domingo, 14 de setembro de 2008

Era uma vez, na Cinemateca

Há pouco tempo ia no carro e começa na rádio uma rubrica sobre Cinema. A certa altura, já não me lembro sobre que filme da semana, o crítico da estação diz que o filme tem bons planos de realização. Logo depois de evitar o desastre de automóvel que ia tendo, retomo a marcha e fico a perguntar-me porque se sabe tão pouco sobre Cinema em Portugal.

Como a resposta a isto do ponto de vista histórico ocuparia demasiado tempo para poucos frutos - o passado já passou, não podemos mudá-lo - prefiro contar uma história que exemplifica bem porque em Portugal se continua a saber tão pouco sobre Cinema.

Há uns meses atrás fui à Cinemateca ver o La Règle du Jeu do Jean Renoir.
Chego, e em vez do vazio que esperava, encontro uma multidão à porta, um corredor cheio, filas para os bilhetes quase até à sala. Fiquei feliz e pensei o Jean Renoir tem o respeito que merece. Num clima de festa à minha volta, espero a minha vez para comprar o bilhete. Há muita alegria no ar, muitos casais, muitos grupos - vejo mulheres com vestidos bonitos de sair à noite acompanhadas por rapazes precocemente grisalhos com cortes de cabelo espetaculares e com casacos de intlecuais e penso Uau, ver Renoir toronou-se uma coisa sexy, está na moda, as miúdas querem namorar os rapazes que vêem Renoir, é fantástico. 

No meio de uma multidão entro para a sala e continua a chegar mais gente, e mais gente, e alguma coisa me começou a cheirar a esturro. Começo a reparar em caras conhecidas, atores. Atores na cinemateca? Mau sinal. Começo a ver pessoas do meio do cinema português. Uma multidão e parecia que todas as pessoas na sala se conheciam menos eu. O Clube de fãs do Renoir? Não. Afundo-me no assento e é aí que entra em palco alguém que vem entrevistar o senhor realizador... o senhor realizador? Mas ...

Afinal nem todos tinham vindo aprender com o Renoir. Na primeira parte ia passar a curta-metragem portuguesa: Corações Plásticos de Sérgio Brás d'Almeida. Meu deus, que honra, abrir para o Renoir pensei. Fiquei desapontado, mas pronto, não tinham vindo só pelo Renoir, paciência, realmente fazia sentido que o cinema que fala das nossas vidas contemporâneas atraisse mais as pessoas.

Com a Sala Grande tão cheia que ficaram pessoas no chão, veio o senhor realizador e disse "pois, eu não sabia o que fazer quando acabei o curso de cinema, então disseram-me que haviam umas pessoas a ganhar subsídios e que eu devia mandar qualquer coisa para o ICAM e eu mandei e pronto, ganhei o subsídio e foi assim que fiz a minha segunda curta". Valente salva de palmas. Tá fácil pensei eu.

Começou o filme. Contava a história de três casais que estão presos no trânsito numa espécie de futuro ou passado (não se percebe bem) pós-apocalítico fascista em Portugal. Simultâneamente nos três carros, os casais começam a falar de revolução e há sempre um que é revolucionário e um que é conservador. Os atores estão maus, mas para aquela sala são estrelas. A cada linha de diálogo a sala parte-se em risos.

O melhor ator do filme é o apresentador de concursos José Carlos Malato, numa aparição brilhante. A pior de longe é Mónica Calle, diva do teatro português, que parece estar numa tripe de ácidos dramáticos. Quando cada um dos revolucionários dos casais decide sair do carro para fazer alguma coisa (ao mesmo tempo), as portas dos três carros estão trancadas e os casais olham-se como se soubessem que vão morrer. Aí, surgem fora do carro dois homens com uma t-shirt do Rato Mickey e uma caçadeira na mão e matam-nos um a um. A última sobrevivente é Mónica Calle, que sai do carro e salta nos braços de um deles, abraça-o e beija-o e faz com ele sexo no capô do carro. Tudo isto com planos elaboradíssimos, câmaras a rodopiar, efeitos de pós-produção trabalhosos, coisas em animação, coisas caras portanto. No final, os dois assassinos dizem uma piada qualquer sem piada de que não me lembro e o filme acaba. Ouve-se uma enorme salva de palmas. Dir-se-ia que ia entrar na sala alguém com a Palma de Ouro.

E é então que se abate sobre a sala a debandada. Homossexuais histéricos e mulheres com cabelo de top model (brancas com afros, por exemplo) que estavam sentados à minha volta correm para a saída. Os atores correm para a saída. A multidão corre para a saída. Ficaram doze pessoas na sala. Eu contei.

As pessoas mundanas eu ainda percebo, mas nem o Sérgio Brás d'Almeida que devia ter alguma noção das coisas ficou, para aprender. Ele até podia já ter visto o Lá Règle du Jeu dez vezes (obviamente não tinha, porque se tivesse não tinha feito este seu filme), mas só por ele estar a ser exibido já tinha a obrigação de ficar, por respeito, quanto mais quando tinha sido o seu filme a abrir... para o Renoir! Abrir para o Renoir acontece uma vez na vida. Em vez disso, ele deve ter ido para o Bairro Alto celebrar a sua conquista. Não sabia é que estava a celebrar a sua derrota. Pois foi aí, quando a sala já estava em paz, que começou um dos melhores filmes alguma vez feitos.

9 comentários:

Jo� disse...

Muito, bom! faz-me lembrar o episódio da corrida de cavlos dos Maias. facilmente estala o verniz da civilização.

tens de me dar a conhecer esse filme (o do Renoir, claro está.

Jo� disse...

Li outra vez este post (estou a começar a dominar a terminologia). está delicioso, é o meu preferido, acho eu.

Jo� disse...

Não resisti a partilhar este post com a minha mãe (que, assinale-se, devora literatura de forma insaciável). li-o pela p`rai 4 vez com ela, que se foi descosendo a miúde de umas exalações nasais indusidas pelas tuas piadas.
-sim senhor.
-está bom, não está?
-está bom.

Jo� disse...

só estou a fazer o dispara-te de comentar várias vezes este post porque acho que merece mais de um comentário. assim pode ser que chame a atenção à malta que se assustou com o tamanho da cena hmm tem quatro reacções, deixa lá espreitar.

Jo� disse...

acabei de declamar o teu post ao Miguel (que entretanto já adicionou o teu blogue aos favoritos). também curtiu, está claro.
-mas isso aconteceu mesmo?!?!

O Homem Terra disse...

Ahahahaha, és o maior. Obrigado! Que coisas fixes. Os meus cumprimentos à tua mãe. É fixe saber que as pessoas gostam.
Qual miguel? Podes dizer-lhe que aconteceu mesmo.

Jo� disse...

o miguel dos escuteiros. respondi-lhe na altura que sim.

na me parece disse...

Acho que as pessoas que vêm ler o blogue d'o homem terra sabem que tudo é para ser lido e desfrutado.
Quem o conhece sabe bem que vale a pena.

O Homem Terra disse...

Bem, isso é que é um elogio e pêras na me parece!

Obrigado! É um presente para vocês.