, já nem nos carros se veja animação? É muito triste. Nem um só vidro de carro embaciado, nem um só par de pernas nuas oscilando. Depois dizem que não há bebés. Se não se faz amor à noite faz-se quando?

Antigamente, no subúrbio, fossem gangues, fossem apaixonados, havia pelo menos pessoas que escolhiam ser livres, tanto quanto podiam. Não eram capitalistas. Mesmo que fossem só adolescentes, eram pessoas que escolhiam não se limitar a seguir um plano. Tinham a ousadia de sair de casa à hora que quisessem. A grande coragem de se abrir às experiêcias de vida e à natureza selvagem e incontrolável do Ser Humano. Felizes nós porque já não há bandidos à noite na rua. Sim, não há porque estão presos a um estilo de vida que nos afasta uns dos outros. Presos à solidão.


Continuei a conduzir. A ver os prédios, as lojas, os cantos misteriosos. E foi assim que cheguei à minha escola primária.

A penúltima vez que lá tinha ido fora há uns dois anos. A última, foi num sonho que tive o Verão passado quando dormi na casa nova do meu amigo mais antigo, com quem passei a escola primária.

Não sei como acontece com vocês, mas comigo, eu sonho sempre com os lugares muito adulterados em relação à realidade. Nos meus sonhos, todos os lugares são uma construção enorme, grandiosa, épica e labiríntica sobre a estrutura base do lugar com que sonho.

Mas vendo a minha escola primária, às três e tal da manhã, cá de fora das grades, ela parecia igual ao sonho. A minha escola primária estava mais real do que a realidade!

Andei de carro à volta dela. Parei o carro e saí. Ali estava eu, um grandecíssimo homem, enorme e de barba, que se eu vira ali à quinze anos atrás me faria sentir muito medo.

Olhei através das grades, à procura da árvore à qual trepávamos, eu e os meus amigos, que se chamava Casa da Árvore. E ela está lá. Vinte anos depois. E também cresceu. Está já velha, desgastada e enfraquecida. No meio de coisas novas.

Olhei melhor e agora vi muitos lugares que não reconheci, muitos espaços que não pareciam os mesmos. Pensei em saltar a grade da escola, mas não saltei. Queria partir à descoberta daquele lugar da minha infância.

Continuei a olhar, a tentar distinguir algo conhecido no escuro. E foi aí que as vi. Num cantinho escuro do pátio, entre dois muros, no espaço de uns quatro metros quadrados, continuam a formar-se, com a chuva e a terra, as mesmas poças de lama de sempre.

Vinte anos de poças de lama no mesmo lugar.

Uma das memórias antigas que tenho daquele espaço (que é muito mais que uma escola) é de, no cantinho ao pé da Casa da Árvore, passar a correr por cima das grandes poças de lama, atrás de outro menino com um pau na mão, um rapaz de óculos redondos um ano mais velho que eu (que hoje continuo a ver passar na rua e com quem nunca falei), com uma camisola vermelha rota debaixo do braço, no sovaco, coisa que eu nunca vira antes, e de eu pensar Como é que ele fez aquele buraco debaixo do braço? e de ele começar a atirar bolas de lama para os outros e eu e mais dois amigos nos desviarmos para não apanharmos também, porque as nossas mães iam ficar lixadas se chegássemos com uma bola de lama estampada nas nossas camisolas. Isto depois de termos estado a brincar à volta das grandes poças de água e lama que ali sempre se formavam enquanto começara já a chover e as contínuas já tinham chamado todos os meninos mas nós tínhamos desobedecido e ficado ali sozinhos até termos ficado só nós, rebeldes, o silêncio cinzento e a chuva, naquele lugar algo escondido (sim, porque as minhas escolas sempre foram construídas em terrenos íngremes, pelo que tinham montes de patamares que permitiam milhares de esconderijos), a sentirmos o recreio vazio, a brincar ao som da água a cair, com um silêncio próximo do que ouvi esta noite enquanto olhava para aquelas mesmas poças, que não esperava jamais reencontrar, que só vi por, no escuro, reflectirem as luzes laranja do meu país à noite.

E foi naquelas poças que encontrei a pessoa que estava à procura de ver antes de dormir. Esta noite recolhi o menino que me pareceu que tinha ficado vinte anos ali, à chuva e ao frio, com a camisola suja de lama e as costas molhadas, à porta da escola à minha espera, e que eu me tinha esquecido de vir buscar.

Abri-lhe a porta. Entrámos os dois no carro. E partimos.

Ao voltar para casa, no meu carro preto de pára-choques rebentado, senti uma força estranha no peito. Sabem aquela sensação, quando é Natal, de que o Natal veio demasiado cedo este ano? É que sinto que para mim o Natal foi hoje. O dia em que senti que era Natal foi hoje. Senti-o tão forte. Apetece-me estar com a minha família à volta de uma lareira a dar presentes, com crianças à minha volta. Talvez seja isso. Não há Natal sem crianças.

A minha ex-namorada não é do subúrbio. Uma pessoa impaciente e ansiosa, andou numa escola primária noutra parte da cidade. A escola primária em que ela andou já não existe. Foi transformada numa rotunda, ao pé da casa dela. Por isso esta noite, dois anos ou mais depois, perdoo-lhe tudo.


PS: Os erros ortográficos deste texto não são só culpa deste computador não ter corretor ortográfico. Também são saudosismo.

segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

O som do mundo

Foi por acaso que fiquei muitos dias sem me cruzar com uma televisão e que, nesses dias, também não ouvi rádio, não pus discos a tocar e o meu telemóvel esteve sem som.

E nem sequer teria dado conta de nada disto. Ou não tivesse subitamente, de um segundo para o outro, deixado de ouvir barulhos. Num segundo de pura lucidez sensorial, desapareceram aquelas canções que trauteava interiormente em frenesim, repetidas sem parar a todas as horas do dia. Deixei de ouvir um constante genérico de filme a passar na minha cabeça. Como se o ruído tivesse sido desligado. Como se tivese ficado surdo instantaneamente.

Mas não era surdez. De repente tudo tinha um som.

Estava sentado em silêncio e num sopro comecei a ouvir o Mundo.

E tudo passou a ouvir-se. Todos os objectos passaram a estar presentes, e eu ganhei uma nova forma de os sentir. Os sons naturais passaram a ser uma sinfonia e recuperei a minha ligação com o mundo.

E digo-vos, o som do Mundo é alucinantemente belo.

sábado, 24 de Janeiro de 2009

A alma da pátria

Portugal, este país-pergunta. Este país-mistério. Este país que nenhum de nós compreende e que é tão fascinante. O país que criou o Brasil (!), o país minúsculo que rebentou na Ibéria e nasceu à força de querer existir. Um país que ninguém sabe o que está a fazer. Um país que cada vez mais parece só Alma. Cada vez mais pobres, cada vez mais humildes (humildade é virtude). Um país que não é só o seu povo, nem só as suas elites, um país que é uma ideia incrível.

Um país mistério que ninguém sabe para onde vai. E a porta desse país, a porta da Europa para a vastidão do mundo, tem agora devolvida a si a sua proa, o Cais das Colunas. Mas as indecisões quanto ao futuro do Terreiro do Paço são o símbolo da indecisão do que fazer a este país que o contém.

Há muita gente que acha que se devia tornar o Terreiro do Paço numa espécie de grande esplanada à espanhola. Consagrariamos assim definitivamente a boémia nacional e assumiríamos que somos uma nação de foliões. Podia ser bom. Há também quem ache que talvez se devesse tirar de lá os ministérios e fazer, quem sabe, uns hotéis para ingleses, umas lojas caras, à fracesa, dando assim sentido ao nome Praça do Comércio. Poderíamos assumir assim melhor a nossa humildade e carácter servil, e ser criados dos ricos. Porque quem leu o que disse Jesus sabe que a pobreza é uma virtude. Há ainda, quem sabe, outras opções, como fazer dele, por exemplo, um jardim, num estilo mais ecologista tipo norte da Europa.

Eu não sei, mas acho que não. Acho que devíamos simplesmente limpá-lo, tirar lá os carros a passar à volta, conferir-lhe a dignidade do silêncio, e deixá-lo como está, consagrando-o definitivamente como um símbolo da alma de portugal. Um relicário da nossa identidade. E deixá-lo em repouso, no mais próximo que se conseguisse de torná-lo um Templo. Sempre iluminado à noite como tem estado, de frente para o mundo, um país que é uma porta aberta para o oceano. Com aquele relógio no meio de anjos, a contar o tique-taque do nosso futuro.

terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Excerto de uma carta a uma pessoa muito especial


Pois é -------, sinto ter dentro de mim uma estrela que brilha cada vez mais forte e mais pesada (mas de um peso bom) e que me faz forte (fortíssimo) para enfrentar tudo na vida. Acho que se chama felicidade.

O sentido da vida

Procurar a dignidade a cada momento.

sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

A cura para o ateísmo

A tal falta de provas de que Deus existe é a mesma falta de provas de que Deus não existe.

A única coisa que podemos provar é que não sabemos.

sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

Ano novo com amigos velhos

O primeiro chá do ano foi tomado com os meus amigos.

Os amigos e amigas verdadeiros. Os que o quiseram tomar comigo.

A um ano completamente novo. É mentira que não seja nada de especial o que aí vem. É o futuro. A possibilidade de fazermos da vida de todos o que formos capazes.

No entanto, cheguei a pensar que 2009 seria nunca mais voltar a dormir. Depois de o novo ano chegar exactamente no mesmo lugar onde tinha chegado 2008, 365 dias antes, fomos repousar.

Dei por mim sozinho, numa cama de casal, num quarto antigo, com uma humidade antiga (da Serra de Sintra que é a nossa casa), onde antes dormiam os bisavós da minha querida amiga.

Sozinho. Eu, que acredito tão pouco em dormir sozinho.

Dormir só é divino se estivermos com alguém. Se não é só utilitário. E isso é feio. Dormir abraçado, dormir aninhado, dormir aconchegado, dormir amado, dormir partilhado. Cheios do calor que é humano. Isto é que é digno. Partilharmos juntos a inevitabilidade de sermos humanos e mortais. O respirar. A pele. Impossível sozinho.

Por isso não dormi.

Eu nunca tive insónias. Adormeço mal chego à cama, vou para a cama quando tenho sono. Durmo e é bom. Dormir é maravilhoso.

Mas ali estava eu, só comigo. Só numa cama desconhecida, num ano desconhecido. Os meus amigos dormiam nos quartos à volta e ouvia-os respirar e era bom senti-los nisso. Os amigos e amigas a mudarem de posição na cama. As camas a estalarem de serem antigas e eu com 365 dias em que pensar.

Este ano fomos menos que no ano anterior. Muitos amigas e amigos nossos estavam noutras casas, noutras festas, noutros lugares, com outras pessoas. Pessoas de quem, quero acreditar, não gostam mais do que gostam de nós. Mas o capitalismo destrói tudo.


Como o aquecedor que o meu patrão tem em casa. Quando todos os outros aquecedores do mundo falharam com ele, avariados por este desolador Inverno, o aquecedor do quarto de adolescente dele, com mais de vinte anos, resistiu. É ainda hoje esse que o aquece. Todos os outros eram mais recentes. Ainda há quem ache que o que é novo é bom só por ser novo?

No capitalismo, é preciso vender. Logo, as vendas não podem parar. Não basta o ritmo da vida humano, das pessoas - vender um aquecedor, um computador, um sofá, uma caneca de chá por pessoa que dure para toda a sua vida, e até para os filhos, netos, bisnetos. Não. Ao capitalismo o ritmo humano não chega.

As vendas não podem parar. Por isso é preciso vender muito mais que um. Como as pessoas não são estúpidas, a única forma de nos obrigar a fazê-lo foi pôr prazos de validade às coisas. Tudo é construído para se estragar. Primeiro estragava ao fim de dez anos. Depois cinco. Agora dois. Espero estar enganado, mas ainda vamos ver aquecedores descartáveis de uma utilização. Um aparelhinho que se activa, aquece a sala e depois se deita fora. Um dia tudo vai ser consumível e, por isso, além de gerar lixo, será etéreo.

Quando tudo é etéreo, o tempo perde o seu valor. E sem o tempo, nada se pode construir. Quando somos apenas uns repositores de produtos, sentimentos, sensações, não temos nada para pôr em cima do que estava antes. Se temos constantemente de repor o básico nunca chegamos ao que vem depois. Ao grandioso. À vida humana.

Porque se não percebemos o tempo, também não percebemos que vamos morrer. E que antes de morrer temos de viver aquilo que queremos realmente viver, e não outras coisas. E que para viver essas coisas, é preciso tempo, para as construir.

É por vivermos numa sociedade sem tempo que é cada vez mais difícil fazer amigos. E mais difícil ainda, encontrar o amor de uma pessoa. (no amor, fazer e manter são sinónimos).

O amor - seja por um aquecedor, por um amigo ou por uma mulher - precisa de tempo. Nesta sociedade em que tudo é substituível, onde há gente que muda de casa de dois em dois anos (não sei como isto é possível - chamam-me materialista por ser apegado aos objectos importantes, mas materialismo é é ser capaz de mudar de casa e de carro e gostar), há gente que por eles, imagino que se pudessem, mudavam até de Mãe e de Pai todos os meses. Como mudam de mulher. E de amigos.

Com o consumo e os horários de trabalho, o capitalismo tirou-nos a capacidade de perceber que a vida é uma unidade única e contínua e não se divide em dias, como pensamos.

É assim que o capitalismo nos escraviza. Porque nos impede de construir coisas. De dar um passo hoje. Outro amanhã. Outro depois. E continuar assim durante vinte anos - o período áureo de cada pessoa - sem parar e, quem sabe, tornar-se um grande guitarrista, escrever um livro, ou fazer um filme. Isso é que é ser livre. Mas não. Hoje a vida é no máximo escrever num blogue. Compartimentando tudo em dias, em pequenas unidades, para que possam ser consumidas em pequenas doses, pois o corpo já não aguenta mais que uns dois ou três parágrafos. Os livros só ainda não são vendidos em fascículos com um capítulo cada porque no capitalismo as pessoas não são cultas e por isso não compram livros.


E é por isso que há pessoas que passam a Passagem de Ano com pessoas que não são os seus amigos. Que mal conhecem. E com quem nem gostam muito de estar. Mas toda a gente está solteira. E com o capitalismo é preciso aproveitar cada tempo livre, cada feriado, cada meia hora, para engatar. É preciso engatar gajas. É preciso engatar sem fim para se poder dormir acompanhado. Eu escolhi dormir sozinho, mas estar com os meus amigos nas doze badaladas. Com os meus amigos e amigas e com mais ninguém. Com nenhum desconhecido (havia o namorado de uma das minhas melhores amigas mas namorados são família).


E é pelos mesmos motivos que toda a gente está também tão empenhada em destruir o Natal. É bom destruir a Passagem de Ano, mas aos destruidores, dar cabo do Natal dá ainda mais prazer.

Nos dias que o antecederam, cada vez que liguei a rádio, havia alguém a destruir o Natal. Primeiro foi um jovem cozinheiro, a quem perguntaram, risonhos, aqueles que ainda acreditam Então e receitas para a consoada? Ao que o senhor responde, nervoso Ahh, eu não gosto do Natal, acho uma época muito hipócrita, desagradável, para mim são as mesmas receitas do resto do ano. Este cozinheiro não sabe certamente que a função mais digna do seu ofício da comida é ser elemento de união das pessoas em família, e que, ao contrário do que ele pensa porque certamente está sozinho, isto é mais importante que os prazeres egocêntricos de comer um delicioso rosbife.

No dia seguinte, foi o José Luis Peixoto, a quem pediram Então e umas canções de Natal, o que é que nos trazes? (talvez por saberem que no fundo as pessoas boas gostam do Natal, os locutores de rádio apelam todos ao espírito, mesmo que não sejam pessoas boas. E isso é bom e faz-lhes bem) ao que o escritor responde Ahh, eu gosto sempre de desconstruir o Natal e por isso trouxe aqui umas músicas diferentes, umas coisas africanas. Desconstruir o Natal? Mas o Natal precisa é de ser construído. O Natal é uma construção tão bonita, de que serve desmanchá-la? Desconstruí-la?

Um dia em que pelo menos em metade do mundo as pessoas apanham aviões, atravessam oceanos ou longos quilómetros de carro ou até só o centro da cidade, seja o que for, para estarem todas reunidas em família, numa lógica completamente anti-produtiva no sentido capitalista da expressão, apenas guiados pelo seu amor e vontade de estarem com a sua família, de volta à sua tribo, as pessoas que são sangue do seu sangue, não é um acontecimento espectacularmente bonito e original? Eu acho que é.

Dão-se prendas. Mais bonito ainda. Só vê nisto capitalismo quem é pobre de espírito (literalmente).

Fui à Livraria Bertrand comprar um livro para oferecer à minha adorada avó. Fui dos primeiros clientes do dia 24 de Dezembro. Estava lá às Nove e Trinta da manhã. Entro na estimada loja e a primeira coisa que oiço são os empregados a comentarem com o segurança, zangados O Natal é o pior dia do ano! enquanto arrastavam ao pontapé caixotes de livros. Fui à Fnac. Na caixa, estou a pagar e despeço-me da senhora da caixa com um sorridente Então feliz Natal, felicidades ao que me responde O Natal? Tomara que passe..

Os desconstruidores do Natal estão a ter um tal sucesso na sua empreitada, que conheço até pessoas que este ano não fizeram árvore de Natal. Adivinhe-se, foi para não gastar dinheiro em electricidade. Outros, por motivos ecológicos. Mas o capitalismo já pôs as pessoas todas doidas?

As pessoas que conspiram contra o Natal são as que não percebem que é o dia mais original do ano inteiro, em que tudo é mais diferente, em que as regras se invertem e na véspera do qual, ironicamente, é mais divertido trabalhar caso se trabalhe numa loja. No ano passado trabalhei numa perfumaria dia 24, aquilo é que foi diversão. O triplo dos funcionários na loja, todos em galhofa, como se estivessem perante uma guerra sem vítimas e por isso divertida. Uma multidão de pessoas, uma confusão anárquica de compras e de coisas a serem feitas. Os enfeites de Natal. Clientes fantásticos que há vários anos que só compram perfume naquele dia do ano. Mas sobre perfumes falo noutro dia.


Para mim, a Passagem do Ano é como um Natal para os amigos. Mas os amigos dignos desse nome, os verdadeiros, os de sempre, a família não-biológica. É por isso que não compreendo como podem as pessoas preferir passar o ano com conhecidos com quem podem estar todo o resto do ano. Seja a ver fogos de artifício, seja a fazer sexo, seja bêbados ou a dançar. Só pode ser com amigos. Passar o ano a conhecer pessoas novas é um desastre. É o único dia em que não se fazem novos amigos.

É, sim, o dia em que os amigos se juntam todos e pensam - por gestos e não por palavras - no que significa a vida que viveram juntos. Que partilharam todos estes anos. Que é de todos mas é uma só, porque sem um amigo não havia o outro.

Podem fazer-se viagens para o estrangeiro noutras férias. No Natal está-se com as pessoas com quem se deve estar (goste-se delas ou não se goste, o dever é tentar que a família funcione) e na Passagem de Ano está-se com as pessoas de quem se gosta. A não ser que não se tenha família e não se goste de ninguém.


Foi nisto que pensei quando estava ali na cama, com os meus amigos a dormirem à minha volta, naquela casa de pedra antiga.

Pensei que com a família e o patrão, são a maior riqueza que eu tenho.

Feliz ano novo para todos.

E profundamente obrigado aos meus quatro leitores por visitarem este blogue.

quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Palavras

É impressão minha ou a palavra asceta é muito pomposa para um asceta?

terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Amar é gostar de não receber só porque é aquela pessoa

Um dia ela disse-me que só se sentia segura no amor quando ele adivinhava tudo o que ela sentia.

E aí, jesus, o amor era deslumbrante. Aí o amor era uma corrida dos dois amantes pela cidade (onde se passavam a sentir e a portar como se estivessem no seu quarto - uma cidade conquistada à força da paixão) e uma corrida pelo quarto (que se tornava a sua cidade, cheio de lugares novos para descobrir).

Mas quando ele não adivinhava o que ela estava a sentir, ela sentia-se muito insegura.

Quando ela ficava triste e ele não adivinhava o gesto simples e concreto que tinha de fazer para a deixar feliz ela naturalmente ficava triste, como se esse fosse o seu estado natural sem ele. Porque quando ele não a adivinhava era como se não estivesse com ela. Ela só o sentia quando ele a adivinhava. Como uma flor para ser regada - e as flores não se regam sozinhas - ela sabia que o trabalho do amante era adivinhar como regá-la. E ela estava certa.

Esse é o bom amante. O amante que é como a chuva - porque a quer ter cuidada e só para si e não uma flor selvagem, que bebe a sua água aqui e ali e até da terra que outros pisaram.

Ele queria que ela só bebesse da sua água, só que não sabia ser como a chuva.

Mas os maus amantes são, ainda assim, amantes.
Os amantes não conseguem ser felizes um sem o outro. Mas por estarem infelizes não são menos amantes. Não conseguir também é amar. Sim. O trabalho um do outro é regarem-se mutuamente, se querem ser um sistema único. Só que o mau amante é aquele que não adivinha tudo, mas que, ainda assim, tenta.

O mau amante é mais difícil de amar. Mas não se ama menos. É só mais difícil. Mas o mau amante não está sozinho no seu mal amar, se não não tinha o nome que tem.

E como se sofre por amar um mau amante!

É um amor sofrido, desgastante, ensopado de outras regas.

Sim, ela sabia que ela própria também não adivinhava tudo o que ele sentia. E sabia até que isso não era por o amar pouco. Mas isso não a impedia de ficar insegura quando ele não a adivinhava. Ela queria era sentir-se amada, o resto não interessava. A reciprocidade do mal amar nunca foi reconfortante.

Ele dizia à beira do choro Mas explica-me, o que posso fazer para te fazer feliz? Mas o pobre não sabia que a única coisa que tinha a fazer era justamente não perguntar e adivinhar. Pois o que tinha de ser feito não podia ser dito. Há coisas que não se podem dizer assim. Se se dissessem morriam, como se o silêncio fosse o seu oxigénio.

Uma coisa eles sabiam. Só estavam felizes quando o outro estava feliz.

Passou muito tempo. Infelizes juntos, amavam. E eles batalharam, batalharam por se amarem melhor. Mas seria mentira dizer que passaram a conseguir adivinhar tudo o que o outro pensava.

Não conseguiram e houve um dia que desistiram.

Nesse dia, ao contrário do que esperavam, o amor não se foi embora.

O amor ficou e batalhava, batalhava sozinho contra eles, para se manter vivo. Eles bem o tentaram matar, como se mata um bebé porque nos faz perder o juízo e não nos permite descontrair. Tentaram afogá-lo em lágrimas. Ou gritar-lhe até ele ficar surdo - como se talvez aí desistisse de os chatear - mas ele continou lá, a berrar, a dizer Eu estou vivo.

Decidiram aceitá-lo. Não havia nada a fazer. Não se mata o que é imortal. Acolheram-no e afastaram-se um do outro. Mas claro que a distância não matou o que está em todo o lado.

Passou tempo. Aproximaram-se.

Houve mais um dia em que, como tantos outros, ela estava triste. Como em tantos outros, ele não percebeu. E foi igual a todos os outros. Tão igual, tão igual, que só aí ela viu o que nunca tinha visto. Numa tristeza igual à primeira tisteza de todas.

E da soma de duas coisas iguais nasceu uma diferente.

O amor.

Desta vez, ela lembrou-se da priemira vez em que ele não a percebeu. O tempo tinha passado. Lembrou-se daquela vez que se sentiu tão sozinha e de como ele tentou tanto tanto, sem nunca conseguir percebê-la.

E o quanto ela o amou quando se lembrou do jeito dele de não a perceber! Aquela cara de indiferença dele, ali, igual a sempre, e agora ela só sentia o amor. Aquela cara de alheamento dele, como quem não está nem ali, como quem nem a vê, como quem está sozinho, sendo ele próprio e ela so via amor. Amor. Amor.

Passou a conseguir ser feliz também quando ele, apesar de a amar, não a compreendia. Foi assim. Até lhe pareceu que foi de um momento para o outro (mesmo que não tenha sido).

E foi assim que passou pela primeira vez, não a amar, mas a amar outra pessoa e não a si mesma.

Deixou de amar como uma flor e passou a amar como uma árvore. Sentiu algo maior que ela, pela primeira vez. Algo que não era só o que ela tinha previsto antes, o que ela tinha pensado antes, o que ela já sabia que queria. Não. Algo novo. Percebeu como tinha sido burra. Percebeu como isso não tinha mal agora que já não era.

Ela estava a amar alguém diferente dela, alguém que não correspondia ao seu perfil traçado como objectivo, racionalmente naquele caderno de quando tinha dezassete anos. Pela primeira vez, ela amou alguém por essa pessoa ser quem era e não por se encaixar na lista de itens que ela tinha traçado para o amor da sua vida.

O amor deixou de ser um objectivo e passou a ser um estado.

Nesse momento ela percebeu que o amor é avassalador e é amor porque destói todas as nossas listas de adjectivos idealizadas, porque ao trazer o que é novo, desconhecido e imprevisto traz consigo a vida.

A vida deliciosa, imprevista, nova. E foi assim que ela se passou a conhecer melhor. A saber quem era porque amou algo que não conhecia. Algo que ainda não sabia.

Nesse dia, ela saiu pela primeira vez do egoismo. E gostou.

domingo, 28 de Dezembro de 2008

A beleza

Ela toca-me todas as noites.

Antes de dormirmos, abraça-se-me à alma ensinando-me a ser eu.

Ela, a Mulher.

Uma mulher tão perfeita que qualquer coisa que lhe chame é um elogio à palavra que se uso. Não tenho como elogiá-la, e é por isso que lhe ofereço poemas. Poemas dos maiores mestres, já que os meus já são todos dela. Já que não a posso elogiar, ao menos elogio os poetas que há tanto tempo queria mas não podia por não ter como. Com ela consigo. Até isso ela me deu. Uma poesia maior.

Fico sempre em silêncio quando estamos juntos. O maior de todos os presentes, o presente silencioso. Porque o meu silêncio mais o silêncio dela tudo preenche.

Uma pessoa tão linda assim deve comover-se quando se olha ao espelho. Talvez não se consiga pentear sem se etenecer um pouco. Talvez seja por isso que muitas mulheres bonitas se tornam frias e insensíveis. Têm de ser assim, para não chorarem ou se beijarem no espelho todas as manhãs.

Mas não esta mulher e é por isso que se mantém linda. Ela não sabe que o é. Eu ter vindo ao mundo tem como única função explicar-lhe.

terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Os tempos estão a mudar

Às vezes os nossos pais e avós falam-nos do seu tempo e nós ouvimos. Às vezes lemos em livros como se vivia noutros tempos e até julgamos que conseguimos imaginar, mas não conseguimos, como a fábrica onde o meu avô foi operário há sessenta anos atrás, junto ao rio Tejo, onde trabalhavam mais de mil pessoas, num edifício enorme do qual hoje só resta um descampado. 

O mundo muda muito mais do que podemos imaginar. Mas é tão bonito imaginar que aconteceu tudo no mesmo mundo. Foi no mesmo mundo que houve o Império Romano e que foi filmado o The Marix. Foi no mesmo mundo que os portugueses juntaram que hoje todos lêem sobre isso nos seus Macintoshes. A Apple dos computadores é a mesma da Bíblia. A Inquisição houve no mesmo planeta do Jack Kerouac e da civilização Maia. Hoje estamos vivos porque desde há milhões de anos até hoje os nossos antepassados foram tendo filhos, e mais filhos, até que os filhos somos nós, que por nossa vez também teremos filhos e continuaremos o ciclo. Não há nenhum Ser Humano que não seja descendente de pré-históricos, nem nenhuma pessoa do futuro que não seja nossa descendente. E todas estas pessoas tiveram vidas incríveis e cheias de coisas que nunca conheceremos ou que nunca sentiremos como eles as sentiram.

Hoje foi anunciado o fim de um dos objectos fundamentais da minha infância. Um que as minhas mãos manusearam e que conhecem de cor, do qual conhecem todos os truques, texturas e pesos. Do qual conheço o cheiro. Sem o qual a minha vida teria sido completamente diferente. Com o buliço dos tempos, as pessoas não olham para trás. Um dia vamos ficar muito admirados de termos oitenta anos (se lá chegarmos). Hoje morreu um objecto fundamental da minha infância e um dia todos ficarão muito admirados sequer de ele ter existido. E essas pessoas não serão nem melhores nem piores que nós, nem os seus tempos serão piores ou melhores que o nosso, serão só outras elas e diferentes os tempos. Pessoas que um dia dirão Lembras-te do VHS? 

Nesse dia não saberão dizer, mas foi hoje que morreu.

Proponho a alguém que perceba do assunto editar um livro chamado O Grande Livro dos Objectos Desaparecidos. Eu comprava. Será um sucesso, garanto-vos.

Vários passos aleatórios para a felicidade

- Dar todos os dias pelo menos um abraço forte a todas as pessoas de quem gostamos.

- Percebermos que cada pessoa tem direito a ser como é e que podemos tentar mudá-la, mas não podemos não gostar dessa pessoa por ela se recusar a mudar. Nem toda a gente pode ser como nós.

- Perceber que cada minuto da nossa vida é sagrado e que devemos honrá-lo como tal, apreciando-o e celebrando a sua existência.

- Percebermos que a maior parte das vezes só alimentamos os nossos problemas porque não os resolvemos de uma vez por todas e que pensar neles não serve de nada, só resolvê-los. Pensar neles é agravá-los.

domingo, 21 de Dezembro de 2008

O meu sonho

Os amigos deviam todos trabalhar juntos.

Criar empresas.

E famílias.


Então a vida seria boa. Só quem ou nunca trabalhou ou nunca teve amigos é que não percebe como isto é verdade. É que não há qualquer interesse em a vida ser de outra maneira. Tenho saudades das pessoas de quem gosto.

Se admitíssemos de uma vez por todas que a liberdade não existe e que temos todos de trabalhar, para toda a vida, talvez começássemos a pensar a sério em soluções para as nossas vidas. Em vez disso, para não pensarmos no problema, dizemos Ah, a liberdade, tão bonita, continuamos a sonhar com ela e, quando der por mim, já não tenho amigos.

quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Sobre experimentar

Os artistas andam aí todos sem pudor a dizer que fazem experiências, como se todas as experiências não implicassem uma cobaia, e ser uma cobaia não implicasse sofrimento.

É por isso que as experiências se fazem em privadas salinhas escuras e não em grandes salas públicas. Sob o risco de criarmos grandes salas escuras.

Não se deve sorrir quando se diz que se faz uma experiência. Porque é que os cientistas não riem às gargalhadas? Porque não é por acaso que o cientista louco é o vilão de tantas histórias. Devem fazer-se experiências, mas sempre com vergonha. Fazer experiências sem vergonha é feio.

Em busca da expressão toda

Por favor não me ofereças enigmas. A verdade já é um enigma. Complicar mais o que se tentasses que fosse simples seria ainda assim complicado, o que pode ser se não arrogância? Tentemos antes usar as palavras certas e não as erradas para podermos rir da verdade e não da mentira.

A ousadia de complicar. É brincar com o fogo por se achar que se está a brincar com o fogo quando realmente não se está. Isso é que queima, pois é pela ignorância que se passa a estar. Quem se diverte ao pensar que está a arriscar queimar-se quando não está, queima-se de certeza. Tentar que os outros não percebam bem, ser misterioso só pode ser discordar da Vida. Criar enigmas é mórbido. Sermos todos loucos não é motivo para enlouquecer mais mas para tentar ser são. O facto de sermos mortais também não é motivo para nos matarmos, mas para vivermos.

Quem cria enigmas e procura complicar o mundo é talvez porque só saiba mover-se na ignorância. Eu não quero que compliquem, por favor, porque eu não sei. Quero a cada dia que passa tentar perceber um pouquinho mais, a cada dia que passa estar mais próximo de mim por estar mais próximo dos outros. Quero falar, ouvir, perceber e ser percebido. Quero comunicar. Palavras cheias como um pão ainda por rasgar. Não façam tudo em migalhas, por favor. Vejam o todo e não as partes. É tão simples, tão simples, que até parece não ser nada.

quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

O amor dela

Um dia, uma grande amiga chorou-me o ombro. As suas lágrimas fertilizaram no meu corpo uma ideia e ainda hoje estão em mim as marcas da água dos olhos dela.

Ela chorava todo o amor que deu a quem não lho deu de volta. Ela chorava toda a bondade que sofreu e que não lhe foi retribuida. Ela chorava ser tão boa num mundo de tão maus.

Então eu disse-lhe o que, num sermão, me disse António Vieira e que por sua vez lhe foi dito a ele pela Bíblia e que um dia também ela dirá a alguém.

Jesus amava os homens. Jesus amava os homens e os homens não sabiam que ele os amava e Jesus não os amava menos por isso. Jesus amou, amou os homens e sofreu, sofreu por eles. E nunca quis que se soubesse do seu amor nem que o seu amor fosse pago. Então era masoquista foram as palavras dela. Não. Jesus não queria que o seu amor fosse pago porque quando algo está pago, acaba a transação. Vai-se embora e é o fim da obrigação. Jesus nunca quis que o seu amor fosse pago para que o seu amor fosse eterno. Jesus nunca trocou ou vendeu o amor, só deu. E a forma mais nobre de amar é, como se diz, dando amor. E dando-o porque dá-lo nos faz feliz. E não por esperarmos outra coisa em troca. O único amor é o que é dado, para sempre. Sem o pedir de volta.

E numa luz que se fez na cara dela e num sorriso que sorriu ela compreendeu. Soube (dentro dela) que a ideia de negócio só lhe tinha sido ensinada pelo capitalismo e que não era real. Deixou de chorar por não mais sentir culpa nem vergonha de amar sem ser retribuida e partiu, feliz. E naquele momento, parado na rua a vê-la partir, via-a tornar-se mais nela própria.

No início daquela noite, ela mostrara-me o seu casaco novo de inverno, lindo, que fazia dela uma sensualíssima mulher, pondo o longo capuz do casaco sobre a cabeça e dizendo Faz-me parecer uma monge.

segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Sobre a descoberta de hoje

A descoberta de hoje é do campo da paixão.

Apesar de muito intensa, não é ainda do campo do amor eterno de há anos como este manifesto a toda a beleza do mundo em forma de puro pedaço de paraíso em som e imagem, apesar dos pontos de contacto.

Post-Scriptum: E depois disto, ainda há hoje quem, em resposta a este post, me venha privadamente argumentar que fio-dental é que é... Ainda bem que há gostos diferentes.

Post-Scriptum parte II: Há até quem me critique por usar camisolas de alças brancas (são os mesmos).

Descoberta de hoje

É possível estar perdidamente apaixonado por esta canção e vídeo e não ser homossexual.

sábado, 6 de Dezembro de 2008

O meu amor

O meu amor é como a mão, que sente quando toca.

quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Vamos petiscar

Começou hoje em Lisboa o Super Bock em Stock. Pela primeira vez em Portugal, um festival de grande dimensão baseia-se no novíssimo e inovador conceito de, durante dois dias, ter cinco salas com concertos sem parar e em simultâneo, com o espectador a pagar um bilhete único e a ter a grande vantagem proporcionada pela organização, de poder ver (cito) Quatro ou cinco canções de cada banda e ir rodando por todos os palcos.

Ora isto é de facto uma grande vantagem se os concertos forem maus. Pela primeira vez, a organização de um evento tem a visão (e tiro-lhes sinceramente o chapéu por terem percebido o público contemporâneo) de perceber que o mundo de hoje em dia se baseia em provar. Provar daqui, provar dali, dizer Mnham, este David Fonseca é ótimo, vamos embora, hummm, este Rui Reininho também é engraçado, vamos embora, haaa, que porreiros estes Pontos Negros, chau.

Basicamente agora vai-se a concertos como se ouvem mp3 em casa. Não se ouve nada a sério. Vai-se ouvindo. Conhece-se umas músicas. É a geração do Olha esta canção tão gira mas não tenho paciência para as outras. Este estilo de festival premia, portanto, as bandas de duas ou três canções boas. Espero sinceramente que na edição do próximo ano em vez de no cartaz virem apenas as horas a que cada banda toca em simultâneo, venha também a hora a que tocam a sua melhor canção, ou o single, e que isso seja concertado de forma a que nunca seja à mesma hora, sempre a horas diferentes, para que dê para o espectador apanhar todos os singles ou melhores canções de todas, já que não dá para ver mais que isso.

Mas este festival não é só isto. É muito bom porque se a pessoa estiver a gostar pode ficar, se não estiver pode ir-se embora. GENIAL! Então agora posso pagar para ir a concertos maus e tenho a vantagem de me ir embora?! Espetacular.

Sejamos sérios. Claro que este conceito de festival é para pessoas que não gostam de todas as bandas que lá estão, ou gostam mais de umas e menos de outras e só irão aos concertos daquelas de que gostam. Então para quê pagar por bandas que não se vai ver porque não se gosta?? Ou que não se gosta realmente? E 40 euros? É que um bilhete para uma banda da qual se gosta realmente custa 25, 30 euros (está bem, se for brasileiro sabe-se lá porquê custa sempre 50)

Acho que estamos a chegar ao cerne da questão. As pessoas que se identificam com este conceito de festival não gostam das bandas. Gostam é de saltitar. É que quando eu gosto de uma banda, gosto de ver o seu espetáculo de uma ponta à outra e de berrar e chorar baba e ranho por mais. Gosto de berrar por um encore, gosto de não ouvir mais nada nesse dia e ir para casa a cantar, quando chego pôr todos os discos a tocar em cadeia e ficar o próximo mês a sonhar com aquela noite mágica.

Imaginemos um festival com concertos em simultâneo do Leonard Cohen, do Jeff Buckley (eu sei que infelizmente já não é vivo, é só um exemplo já que todos os artistas que admiramos morrerão um dia), do Bob Dylan, do Chico Buarque, do Caetano Veloso e do Morrissey. Isto passa pela cabeça de alguém? Poderia passar, são tudo artistas tãaaaao diferentes! Pelo menos o Dylan, o Caetano e o Morrissey são. Porque não pô-los todos ao mesmo tempo? Sabem porquê? Porque são todos mesmo bons.

Está bem, digam-me que, além de os gostos variarem, há espaço na vida para concertos muito bons e para concertos só bons, ou médios. Concertos muito sérios e concertos just for fun (excepcionalmente uso uma expressão em inglês porque identifico o tipo de pessoas que a usam com a superficialidade que ela contém). Mas porque há de ser assim? Porque é que eu hei de ir a um conerto assim assim? É que os artistas que adoramos vão todos morrer um dia, como o Jeff Buckley... Podem estar a morrer agora, enquanto eu estou a esrever este post... E o dinheiro não é infinito, nem o tempo (que é dinheiro), por isso não dá para irmos a todos! Para quê ir a concertos medianos só por ir? Só para ver quatro ou cinco canções?

Eu sei porque é. É porque vivemos numa cultura em que as pessoas não têm paciência nem se esforçam para nada que lhes dê prazer, em que o que é um bocadinho difícil de gostar, não é gostável, em que o que implica dedicação, esforço (como ficar 6 horas a ver concertos maus para guardar um lugar à frente para ver o Bob Dylan a quinze metros de nós e com os nossos próprios olhos, não em ecrãs (só um à parte - qualquer dia fazem-se festivais de verão em que são actores a fazer de músicos e põe-se a passar um DVD dos músicos ao vivo no ecrã gigante e ninguém nota a diferença)) não vale a pena, em que não se cultiva um gosto artístico, uma cultura em que as pessoas não gostam realmente de nada nem de ninguém porquê dá trabalhoooo.

Como no sexo. Vivemos numa cultura de rapidinhas. De quecas fernéticas de mudar de um para outro parceiro para experimentar, experimentar, experimentar sabe-se lá o quê, talvez a estupidez de quem vive assim, ou talvez experimentar a vida. E porquê experimentar a vida? Porque não vivê-la? Eu pessoalmente - assumo, é uma questão de gosto como na música, admito - não gosto de rapidinhas. Gosto de disfrutar, de saborear, gosto de me apaixonar por uma pessoa com quem me estou a partilhar (sim, a mim!), gosto de degostar do acto de conhecer a pessoa - delicadamente, lentamente, com tempo, sem pressas - gosto de a saborear, gosto de a ter sempre ao meu lado e chorar quando não está. Não gosto de experimentar - voltando à expressão inicial, de provar, nem de deitar fora. Especialmente porque deitar uma coisa fora gera lixo e o lixo é o grande problema do Séc. XXI.

E como sou no sexo sou na Arte. Quando eu gosto de uma coisa, eu gosto dela arrebatadoramente, loucamente, incondicionalmente, até ao limite de mim próprio. Gosto de comprar todos os DVDs, todos os livros, todos os discos (eu ainda compro discos pessoal dos mp3 que quando o computador se avaria e ficam sem toda a sua música para ouvir nem dão conta porque não gostam realmente de música!), ver todas as exposições, etc. Como quando gosto de uma mulher gosto mesmo dela.

Podem ainda dizer-me Mas pode-se gostar muito de umas coisas e menos de outras, comer muito de umas e só provar de outras. Sim, pode-se. Mas qual é o interesse? Qual é o interesse se se pode estar sempre a comer coisas espectaculares? Qual é o interesse de comer uma fatia de uma pizza do Pizza Hut se se pode comer uma do melhor restaurante italiano de Lisboa? É que neste caso o preço não é assim tão diferente. 40 euros é muito dinheiro para petiscar, é o que eu vos digo.

Para terminar, este festival faz outra coisa espectacular. Como está tudo a acontecer ao mesmo tempo, cada crítico também só ouve Quatro ou cinco canções. Assim, todos os concertos podem ter sido uma merda, que a organização e o artista podem sempre afirmar Ahh, que pena, só ouviste a pior parte do concerto. Antevê-se, portanto, um sucesso na crítica.

Esta é a primeira edição de um festival que vai continuar entre nós por muitos e longos anos.

Valores à lá carte

Ir à Difusora Bíblica comprar uma Bíblia e ela ser-me dada num saco da Casa dos Doces Hansel e Gretel do Centro Comercial Colombo.

segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Os objectos

No dia em que concorri ao sorteio do Green Card, os objectos sobre os quais apoiei a máquina fotográfica com a qual tirei um auto-retrato para enviar para os Estados Unidos da América foram:
A antologia bilingue de poemas do Leonard Cohen, uma compilação de Tanka dos séculos IX ao XI e outra de Haiku, um livro de entrvistas ao Billy Wilder, uma caixa de chocolates que há anos atrás pertencia a uma amiga, a Poesia Toda do Herberto Hélder, a edição em livro do argumento do Manhattan do Woody Allen, uma caixa que roubei do meu antigo emprego porque precisava para arrumar os meus papéis, a Bíblia, uma caixinha cheia de tesouros do outro lado do Atlântico que me foram dados pela mais bela pirata da história, O Culto do Chá de Wenceslau de Moraes, o Medo de Existir do José Gil e um livro de cartoons que o meu pai me deu.
Foi um acaso. Estes objectos, empilhados na vertical sobre a minha secretária, fazem a altura exata que precisava para me fotografar num bom enquadramento.
Se daqui a dezenas de anos toda a minha vida tiver mudado graças a este sorteio, estes objetos estavam aqui comigo. Eles estavam aqui. Estão na fotografia. Estão comigo porque os li. São estas coisas que fazem uma pessoa.
Espero que me dêem sorte.

sábado, 29 de Novembro de 2008

Um canção para todas as pessoas que não gostam da vida

Já aqui dediquei uma canção à minha futura namorada.

Gostava de hoje dedicar uma a todas as pessoas que não gostam da vida.


Força Estranha

Eu vi um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redor
do caminho daquele menino,

Eu pus os meus pés no riacho.
E acho que nunca os tirei.
O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei.

Eu vi a mulher preparando
outra pessoa
O tempo parou para eu olhar para aquela barriga.

A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou.
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.

Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.

Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
o tempo não pára
e no entanto ele nunca envelhece.

Aquele que conhece o jogo,
do fogo das coisas que são.
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.

Eu vi muitos homens brigando.
Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta,

E a coisa mais certa de todas as coisas.
não vale um caminho sob o sol.
É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol.

Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.



Caetano Veloso

As meninas e o amor

  • Parte I
Tenho uma amiga que numa viagem há um ano atrás a uma capital europeia, comprou um postal lindíssimo. Esse postal, decidiu, seria para oferecer ao homem da vida dela.
Esse homem seria aquele que mais felicidade lhe trouxesse, mais alegrias, mais risos, mais sonhos acordados, mais sorrisos, mais projetos em comum, mais vida.
Há uns dias atrás, a minha amiga encontrou esse postal perdido no fundo de um armário.
Então ela percebeu que era lá que estava o seu amor. No fundo de um armário, perdido no fundo da cabeça dela. Ela tinha esquecido o amor. Tinha até esquecido que aquele postal já tem um dono, e que é o dever dela restituí-lo.
  • Parte II
Nos últimos dias tenho contado às minhas amigas o quanto preciso do amor de uma mulher amada. Digo-o na esperança de ganhar um beijinho, mas não. Pelo contrário, todas me respondem o que começo a desconfiar ser um código de uma seita feminina qualquer. Sem excepção, todas (até a minha mãe [!!]) responderam aos meus lamentos com Vais encontrar o amor quando menos esperares.
Considero que as mulheres, como um oráculo, têm resposta a todas as questões da vida. Só temos de saber interpretá-las. Inicialmente levei este ensinamento a sério. Não esperei nada. Como quem tem uma dor, tentei não pensar nela (nela dor, ou nela mulher da minha vida, não sei já que não pensei nisso). Tive fé que o amor viria e, sem ânsias, não o esperei. Desconfio que no dia em que me veio bater à porta eu não estivesse em casa.
Foi o mesmo que aconteceu à minha amiga e ao seu postal. O amor não se cruzou conosco.
Assim, enquanto lambia as minhas feridas, pensei melhor. Algo escapava. E foi aí que percebi o ensinamento oculto, que afinal sempre tinha estado lá perante os meus olhos mas que eu não vira. Quando menos esperares dizem elas. Qual é o contrário de esperar? É ir à procura.
Então o ensinamento que eu pensava que me dizia para estar desatentamente à espera de nada, como para passear descansadamente pela minha vida que o amor dobraria a minha esquina, afinal não. Afinal diz para eu esperar o menos possível. Para eu não esperar.
Foram estas duas histórias que me levaram a mudar o rumo da minha vida.
Obrigado bravas meninas.

sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Poema XII

Tudo à volta são suicídios lentos.

Meticulosas degradações

subtrações

experiências

na era em que a única arte é a da morte.



Quando um dia sobre os despojos da guerra

só eu e tu restarmos

Quando já não houverem coisas

só meias coisas, escombros



Quando só restarem mulheres enlouquecidas

e homens gastos, ratos

Quando todos os outros falharam

endoideceram

ou se fecharam em caixas e casas,



Aí nos encontraremos, sobreviventes porque inteiros,

eu e tu, mulher sã.

Simples mãe da dignidade, que não pensa, vive

e não destruiu o seu sorriso.



Tratarei de te manter assim,

pois é o meu ofício.

Não há loucura nas flores, nem nas lagoas, nem nos vestidos

de noiva.



Sozinhos eternamente, acompanhados por sermos únicos,

o mundo será nosso

e construiremos cabanas

com trapos

a que outros chamaram bandeiras.

quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Bons I

"- Qual é a sua política?"

"- A minha política é ser amigo de todos."

- Rui Nabeiro

Uma das pessoas mais exemplares à face da terra.

Olhar as estrelas

Fala-se em olhar as estrelas. Mas poucos realmente olham as estrelas.
Quem olha as estrelas? A maioria sabe que elas lá estão. Não precisa de olhar. Essas são as pessoas para quem saber que uma coisa existe é saber tudo.
É como olhar o fogo. Uma vez conheci uma rapariga que tinha o milagre do fogo nos dedos.
Pegava numa pinha e num tronco duro de madeira e punha-os em cima um do outro e havia uma lareira. Eu e ela olhávamos o fogo. Viamos o fogo queimar, víamos as texturas do fogo, percebíamos que havia um lugar que era o fogo. E havia a madeira. E o fogo e a madeira juntos faziam a madeira desaparecer. O que fica no lugar da madeira? perguntava ela como se fosse criminosamente dona de um milagre.
Quando as pessoas que olham as estrelas olham para elas, vêem como que um pequeno carnaval, uma pequena festa de aldeira com fogo de artifício infinito sobre o vasto negro eterno, a acontecer a milhares de milhões de quilómetros lá em cima.
Já ali em cima de nós, a milhares de milhões de quilómetros. Quando eu olho as estrelas sinto a noite mais quente, e vejo com os meus próprios olhos outras galáxias. Poucas pessoas perdem tempo a olhar as outras galáxias. Essas são as pessoas realmente santas, para quem saber que elas existem basta. As pessoas com o milagre do olhar, olham.
Para elas, olhar é como pensar. Olhar é ser.
Essas pessoas quando olham para uma toalha de praia não vêem um rectângulo, vêem milhões de pontinhas de tecido suave e colorido juntas umas às outras, em muito complexas estruturas, que não é por isso que deixam de ser simples. Essas pessoas vêem numa toalha de praia toda a explicação das estruturas do mundo e percebem como complexidade e simplicidade podem ser sinónimos. Não chamam a isto filosofia.
Às pessoas que olham as estrelas, não é preciso deitar-se na praia para olhá-las, embora seja agradável. Basta-lhes uma janela, numa casa. Basta-lhes o céu.
Estas são pessoas que, como o Teddy, sabem que um braço não existe. Sabem que um braço é só um nome. Sabem que o braço está ligado ao ombro e o ombro ao peito, mas que são tudo uma só coisa. Onde acaba um braço?
Estas pessoas quando vêem madeira não vêem uma superfície, vêem paisagens. São pessoas para quem o tamanho não faz parte das coisas.
São pessoas que vêem os intervalos entre as coisas, e sabem que o nada não existe, só o tudo.
Normalmente são pessoas que dançam bem.
Sabem que a dança reside espaço entre os passos, e que os passos são só uma posição transitória para o corpo se poder mexer de uma posição para outra, que o completa a si mesmo.
Sempre que olho as estrelas lembro-me daquela noite de Verão, na Costa da Caparica quando tinha oito anos e anunciaram os extra-terrestres na televisão. Desde aí que sei instintivamente que o céu está vivo.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

É assim uma espécie de solidão absoluta, que não deve ser consfundida com tristeza. É triste, a solidão, mas não é a tristeza em si mesma. A Solidão é sentir que não há ninguém que queria estar comigo e perceber que também não há ninguém com quem queira estar. Mas que não quero estar sozinho. A solidão é querer estar com alguém que não existe. A solidão pode ser amansada com música da Joanna Newsom, ou com fotografias bonitas a preto e branco, mas não se vai embora. Podemos escrever sobre ela e não se vai embora. Pode ser temperada com mensgens de pessoas a acusarem-nos de não querermos estar com elas como se isso não fosse um direito nosso, mas isso não a torna mais gostosa. E o pior de tudo sobre a solidão é que nem sequer tem um twist final e quando escrevemos sobre ela, o texto parece completamente desprovido de objectivo dramático ou até de importância. Somos só mais um solitário que não consegue dar a volta por cima e vem lamentar-se para um blogue que ninguém lê... É isso que é triste na solidão.

sábado, 22 de Novembro de 2008

Charadas I

O Tiago Bettencourt fez à música portuguesa o que o David Fonseca fez à música inglesa.

Poema XI

Há um tempo que não acaba.
Está dentro de nós
e é uma porta de entrada,
onde só a dignidade passa
quando se torna a carapaça
contra a nossa intensa idade.
Contra a explosão dos tempos,
o temporal,
a tempestade.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Poema X

Lamentos corridos
Restam os trilhos
que levam à virtude.

O pré-fabricado

Ele mandou-a calar. Amava-a e não suportava ver lixo sair da boca dela. Só que ele não tinha estudado artes, e o que tomou por lixo era na verdade um ready-made. Ela ficou muito ofendida. Hoje é namorada de um reputado crítico de arte.

domingo, 16 de Novembro de 2008

Poema IX

Não fumes.
Vinga antes sobre mim esse desejo
de um prazer que te mate
pouco a pouco.

Guarda esse fôlego.
Se vais morrer nos meus braços
deixa-me ser eu a matar-te
ensinando-te uma nova maneira de respirar.

Une-te a mim para sempre.
Eu sei que assusta porque só a morte é eterna
mas se te casares comigo um bocadinho todos os dias
prometo que morreremos juntos sem darmos conta.

quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

A moral

Este post é para ser lido ao som desta canção. E tem de estar a tocar muito alto.

- Já a pôs a tocar? - pode continuar:

É para ser ouvida ao som desta canção, porque foi escrita ao som desta canção.
Nada de original portanto, como tudo o resto neste banal - e ao qual uma amiga minha já chamou egocêntrico - blogue. Pois seja já que não há nada a perder.

Foi escrita ao som do

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

do contrabaixo. (Claro que eu a ouvi em disco, pois ainda compro discos).

Hoje estou a usar um perfume que gosto muito. É o truque das pessoas sozinhas, que procuram fazer-se acompanhar da melhor solidão possível. A minha cheira bem, e soa bem.

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

Hoje estava no banho e consegui finalmente pôr por palavras uma ideia que já tinha à muito tempo. Lembrei-me dela porque na novela que dá há hora do almoço a duquesa portuguesa disse aos seus filhos nascidos no Brasil que O amor é uma coisa passageira, as coisas que ficam para sempre são a família e a moral.

Não podia estar mais de acordo. É por isso que se deve tentar construir uma família perfeita. Mas o interessante é que, mais que a família, a moral vem sempre carregada de um peso negativo, diz-se moral e arrepiam-se os cabelos atrás do pescoço. Diz-se moral e aperta-se-nos o coração. E é bom que assim seja.

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

É bom que assim seja porque - e isto foi o que eu consegui pôr por palavras hoje - a moral é boa, o que é mau é obrigar alguém a segui-la. É mau porque é imoral. A moral tem de ser uma coisa que decidimos voluntariamente seguir. Claro, podem dar-nos uma ajuda. Mas obrigar não. E porquê? O Mestre do Tiro com Arco em O Zen e Arte do Tiro com Arco, já aqui citado uma vez noutro contexto, explica muito bem porquê, quando diz ao seu aluno para esticar um arco muito pesado sem fazer força nos braços, só nas mãos, e não lhe diz como. Passa uma semana e o aluno continua a tentar sem sucesso. Passam duas semanas e três e meses, e o aluno é levado ao desespero e à convicção de que é impossível ser virtuoso no tiro com arco. Vê a monstruosidade do seu falhanço. Então chega ao pé do mestre e implora-lhe uma vez mais Explique-me como mestre. E então o mestre explica, e ele consegue. E é aí que o aluno pergunta Porque me levou a este desespero mestre, porque me fez perder todo este tempo e chegar a tamanha frustração? Ao que o mestre respondeu Para que saibas o valor deste ensinamento.

É o mesmo com a moral. Pode-se explicar, mas não obrigar. Cada um tem de fazer muita merda para depois perceber qual é o caminho virtuoso.

Quando tiver filhos - muitos - vou ensinar-lhes a moral, sem os obrigar a segui-la.

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

TUM-TUM; TAM TAM, TUM...

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Sobre o saber ocupar lugar

Os profetas não sabiam só o que ninguém sabia.

Também não sabiam aquilo que todos sabiam.

Foi por isso que foram profetas.

Saber ocupa lugar

Há coisas que é preciso não saber para saber outras. Diz-se que o saber não ocupa lugar, mas não é verdade.

Há saberes que anulam outros. Há saberes que se anulam uns aos outros. Certos saberes ocupam o lugar de saberes opostos a eles. Há quem não perceba isto. Não é complicado. Por exemplo (é sempre mais fácil com um exemplo), é preciso nunca ter "vivido" o que é ter pai e mãe para compreender o que é ser órfão.

Para perceber a vida de outra pessoa, não basta conhecer os elementos que levaram a essa vida. É preciso também ignorar os nossos. E é impossível. Quando falo em compreender, falo em sentir como verdade aquilo que o outro sente como verdade. É isso que é compreender o outro. É compreender tudo nele.

Ora isso é impossível. E era isso que queria dizer às pessoas que tiram conclusões sobre os outros partindo do princípio que os compreendem só porque sabem tudo sobre eles.

Saber tudo sobre alguém, não é saber tudo, na medida em que não se sabe só isso. Na medida em que sabemos algo sobre nós.

Saber tudo é impossível. Para saber umas coisas, é preciso não saber outras. E a cada coisa que aprendemos, estamos a destruir outra que sabíamos, que era o não sabermos. Cada pessoa devia ter muito cuidado com aquilo que aprende.

Partamos do princípio que é impossível alguém compreender completamente outra pessoa e talvez nos consigamos começar a compreender um pouco melhor. Prestar mais atenção ao que podemos, por termos noção do que não podemos.

domingo, 9 de Novembro de 2008

Poema VIII

Mulher
Meu gracioso potente porte negro
Que vives a vida como a proa de um navio
Que me beijas a boca como uma mãe que mede a febre
e como uma filhinha que pede beijos antes de adormecer
Os teus lábios reanimam-me numa beira-mar só nossa
onde o único alimento é o sal dos teus cabelos.
Ao meu colo, envolta no teu xaile preto
Fazes lágrimas para me explicares a grandeza do mar

sábado, 8 de Novembro de 2008

A arrogância do artista

Recorrentemente encontro pessoas que se surpreendem por os grandes artistas serem arrogantes. Oiço pessoas dizerem que "até gostariam" de tal artista, não fosse tal artista "ser arrogante". Como quem diz Até fazia o esforço de gostar. Nunca percebi estas pessoas.

Tal grande artista não é humilde? Mas já não tinha sido humilde quando decidiu ser grande. Não foi humilde quando decidiu extravasar todos os seus limites e aspirou ser mais de si mesmo do que ele próprio pensava poder ser. Os grandes não foram talhados para a humildade. Por isso é que são grandes. São pessoas que não couberam em si - o que há de mais arrogante que isso? O ponto de partida deles já é a arrogância, não é um ponto de chegada.

Arrogância não é o mesmo que má educação. Arrogância é simplesmente alguém que não aceita ser do tamanho que é. Nem é não aceitar ser pequeno. É não aceitar ser normal. Isso sim, é arrogância. Não é um defeito, também não é uma qualidade. É uma característica. Um aspecto com que alguns cresceram.

Ser artista é ser arrogante, então ser um grande artista só pode ser o cúmulo da arrogância. Fazer uma obra e achar que os outros vão estar interessados? Ou o caso contrário, que ainda é pior, que é fazer uma obra só para si?? Isso além de arrogância já é egocentrismo. Não há por onde escapar, um artista tem de ser arrogante. E não há nenhum mal nisso. Depois de ser arrogante, pode ser ao mesmo tempo simpático, amável, generoso, educado, cortês, delicado - tudo isso são características que um artista, como qualquer boa pessoa, pode e deve cultivar. Mas a humildade não. Só se for perante Deus e, mesmo assim, depende o que cada um entende por Deus. Talvez assim tenha chegado a uma definição de Deus que sinto verdadeira. Deus: a única coisa perante a qual um artista deve ser humilde.

Os grandes artistas são alguém que tem a coragem de olhar nos olhos. Olhar nos olhos o destino, olhar nos olhos os outros, acima de tudo, olhar-se nos olhos a si próprio. Há mais arrogância que isso? Na Coreia (do Norte e do Sul) é má educação olhar nos olhos uma pessoa com quem não sejamos íntimos. É verdade que os artistas com as suas obras nos fazem sentir íntimos deles. Mas isso é porque são capazes de nos dar a ilusão de que os conhecemos, porque na verdade são eles que nos conhecem a nós, e bem demais. Os artistas conhecem-nos melhor que nós próprios nos conhecemos.

Olhar nos olhos um artista é que é arrogância. Porque enquanto que eles nos conhecem melhor que nós a nós próprios, nós nem um miligrama deles conseguimos compreender. E se achamos que sim ainda pior. Ser um grande artista é poder olhar nos olhos alguém mas não o fazer a não ser através da alma. Quando olhamos nos olhos um artista e exigimos que não sejam arrogantes, somos nós que o estamos a ser, por acharmos que somos dignos de pedir o que quer que seja. Pedir? Nós, que não lhes demos nada, ainda lhes exigimos que não sejam arrogantes? Ainda lhes pedimos coisas? Nós é que não merecemos a sua Arte. Não admira que não olhem para nós. Não admira que sejam arrogantes connosco. Quando o mar de críticos só sabe falar do carácter deles quando eles acabam de por uma posta da sua alma ali em exposição para todos verem, não me surpreende que não tenham paciência para os seres pequeninos que lhes apontam o dedo.

E assim concluo que afinal os artistas não são arrogantes. Comparados com o público até são bastante humildes.

Nova definição de artista: ser humilde sendo arrogante.

Nunca confio num artista que não seja assim.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Poema VII

Fazes esculturas no chá
de não lhe tocares

Aumentas-me a sede
ao respirares

Quando deixas o calor entrar
nos espaços entre as coisas

Constróis na água quente
a beleza dos não lugares


Abraças o passar do tempo
sem nada forçares

Deixas nascer o alimento
fecundado por olhares

E quando nessa flor
acordas o paladar

Libertas nele a cor
do meu sangue a escaldar

Poema VI

Se cada gargalhada

for acabada por ti

e cada lágrima

como aquela que vi

Ao cruzarmos as nossas vidas

até agora mal vividas

talvez conseguíssemos nunca terminar

de juntos celebrar

uma abraço a cada choque

um casamento a cada toque

e seguir a nossa sorte

sem medo nem agonias

terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Poema V

Não querias que eu dissesse
aquelas coisas que te faziam corar.

Mas como podia parar
se a cada palavra dita
fazias bonita
a tua beleza aumentar?

Dizias que era especial o que eu fazia
mas estavas enganada.

O que era especial era o que acontecia
quando o que eu fazia te encontrava.

Poema IV

Quando te conheci
Não sonhei que viesses a ser para mim
Metade da toda que és hoje

E se a tua beleza
Não cabe na minha poesia
É para mim um mistério
Como tu cabes em ti

Os olhos

Há uns dias cruzei-me na rua com um amigo. Parámos e falámos de coisas intelectuais e interessantes. Falámos de livros e ele apresentou-me um amigo seu. Esta história começa quando o amigo está a falar e eu reparo nos olhos dele.

Emprenhados pelo Sol laranja de fim de tarde, eram da cor do mel brilhante, como âmbar, mas mais bonitos. Eram intensos e eram elegantes. Fiquei a ouvi-lo mas a certa altura foi como se a voz dele se separasse do corpo e, subitamente, ficasse silêncio, enquanto na minha cabeça fazia um zoom de 46 vezes, 3000 mega-pixels aos olhos dele.

Dei por mim a pensar que aqueles olhos tinham algo de fulminante. Nunca senti atração por um rapaz, mas por aqueles olhos, sim, naqueles olhos eu podia ser feliz. Fiz o zoom out - 46 vezes e 3000 mega-pixels para trás - e vi-me debruçado sobre aqueles olhos, que agora pertenciam a uma moça. Linda de morrer, toda a sua beleza correspondia à daqueles olhos. Como diz o John Cusack no Hi Fidelity, ela compatia a cem por cento com os meus sentidos. E foi aí que percebi pela primeira vez na vida, que os olhos são a única parte do corpo humano que, pelo menos à vista, é igual entre homens e mulheres. E vi a mulher linda que aquele rapaz podia ter sido, no lugar do barbudo que ali estava. Pensei no que poderia ter acontecido entre nós se ele tivesse nascido mulher. E foi assim que nos olhos de um rapaz eu vi a mulher dos meus sonhos.

E percebi que não há nada de homossexual em apreciar os olhos de outros rapazes. Os olhos não têm género, e talvez sejam até a única forma de um rapaz heterossexual ou de uma lésbica apreciarem sexualmente um rapaz .

(a frase Os olhos dela não fazem o meu génro acaba de perder qualquer sentido)

sábado, 1 de Novembro de 2008

Poema III

Quando me abraçavas

Sentia que pedias perdão por não seres minha mulher.

Quando me abraçavas

Sentia a tua alma quente nas tuas mãos frias

Quando me abraçavas

Sentia que querias ser mais que uma qualquer mas não sabias

Quando me abraçavas

Sentia que dizias que ali eras mais que uma despedida

Quando me abraçavas

Sentia que já então esculpias a nossa promessa de vida

Quando me abraçavas

Sentia que juravas não querer esquecer

Quando me abraçavas

Sentia que não era só o frio da tua cidade que estavas a aquecer

Quando me abraçavas

Sentia que fugias do beijo que me querias dar

Quando me abraçavas

Sentia que pedias que não te deixasse escapar

Quando me abraçavas

Sentia que nos casavas

Quando me abraçavas

Sentia que nos abraçavas

Quando me abraçavas

Poema II

Mulher robusta

Que encontras nos próprios passos

O caminho da beleza



Mini poema sobre a mulher dos meus sonhos.

Poema I

Eu tinha encontrado em ti

Aquilo que via quando olhava para dentro

Mas que nunca seria capaz de pôr cá fora

E tu ensinaste-me que sim

E chamámos-lhe Ana.



Poema para a minha futura mulher que não sei quem virá a ser, sobre a nossa filha que ainda não nasceu.

sábado, 25 de Outubro de 2008

Pequenos pedaços de mim

Tive uma ex-namorada. Devia dizer que a tive ou que a tenho? Será que as ex-namoradas também se têm, no presente, como resultado do que já foi? Eu sinto que sim, pelo menos. Tive-a de um maneira que não posso voltar a não a ter. Foi minha - e eu dela - de uma forma que faz que ela esteja para sempre comigo, mesmo que eu não queira (e não queria mesmo, gostava de ser capaz de destilar todo o meu sistema, com uma daquelas máquinas que há para purificar o sangue só que para a alma. Curiosamente, a Vida parece ser uma máquina dessas). Houve uma ex-namorada. Não, houve também não está bem.

Não posso julgar o que passou com os tempos verbais de hoje. Têm de ser os tempos verbais justos, do tempo dela. Sem a ter tido, não seria hoje quem sou, não teria aprendido com a experiencia de a ter, as coisas que eu antes dela não tinha e que tenho já sem a ter. Ela pode ter feito mais estragos que coisas boas, mas foi assim como um desbastar do calhau antes de começar a escultura, e alguém tem de fazer esse trabalho. Foi ela. Prestemos-lhe essa honra. Aprendi muito com ela. Tenho uma ex-namorada.

Parece que já não namoramos há muito tempo. De facto já passou algum tempo. Mas ela ainda tem coisas minhas na casa dela. Com que coragem é que eu lhas posso pedir (ou de que serve pedir) se eu sei que ela as tem porque quer ficar com um bocado de mim para sempre?

Eu sei que ela nunca me vai poder devolver aquelas lágrimas que me tirou, porque também não as tem. Lágrimas são sempre a fundo perdido.

Mas será que eu sou mesmo fútil ao ponto de ser capaz de lhe pedir que me devolva os meus livros, discos e filmes? São só coisas, mas sinto que se lhas tirar é como se lhe tirasse uma costela. Ela quer tê-las como se fossem um relicário de mim, eu sei. Só que eu não quero os meus livros de volta para apagar o passado. Quero-os só porque são meus, e o passado está dentro da gente, os livros são para ser lidos e aposto que ela não os lê. Mas será que são realmente meus? Talvez sejam algo que perdi quando, ao pertencemos um ao outro, na mistura de um com o outro e na separação e reconstrução de novo dos dois sozinhos, em tigelas separadas depois da receita estar pronta. Será que os meus livros são como aqueles tesouros que se perdem nos naufrágios?

Em todo o caso, ganhei e perdi muito mais com essa relação que DVDs. Perdi a minha ingenuidade (levou uns socos valentes) e a minha inocência não ficou intacta (está hoje suspensa num arame de trapezista que lhe dá um aspeto muito mais poético). Em compensação, ganhei um armamento de Rambo para resistir às agressões emocionais. Hoje mato víboras com passos de dança e afasto demónios com expressões solenes no Bairro Alto.

É por isso que me parece de uma grande futilidade estar a falar de livros, discos com música e com filmes a esta hora. São o menos importante de tudo isto. E em todo o caso não é tão fútil como se falasse no dinheiro que gastei com ela. Porque o dinheiro não existe, é muito feio misturar dinheiro e amor nas mesmas frases. São dois assuntos que não se podem misturar. Um desrói o outro.

Estes objetos sagrados não são como dinheiro. São pedaços de mim que ela tem em seu poder e que existem. Têm uma história.

Eu nunca lhos dei. Mas dei-me a mim e se já foi muito feio pedir-me de volta, porque quem dá não tira. Não posso voltar a fazê-lo. Em todo o caso, há mais pedaços de mim aí espalhados pelo mundo (alguns bem espalhados, aliás, alguns que quando os dei foi para nunca os ter de volta e assim é muito bonito, assim não há melhor coisa na vida). Não quero recolher tudo o que é meu e anda aí no mundo. É bom espalharmo-nos. Se pudesse, deixava um livro a cada pessoa que estimo a cada encontro. Adoro dar prendas. É sempre bom aprendermos a libertarmo-nos de nós próprios.

Exploração divina

Vi num programa de televisão que alguns tipos de seguros têm uma cláusula em letras pequeninas que diz "Não cobre actos de Deus".

Bolas, realmente não há direito. Por actos de deus, referem-se a tufões que possam cair em cima da nossa casa, ou a tremores de terra. Que visão do mundo esta em que só os desastres naturais é que são Deus? Fico entristecido quando vejo que há pessoas - isto é, civilizações inteiras (porque para compreender determinada civilização, não há melhor que olhar para a papelada das suas seguradoras) - dizia eu - civilizações para quem Deus existe, mas não é mais que um requintado anarquista fazedor de maremotos.

Hoje, Deus não está morto, mas já não é o Velhinho de Barbas Brancas no Céu, é o Velho de Barbas Brancas à porta do Metro na estação da Baixa-Chiado, de muletas a gritar com um braço no ar Panfleto Anarquista! (que vi uma vez há cerca de cinco anos atrás e nunca mais).

Ao mesmo tempo, fico encantado com o pudor religioso com que as seguradoras se recusam a deixar o cliente fazer dinheiro à custa do senhor. Parece-me muito nobre. Apostar a sorte das pessoas sim, mas é melhor não fazer apostas com Nosso Senhor, que nunca se sabe, ele tem vantagem, e pode entrar no jogo à séria. Exato, deve ser isso então. Não fosse deus por-se para aí a fazer seguros, a rebentar com os bens e a lixar as seguradoras. Estes tipos são espertos.

Ao mesmo tempo, será que devo respeitar um negócio cuja prosperidade depende de deixar Deus de fora?

O regresso ou O Napoleão dos blogues

Como se isto fosse um livro do nosso saudoso Machado de Assis, devo afirmar que o post anterior não era sério.

É certo que a irritação ainda cá está, e me faz franzir o sobrolho desconfiado das minhas próprias ideias.

Mas como podia eu acabar com esta tribuna estilo folhetim virtual, por causa de uma irritação, quando há tanta coisa para dizer, por dizer, tanta coisa ainda para ser pensada, tanta coisa a acontecer e por acontecer e quando, tenho de admitir, me apetece tanto escrever? Acabar com o que já se começou por uma irritação parece-me agora de uma meninice inqualificável. Era como se o Napoleão tivesse parado a invasão porque lhe doía a barriga, ou porque se viu ao espelho e se achou feio (ele era feio). Temos que ser fortes. Este blogue tem de ser como a invasão do Napoleão. Não estou por menos.

Onde iria eu escrever? No meu diário? Também. Mas que piada tem um diário quando se pode ter um lugar onde quando se escreve se é posto à prova por todos aqueles que estão interessados em fazê-lo? É um valente antídoto para a auto-complacência. Enquanto no meu diário posso ser choramingas, aqui tenho de me mostrar forte. Enquanto que no diário posso ser pseudo-poético, aqui, a ser alguma coisa, terá sempre que ser o mais poético e o menos pseudo (é difícil, eu sou muito pseudo).

Mas o mais importante é a verdade. É ela que tem de ser protegida. E sozinho não consigo. Agradeço a todos os que estão comigo. Só o facto de lerem isto, faz mais por Ela (pela Verdade) do que poderíamos pensar. Mas isso não é mérito meu.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Ilusão

Está-me a irritar a minha mania de que sei tudo. Vou parar por uns tempos até não saber nada.

Saber sofrer

Talvez a Selecção Portuguesa de futebol seja exemplo claro da maneira de pensar moderna dos portugueses: Não arrisca sofrer, e por isso não marca.

Os portugueses não querem sofrer, mas é preciso apostar a vitória para a poder ter. Nunca pode marcar quem não está disposto a sofrer. E existe sofrimento maior que viver uma vida de 0-0?

Mesmo perdendo no final - porque perdemos sempre - a vida é sempre preferível se se tiver marcado pelo menos uma vez.

Os sentimentos dos outros

Numa conversa com uma amiga a quem vou chamar Bruna, falámos sobre mulheres e homens. Tendo sempre em conta que tudo o que dizíamos eram generalizações, dissemos muitas coisas. Ela disse-me que eu achar que os homens tinham a obrigação de ser fortes era como dizer que as mulheres eram fracas. Eu disse que não, que cada género tinha as suas qualidades e defeitos, para cada talento uma fraqueza, como por exemplo, os homens serem tendencialmente fortes mas insensíveis aos sentimentos dos outros.

A Bruna não disse, mas eu tive a sensação que ficou no ar a ideia de que ser insensível também era uma vantagem, como se fosse um luxo que o homem tem, o de poder ser bruto.

Não sinto que seja. Os homens insensíveis aos sentimentos que não são seus, sofrem quando perdem aqueles de quem gostam por não saberem fazê-los felizes. Quando não conseguem exprimir aquilo que sentem. Quando sentem a besta incompreendida que são. Podem não sentir os sofrimentos dos outros, mas sentem bem os seus. Sofrem muito essa incapacidade de serem bons. Garanto-vos que é uma das nossas maiores tragédias.

domingo, 19 de Outubro de 2008

Intimidade

Tenho uma amiga, que não interessa quem é, que está a tentar acabar com a antiga tradição de cumprimentar e despedir de uma pessoa com dois beijos no rosto.

O principal argumento dela, é que os beijos são uma intimidade excessiva para se ter com alguém que, muitas vezes, mal conhecemos. Eu tomo a liberdade de acrescentar outro, que descobri com a ajuda preciosa de outra amiga, a Madalena: banalizar o ato de dar beijos passando a usá-los como um cumprimento, destruiu todo o valor do beijo enquanto acção, tendo feito com que passasse a importar, não se se beija, mas onde se beija. É por isso que uma namorada ou namorado pode sentir que não é amado quando o seu amor não o beijar na boca, mas só na face. Que sociedade podre é esta em que uma pessoa pode pensar que não é amada porque lhe dão um beijo? Se passássemos a dar beijos na cara só quando sentíamos uma vontade que não conseguíamos controlar, muito mais valor teria um beijo dado a alguém de quem se gosta, ou a quem se quer dar carinho, seja entre amigos ou casais.

A minha amiga tem bons argumentos a seu favor. Mas a minha amiga propõe o aperto de mão europeu como alternativa ao beijo facial. Aquilo com que ela não contava era com a intimidade brutal que é para mim enquanto rapaz tocar as mãos de uma rapariga. Com o beijo banalizado, as mãos eram santas. As mãos eram o primeiro portal da virgindade do corpo.

Um toque na mão de uma mulher por quem me sinto atraído é mil vezes mais sensual que um rápido e fugaz beijo na face, que - mesmo que tentemos saborear e fazer com que dure o máximo possível - isso nunca passa de um esforço vão, pois conforme os nossos lábios lá estão, já não estão, e nunca dá para saborear. É tão rápido que nem dá tempo para pensar. Eu já tentei de tudo. Impulsionar a cabeça com mais força, para a frente, para melhor sentir a face desejada, já tentei friccionar os lábios contra a bochecha doce, ou mesmo mexê-los, já tentei até inspirar profundamente quando o meu nariz se aproximava dos cabelos de uma mulher que eu desejava para sentir o máximo dela que pudesse. Não consegui com isto mais que fazer com que pensassem que eu era um psicopata. Fui ridículo.

Mas com um aperto de mão tudo muda. O aperto de mão é um tocar, um enlaçar, um apertar, um sentir a pele lisa da outra mão com as nossas mãos - especialmente porque as mulheres não sabem dar apertos de mão como os homens - talvez por falta de treino - e concentram o fundamental do aperto de mão nos dedos e não na palma da mão (como o homem), o que faz com que seja um gesto de uma tal ternura encantatória, de uma subtileza e de uma sensualidade real sentir a mão da mulher, que o beijo bem pode ser enterrado.

Lembro-me das mulheres estrangeiras que já cumprimentei com aperto de mão e de como, as que eram giras, me fizeram tremer ao sentir aquela palma da mão, durante aquele segundo em que, como dois namorados, demos as mãos. Sou levado a concluir que o aperto de mão feminino é uma forma de sedução muito mais eficaz e precisa que o beijo na face.

E é agora que percebo que, esperta como é, a minha amiga sabe isto tudo. Por bluff diz que quer acabar com os beijos por causa da intimidade, mas isso é só uma estratégia para seduzir melhor os rapazes e ainda passar por santinha. Eu aqui a pensar que estou a fazer um post muito inteligente e ela já sabia isto tudo. Miúda, tu és de mais.

domingo, 12 de Outubro de 2008

Cumprir

Seria de pensar que prometer fosse uma coisa fácil. No contemporâneo, em que desapareceu o pudor que fazia com que prometer significasse comprometer, seria de pensar que prometer fosse canja. Que toda a gente pudesse prometer e que o difícil fosse cumprir. Mas não. Porque toda a gente promete e ninguém cumpre, tornou-se dificílimo prometer alguma coisa e fazer com que acreditarem em nós. É por isso que já nem há sequer a coragem de prometer seja o que for. É por isso, por exemplo, que ninguém se casa.

Mas, das profundezas da Geração Descrente, houve quem tivesse a coragem de prometer.

Por entre o mar dos desiludidos, Os Pontos Negros prometeram. Os Golpes prometeram. O Tiago Guillul e a sua banda já tinham prometido. E com eles prometemos nós, todos aqueles que espalhámos a mensagem e acreditámos. E ontem, tornando o MusicBox a CaixaDeMúsica que até lá nunca fora, eles tiveram a ousadia de cumprir. E nós com eles.

A bandeira que eles hastearam ontem - com a ajuda de outros, que com nobreza de caráter respondem apenas aos nomes Amor Fúria ou FlorCaveira - hastearam-na para Sempre. Na História. Na História porque foi vivida no presente. Ontem aconteceu no MusicBox a melhor noite de rock português em que eu já estive presente. Acredito mesmo, a melhor noite de rock português que qualquer um dos que lá esteve presenciou até hoje, dada a sua idade.

Só é História aquilo que é vivido. Só conta aquilo que é verdade. Ontem o rock português foi verdade.

Verdade para quem? Para aqueles, que novos de espírito, ainda souberam acreditar.

Há duas formas de acreditar. Uma, envolve a fé. A outra, a razão. A que envolve a fé, consiste em acreditar naquilo que não se vê, só se sente. Naquilo que se sabe que é possível - é, no presente, apesar de só ir acontecer no futuro. Os que acreditaram assim, tiveram a oportunidade de estar lá no momento em que o futuro se tornou presente. E isso chama-se viver.
A outra forma de acreditar, que envolve a razão, consiste em ler textos como este, em ler as revistas, em ouvir contar a noite magnífica que aconteceu ontem e que uns eleitos presenciaram, e suspirar Acredito que tenha sido bom... Esta forma de acreditar fica para todos os que não estiveram ontem no MusicBox.

Quem deixou ontem o MusicBox a abarrotar era, de facto, novo. Novo de idade. Uma grande percentagem do público era mais novo que eu (e eu sou novo). Sei que a noite de ontem os mudará para sempre. A geração que aclamará Os Pontos Negros, Os Golpes, o Tiago Guillul, o Samuel Úria e todos os outros é a geração que hoje tem menos de vinte e dois anos.

A minha geração - a dos vinte e dois anos para cima - nem vê-la. Convidei trinta amigos, veio um. Mas não foram só os meus amigos que faltram, foi uma geração inteira. Não há nada que me alivie a raiva perante esta gente que, cansada, triste, precocemente velha, não tem forças para realmente viver o seu tempo (quanto mais algum dia aspirar a viver o passado ou o futuro - sim, porque é preciso dignidade para viver o passado e o futuro). A geração que deixar passar ao lado - e eu ainda tenho fé que não vai deixar - bandas como Os Pontos Negros, Os Golpes ou o Tiago Guillul, é uma geração merecedora do grito de Almada Negreiros através da História: 

Abaixo a Geração!

Quem me dera ver-me livre desta geração que faz o seu Tempo ser de Não Glória e só está preocupada com porcarias. A geração que nem promete, nem cumpre.

O melhor refrão dos nossos tempos é para ela.

Felizmente que a nova geração está já aí.

sábado, 11 de Outubro de 2008

Os Ricos de Espírito

Ia a conduzir nas ruas da cidade, no meu carro preto. O teto estava aberto e deixava entrar a brisa da metrópole. O meu carro é baixo e é fantástico conduzi-lo. Parece que andamos colados ao chão, seja na auto-estrada seja na cidade. Desta vez estava na cidade. O rádio estava ligado. A estação era a Radar.

Então lá vem o tempo de antena do senhor Zé Pedro, o famoso guitarrista solo e ex-heroinómano dos Xutos & Pontapés, isto é, o Keith Richards português. Na edição de hoje do seu programa Zé Pedro Rock & Roll fez um bonito discurso. Defendeu as bandas portuguesas de música popular rock. Disse como era importante prestarmos atenção à nossa música, como ela era importante e tinha um lugar precioso a nossa cultura, como não devíamos sempre compará-la com a estrangeira mas julgá-la pelo que vale. E depois, apresentou a sua proposta do dia, em defesa da música portuguesa, como ele bem a defende. Apresentou uns tais que dão pelo nome de X-Wife.

Em primeiro lugar, já ouvi X-Wife no programa do Zé Pedro praí umas quinze vezes. Em segundo, os X-Wife não fazem música portuguesa. Os X-Wife são portugueses. Mas a música que fazem é anglo-saxónica. Promover os X-Wife não é promover a música portuguesa, é promover que os portugueses não façam música portuguesa e façam ainda mais música anglo-saxónica. Promover os X-Wife é promover a destruição da música portuguesa.

Como é que se pode dizer que é portuguesa uma música da qual eu, como português, não consigo perceber uma só palavra da letra porque, além de ser em inglês e o sotaque dele ser impossível, ele cantar de forma a eu não perceber nada?

Os X-Wife são uma boa banda. Só cometem um gravíssimo erro artístico. Cantam fora da cultura. Ao cantarem em inglês, os X-Wife colocaram-se por vontade própria fora da cultura lusófona. Mas enganam-se aqueles que pensam que eles se integraram na cultura anglo-saxónica. Porque eles queriam isso, mas não conseguem. Para um falante nativo de inglês, os X-Wife não são mais que uns nativos de um povo autóctone, que ainda não aprendeu bem a língua do império. São assim uma espécie de povo exótico, que os fará rir dado o esforço que faz por se fazer compreender.

Ser poliglota é bom. É ótimo. É excelente. Mas abdicar da própria cultura é um erro. Porque empobrece quem o faz. Porque quem o faz, ou o faz inconscientemente, porque já vive noutra cultura, porque a sua cultura de origem já não lhe diz nada, ou se o faz por moda, é apenas um pobre de espírito. Pobre de espírito no sentido mais literal que esta expressão pode ter, na medida em que a nossa cultura faz parte do nosso Ser.

Por muito que gostassem de ter nascido na inglaterra, os X-Wife não são ingleses. Ao terem nascido em Portugal, serão para sempre portugueses. Ao rejeitarem sê-lo, só ficam a perder.

O Zé Pedro admira-se como é que os X-Wife ainda não se afirmaram mais em Portugal. A resposta parece-me óbvia. Não se afirmaram aqui porque eles não gostam da sua cultura. Se não gostam da sua cultura, os portugueses também não gostam deles. Podem ser muito populares por entre a malta do bairro alto. Mas nunca serão na lusofonia. Será popular na sua cultura quem a souber abraçar e re-inventar, sempre dentro da tradição. Não há cultura sem tradição.

Se o Zé Pedro quer falar de cultura portuguesa, devia falar antes do concerto que vai haver este Sábado à noite - hoje - no MusicBox (que só nessa noite passará a chamar-se CaixaDeMúsica), em Lisboa, no Cais do Sodré, onde tocarão Os Golpes, Tiago Guillul e Os Pontos Negros, numa noite que passará a fazer parte da história da música popular portuguesa. Os Pontos Negros apresentarão o seu primeiro álbum de originais Magnífico Material Inútil, Os Golpes darão o seu primeiro concerto depois de atingida a sua maturidade enquanto banda e Tiago Guillul - o Midas português, que em tudo o que toca transforma em Pop - surgirá enquanto o justo mentor.

Se o Zé Pedro quisesse realmente defender a música popular portuguesa, promovia-a, em vez de defender os traidores da nação.

É mais português isto que X-Wife. Muito mais. Incrivelmente mais.

Vem aí a Crise IV

Se me perguntassem qual a solução para esta crise (ninguém me pergunta) a minha resposta seria:

A instauração de uma ditadura ecologista internacional.

A esquerda já teve as suas ditaduras. Fracassaram.
A direita também. Fracassaram.
É tempo de dar a oportunidade... aos verdes.

Sob o jugo da Internacional Ecologista, vai ser ver as grandes pradarias com milhões de pessoas a plantar árvores à lei do chicote. Rusgas para prender quem desperdiçasse energia. Nacionalização das empresas poluentes. Investimento de todos os meios económicos na construção de fontes de energia renováveis. Regulação da economia de forma a tornar cada país auto-suficiente em termos de produção.

Com isto no lugar das suásticas, das foices e dos martelos, parece que já oiço da minha janela as multidões na rua a gritar Viva a ditadura ecologista, viva o partido global ecologista, viva a nova ordem mundial.

Viva.

quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Vem aí a crise III

O maior de todos os sintomas de que a crise chegou é alguém achar que isto merece passar na televisão. Um efeito do photoshop, um mentecapto a abanar-se durante quatro minutos sem parar, uma voz alucinada. É o conceito de arte popular de hoje.

E pensar que arte popular já foi assim (e assim) e nos conseguia abanar sem se abanar.

Felizmente a crise vai por tudo no lugar.


Este post é dedicado a uma pessoa especial que vai saber quem é.

Viver para sempre (no presente)

Não sei. Talvez seja de mim. Talvez seja dos outros.

Sei que falo com as pessoas, conto-lhes coisas - e não estou a falar assim de coisas com muitos detalhes, ou de coisas em que as pessoas não estavam interessadas - estou a falar de conversas inteiras sobre um assunto.

Sei que, passados um mês, seis meses, uma semana - depende da pessoa - há pessoas com quem conversei que não se lembram de termos sequer falado de este ou aquele assunto! Pessoas que me deram a conhecer um livro ou um filme... e não se lembram disso. Pessoas a quem contei isto ou aquilo que era muito grave. Não se lembram... E não estou a falar de pessoas que, passado um pouco dizem eh, não me lembrava, tens razão. Não. Estou a falar de pessoas que não se conseguem lembrar.

É habitual esquecer-me se já contei tal coisa a tal pessoa. Mas a diferença é que, se me lembrarem, lembro-me!

Mas há pessoas que não.

Não tenho explicação para isto. Talvez as drogas. Mas nem todas as pessoas em quem estou a pensar tomam drogas. Talvez o mundo moderno, em que a quantidade de informação que passa por nós é imensa, não lhes permita armazenar tudo. Não sei.

O que sei é que isto traz grandes vantagens no campo da paixão. O maior inimigo da paixão era a habituação. Mas agora, com a nova e moderníssima amnésia, ninguém se lembra de nada, a habituação acabou! Estas pessoas nunca se fartarão das suas paixões. Isso fa-las-há eternas! Só acabarão quando a própria amnésia os fizer esquecer as próprias paixões. Mas até lá, estas pessoas ouvirão repetidamente as mesmas histórias uns dos outros, farão os mesmos passeios românticos repetidas vezes dizendo sempre as mesmas coisas, oferecendo sempre flores iguais e, com sorte, cada noite passada juntos será como a primeira! Com sorte, a estas pessoas, aquela curiosidade miudinha, aquela vergonha que nos revela quando pensamos que nos protege, nunca passará, impedindo para sempre que a relação amadureça!

E ainda dizem que as drogas não são boas para a sociedade.
Um - Acalmam as pessoas e impedem a luta de classes
Dois - Tornam as pessoas mais simples
Três - Não deixam que ninguém se torne demasiado esperto (quem não odeia intelectuais?)
Quatro - Permite diversão mesmo quando as vidas são infelizes
Cinco - Fazem com que a paixão não acabe...
... etc, etc.

O mundo moderno é maravilhoso. Se tivermos sorte, muita sorte, talvez esta falta de memória das experiências vividas alastre a todas as pessoas e chegue mesmo a deixar de existir o tempo. As pessoas não se lembrarão da infância ou do passado e será como se vivêssemos para sempre, e no presente. Como os animaizinhos! São tão queridos os animaizinhos!

Se tivermos muita muita sorte, talvez até a paixão dure para sempre e o amor acabe! Talvez nunca mais tenhamos de sofrer por amor!

quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Vem aí a crise II

Ontem, no dia em que a bolsa de São Paulo caiu 15%, pesquisei no Google "blosa de São Paulo cai". Por lapso (ou talvez não e o Freud tenha uma explicação para isto), escrevi blosa e não bolsa. Logo o Google me perguntou se eu não procurava antes Blusa de São Paulo Cai.

Temos inevitavelmente de ler nisto um sinal dos tempos. As pessoas andam à procura de blusas, quais bolsas? O mundo está é com falta de amor, não de bolsas. Façam cair as bolsas e as blusas! O povo quer amar-se.

Mas os portugueses estão bem preparados para a crise. Estão sim senhor. Ontem, o Ministro das Finanças de Portugal - Teixeira dos Santos - disse que os portugueses podem estar descansados porque caso haja uma recessão económica, as suas poupanças no banco não serão nunca ameaçadas.

Todos sabemos que, nos países realmente capitalistas, se houver recessão, nenhum governo tem dinheiro para restituir a todos os seus cidadãos as poupanças que tinham no banco. Excepto em Portugal. E porquê?

Porque nenhum português tem poupanças. Que poupanças? Onde é que no mundo inteiro há um português com poupanças? Os portugueses são um povo sério, um povo que faz mover a economia, um povo que consome. Poupar para quê? Aliás, poupar o quê? O dinheiro que não temos? Os portugueses consumiram e gastaram o dinheiro que não existia, mas o banco disse-nos que não havia problema. E assim sendo, está tudo bem.

Os portugueses estão bem preparados para a crise. Até porque nunca viveram de outra maneira. Crise? Que crise? Para os portugueses esta crise vai ser como ginjas. Crise... Só se formos todos viver para refugios nucleares subterrâneos é que passa a ser mais crise que agora. E só porque deixamos de poder ver o mar enquanto pensamos na vida, senão nem assim era crise. Há o Canal Benfica no refúgio?

É por isso que acho que os portugueses deviam ser destacados e enviados para todo o Mundo. Em pequenos grupos, de talvez cinco portugueses para cada aldeia do mundo, iríamos dar formação e aulas de como viver na crise. Todos os grupos seriam acompanhados de alguns assistentes brasileiros, talvez vinte, que, já bastante treinados por nós ao longo de uns séculos, ensinariam as pessoas do mundo inteiro os prazeres da vida - a cantar, a dançar, a cozinhar, a fazer amor - e por alguns angolanos e moçambicanos, talvez dez, que iriam ensinar aos povos do mundo o que é realmente divertir-se com poucos meios e até não poder mais e a como ter estilo com roupa barata.

E assim a lusofonia encontraria uma vez mais a sua função ancestral na caminhada cósmica e milenar da raça humana.

Já repararam como na nossa língua amar é quase igual a a mar? Como se significasse fazer-se ao mar? Melhor, como se significasse fazer-se mar? Fazer-se de novo em mar, de onde todos nascemos? Devolver-se ao mar, ao caos, no amor? Todos nascemos do mar e do amar dos nossos pais. Isto não é um acaso.

O que vais fazer agora? Vou a mar.

terça-feira, 7 de Outubro de 2008

Vem aí a crise I

Mas porquê? Porque vem aí a crise logo agora que eu tinha comprado umas calças de ganga novas e justinhas para exibir no Bairro Alto? Bolas pá...

Parece-me que a crise só acontece porque há falta de Amor no mundo. Ninguém deixava que a crise acontecesse se tivesse alguma coisa valiosa o suficiente porque lutar. E para proteger. Uma moça linda com olhos de índia para amar. É por isso que o sistema activa esta espécie de instinto suicida e se auto-destrói. Quando percebe que não se consegue sustentar emocionalmente. Dizem que os mercados não se estão a auto-regular. Eu não vejo melhor exemplo de auto-regulação que um sistema que percebe que não vale a pena tanto trabalho se não há ninguém em casa para nos afetar com os seus doces afetos.

Este sistema foi afetado por isso. É um pena. Eu gostava dele. O capitalismo tinha coisas incríveis. Vai ser incrível poder contar aos meus netos que vivi no tempo do capitalismo - como a minha mãe conta que viveu na Alemanha Comunista - e que, ao contrário do Comunismo, o Capitalismo tinha muitas coisas boas. Mas pronto, não se pode ter só uma parte. Uma forma traz sempre o seu conteúdo.

Talvez agora, obrigados a lutar para viver, os homens da minha geração se tornem mesmo homens e as mulheres mesmo mulheres, e se amem todos uns aos outros, quando só isso tivermos para nos fazer felizes. Não mais sofás aveludados, não mais o fetiche das roupas caras, não mais os carros velozes. Não mais o algodão doce. É uma pena, já disse. Mas talvez assim voltemos a amar. Talvez assim um abraço volte a valer um abraço. Talvez as pessoas voltem a dar beijos por gosto.

Ao contrário do que os analistas prevêem, acho que a natalidade vai subir com a crise. Pelo menos se depender de mim vai.

Sobre uma geração em festa

(ver posts anteriores)

Os trajes académicos até que são bonitos. Juro que os chego a achar bonitos. O mau não são os trajes, são mesmo as pessoas que lá vão dentro. Mais perigoso que um corpo mal intencionado, é que esteja numa farda bonita. Porque é que os regimes mais terríveis tinham sempre as melhores fardas? Porquê tanto esforço e preocupação? Talvez fosse preciso esconder as intenções.

Dão-me raiva as pessoas que criticam a tradição académica por acharem que os trajes são feios. Os trajes são a única coisa boa. Tudo o resto é que é assustador.

segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Sobre a alma e o amor

(ver posts anteriores)

Se o Amor nos leva a, através daqueles que amamos, nos encontrarmos a nós próprios, então sentir Amor leva-nos a sentir a Alma.

O que é a alma

Durante toda a minha vida não soube o que era a Alma. Achem-me ignorante os que souberem, porque eu era. Pensava A Alma não existe, a alma é uma coisa inventada pela igreja, só existe o corpo.

Pobre ignorância. Ontem li na parede da casa de uma pessoa, uma coisa que me fez perceber que esta não era a maneira certa de por a questão. Não se trata de se existe ou não. Sim, uma pessoa é o seu corpo. Mas a Alma é uma palavra e tem um significado que se refere a uma coisa.

Alma significa Sentimento de Nós Próprios.

Muitos podem discordar, argumentar, conversar ou esclarecer-me sobre isto. Mas em vinte e dois anos nunca tinha encontrado definição que me parecesse mais verdadeira.

A Alma sente-se. Como o Amor.

Amorosamente imaturos

Oiço dizer que Os rapazes bons já têm todos namorada. Que Não há raparigas fixes. Que ninguém Conhece ninguém de jeito. E é assim que vemos o Amor hoje.

Todos queremos amar. Mesmo quem não acredita no Amor, gostava de acreditar. Ninguém sabe explicar o que é o Amor, mas todos sabem quando o sentem. Ahh, então é isto o amor sentimos. Eu também não sei explicar o que é o Amor. Só há uma coisa, pequena, que descobri. O Amor não se encontra. Não basta procurar. O Amor acontece, mas acontece porque nós fazemos com que aconteça. Procurar tem de ser agir. Procurar ter de ser construir. Procura-construção.

A procura-construção dá trabalho e leva tempo. Mas esta forma de pensar é completamente alienigena à minha geração. Graças ao capitalismo, habituamo-nos a pensar e a viver fora do tempo. Viver fora do tempo é, por exemplo, não termos mais consciência que, para comer um bife, é preciso esperar o tempo que a vaca ou o porco levam a crescer, o tempo que levam a ser alimentados, para que finalmente os possamos comer. O mesmo é verdade para uma alface, ou para uma maçã. É verdade para tudo. Antigamente, quando éramos nós que produzíamos a nossa comida - nós ou o nosso vizinho com quem trocávamos galinhas por batatas - víamos as coisas crescer e sabíamos que tínhamos de investir na coisa para ela ser grande, boa e gostosa. Da mesma forma, tínhamos de ser nós a construir a nossa casa. Não bastava comprá-la. O mesmo para as famílias. Tinham de ser as pessoas a construí-las.

No capitalismo tudo é comprado. Temos de trabalhar, é certo, mas tudo pode ser comprado no momento. Ninguém pensa que está, neste instante, nalgum campo no Alentejo, a crescer a alface que vamos comer daqui a uns meses. Mas está. Perceber o tempo já é um grande passo.

Mas a minha geração tem outra deficiência. Além de não compreender o tempo, é ainda mais difícil para nós conseguir imaginar o esforço e o tempo e a dedicação necessárias para que as alfaces fiquem boas. Hoje as coisas só passam a existir já prontas. A vida é um super-mercado. Compramos a nossa roupa, a nossa personalidade, os nossos gostos. Consumimos. Queremos, e temos, tudo na hora. Sem esforço.

Mas as pessoas trabalham! dir-se-á. A minha geração não. Não gostamos. Não é bem o nosso tipo de coisa. Ou talvez não tenhamos jeito. A minha geração prefere depender dos pais. Isso sim, é bom. E é por isso que a minha geração não aprendeu a tirar prazer do trabalho. Só nos dá prazer o que implicar estar parado, descansado, relaxado. É um estilo de vida. Quando se passa o dia-a-dia da vida parado, o único divertimento acima desse é estar mais-que-parado. Já não basta estar fisicamente estático, é preciso estar intelectualmente estático. É preciso fumar charros ou ficar entupido de cerveja, para chegar aos níveis sub-zero do relaxamento. O -1, o -2, o -3, como os andares de garagem do meu prédio. Quando já não é humanamente possível ser mais inútil, fuma-se um pouco e passa-se a conseguir.

Uns quantos de nós, mais esforçados, ainda se dão ao trabalho (imagine-se, ao trabalho) de se auto-consrtuirem e melhorarem, independentes (uns mais, outros menos) daquilo que a sociedade de consumo diz que eles devem ser. Lêem livros que não são os que a Escola, ou a Sociedade, diz que eles devem ler. Vêm filmes que não são publicitados como os outros, vestem umas roupas que gostam e não as que todos usam. Têm trabalho a auto-construir-se e isso é admirável.

Mas quase ninguém tem trabalho em alguma coisa que não seja o EU. É por isso que ninguém sabe amar. Porque amar é uma construção. Porque amar dá trabalho e leva tempo. Porque amar é acreditar em algo que não existe e torná-lo possível.

Uma vez um amigo meu disse a outro amigo meu uma frase de que nunca me esqueci: Precisas de uma mulher que faça de ti um homem. Amar o outro é fazer dele ou dela um homem ou uma mulher. É por isso que todos os rapazes de jeito já têm namorda, assim como todas as grandes mulheres já estão casadas. Porque encontraram alguém que fez deles grandes.

Por isso não se encontra o amor. As pessoas falam de encontrar o amor como se vivessem num super-mercado gigante e estivessem a dizer que não encontram a secção do amor. Ai, não encontro o Amor em lado nenhum... Desculpe, o Amor está em que prateleira?

O Amor faz-se.

Amar alguém é encontrarmos a pessoa que nos permite sermos nós. Na era do individualismo capitalista, as pessoas só se sabem fazer sozinhas. Ninguém se faz sozinho tão bem como se poderia fazer acompanhado pelo Amor. São as pessoas que nos amam e que amamos que nos fazem.

Quando conhecemos alguém novo, essa pessoa nunca é a pessoa que sonhámos amar. Ninguém é. Mas o Amor é uma espécie de radar que vê para além do tempo e nos permite ver tudo o que aquela pessoa poderia ser conosco. Um lado dessa pessoa que pode nunca se ter revelado à própria pessoa, mas que se ela se entregar à outra pode vir a transformar-se e a ter algo que já era seu mas que o próprio não sabia que tinha ou podia ter. O Amor é criador. Desperta coisas que o próprio nunca despertou porque nunca se interessou por elas e nem sabia que as tinha. É aquilo que vivemos juntos, a história partilhada vivida em conjunto que nos permite sermos. É um investimento. Não se trata de fazer da pessoa o que gostamos contra a vontade dela, ou de mudá-la. Isso é o que de mais horrível se pode tentar fazer, é o oposto do Amor. Amor é ajudar a pessoa a ser mais ela própria. A ser-se em toda a sua glória.

Não deixa de ser muito curioso que na minha geração os namoros sejam contratos, quase como casamentos, mas sem aquilo que mais assusta a minha geração. A ideia de para sempre. Ou seja, o tempo. Os namoros são para sempre até deixarem de ser. São exatamente um casamento, já que a maioria não dura até ao fim. O ser humano sempre encontrará formas rebuscadas de contornar os seus problemas. O que nunca irá acontecer é as pessoas ficarem sozinhas. Um dia, vai haver um grande despertar.

domingo, 5 de Outubro de 2008

Prato na mesa (é só comer)

Uma amiga disse-me que eu parecia estar contente. E é verdade, ela tem razão.

Desde há uns dias atrás sinto-me inteiro. Sinto-me completo. Acabado de fazer como um bolo. Como se a construção do EU adulto tivesse, sem aviso, terminado, e tivesse tocado um TRRIMMM mudo do micro-ondas da vida e eu estivesse a fumegar como um prato acabado de cozinhar. De um dia para o outro. Daqui para a frente vai ser só viver.

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Cultura da solidão

Porque é que toda a gente em Lisboa em 2008 quer ser independente e livre, se todos se sentem sozinhos?

Já ninguém está disposto a sacrificar-se por ninguém. Mesmo que alguém esteja disposto a isso, não encontra ninguém que esteja também, então não se pode entregar.

Estamos uns verdadeiros animais. E ainda nos julgamos uma malta muito cosmopolita aqui na capital. Porque deixámos de nos conseguir sacrificar? 

Por não nos terem ensinado? Por já nos sacrificamos suficiente noutras coisas? Por podemos dar-nos ao luxo de não nos sacrificarmos?

terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Mais uma pedra

(a sexta)

O jardim de pedras japonês.

Histórias do Verão III

Este Verão fui pela primeira vez ao Andanças. Fui só no último fim-de-semana - nada de abusos ou doses profissionais não fosse o meu metabolismo não aguentar - porque nisto dos festivais começava a perecer-me que estava a entrar numa espécie de pré-reforma.

O meu amor por dançar já vem de muito longe. Mesmo assim, só este ano venci o preconceito de ir a São Pedro do Sul. Desiludido com o Sudoeste massificado, com um Paredes de Coura desinspirado, com o Vilar de Mouros já morto (imagino que ter deixado de haver festival não impede os festivaleiros da velha guarda de continuaram a ir - acampam e montam um rádio com leitor de Mp3 e tá feito o festival, que vive é das pessoas - era o que eu faria, mas eu não sou da velha guarda - não me sinto velho nem tenho nada para guardar), com um Super Bock Super Rock que é um evento de propaganda (acho que para o ano se vai chamar só Super-Bock-Feira-da-Cerveja para realçar o que interessa) e porque o Oeiras Alive! é em Lisboa e a graça do Verão é acampar, lá fui eu com o Bruno para o Andanças. Os dois pela primeira vez.

Admito que a verdade é que nunca lá tinha ido - entre outras razões - por medo dessas criaturas perigosas: os friques. Tinha medo que me obrigassem a usar túnicas, ou que fosse preciso ter rastas para poder entrar. Ou que não houvessem casas de banho, ou até que à entrada fizessem algum tipo de teste ou charada para tirar a limpo se eu era frique ou estava disfarçado - um teste tipo obrigarem-me a fazer um ritmo no djembé com os pés - e que eu não fosse capaz e tivesse de voltar para Lisboa.

Não só vim a descobrir que não fazem nenhuma destas coisas, como que, de todos os festivais de Verão a que já fui no nosso Portugal, este é o melhor. Isso mesmo, o melhor. O que tem menos friques, o mais repousante, aquele em que vi menos drogas, o mais higiénico e aquele em em que vi mais pessoas bonitas e aquele em que me diverti mais. Incrível não é? Todos estes anos enganado.

Estávamos lá há um dia e, na manhã de Sábado, porque ainda era muito cedo para dançar, eu, o Bruno e duas amigas nossas (uma delas completamente nova, outra um feliz reencontro daqueles que me faz amar portugal - uma colega minha da escola primária, dois anos mais nova que eu e que nestes praí catorze anos que estive sem a ver se tornou numa bela e adorável pessoa) fomos andar. Queríamos descobrir as famosas cachoeiras de São Pedro do Sul.

Atravessámos uma pequena e linda floresta e chegámos. O silêncio da Natureza. O repouso da água a escorrer, em misteriosas correntezas que se perdiam entre as pedras e árvores e outras plantas. A cachoeirinha estava vazia àquela hora, com uma exceção. Uma elegante moça, de pele morena, de bikini, completamente nua da cintura para cima que, estendida numa toalha numa rocha no alto da cachoeira, nos olhava como uma deusa marinha. Como pareceu tolerar a nossa presença, mergulhámos. Subimos as rochas. Vimos borboletas e pequenos insetos voadores, alguns azuis, outros vermelhos, nunca antes vistos. Molhádos de água doce vimos cabras a pastar à nossa volta. O cheio fantástico da erva e dos bosques. O quente do Sol no corpo. Inspirámos fundo o oxigénio em bruto que brota da terra. Ficámos felizes. Não há nada como a Natureza. E a moça sempre ali, a olhar para nós a fingir que não olhava e nós para ela.

Desejámos a Natureza e o nosso desejo foi concedido. Como se tivéssemos atravessado uma fronteira de um bosque encantado, a dado momento, começaram a chegar pessoas. Chegou um rapaz. Chegou uma rapariga. Tudo bem. A certa altura chegou um rapaz, magro e de cabelo comprido igualzinho a este, e banhou-se exatamente assim como esse se banha na fotografia. E aí sim, a cachoeira desaguou realmente na Natureza dele e fez os nossos calções de praia parecerem umas coisas rídiculas e tão sem graça como se fôssemos uns turistas - que éramos - que tendo oportunidade de provar a excecionalidade da Naturza, preferimos provar uma espécie de versão higeanizada de plástico, um MacDonalds da vida campestre. Uma monstruosidade quase tão aberrante como fazer sexo com preservativo. E a menina de peitos desnudos sempre a olhar a cena toda, lá do alto da sua cachoeira.

O rapaz nu da nossa história, que era uma espécie de Jesus Cristo que gostava de ter sido o Mogli, escalou a rocha como quem a farejava e foi sentar-se ao lado da nossa rapariga semi-nua, que consentiu, sorrindo enigmáticamente (de notar que o rapaz não se sentou na rocha sem antes limpar o assento com um ramo cheio de folhinhas que arrancou de um arbusto). O Sol brilhava e as borboletas pousavam nos ombros deles e nos nossos e toda a gente era feliz.

Enquanto isto se passava, estava eu a fingir que a cena não era nada de especial e a mostar as cabrinhas tão giras a pastar à minha colega da escola primária - tentando por segundos desviar o olhar de Adão e Eva - quando vindo não sei de onde salta de trás de um arbusto - literalmente de trás de um arbusto - uma espanhola completamente nua a passear dois cães que corriam soltos à volta dela (os Espanhóis têm este jeito caraterístico de entrar em cena). Logo saltou de trás de outro arbusto o seu par, um rapaz também nuzinho como ela que gritava Javíííí, javíííí ou outra espanholada qualquer. Enquanto eu e a minha amiga continuávamos a figir que aquilo não era nada de mais, na outra ponta, onde estava o Bruno e a nossa outra amiga, surge outro grupo, de pessoas loiras e nuas, que o Bruno mais tarde me disse que tinham formas muito interessantes. Já era tarde e deu-nos imensa vontade de ir dançar.

Escusado será dizer que, desde a primeira moça de peito moreno à última loira, tive vontade de me despir e nadar nu pelo lago e pela cachoeira. Não o fiz mas está para breve a iniciação ao nudismo. Mas escrevi isto tudo até aqui nem foi por isso. Foi porque, há duas horas atrás, estava no comboio a caminho de casa e, à minha frente estava sentada a rapariga desnuda da cachoeira.

Muito mais feia. Nem uma gota do brilho e tensão sexual que inspirava no cimo daquela cascata. Só feiura, e ainda por cima uma feiura banal. Ali, vestida com umas roupinhas da feira, roxas e com uns folhos nas alças, uns óculos de Sol grandes de mais para a forma da cabeça dela que lhe ficavam péssimos e umas calças pretas muito cafonas, em condições normais nem teria reparado nela. Sentei-me ali a pensar Já te vi praticamente nua a tomar banho numa nascente. Penso que ela não me reconheceu (afinal, havia outras coisas a chamar mais a atenção naquela manhã de Agosto). Saiu na Amadora. Quando se levantou para sair, como eu já estava com a atenção predisposta, aí sim, vi-a de costas e, na justeza das calças, era mais que possível intuir aquele corpo fulgurante que eu já tinha visto.

Acho que se andássemos todos nus, passariam a ser completamente outras as pessoas do nosso dia a dia que consideramos atraentes, bonitas ou sexys. Certas raparigas que parecem mais gordas vestidas que despidas (basta ir à praia com elas para saber) passariam a ser mais apreciadas, assim como as que não sabem escolher roupa. Por outro lado, as meninas sem sal mas com bom gosto ficariam a perder. Quanto nos engana, formata, tipifica e estereotipifica a roupa que usamos!

Assim não surpreende que aquela rapariga se tivesse despido naquela manhã de Verão. Ela sabe bem como é que o corpo dela fica melhor. Quem sabe, o que a leva a despir-se até é o desejo inconsciente de se ver livre das suas roupas horríveis. São as pessoas mais próximas da natureza, mais selvagens. O certo é que nunca mais vou voltar a olhar para uma rapariga muito mal vestida da mesma maneira.

No comboio mandei uma mensagem ao Bruno, que me diria que se acabara de cruzar com o meu professor de Forró, com quem estive no Andanças e que praticamente não vejo desde lá.

Apercebi-me o quanto estamos todos tão ligados. Invadimos os silêncios e entramos na cabeça uns dos outros pelas mensagens, já vimos nus os nossos vizinhos no comboio, vivemos todos nos mesmos lugares sem sabermos.

A vida é um sem fim de andanças cruzadas.

Ir a São Pedro do Sul no Verão pode ser como vislumbrar um bocadinho de um mapa qualquer do mundo do resto do ano.

segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

O nosso mundo

Quando ficamos em casa sozinhos e trancados começamos a pensar que somos uma merda. Mas depois, quando saímos à rua e vemos como são as outras pessoas, ficamos bem mais otimistas.

Talvez isto seja a essência de muitas problemas modernos. Não só das depressões. Hoje em dia, com tantos mundos alternativos onde viver - sejam o mundo da publicidade com pessoas com corpos esculturais, seja a internet onde todas as relações são fingidas - as pessoas ficam desfasadas da realidade e começam a viver em função de um mundo que não existe. Assim tornam-se incapazes de interagir no mundo real, que não conhecem.

Enquanto não for possível viver só nos paraísos artificiais, vai ser sempre preciso sair à rua.

A solução de um problema está sempre contida nele próprio. Como numa equação matemática. A solução já lá está. É só resolvê-la. A solução para quem tem medo de sair de casa é sair de casa. Problema resolvido.

domingo, 28 de Setembro de 2008

Histórias do Verão II

Este Verão estava na praia com uma amiga minha das antigas - como quase todas (uma amiga só pode ser antiga) - podemos chamar-lhe Catarina. Estávamos os dois mais uma amiga dela.

Era o fim daquela tarde e ainda estava muito calor. Já tínhamos dormido e acordado ao Sol, adormecido outra vez e voltado a acordar ao Sol. Rochas enormes davam-nos a sensação de segurança. Há muito tempo que estávamos em silêncio. Ouvíamos a cadência do mar. Talvez inspirado por só ouvir coisas bonitas durante umas horas, tive um tal sentimento de liberdade, que comecei a cantar o Hallelujah, do Leonard Cohen.

Estava a cantá-la numa versão mais próxima da do Jeff Buckley que, adolescentes nos anos 90, a Catarina e eu, inevitavelmente conhecemos primeiro que a original. Estava a cantar baixinho (que é o nível máximo do respeito que conheço) acompanhado pelas ondas.

De repente a Catarina disse o cantes isso, é uma música muito triste.
Triste?
Sim, é muito triste.

Desde esse dia que isto não me sai da cabeça. Não ponho em causa o que a faz sentir triste. Talvez eu cante mal. O que quer que seja, será um motivo válido só por ser dela. Mas, se o Hallelujah é triste, então o que é alegre? A resposta, como nos bons filmes, já tocava ao fundo mas só aí dei por ela. Estávamos em Sagres, onde nessa noite como na anterior, decorria o Super Bock Sagres Surf Fest. Ouvia-se Reagge por todo o lado naquela praia repleta de pessoas com rastas.

Eu gosto de reagge. E é verdade que o Reagge nos permite balançar o corpo de maneiras que o Hallelujah não permite. Mas nenhum reagge alguma vez me trouxe a felicidade que me trouxe - hoje de manhã outra vez - o Hallelujah, a tocar pela janela aberta que deixava entrar o Sol, ou como naquele fim de tarde, a olhar o mar.

São gostos, dirão. Claro que são gostos. Mas porque é que as pessoas estão a precisar de puxar a felicidade tão ao máximo para serem capazes de a sentir? É uma pena que as pessoas não tenham mais trabalho de aprender a ouvir. É que é isso que faz com que depois, tudo o que não seja imensamente festivo, soe triste. Andarão as pessoas mais tristes que nunca e a precisar de muita alegria injetada, ou, mais que isso, estão tristes porque já não sabem ver a alegria nas coisas a não ser que seja sublinhada a vermelho, recortada do resto, ampliada vezes mil até já não ser nada do que era? A não ser que não haja qualquer dúvida que uma coisa é para ser feliz?

Com a cultura de massas, a televisão, a internet, a rádio, tudo a tocar ao mesmo tempo, as pessoas sempre a falarem, tanto nas lojas como na escola, como no trabalho, uma palavra não tem mais o valor divino que lhe é natural. Tudo é fugaz. Deixamos de ter atenção às coisas porque as coisas vêm direcionadas por nós. Tudo vem com instruções, soluções e previamente interpretado, estilo batatas pré-fritas congeladas. Já não aprendemos a interpretar. como não aprendemos a cozinhar. Já não sabemos por a atenção nas coisas para ver onde está a essência. Se não soa alegre não é alegre. Não há tempo para prestar mais atenção. Somos a pior geração de detetives da história. Não admira que ande toda a gente à nora à procura das causas e dos sentidos de tudo. Não é o nosso mundo no século XX que está um caos, as nossas cabeças é que estão.


E agora a canção que tem na letra a resposta a todo o problema deste meu post. E haverá alguma felicidade mais absoluta que a de encontrar a Fé numa mulher?
Podemos dizer

Hallelujah

(Nos anos 80. Nos anos 90)

Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah
Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Baby I have been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you.
I've seen your flag on the marble arch
Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
And remember when I moved in you
The holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah



Este post é dedicado à Catarina, que é das pessoas que conheço com melhor gosto musical. Esta versão é só para ela e talvez eu devesse ter tentado cantá-la assim. Eu sei que ela gosta. À anos 00. O erro foi meu, eu é que estou desatualizado, Catarina, desculpa.

Linhas tortas

Ás vezes é preciso fazer coisas más para se poder ter a vontade de as reparar e fazer coisas boas.

sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Partilhar a solidão

Há muitos blogues. Há muitos blogues porque há muitas pessoas que se sentem sozinhas. Os blogues ajudam-nas. Acalmam o sentimento e às vezes conseguem fazer com que não o sintamos. Mas assim não acabam com ele. Pelo contrário, permitem que se possa chegar ao sintoma seguinte: ainda mais solidão. E aí já se sente, com blogue e tudo.

quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Confissões Pop

A diferença entre sexy e bonito

A geração está em festa

Ontem foi um dia solarengo. Calmo e silencioso, dava a impressão de se ouvir o movimento do mar ao longe.

Era de tarde e era uma tarde como só em Lisboa pode haver. E eu estava a trabalhar, descansado.

Subitamente ouve-se ao longe um som grave indistinto. Não pára. Começa a aumentar de volume. Parecem explosões, gritos. As pessoas para quem trabalho, mais velhas que eu, olharam para mim assustados incapazes de achar explicação. Mas não ficaram muito tempo com essa expressão. Deu logo lugar a um sorriso condescendente quando lhes disse a explicação provável contemporânea para a algazarra. Devem ser as praxes.

E foi assim que fomos para a varanda ver desfilar a minha geração.

Umas centenas de pessoas, ora vestidos de capa e batina preta, ora de t-shirt branca com a cara pintada e os cabelos enfarinhados, seguravam com uma mão uma cerveja e com a outra um estandarte - como as legiões romanas fizeram outrora - em que estava escrito o nome do seu curso. Urravam. Gritavam as iniciais dos cursos com a energia com que gritariam gritos de guerra. Com um ar sério, os mais velhos tentavam coordenar esta multidão de hooligans com os cérebros temperados em álcool, que disfarçados de estudantes, marchavam não pela rua, mas pelo passeio.

A minha geração sente-se rebelde. Mas que rebeldia é esta que não ousa sair do passeio? Que pára na passadeira? Que avisa a polícia que vai manifestar-se e, pior, manifestar-se sobre nada? Que revolução de vida é essa em que do outro lado da rua as mães, amorosas, fotografam, num comovente esforço de registo da infância interminável dos filhos?

Estes pequenos rebeldes estavam bêbados demais para perceberem que estavam numa festa de aniversário enorme, em que eles, criançada, foram postos para correrem um bocado até se cansarem. É que os meninos, quando ficam grandes, requerem brincadeiras cada vez mais dispendiosas. O Estado paga, pois é preciso divertir estes meninos grandes. Que sorte a deles. Noutros regimes seriam mandados para a guerra. E é assim que em 2008 se gasta a energia que há. Não a melhorar o mundo ou na construção de algo para partilhar com os outros. Gasta-se inconsequentemente. Mas quem sou eu para julgar. Talvez o mundo já esteja tão perto da perfeição que nos possamos dar a estes luxos.

Os recém-licenciados queixam-se de não terem emprego. Se isto faz parte de se tornar licenciado, eu se tivesse uma empresa também não lhes dava emprego.

Nada disto me importava se eu não tivesse de partilhar o mundo com eles. E pensar que daqui a uns anos os filhos destas pessoas vão ser colegas dos meus filhos na escola.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

O Amor verdadeiro

O Amor verdadeiro parece inexplicável pela lógica. Sente-se que é uma coisa em que se acredita e que se sabe, numa espécie de sabedoria silenciosa e surda. Sente-se e não se sabe porquê, nem de onde vem, e que parece que sai de dentro do nosso peito e o quer fazer explodir de emoções. E quando surge, parece que sempre cá esteve e que faz parte de nós. É uma verdade. E é em tudo igual à Fé. É uma coisa que nos move para a vida e que nos puxa e agarra e indica o caminho. Mas que não sabemos o que é, e que há gente que diz que não existe. Provavelmente dizem-no porque nunca o sentiram.

Como diz um extremamente sábio amigo meu a que decido que vou chamar Rafael neste blogue, as pessoas só sentem a fé se aprenderem a exercitar o músculo da fé de pequeninas. Ao Rafael ninguém ensinou e por isso ele não consegue. Uma espécie de capacidade telepática que tem de ser aprendida como quando se aprende a andar ou a falar, na altura certa. Eu sou como ele. Nunca aprendi a fé, como muitas pessoas nos dias de hoje parecem também não ter aprendido, ao contrário de muitas outras. Mas percebo de onde vem, e percebo a sua força. Digamos que se me concentrar, até consigo imaginar como é senti-la. Sentir que a estou a sentir mesmo sabendo que não é a verdadeira. Não tenho os instrumentos humanos que preciso para chegar a deus.

Passa-se exatamente o mesmo com o Amor. Há muitas pessoas que não acreditam no amor. Provavelmente nunca o sentiram. Eu, como um bom e devoto praticante, tenho pena dessas pessoas. Eu acredito no Amor e sei que existe. Mas aprendi-o de pequenino, com um fabuloso primeiro amor. Coitados dos que não tiveram essa sorte.

Até à chegada do romantismo, a ideia de amor não existia. Possivelmente os sentimentos estavam lá, como uma espécie de patologia, mas não eram estimulados nem aprefeiçoados. Como diz Don Draper em MadMen: O Amor foi uma coisa que nós (os publicitários) inventámos para vender papel higiênico. Se estivesse eu à mesa com ele nessa cena e não aquela bela judia, ter-lhe-ia respondido A partir do momento que inventaram Don, eu passei a acreditar. A partir do momento em que o inventaram, passou a existir.

Já pensaram na quantidade de sentimentos fantásticos que podem estar escondidos dentro do nosso potencial humano e que ainda não descobrimos? Que aprendidos e treinados na idade certa se revelarão até à idade adulta, mas que em adulto são impossíveis de auto-estimular? Que maravilhas andarão escondidas! Telepatia? Capacidade de levitação? Quem sabe. Mas sobretudo interessa-me pensar Qual será o próximo sentimento a ser descoberto? Qual nos fará passar para uma nova era, tal como passámos da era da Fé para a era do Amor?

terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Uma ida ao Lux

Fui o primeiro a chegar. A Madalena e a Marta vinham ter comigo mais tarde. Fui sozinho até à porta e, como rapaz galante que sou, entrei sem pagar.

A primeira vez que fui ao Lux foi com uma ex-namorada, que era grande fã do lugar e até era amiga de um porteiro. A segunda foi numa festa do meu curso. A terceira numa Pecha Kucha em que a Madalena ajudou à organização. Esta vez foi a quarta. Poucas vezes, para alguém que se alimenta das coisas da vida, que gosta da noite, da boemia, de dançar, de festas, de pessoas. Porque fui lá tão poucas vezes então?

Eu não sou sovina, mas tenho noção do valor do dinheiro. (Que eu saiba não sou descendente de judeus, mas curiosamente a maioria dos meus ídolos são - o Leonard Cohen, o Bob Dylan, o Billy Wilder, o Woody Allen, o Chico Buarque. Quem sabe sou descendente de Cristãos Novos. Essa ofensa que o Marquês de Pombal baniu com a punição de chicotadas nas costas para o povo, perda de bens para o clero e perda dos títulos para a nobreza. Tudo pela unificação da nação e do seu povo. Grande Marquês.).

Tenho noção do valor do dinheiro e julgo que 12 € de mínimo à entrada é muito para aquilo que a suposta melhor discoteca de Lisboa oferece.

Subi as escadas com as mãos nos bolsos e um cigarro imaginário na boca. Cheio de estilo portanto. Sentei-me com as pernas esticadas num daqueles sofás-cama que estão espalhados por todo o primeiro andar, que parecem ter sido comprados na feira da ladra e que além disso são desconfortáveis (o encosto é a grade de uma cama e as almofadas são uns rolos que não dão jeito para nada). Mas o meu estilo era tal que até os sofás-cama pareceram giros.

Um empregado veio ter comigo e perguntou-me o que queria tomar. Pedi um Martini com uma pedra de gelo. O Martini voltou com a conta. 6 Euros. Eu já sabia o preço porque da terceira vez que lá fora tinha perguntado e o choque da resposta tinha-me durado até àquela noite (e ainda não passou). Passei-lhe uma nota de 20 €. O rapaz responde-me não tem mais pequeno? É que não temos trocos.

Sem mecher a cabeça, levantei o olhar devagar e subtilmente para ele. Tive vontade de dizer Preços altos, notas altas, mas não disse. Disse-lhe Não.

Afinal tinham trocos. Quando chegou levantei-me. Fui passear pelo lugar. Vi coisas como dois empregados a arrastarem com os pés uma mesa baixa onde os clientes põem as bebidas e a subirem para cima dela com os pés para mudarem as lâmpadas de um candeeiro todo estiloso. Estiloso o candeeiro, mas não os modos deles. Tive também a oportunidade de reparar nos ténis sujos e feios de uma empregada, que ainda por cima usava umas rastas muito feias a cair pelas costas. Uma frique a servir no lux. O mundo está mudado pensei. Mas o toque final de charme ainda estava por vir. Entre as pessoas, tive a sorte de ver um segurança pegar numa das almofadas compridas e brincar com ela simulando um enorme falo que insistiu em abanar para cima e para baixo até me ver a olhar para ele o ter pousado.

A Marta e a Madalena chegaram e fomos dançar. Se a música não era muito o meu estilo, até era boa. O mesmo não se podia dizer dos dançarinos. A noite de Lisboa são crianças de 16 aos 18 anos - os únicos cujos pais podem pagar estas brincadeiras - e turistas ridículos que, bêbados, montam o seu próprio circo de aberrações no meio da pista.

Poder-se-ia pensar que eu dar importância a isto tudo faz de mim uma pessoa pretensiosa, elitista, um snob, o que se quiser chamar. Não penso assim. Há uns dias vi na televisão um documentário sobre uma organização de apoio humanitário em África, a AfriKids. Nele contaram uma história de uma senhora que, sozinha, toma conta de umas trinta crianças órfãs, financiada pela AfriKids. Nunca deixou morrer nenhuma, menos num dia, em que faltou o dinheiro para medicamentos. Nesse dia, ela correu toda a aldeia à procura de alguém que lhe pudesse dar o dinheiro e ninguém deu. Ninguém tinha. Juntou as poupanças, mas não chegavam. Tentou vender coisas mas não conseguiu juntar o dinheiro que era preciso. Os medicamentos que a criança precisava eram muito caros. Custavam cinco cêntimos de euro.

Pelo preço da vida de 240 crianças africanas, espero bom divertimento.

segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Uma frase que mudou a minha vida

O que caracteriza o homem imaturo é desejar morrer nobremente por uma causa, enquanto que o que caracteriza o homem maduro é desejar viver humildemente por ela

- Wilhelm Stekel

Sobre Sobre o Elogio ao trabalho

Ao fim de consideráveis dias a trabalhar com afinco, percebi que é muito duro trabalhar sem ter a tal pessoa para quem voltar ao fim do dia. Felizes os que têm. Mas isso toda a gente sabe. Trabalhar por amar, amar por trabalhar. Um alimenta o outro.

As certezas

É imprudente afirmar. É sábio propor. Penso que talvez seja certo pensar.

domingo, 21 de Setembro de 2008

Sobre o elogio ao trabalho ou O Homenzinho Português

(ver posts anteriores)

Basta ser português para saber que a maior ambição de um português normal é trabalhar o menos possível (felizmente a nossa História é feita de muitos portugueses anormais, os melhores - mas isso é para outro post). Os estudos comprovam-no. Parece que no último semestre, a produtividade dos portugueses voltou a descer.

Diz um amigo meu de há muito tempo, com grande sabedoria - vamos chamar-lhe, para fins deste blogue, Roberto - que só em Portugal se ouve aquela frase fantástica Hoje tive o dia todo sem fazer nada! (seguida de um esfregar de mãos) como se isso significasse que se teve um dia fantástico. Sublime. Um dia invejado por todos. O dia perfeito. E o pior é que é realmente invejado. Fui para o Brasil, estive lá 12 dias na praia, sem fazer nada! Foram os melhores dias da minha vida ou então Epá, hoje quando chegar a casa, não vou fazer nada!, por exemplo, são normalmente seguidas de um coro que canta que sorte, quem me dera.

Os homens que dizem isto são homens pequenos e é exatamente por não trabalharem que o são.

Os homenzinhos portugueses não tem a coragem de sofrer trabalhando. É por isso que face à mais pequena contrariedade, o homenzinho português desiste, se desmotiva, entristece. É por isso que é capaz de sofrer com uma coisa como o Futebol. O homenzinho português não está treinado para sofrer. Pelo contrário. Desde petiz, o português é treinado por suas mães e seus pais a não trabalhar. Como é dura a vida, que faz com que tenhamos de trabalhar para sobreviver, pensa o português adulto, que já descobriu a verdade, e acrescenta Vou dar aos meus filhos a maior felicidade da vida enquanto podem tê-la, enquanto são pequeninos, pois não quero que sofram. E o que faz o homenzinho português? Dá tudo ao filho e cultiva a preguiça no seu rebento. Quando chegamos à adolescência, somos profissionais no descanso. E se dormir fosse modalidade olímpica, eramos uma potência.

A preguiça é a causa direta da nossa infelicidade crónica portuguesa. Nem estou a falar em trabalhar para melhorar a nossa situação económica, ou cultural, ou social. Isso é óbvio. Estou a falar de como é impossível que um homemzinho seja amado por uma mulher. Não, o homemzinho português tem de ser amado por uma Mulherzona. Alguém duvida que é por isso que tantas mulheres portuguesas são tão brutas, tão amargas, tão entristecidas, tão amassadas da vida? Alguém ainda não se apercebeu que é por isso que têm de se transformar em camiões, tanques de guerra humanos, frios, que levam tudo à frente e gritam e são agressivas? É precisamente por isso e por mais nada. Tudo bem para o homemzinho, que gosta de mulheres assim. Mas não para os homens.

Não podemos dizer que as mulherzonas não têm culpa de ser mulherzonas. A educarem os seus filhos como homenzinhos, mimados e atrofiados, e a educarem as suas filhas como quem treina cães de caça, não conseguem quebrar o ciclo. Mas a culpa é só indireta, porque se reflete na geração seguinte. Quem pode quebrar o ciclo, na hora, no segundo, são os homens (este parágrafo pressupõe a coisa óbvia que é os homenzinhos não serem capazes de educar ninguém).

Eu acho bem que as mulheres trabalhem, e não é isso que faz delas mulherzonas. O trabalho é só condição da vida. O que faz delas mulherzonas é não terem em casa um homem que seja capaz de lhes dar segurança e proteção. Um homem que sintam que é mais forte, que já sofreu mais que elas, que aguenta mais que elas. Um homem capaz de as abraçar com honra de ser um ser superior, não a ela, mas superior àquilo que já foi, superior à criancinha que era, superior ao homemzinho que era. Não há destes por aí. Não há nas casas, mas também não há na rua, nem nos bares ,nem nas praias, nem nos locais de trabalho (existem alguns locais de trabalho em Portugal, ainda em período experimental).

Já ouviram falar no mito de que as mulheres israelitas são as mais bonitas do mundo? Parece que é mesmo verdade. Não sei se já ouviram falar no mito de que os judeus são uns trabalhadores gananciosos e obsessivos como um raio. Já?


Este post é dedicado ao Roberto, que sabe quem é.

sábado, 20 de Setembro de 2008

Elogio ao trabalho

Ontem percebi exatamente porque o trabalho é a essência da civilização. Obviamente que sem trabalho não há casas, nem roupas, nem comida, nem pontes, nem Centros Comerciais. Mas essencialmente não é nisso que estou a pensar.

Estou a pensar em como o trabalho reduz o apetite sexual. Uma verdade absoluta. Ontem quando cheguei a casa, depois de umas semanas de oito horas de trabalho diárias consecutivas, senti que não há apetite que resista. Quer-se descansar. Quer-se dormir. É por isso que toda a boa mãe sabe instintivamente que só um homem trabalhador dá um bom marido. Não é só porque traz comida para casa. É sobretudo porque mais dificilmente será infiel. Não será infiel nas oito horas em que trabalha, nem nas duas que demora a ir para o trabalho e a voltar, nem nas duas reservadas para as refeições, nem nas duas que servem para ir às compras, nem nas outras duas que servem para cuidar da casa, nem nas últimas oito em que tem de dormir. E o melhor de tudo é que não terá vontade de ser.

E tudo encaixa na perfeição a partir daí. Foi este equilíbrio que permitiu que houvesse o casamento. Controlada a sexualidade, o que há de mais triste que chegar a casa depois de um dia de trabalho e estar sozinho? Tudo o que esse homem deseja é ter alguém de quem goste à sua espera. Arranjou-se um modo ideal de garantir isso. Como também não se pode passar demasiado tempo junto, entre duas e quatro horas, quando não se está nem a trabalhar nem a dormir, são o ideal.

E é assim que quanto mais trabalho há, menos sexo há e menos filhos há. É por isso que ter muitos filhos é olhado como algo pouco civilizado. Quem não trabalha tem muito tempo para fazer filhos e para os criar. Quem trabalha já tem trabalho. Há filhos também, mas menos.

Não pensem que me estou a queixar. Há algo de sublime no sofrimento e cansaço que o trabalho provoca. A sensação de que estamos gastos, vazios. Uma sensação que, também com muito trabalho, penso que os religiosos tentam alcançar. Estar estafado de trabalhar é uma experiência religiosa em si mesmo. E quem sofre aprende com a experiência e ecresce. Quem sofre aprende. Trabalhar é aprender a viver, é aprender a sofrer. Como diz o nosso Chico em Tem Mais Samba:

Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer


Assim é. Porque há coisas que só se fazem bem se se tiver trabalhado, se já se tiver sido desgastado, amassado. As coisas da vida. Como são bonitas duas pessoas sofridas a dançar, duas pessoas sofridas a dormir abraçadas, pessoas que têm sofrimento em si para a libertar cantando, para libertar criando Arte, para se libertarem e tornarem as suas almas numa coisa maior. Uma civilização interior. Para se tornarem grandes. Grandes pessoas humanas.

E o grande problema de Portugal é que as pessoas fazem tudo para evitar o sofrimento. E como não sofrem, não crescem. Como não crescem, continuam a sofrer na mesma, porque não sofrer é impossível, mas sem a recompensa do trabalho, sem a recompensa não só material, da construção, mas sobretudo a recompensa espiritual. A recompensa espiritual de ter expandido a caixinha do sofrimento e, assim, cada tristeza da vida passar a custar menos a suportar, por termos expandido a nossa capacidade de armazenamento.

As pessoas têm o direito a sofrer, mas não sabem. Quem não sofre, trabalhando, amando, fica a perder. Tudo o que faz parte da vida é para ser vivido. Se não se viver na altura certa, viver-se-á mais tarde de outra forma, talvez muito mais desequilibrada. Porque como dizia nas suas lições o Mestre Zen do Tiro com Arco em O Zen e a Arte do Tiro com Arco: Quem procura um princípio fácil, encontrará necessariamente um fim difícil.

sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Regresso ao futuro

Regressado ao futuro (grande filme) volto oficialmente a postar no presente. O próximo passo será postar a partir do futuro. Não percam, em breve em O Calor É Humano.

Canção para alguém que não sei quem é

Gostava de dedicar esta canção do meu músico favorito de todos os tempos à minha futura namorada, que não sei quem é, mas que andará necessariamente por aí na Terra. Se ela se reconhecer nesta canção, por favor avise.


Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.


Chico Buarque

quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Dar é preciso

O amor não consegue estar parado.
Quem tiver amor para dar, dá-lo-á.
Se não conseguir dá-lo à pessoa que ama, dá-lo-á a outra pessoa.
É demasiado avassalador para estar guardado.
Quem não ama ninguém, nunca tem amor para dar.
Mas quem ama, induz em erro e faz com que o amem, mesmo quando aquele amor era para outro.
É por isso que é tão fácil ter amantes e tão difícil ser correspondido.
É que quando o amor está nos outros, conseguimos vê-lo.
E o amor é cobiçado.

Não devemos tentar guardar o amor.
É uma batalha duplamente perdida.
Se é impossível guardá-lo, quando o damos, ele é-nos dado de volta. Ficaríamos sempre a perder.
Nada é mais democrático que o amor.
Quem recebe volta sempre para dar.

Um dia apareceram umas pessoas que quiseram regular o mercado.
E não se podia dar a toda a gente, passou a ser preciso fazer reserva.
O amor estava contado e registado e até se cobravam taxas.
Foi preciso redistribuir artificialmente o que já estava naturalmente organizado.
Começou-se a quantificar.
E o valor do amor passou a ser medido ao ciúme.

E cobrou-se em vez de se dar.
E emprestou-se em vez de se receber.
E não mais se trocou.

Nunca mais floresceu selvagem aquilo que sempre foi nosso só por existir.
Passou a ser cultivado, destilado e empacotado.
E foi preciso inventar embalagens novas para o que antes andava à solta,
Novos nomes para os produtos complexos.
Novas maneiras de fazer o que sempre se fez.
Teve de se desaprender de como dar para poder comprar.

E é por isso que hoje nem todos têm.
Porque já não se dá, só se guarda.
E há cada vez menos.

Aviso à navegação através do tempo

Por artes que não domino, o meu blogue está desde hoje a funcionar numa brecha temporal e marca, contra a minha vontade, todos os posts como tendo sido feitos Quarta-Feira, dia 17. Pela primeira vez consigo escrever para o passado. Espero que os consigam ler no futuro. 

Ler O Calor É Humano passa a partir de agora a ser uma viagem no tempo.

Escola da vida

Esta noite estava a sonhar mas não sabia. Estava numa sala de aula de escola preparatória muito grande, com as mesas dispostas em quadrado. Via-se pelas janelas que era de madrugada, ainda de noite, como quando íamos para a escola muito cedo. Estava frio e quando falávamos, a nossa respiração via-se no ar. Olhei melhor à minha volta. Iluminados por uma luz que era metade da noite, metade dos candeeiros da sala (estranhamente laranja), estavam na sala colegas meus da universidade, aqueles que gostei mais de conhecer. Na outra ponta da sala estava o Ricardo - o meu melhor amigo, que foi da minha turma do 5º ao 12º ano. Olhámos um para o outro como quem diz esta stôra é mesmo otária sempre a separar-nos para não conversarmos na aula. E aí surge a professora. No início parece-me uma professora igual às outras, mas depois olho bem para ela e é novíssima, apesar de ser mais alta que nós. Mesmo à minha frente está o irmão do Ricardo, que é dois anos mais novo que nós e nunca foi da nossa turma.

A professora começa, um a um, a fazer perguntas a todos os que estão na sala. Todas as perguntas são diferentes e são uma espécie de charada filosófica adaptada a cada um de nós e que põe em causa todas as falhas da nossa personalidade. Aos rebeldes pergunta porque são rebeldes, aos armados em intelectuais arranja uma maneira de expor como na verdade não sabem nada. Que professora espetacular penso eu.

Então olho melhor para ver quem são as outras pessoas que ali estão e descubro que a sala está cheia com todos os meus amigos, todos sentados nas secretárias. Toda a turma eram amigos meus de todas as fases da minha vida. Juntos, na mesma sala. Todos os amigos que se possa imaginar. E ao meu lado está, vestida com uma camisola verde e branca que ela tinha praí no 10º ano, a minha amiga a quem vamos chamar Marta, que foi da minha turma do 7º ano ao 12º e com quem, juntamente com o Ricardo, formávamos na vida real o triâmgulo das pessoas mais especiais da turma. A Marta e o Ricardo foram das pessoas mais importantes para mim durante muito tempo. Mesmo ao lado da Marta, está outra amiga a quem vamos chamar Madalena, que nunca foi da minha turma, mas que é muito minha amiga e que, se hoje é magrinha, já foi gorda. Ali na sala estava gorda outra vez, mas isso não parecia estranho. O que pareceu estranho foi a Marta ter sacado de um cigarro da mala e ter começado a fumar dentro da sala. Até porque ela não fuma. Nesse momento, o irmão do Ricardo - vamos chamar-lhe Rui - sacou também de um cigarro e começou a fumar também, divertido com a irreverência.

A professora viu e o Rui apagou logo o cigarro, mas a Marta não. A Marta continuava a fumar tipo Femme Fatal, a olhar para a stôra. Então a professora disse-nos aos três se querem fumar fumem lá fora, que esta sala é grande e faz muito fumo lá para fora (a resposta não tem lógica nenhuma eu sei, mas isto é um sonho). A Marta percebeu que isto era uma maneira de a mandar para a rua e saiu, com toda a turma a olhar para ela e a dar risinhos com a mão à frente da boca. Eu levantei a mão para ela e demos mais cinco (um hi5, tão a ver?) em sinal de vitória e rimo-nos.

O Ricardo na outra ponta riu-se para nós, levantámo-nos eu e ele, e fomos com ela para a rua.


Acordei de sobressalto com uma felicidade tão enorme e nem sabia bem porquê. Pela primeira vez na vida acordei com o oposto de um pesadelo. Acordar por felicidade. Acordar a rir. Era de madrugada e o primeiro pensamento foi ainda bem que acordei porque vou para a escola ter com os meus amigos. Lembram-se quando ir para a escola, ou para a universidade, era uma excitação por encontrarmos lá as pessoas de quem gostamos? Alguma vez tiveram isso? Então imaginem a sensação de uma escola onde estão todas as pessoas de quem gostamos. Então percebi que já não ando na escola, e que já acabei as aulas na universidade. Nunca mais vou ter a sensação de ir para um sítio que tem centenas de pessoas que não conhecemos mas que podemos conhecer - a sensação de todos os dias encontrar pessoas novas. No mundo do trabalho há meia dúzia de pessoas num escritório e já as conhecemos todas. Então senti uma coisa do género nunca mais vou ver os meus amigos. Só que pensei melhor, e percebi que já não sou colega deles na escola, mas sou agora uma coisa muito maior. Sou amigo deles. Colega deles na vida. Tenho-os sempre que quiser. Não só na escola, nem sequer os nossos pais têm de autorizar para eles virem a nossa casa. Pensei a vida é genial.

Peguei no telemóvel. Tinha uma mensagem. Era da Marta. A pedir-me para a ajudar com um trabalho da universidade. Incrível, isto já era realidade! A última oportunidade que terei de fazer um trabalho para a escola com ela. Disse-lhe que a vou ajudar com todas as forças que tenha.


Nos últimos dias tenho conversado muito com uma certa pessoa que é da opinião que todas as amizades são por interesse. Umas por interesse sexual outras por interesses de carreira, ou económicos. E eu não acho. Mas com este sonho tive a certeza. Não havia qualquer interesse neste sonho.

Este post é dedicado a todos os meus amigos. Adoro-vos.

Sobre a amizade

Ter um amigo é ter alguém que é para nós como um irmão ou irmã, apesar da desvantagem de não sermos filhos dos mesmos pais.

Sobre a arte de dormir e o sonho e a cidade

(ver posts anteriores)

Irónico mas bastante lógico que precisamente por andar a dormir pouco não possa tornar o meu sonho realidade. Se a conhecesse hoje adormecia no colo dela. No primeiro encontro não fica bem.

Sobre a arte de dormir e a esquerda e a direita

(ver posts anteriores)

Todo o tomar de posição tem implicações políticas. Todos sabemos que uma sociedade em que todos dormem 10 horas por dia é insustentável. Mas a esquerda e a direita diriam que é por motivos diferentes. É até por isso que há esquerda e direita.

O elogio do sono poderia ser interpretado pela esquerda como preguiça de um jovem favorecido de direita que não sabe o que custa trabalhar e ao mesmo tempo como um grito por socorro de um trabalhador da classe inferior explorado pelo capitalismo. A direita por seu lado, iria chamar-me preguiçoso relaxado de esquerda que não sabe que a vida custa graças ao qual a economia não cresce, ou podia ver nisto um exemplo de alguém que encontrou uma solução para como viver de forma saudável ou seja, como um dos seus.

Gostar de dormir faz de mim uma pessoa de direita ou de esquerda?
Para já, acho que faz de mim uma pessoa.

Como já disse antes, pessoas de esquerda e de direita a dormir abraçadas chegariam a conclusões bem mais claras.

A arte de dormir

Sabem quando os pais vos contam o quanto vocês eram lindos em bebés? Os meus também contam, mas acrescentam logo a seguir que eu dormia pouco e era muito rabugento e mal disposto. Chega a parecer que a minha família mais chegada tem uma espécie de vingança por saldar com essa criança, tal é a ferocidade com que me criticam no passado, como se essa criança morasse dentro de mim e eu fosse agora a única pessoa que lhe pode dar o ancestral tau-tau que ela merece.

Estranho paradoxo, que com a entrada na adolescência tenha começado a ser conhecido por dormir muito. E também por ser bem disposto e otimista. Nos últimos anos cheguei mesmo a ser apontado como exemplo de pessoa feliz.

Recentemente, comecei a trabalhar mais e tenho podido dormir pouco. Para algumas pessoas isto não será nada de especial, mas eu noto que fico incrivelmente mais mal disposto e chato para as outras pessoas. Sem paciência para ninguém. O meu sentido de humor quase desaparece. E todos sabemos que sentido de humor é sintoma de inteligência.

Será que é a falta de sono na nossa civilização - em que cada um tem de trabalhar no mínimo 8 horas por dia - a causa da má-disposição e pessimismo geral da grande maioria das pessoas? De eleições em que ganham políticos pessimistas? Das discussões familiares constantes? Da insatisfação? Do ódio?

Todos devíamos dormir pelo menos 10 horas por dia abraçados a alguém de quem gostamos. Se toda a gente fizesse isso, o mundo seria um lugar muito mais simpático. Menos evoluído, mas muito mais simpático.

Pena que os países latinos estejam a desaprender a arte da preguiça, a arte do descanso. Era um grande contributo que podíamos dar ao mundo. Naturalmente, o trabalho esmaga a preguiça e está a fazê-la desaparecer. O trabalho é ativo, o descanso é passivo.

Mas talvez esteja na hora de uma nova ofensiva do descanso, essa essência do ser humano. Urge inventar o descanso-ativo.

Países latinos - ao trabalho!

(ou melhor, ao descanso)

terça-feira, 16 de Setembro de 2008

O Sonho e a Cidade

Hoje voltei a ver na rua a rapariga mais sensual de Lisboa.

É morena, os cabelos são pretos e lisos, a cara parece uma amêndoa e é elegantíssima. Os olhos parecem duas esferas negras. É sofisticada a vestir e consegue parecer descontraída ao mesmo tempo. Tem um ar destemido e expressões de uma beleza infinita. É daquelas mulheres que só de olhar para elas sabemos que de certeza tem namorado. Provavelmente mais velho que ela uns cinco anos.

Vi-a quatro vezes. A primeira vez foi no DocLisboa. É porventura fácil descobrir quem ela é, porque parecia trabalhar no festival. Foi há dois ou três anos. Voltei a vê-la na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, mas não faço ideia se estudou lá. A última vez que a tinha visto estávamos no Comboio. Entrei na Amadora e por acaso sentei-me virado para ela com uns três lugares de distância. Imaginem quando a vi. Ela foi das que não olha à volta e nunca cruzámos o olhar. A quarta vez foi hoje, há duas horas, na Av. Almirante Reis. Estava parado no semáforo vermelho e, como sou dos que olha à volta, vi-a do outro lado da rua.

Linda. Quase a reconheci só pelo andar. Tinha um casaco preto e uma mala, talvez. Calças de ganga.

Sabem quando têm a certeza que um dia vão conhecer determinada pessoa? Tenho a certeza que um dia vou conhecer esta rapariga. E vai ser deliciosa a ironia de descobrir que a sua personalidade é insuportável. Mas o mais importante nem é isso. O giro é imaginar quando será. Daqui a quinze anos numa esplanada em carcavelos vejo uma menina de 5 anos igual a ela, procuro a mãe e lá estará ela, com o marido e os filhos? Ou um dia vejo-a na televisão e descubro que se tornou famosa? Talvez daqui a trinta anos, já com filhos, eu vá a uma festa em casa de um amigo, com casais amigos dele e a encontre lá. Ou até posso bater contra o carro dela. Ou então na próxima semana apresentam-ma no Bairro Alto.

O fantástico é que ninguém sabe o que vai acontecer. Nem mesmo ela.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Sobre ter

(ver post anterior)

Apesar de tudo aquilo de que é feito, não há nada no mundo mais fascinante que as crianças e as mulheres. Os rapazes também, mas de maneira diferente. Para algumas pessoas, as coisas fascinantes são carros, para outros as drogas, para outros a comida, ou a roupa, ou o futebol, ou o dinheiro, o luxo, os bens materiais. Ou o Surf. Têm todo o direito. Mas para mim são as mulheres e as crianças. É refrescante e entusiasma-me e deixa-me sem ar só estar escrever isto. Mulheres. E crianças. Era capaz de ter overdoses de mulheres e crianças e de tudo o que se pode fazer com elas até ao fim da vida sem parar.

A Arte também me faz falta, lembro-me agora. Mas amar a Arte, amar as mulheres, amar as crianças - é tudo amar a mesma coisa - a humanidade e a vida.

Amar é o verdadeiro ato religioso. Amar o divino. O mundo é o divino.

Ter

Quanto melhor e mais maravilhosa é a vida que tenho, quanto mais ela me faz feliz e me enche, mais a morte custa. Pensava que não ia ser assim. Pensava que me ia sentir realizado e isso ia trazer tranquilidade. Mas é precisamente por isso que custa perder isto tudo. É que o mundo é tão lindo. Repleto de beleza em todos os cantos. O Sol na manhã, os cabelos ao vento, o cheiro de Lisboa ao Domingo. As crianças. As mulheres.

Será que isso, inconscientemente, faz com que muitas pessoas não lutem mais por aquilo que, muitas vezes nem chegam a ter consciência, querem? Será isso que faz com que algumas pessoas tentem gostar o menos possível de viver?

Por medo desse derradeiro momento? Para sentirem o menos possível de perda? 

Para quem gosta de viver, talvez se torne assim claro que a maneira certa de viver é tentar que o último suspiro seja o mais aterrador possível pela quantidade de coisas que perdemos. É que, logo logo a seguir, já cá não estamos.

E quanto mais se perder com a nossa partida, mais ela será sentida por quem ainda pode sentir. O Amor é realmente um ato de masoquismo. Fazer com que nos amem é fazer com que sofram por nós. Mas não se pode ter um sem o outro. Só se morre se se tiver vivido.

domingo, 14 de Setembro de 2008

Coisa boa #3

Acordar tão cedo que ainda é muito de noite quando saímos de casa, sem ser preciso fazer nada a pressa, de modo a vermos as pessoas todas a sair das suas casas, podermos ver o nascer do Sol enquanto caminhamos para o nosso destino. Podermos beber café durante montes de tempo antes das obrigações começarem. Tudo isto num grande silêncio.


Acordar cedo.

N'O livro das coisas boas

Era uma vez, na Cinemateca

Há pouco tempo ia no carro e começa na rádio uma rubrica sobre Cinema. A certa altura, já não me lembro sobre que filme da semana, o crítico da estação diz que o filme tem bons planos de realização. Logo depois de evitar o desastre de automóvel que ia tendo, retomo a marcha e fico a perguntar-me porque se sabe tão pouco sobre Cinema em Portugal.

Como a resposta a isto do ponto de vista histórico ocuparia demasiado tempo para poucos frutos - o passado já passou, não podemos mudá-lo - prefiro contar uma história que exemplifica bem porque em Portugal se continua a saber tão pouco sobre Cinema.

Há uns meses atrás fui à Cinemateca ver o La Règle du Jeu do Jean Renoir.
Chego, e em vez do vazio que esperava, encontro uma multidão à porta, um corredor cheio, filas para os bilhetes quase até à sala. Fiquei feliz e pensei o Jean Renoir tem o respeito que merece. Num clima de festa à minha volta, espero a minha vez para comprar o bilhete. Há muita alegria no ar, muitos casais, muitos grupos - vejo mulheres com vestidos bonitos de sair à noite acompanhadas por rapazes precocemente grisalhos com cortes de cabelo espetaculares e com casacos de intlecuais e penso Uau, ver Renoir toronou-se uma coisa sexy, está na moda, as miúdas querem namorar os rapazes que vêem Renoir, é fantástico. 

No meio de uma multidão entro para a sala e continua a chegar mais gente, e mais gente, e alguma coisa me começou a cheirar a esturro. Começo a reparar em caras conhecidas, atores. Atores na cinemateca? Mau sinal. Começo a ver pessoas do meio do cinema português. Uma multidão e parecia que todas as pessoas na sala se conheciam menos eu. O Clube de fãs do Renoir? Não. Afundo-me no assento e é aí que entra em palco alguém que vem entrevistar o senhor realizador... o senhor realizador? Mas ...

Afinal nem todos tinham vindo aprender com o Renoir. Na primeira parte ia passar a curta-metragem portuguesa: Corações Plásticos de Sérgio Brás d'Almeida. Meu deus, que honra, abrir para o Renoir pensei. Fiquei desapontado, mas pronto, não tinham vindo só pelo Renoir, paciência, realmente fazia sentido que o cinema que fala das nossas vidas contemporâneas atraisse mais as pessoas.

Com a Sala Grande tão cheia que ficaram pessoas no chão, veio o senhor realizador e disse "pois, eu não sabia o que fazer quando acabei o curso de cinema, então disseram-me que haviam umas pessoas a ganhar subsídios e que eu devia mandar qualquer coisa para o ICAM e eu mandei e pronto, ganhei o subsídio e foi assim que fiz a minha segunda curta". Valente salva de palmas. Tá fácil pensei eu.

Começou o filme. Contava a história de três casais que estão presos no trânsito numa espécie de futuro ou passado (não se percebe bem) pós-apocalítico fascista em Portugal. Simultâneamente nos três carros, os casais começam a falar de revolução e há sempre um que é revolucionário e um que é conservador. Os atores estão maus, mas para aquela sala são estrelas. A cada linha de diálogo a sala parte-se em risos.

O melhor ator do filme é o apresentador de concursos José Carlos Malato, numa aparição brilhante. A pior de longe é Mónica Calle, diva do teatro português, que parece estar numa tripe de ácidos dramáticos. Quando cada um dos revolucionários dos casais decide sair do carro para fazer alguma coisa (ao mesmo tempo), as portas dos três carros estão trancadas e os casais olham-se como se soubessem que vão morrer. Aí, surgem fora do carro dois homens com uma t-shirt do Rato Mickey e uma caçadeira na mão e matam-nos um a um. A última sobrevivente é Mónica Calle, que sai do carro e salta nos braços de um deles, abraça-o e beija-o e faz com ele sexo no capô do carro. Tudo isto com planos elaboradíssimos, câmaras a rodopiar, efeitos de pós-produção trabalhosos, coisas em animação, coisas caras portanto. No final, os dois assassinos dizem uma piada qualquer sem piada de que não me lembro e o filme acaba. Ouve-se uma enorme salva de palmas. Dir-se-ia que ia entrar na sala alguém com a Palma de Ouro.

E é então que se abate sobre a sala a debandada. Homossexuais histéricos e mulheres com cabelo de top model (brancas com afros, por exemplo) que estavam sentados à minha volta correm para a saída. Os atores correm para a saída. A multidão corre para a saída. Ficaram doze pessoas na sala. Eu contei.

As pessoas mundanas eu ainda percebo, mas nem o Sérgio Brás d'Almeida que devia ter alguma noção das coisas ficou, para aprender. Ele até podia já ter visto o Lá Règle du Jeu dez vezes (obviamente não tinha, porque se tivesse não tinha feito este seu filme), mas só por ele estar a ser exibido já tinha a obrigação de ficar, por respeito, quanto mais quando tinha sido o seu filme a abrir... para o Renoir! Abrir para o Renoir acontece uma vez na vida. Em vez disso, ele deve ter ido para o Bairro Alto celebrar a sua conquista. Não sabia é que estava a celebrar a sua derrota. Pois foi aí, quando a sala já estava em paz, que começou um dos melhores filmes alguma vez feitos.

sábado, 13 de Setembro de 2008

Bairrismo pós-moderno

Hoje fui jantar a um restaurante Chinês na Av. Almirante Reis. Especialidades de Hong-Kong. Conclui que os restaurantes chineses de Massamá são melhores.

Um mundo que nos permite dizer o restaurante chinês do meu bairro é melhor que o do teu, esse sim, é pós-moderno.

O mundo real

Hoje vi uma mulher a arrumar carros. Foi a primeira vez. Foi quase tão inesperado quanto a canção que naquele momento começou a tocar na rádio - Strokes e Eddie Vedder juntos a cantar Mercy Mercy Me do Marvin Gaye. Parecia um episódio da Twillight Zone. Mas não era.

O Mistério dos Olhares

Porque é que no comboio só eu é que olho para as outras pessoas e mais ninguém olha para ninguém? Porque é que, esteja o comboio vazio ou cheio, estão todos a olhar para o infinito ou para o chão e nem sequer para a janela, para a paisagem... ou para mim? Porque é que o meu olhar não se cruza com o de ninguém? Em que está toda a gente tão concentrada?

sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Três coisas que fazem as raparigas menos bonitas

Queria falar deste assunto, mas não sabia como. Primeiro, porque digo menos bonitas já que, claro, dificilmente uma rapariga fica feia. Na verdade, isto é só um desabafo... é só que não aguento mais ir à rua e ver estas modas a propagarem-se. Sinto que há que fazer alguma coisa, para bem do mundo. Mas depois penso quem sou eu para opinar? Talvez não devesse dizer nada. Mas talvez seja por ninguém dizer nada que haja demasiadas pessoas que parecem não ter ninguém para lhes dar bons conselhos, não sei. Foi por isso que resolvi falar. Mesmo que ninguém mude, pelo menos ficam a saber que há rapazes que pensam assim.

Senhoras. Não é assim tão fixe:

* Fumar. Porque é sujo e o cheiro na pele, na roupa e na boca é insuportável. Porque tira saúde. Porque pele de fumadora repele.

* Por pinturas na cara (excepto preto) e nas pestanas. Porque é desagradável quando damos um beijo na cara de uma pessoa e trazemos de volta um decalque simétrico da sua cara na nossa.

* Usar fio dental. Porque além de ficarem a parecer coristas de circo, aquilo simplesmente não é bonito nem harmonioso. Especialmente à mostra no cimo das calças.

Isto são bons conselhos, a sério.

Mais uma pedra

(a quinta)


Rock Bottom Riser


I love my mother
I love my father
I love my sisters, too.
I bought this guitar
To pledge my love
To pledge my love to you.

I am a rock bottom riser
And I owe it all to you
I am a rock bottom riser
And I owe it all to you

I saw a gold ring
At the bottom of the river
Glinting at my foolish heart
So my foolish heart
Had to go diving
Diving, diving, diving
Into the murk

And from the bottom of the river
I looked up for the sun
Which had shattered in the water
And pieces were rained down
Like gold rings
That passed through my hands
As I thrashed and I grabbed
I started rising, rising, rising

I left my mother
I left my father
I left my sisters, too
I left them standing on the banks
And they pulled me out
Of this mighty, mighty, mighty river

I am a rock bottom riser
And I owe it all to you
I am a rock bottom riser
And I owe it all to you

I love my mother
I love my father
I love my sisters, too.
I bought this guitar
To pledge my love
To pledge my love to you


de Bill Callahan

Sou um bocadinho assim. Como não comprei a viola, vou fazendo blogues.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Arrogância e humildade

Às vezes queremos combater a arrogância, mas por não sermos humildes a fazê-lo, somos ainda mais arrogantes.

O dia de hoje

O dia de hoje faz-nos a todos pensar no aniversário dos tristes ataques terroristas à minha terra favorita a seguir a Massamá.

Mas para mim é uma data feliz. Porque traz consigo uma outra comemoração, mais antiga. O aniversário de uma das minhas melhores amigas. Hoje, mesmo que ela não queira, não consigo não olhar para ela como uma irmã. A rapariga que, talvez já não se lembre mas, no dia em que nos tornámos amigos, não me chamava pelo nome e se despediu de mim à sua janela com "adeus rapaz simpático".

Hoje vai ser um dia muito feliz e memorável, como foram todos os 11 de Setembro, em cada um dos quais, todos os meus amigos estiveram reunidos numa certa linda casa, com um lindo quintal, numa linda praceta, ano após ano. E assim vai continuar. Hoje.

A arte da subtileza

Estão na moda as T-Shirts a dizer Multiple Orgasm Donner, Female Body Inspector ou até Playboy (com aqueles dois bonequinhos de semáfero e espreitarem entre as pernas uns dos outros). Mais do que serem uma catástrofe por não terem piada, falta-lhes inteligência e graciosidade.

Há uns meses atrás, estava eu a almoçar no Osaka, o restaurante japonês de Massamá (ao almoço é mais barato), quando entra um casal em que o rapaz tem escrito no peito FBI - Female Body Inspector. Fiquei em choque ao ver que havia pessoas tão desesperadas ao ponto de namorarem com um rapaz que use uma veste daquelas. Mas depois puz-me a pensar e faz perfeito sentido.

É óbvio que a namorada do rapaz que tem uma T-Shirt em que insinua que vai para a cama com muitas mulheres, só o deixa usar aquela roupa como uma mãe deixa um filho usar uma T-Shirt do Dragon Ball. Porque sabe que justamente ele não vai para a cama com muitas mulheres. Pelo contrário. Em primeiro lugar porque basta usar uma T-Shirt daquelas para isso não acontecer. Em segundo, porque mesmo que ele fosse para a cama com muitas mulheres, é óbvio que a última coisa que ia fazer era escrever isso numa T-Shirt e usá-la em frente à namorada. Ninguém é tão estúpido assim, nem mesmo estes gajos.

Assim, o que aquelas T-Shirts dizem é exatamente o contrário daquilo que está escrito.


O que estes rapazes não sabem, é que, se fosse esse o seu objectivo, a arte de viver seria ter muitas namoradas e ninguém saber. Dar orgasmos múltiplos e não falar disso. E continuar a dá-los, sem dizer uma única palavra sobre isso a ninguém.

Se se usa uma T-Shirt dessas como se fosse uma faixa de campeão, é porque para essa pessoa, ser um playboy é um feito extraordinário. Ora para quem é playboy, isso não é um feito extraordinário. Quem é Playboy, é playboy. Para eles é natural.

Para o Mourinho é natural ganhar a Liga dos Campeões. No dia em que ele usasse uma T-Shirt a dizê-lo era porque tinha deixado de ser.

É só a sensação que me dá.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Mais uma pedra

(a quarta)

Pedra roliça não cria bolor
.

Ditado popular.


Parece ser impossível escapar à Vida. Seja pela mão sublime do Homem seja através da conquista pelos doces musgos. Os resultados é que são diferentes.

A astúcia ou a ingenuidade?

O que atrai mais? Astúcia ou ingenuidade?

Sobre a solidez, a solidão e a Arte

Será que a Arte para ser grande não pode ser demasiado inteligente, se sendo, a maioria das pessoas não a percebe?

Será que não pode ser demasiado perfeita, como as pessoas sem defeitos, por quem não nos conseguimos apaixonar?

terça-feira, 9 de Setembro de 2008

A propósito da solidez e solidão vem-me à cabeça a frase do Almada Negreiros

"Um povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades"


Portugal, um povo para ser amado.
(talvez um bom slogan turístico)

Sobre a solidez e a solidão

Ser perfeito é um luxo. Podemos escolher o defeito que queremos ter, na medida em que é fundamental ter um. Talvez por segurança mais do que um, para ter uns de reserva.

Talvez quem seja mesmo perfeito escolha o defeito de gostar de estar sozinho.

Solidez e Solidão

Ser sólido é ser só. Quem não tem falhas não tem dependências. Quem não tem dependâncias fica sozinho.

A origem das palavras ensina-nos tudo o que precisamos saber para viver.

Fazer grande Arte é um gesto pacifista

Toda a Arte aproxima e afasta.

Aproxima entre si os que gostam dela e afasta os que não gostam.

Mas a grande Arte é justa.

A grande música junta as pessoas em recintos enormes. Os grandes filmes unem pessoas de todo o mundo num só sentimento. Os grandes quadros enchem o peito de milhões de pessoas com uma visão do mundo. Os grandes livros fazem-nos crescer unidos a todos os que os leram. As grandes obras de arquitetura fazem-nos viajar quilómetros para estarmos unidos a elas e a todos os que já as viram.

Ninguém pode ser inimigo de outra pessoa se ambos gostarem de António Variações.
Ninguém pode dizer que não gosta de alguém com quem consiga ter uma conversa profunda sobre o Van Gogh.
Ninguém pode continuar a discutir com outra pessoa se ambos gostarem do Tarantino e o Pulp Fiction estiver a dar na televisão.
Ninguém se zanga dentro de uma casa do Frank Lloyd Wright, a não ser que esteja lá contrariado.
Ninguém anda a porrada com outro se tiverem os dois na mão o Catcher in the Rye do Salinger.

Mesmo que, na pior das hipóteses, só as elites tenham acesso à cultura, estarão de mãos dadas, e enquanto o povo tiver uma cultura popular, estará também. E é aí que aquela grande Arte popular, tão popular que agora se chama só Pop, vem salvar o mundo.

Ao som de uma canção igual, todos dançam diferentes e a grande Arte aproxima os povos.

Quantas pessoas a menos se teriam apaixonado se não existisse o Chico Buarque?

Lusofonia I

Onde ser português é ser a larva, ser lusófono é ser a borboleta.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

Histórias do Verão I

Três rapazes viajam num carro e três raparigas noutro. Estamos na auto-estrada. Somos amigos e regressamos de viagem. Assim distribuídos nos carros pelas óbvias conjunturas da vida.

Elas vão à frente, dizem que sabem um caminho melhor para chegar onde queremos chegar. Sente-se a ânsia da liderança.

A paisagem linda, verde e azul, continua a mudar. Passa uma hora assim.

A certa altura, Bruno (vamos continuar a chamar-lhe assim) diz-me "acelera aí, bora mandar-lhes beijinhos pela janela". Acelerámos, felizes.

Imediatamente, pressentindo a perda da liderança, o carro feminino arranca estrada fora numa fuga inesperada. Com o coração romântico surpreendido, acelero mais, mas elas fazem o mesmo. E a cada metro que ganho elas ganham também. Picanço. Começa a ficar perigoso.

Abrando.

Não houve beijinhos para ninguém.


As raparigas estão a ir rápido de mais. Ou os rapazes estão mais lentos. O amor está mais difícil.

Dedicado ao Bruno (não se chama assim, mas ele sabe quem é).

O que eu sei acerca da verdade

Que a verdade é neutra como uma pedra.

Que chegar à sabedoria absoluta é ser capaz de compreender como todas as coisas co-existem (como a esquerda e a direita).

Que se é mais sábio quanto mais coisas conhecemos, mas sobretudo quando conseguimos compará-las e compreender todas no conjunto umas com as outras, compreendendo que há razão (razões) em todas as partes.

Que compreender é perceber o equilíbrio.

Que a verdade é esse equilíbrio.

E que ninguém tem toda a razão. O todo tem toda a razão.

A Av. Almirante Reis parece o Fallout

Passo lá diariamente agora e, ou eu sou um Nazi por dizer isto, ou então é mesmo o Fallout que é o melhor jogo de computador de sempre.

PS: Não mostro aqui porque há coisas que não se fotografam. Especialmente se nos roubam a câmara a seguir.

domingo, 7 de Setembro de 2008

Uma entrevista a um homem estátua

Ligo a televisão na Sic Notícias e testemunho, em direto (acordo ortográfico) da rua, o mais fabuloso jornalismo de vanguarda.

Como é difícil continuar a ser um homem estátua quando se está a ser entrevistado.

É este o paradoxo do cinema documental. A destruição do objeto (acordo ortográfico). Uma coisa é certa, não é assim que se chega à Verdade. Assim faz-se parte dela sem se saber.

Sem medo da auto-crítica

Manuela Fereira Leite disse hoje que Há desilusão onde deveria haver esperança.

Uma canção sobre a salvação do mundo (o amor entre a esquerda e a direita)

(ver posts anteriores)

Conto de Fadas de Sintra a Lisboa

Ele era um cavalheiro
Todo ele transpirava elegância
Ela era gata borralheira
Tivera que limpar a sua infância

Ele velejava no verão
E esquiava no inverno
Ela trabalhava ao balcão
De um qualquer estabelecimento moderno

Ele gostava de reluzir em si
O estilo da capital
Ela já não conseguia distinguir as cores
Da bandeira nacional

Ele tinha entre os seus títulos
Uma futura ordem do infante
Ela achava o levantar do dedo mindinho
Algo deselegante

Mas ele um dia curvou-se a seus pés

E ela passou a ocupar o tempo
A descobrir o que era a cultura
E ele confinou-se aos seus aposentos
E descobriu a costura

Ela quis vir a entender o universo
E começou a ler Platão
E ele resolveu perceber o que era a justiça
Em frente à televisão

A ele de nada lhe valeu a aparência
Nem a casa no largo do rato
Porque ela sabia que era Cinderela
E enganou-o com um sapato

Ele que um dia fora príncipe
Agora rendia-se à evidência
Com mulheres que calçam o quarenta
É melhor revelar prudência

Hoje ele ainda beija os seus pés.

Os Pontos Negros, uma banda com um nome genial, numa canção que, quase como mais nenhuma hoje em Portugal, fala dos dias de hoje e da vida e, logo, está mais perto da Verdade. É ainda só ter lido o título e já pensar "mas isto sou eu!".

Três vivas a Queluz.
Uma salva de palmas ao Jónatas, Lipe, Silas e David.

sábado, 6 de Setembro de 2008

A propósito do futebol e da salvação do mundo

(ver posts anteriores)

Apesar de tudo, o futebol acaba por ser um campo que propicia uma estranha interação entre a direita e a esquerda. Interessante que isto aconteça apenas numa área em que a formação de grupos obedece a regras ilógicas ou próximas da teoria do caos. Afinal o futebol tem qualidades. Lá está, não podem haver bandeiras, nada é absoluto. Ou tudo é.

Três vivas à ilógica.

Mais uma pedra

(a terceira)

O primeiro comentário que recebi aqui, da minha maravilhosa amiga que sabe quem é, que merece ascender a post:

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta;
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra; lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


por João Cabral de Melo Neto

Odeio futebol

É verdade. Raramente me apanham a falar no assunto.

A exceção (acordo ortográfico?) aberta hoje deve-se a ter descoberto que este ódio que me veio do berço (o meu pai não cuidava de mim recém-nascido porque estava a ver o Mundial de 86) talvez me tenha sido ainda mais proveitoso que pensava.

Ajudou-me, decerto, a ter mais tempo para coisas enriquecedoras. Mas mais, ajudou-me a perceber que uma das coisas que nos empobrece mais, nos corta ao meio e formata, são os clubes e as bandeiras da vida. Talvez por nunca ter treinado esse músculo do seguidismo, eu veja coisas boas na esquerda e na direita, nos religiosos e nos ateus.

Graças à indiferença desportiva, consegui perceber que grandes são o Cristiano Ronaldo, ou o Mourinho (o meu único verdadeiro ídolo no futebol) e não as camisolas coloridas com emblemas com passarinhos, seres mitológicos ou animais da selva.

Assim, a melhor equipa é a composta pelos melhores de cada uma. É que há qualidades em todos os lados.

Mas é aqui que me apercebo: formada a super equipa, não haveria ninguém à altura de a defrontar.

E então surge-se-me a solução da questão: além do sentimento de pertença, o ser humano precisa é do confronto.

A excelência interessa a poucos. Falta-lhe paixão. É por isso que quando vemos o Mourinho ou o Cristiano dá a sensação que eles não são bem humanos.

Quem dera houvesse políticos e artistas assim em Portugal.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

O tal calor humano

Há mulheres cujo calor me faz sentir um chá.

Coisa boa #2

Descobrir que a roupa que a minha mãe encontrou na arrecadação ou no armário, que era do meu pai quando ele tinha a minha idade e que fora cozida pelo meu avô e avó da parte da mãe, me servem, e depois olhar para o meu irmão mais novo e ver que ele está a usar roupa que, antes de ser dele, já foi minha.

A Família.

N'O livro das coisas boas

A propósito do amor entre a esquerda e a direita

Os opostos atraem-se, já sabemos. Ontem apercebi-me até que ponto. A maioria das pessoas reais que conheço estão apaixonadas por pessoas que não existem.

A solução para a salvação do mundo

É um lugar comum dizer que as pessoas de direita precisam de amor. Mas é verdade. A maioria das pessoas de direita que conheço estão carentes. Por outro lado, as pessoas de esquerda têm demasiado e ilógico amor para dar e não sabem o que fazer com ele. A salvação do mundo é que as pessoas de esquerda façam amor com as pessoas de direita.

quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

O triunfo da amizade

Um conselho para os homens do século XXI. Uma das coisas mais maravilhosas da vida é ter uma grande amizade com as raparigas por quem já estivemos apaixonados. Se elas forem amigas entre si, melhor ainda. É deliciosamente incrível viver as coisas da vida com elas, diariamente, como amigo.

É o mais próximo de um harém que é possível ter sem todas as coisas más de um harém.

Isto não é um comentário machista. É um comentário de amor, de alguém que ama umas quantas pessoas que conheceu ao longo da vida e não se quer desfazer delas. Os homens e as mulheres tem o dever de proteger e oferecer amor a quem amam. A amizade não é isso? É só o que faço. Na sociedade que tenta controlar os impulsos sexuais poligâmicos, para destruir o amor livre ainda há muito por fazer.

E fazer isto é ser um Homem. Chega de homenzinhos (elogio das mães e avós portuguesas aos filhos, com que alguns homenzinhos ficam satisfeitos).

Este post é uma homenagem às mulheres, que são os seres mais extraordinários da terra.

Coisa boa #1

Molhar os pés na água salgada do mar na praia da Costa da Caparica no fim de uma tarde no fim de Setembro, quando as pessoas já não vão à praia mas ainda é Verão por isso tenho a praia só para mim, com as gaivotas com os seus cânticos, os pescadores e o seu peixe como companhia.

A Praia.

N'O Livro das Coisas Boas

quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Mais uma pedra

A tragédia da nossa época é que toda a gente diz a verdade. Quão melhor seria se todos mentissem e as pedras dissessem a verdade.

Disse Søren Kierkegaard.
Agradecimentos ao Tiago Guillul.

Sobre a temática das pedras

O meu nome é pedro e as pedras dizem-me muito.

O casamento

Esta semana, pela primeira vez na minha vida, um amigo meu vai casar. Vamos chamar-lhe Sebastião. Tem 26 anos (mas não parece. Sorri como quem não tem mais de 24).

Trago este tema à conversa com os meus dois melhores amigos, que não o conhecem. Vamos chamar-lhes Bruno e Ricardo. Nascemos os três em 1986 e até Dezembro teremos os três 22 anos. Conhecemo-nos há 15.

Digo-lhes que ainda não consigo acreditar que o Sebastião se vá casar. Não porque ache mal (acho lindo), mas porque é tão corajoso. Mas eles acham bastante normal. O Ricardo reconhece que quando encontrar a pessoa certa, também deseja casar-se e ter filhos. Foi assim que na família dele sempre se assumiu uma relação. Mas o Bruno não. Sim, ele quer ter filhos, pelo menos imagina-se a imaginar isso, mas não a casar, sob circunstância alguma.

E é aí que o Bruno nos conta que se lembra do dia em que, na pré-primária - com 5 anos - o Ricardo que hoje defende o casamento lhe disse, no pátio enquanto brincavam, com toda a força das certezas puras "nunca me vou casar" e do choque que aquela revelação nele provocou e que o marcou para toda a vida, como se até aí não soubesse que isso era possível. Esta memória é talvez hoje o alicerce para a falta de sentido que Bruno vê em casar.

Mas a questão que se põe é: qual dos dois Ricardos sabe mais? O de 5 anos, livre de convenções sociais, ou o de 22, conformado com a educação que teve?

Para mim, casou e cansou ainda são palavras demasiado parecidas. Em casa estão tanto uns quanto os outros e eu gosto é de andar na rua.

Dar-vos uma pedra


Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra

Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!


Original de Carlos Edmundo de Ory, na versão portuguesa de Herberto Hélder