quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Vamos petiscar

Começou hoje em Lisboa o Super Bock em Stock. Pela primeira vez em Portugal, um festival de grande dimensão baseia-se no novíssimo e inovador conceito de, durante dois dias, ter cinco salas com concertos sem parar e em simultâneo, com o espectador a pagar um bilhete único e a ter a grande vantagem proporcionada pela organização, de poder ver (cito) Quatro ou cinco canções de cada banda e ir rodando por todos os palcos.

Ora isto é de facto uma grande vantagem se os concertos forem maus. Pela primeira vez, a organização de um evento tem a visão (e tiro-lhes sinceramente o chapéu por terem percebido o público contemporâneo) de perceber que o mundo de hoje em dia se baseia em provar. Provar daqui, provar dali, dizer Mnham, este David Fonseca é ótimo, vamos embora, hummm, este Rui Reininho também é engraçado, vamos embora, haaa, que porreiros estes Pontos Negros, chau.

Basicamente agora vai-se a concertos como se ouvem mp3 em casa. Não se ouve nada a sério. Vai-se ouvindo. Conhece-se umas músicas. É a geração do Olha esta canção tão gira mas não tenho paciência para as outras. Este estilo de festival premia, portanto, as bandas de duas ou três canções boas. Espero sinceramente que na edição do próximo ano em vez de no cartaz virem apenas as horas a que cada banda toca em simultâneo, venha também a hora a que tocam a sua melhor canção, ou o single, e que isso seja concertado de forma a que nunca seja à mesma hora, sempre a horas diferentes, para que dê para o espectador apanhar todos os singles ou melhores canções de todas, já que não dá para ver mais que isso.

Mas este festival não é só isto. É muito bom porque se a pessoa estiver a gostar pode ficar, se não estiver pode ir-se embora. GENIAL! Então agora posso pagar para ir a concertos maus e tenho a vantagem de me ir embora?! Espetacular.

Sejamos sérios. Claro que este conceito de festival é para pessoas que não gostam de todas as bandas que lá estão, ou gostam mais de umas e menos de outras e só irão aos concertos daquelas de que gostam. Então para quê pagar por bandas que não se vai ver porque não se gosta?? Ou que não se gosta realmente? E 40 euros? É que um bilhete para uma banda da qual se gosta realmente custa 25, 30 euros (está bem, se for brasileiro sabe-se lá porquê custa sempre 50)

Acho que estamos a chegar ao cerne da questão. As pessoas que se identificam com este conceito de festival não gostam das bandas. Gostam é de saltitar. É que quando eu gosto de uma banda, gosto de ver o seu espetáculo de uma ponta à outra e de berrar e chorar baba e ranho por mais. Gosto de berrar por um encore, gosto de não ouvir mais nada nesse dia e ir para casa a cantar, quando chego pôr todos os discos a tocar em cadeia e ficar o próximo mês a sonhar com aquela noite mágica.

Imaginemos um festival com concertos em simultâneo do Leonard Cohen, do Jeff Buckley (eu sei que infelizmente já não é vivo, é só um exemplo já que todos os artistas que admiramos morrerão um dia), do Bob Dylan, do Chico Buarque, do Caetano Veloso e do Morrissey. Isto passa pela cabeça de alguém? Poderia passar, são tudo artistas tãaaaao diferentes! Pelo menos o Dylan, o Caetano e o Morrissey são. Porque não pô-los todos ao mesmo tempo? Sabem porquê? Porque são todos mesmo bons.

Está bem, digam-me que, além de os gostos variarem, há espaço na vida para concertos muito bons e para concertos só bons, ou médios. Concertos muito sérios e concertos just for fun (excepcionalmente uso uma expressão em inglês porque identifico o tipo de pessoas que a usam com a superficialidade que ela contém). Mas porque há de ser assim? Porque é que eu hei de ir a um conerto assim assim? É que os artistas que adoramos vão todos morrer um dia, como o Jeff Buckley... Podem estar a morrer agora, enquanto eu estou a esrever este post... E o dinheiro não é infinito, nem o tempo (que é dinheiro), por isso não dá para irmos a todos! Para quê ir a concertos medianos só por ir? Só para ver quatro ou cinco canções?

Eu sei porque é. É porque vivemos numa cultura em que as pessoas não têm paciência nem se esforçam para nada que lhes dê prazer, em que o que é um bocadinho difícil de gostar, não é gostável, em que o que implica dedicação, esforço (como ficar 6 horas a ver concertos maus para guardar um lugar à frente para ver o Bob Dylan a quinze metros de nós e com os nossos próprios olhos, não em ecrãs (só um à parte - qualquer dia fazem-se festivais de verão em que são actores a fazer de músicos e põe-se a passar um DVD dos músicos ao vivo no ecrã gigante e ninguém nota a diferença)) não vale a pena, em que não se cultiva um gosto artístico, uma cultura em que as pessoas não gostam realmente de nada nem de ninguém porquê dá trabalhoooo.

Como no sexo. Vivemos numa cultura de rapidinhas. De quecas fernéticas de mudar de um para outro parceiro para experimentar, experimentar, experimentar sabe-se lá o quê, talvez a estupidez de quem vive assim, ou talvez experimentar a vida. E porquê experimentar a vida? Porque não vivê-la? Eu pessoalmente - assumo, é uma questão de gosto como na música, admito - não gosto de rapidinhas. Gosto de disfrutar, de saborear, gosto de me apaixonar por uma pessoa com quem me estou a partilhar (sim, a mim!), gosto de degostar do acto de conhecer a pessoa - delicadamente, lentamente, com tempo, sem pressas - gosto de a saborear, gosto de a ter sempre ao meu lado e chorar quando não está. Não gosto de experimentar - voltando à expressão inicial, de provar, nem de deitar fora. Especialmente porque deitar uma coisa fora gera lixo e o lixo é o grande problema do Séc. XXI.

E como sou no sexo sou na Arte. Quando eu gosto de uma coisa, eu gosto dela arrebatadoramente, loucamente, incondicionalmente, até ao limite de mim próprio. Gosto de comprar todos os DVDs, todos os livros, todos os discos (eu ainda compro discos pessoal dos mp3 que quando o computador se avaria e ficam sem toda a sua música para ouvir nem dão conta porque não gostam realmente de música!), ver todas as exposições, etc. Como quando gosto de uma mulher gosto mesmo dela.

Podem ainda dizer-me Mas pode-se gostar muito de umas coisas e menos de outras, comer muito de umas e só provar de outras. Sim, pode-se. Mas qual é o interesse? Qual é o interesse se se pode estar sempre a comer coisas espectaculares? Qual é o interesse de comer uma fatia de uma pizza do Pizza Hut se se pode comer uma do melhor restaurante italiano de Lisboa? É que neste caso o preço não é assim tão diferente. 40 euros é muito dinheiro para petiscar, é o que eu vos digo.

Para terminar, este festival faz outra coisa espectacular. Como está tudo a acontecer ao mesmo tempo, cada crítico também só ouve Quatro ou cinco canções. Assim, todos os concertos podem ter sido uma merda, que a organização e o artista podem sempre afirmar Ahh, que pena, só ouviste a pior parte do concerto. Antevê-se, portanto, um sucesso na crítica.

Esta é a primeira edição de um festival que vai continuar entre nós por muitos e longos anos.

7 comentários:

Joana dos Espíritos disse...

Nem sei por onde começar a comentar - consigo concordar e tenho vontade de gritar CONCORDO PLENAMENTE com todas as palavras deste texto. E também não fui ao rodízio de bandas.

O Homem Terra disse...

Ahahaha, rodízio de bandas é muito bom!

Já somos dois então

Também achas né? Começava a pensar ser o único :) hoje perguntaram-me se não vou lá umas quinze vezes.

Joana dos Espíritos disse...

Por acaso ainda não tinha conversado sobre o assunto com os meus amigos mas sei que quase nenhum foi, provavelmente por causa dos euros...

Almirante disse...

Eu gosto mesmo é de fast-food. Isto não é petiscar, tens a possibilidade de ver os concertos do início ao fim sempre. E é como dizes, se estiver a ser mau vou para outro, ora isso é algo que ninguém consegue fazer quando compra um bilhete para um concerto só. A concorrência só faz bem, na cultura não é excepção. Quanto ao preço, é normal. Os concertos na Aula Magna custam 23 e muitas vezes só vês um concerto. Ok, não há encores, mas eu vi quatro concertos completos e espreitei mais dois ou três, é justo.

O Homem Terra disse...

Mas claro almirante! A minha crítica não era ao festival em si, mas às pessoas que não levam o gostar das coisas, neste caso, a música, à séria, que de forma nenhuma equivale a todas as que foram ao Super Bock em Stock, só a algumas.

Eu sei bem que tu és dos que levas a música a sério, e de que maneira. Da melhor maneira acho :)

Tenho muitos outros amigos que também foram ao Super Bock em Stock, e sei que eles gostam da música que foram ver - viram os concertos que queriam inteiros, etc.

É mesmo aó uma questão da atitude com que se encara as coisas.

Eu talvez tivesse gostado de mais concertos, mas só pude ver o do João Coração, que foi extraordinário.

Houve uma rapariga que depois do concerto disse que só viu a última canção e que achava que tinha sido o melhor momento do festival. Para mim foi. Era fixe que mais gente tivesse podido vê-lo.

Maria disse...

Também não sou fã de quecas frenéticas, mas adoro aqueles menus de degustação com vinte minúsculos pratos diferentes. Suponho que não haja uma regra. Ou então pode haver a regra de que se pode tirar algum prazer dessas provas, mas nunca vir a amar o que se prova se não lhe dermos tempo e atenção. Acho que só se pode amar o que se conhece (não quero dizer com isto saber tudo e perceber tudo acerca de alguma coisa). Para se querer amar é preciso um prazer inicial, mas ele não pode ter valor se não se tornar amor. A prova pode levar ao prazer, o prazer pode levar a querer mais e com isso pode chegar o amor. Embora ele também chegue de outras formas. Mas já não é disso que se está a falar :)

Maria disse...

Se calhar o problema é que na cultura em que vivemos as pessoas acham que o prazer pode fazê-las felizes, mas só o amor é que faz isso.