quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Escola da vida

Esta noite estava a sonhar mas não sabia. Estava numa sala de aula de escola preparatória muito grande, com as mesas dispostas em quadrado. Via-se pelas janelas que era de madrugada, ainda de noite, como quando íamos para a escola muito cedo. Estava frio e quando falávamos, a nossa respiração via-se no ar. Olhei melhor à minha volta. Iluminados por uma luz que era metade da noite, metade dos candeeiros da sala (estranhamente laranja), estavam na sala colegas meus da universidade, aqueles que gostei mais de conhecer. Na outra ponta da sala estava o Ricardo - o meu melhor amigo, que foi da minha turma do 5º ao 12º ano. Olhámos um para o outro como quem diz esta stôra é mesmo otária sempre a separar-nos para não conversarmos na aula. E aí surge a professora. No início parece-me uma professora igual às outras, mas depois olho bem para ela e é novíssima, apesar de ser mais alta que nós. Mesmo à minha frente está o irmão do Ricardo, que é dois anos mais novo que nós e nunca foi da nossa turma.

A professora começa, um a um, a fazer perguntas a todos os que estão na sala. Todas as perguntas são diferentes e são uma espécie de charada filosófica adaptada a cada um de nós e que põe em causa todas as falhas da nossa personalidade. Aos rebeldes pergunta porque são rebeldes, aos armados em intelectuais arranja uma maneira de expor como na verdade não sabem nada. Que professora espetacular penso eu.

Então olho melhor para ver quem são as outras pessoas que ali estão e descubro que a sala está cheia com todos os meus amigos, todos sentados nas secretárias. Toda a turma eram amigos meus de todas as fases da minha vida. Juntos, na mesma sala. Todos os amigos que se possa imaginar. E ao meu lado está, vestida com uma camisola verde e branca que ela tinha praí no 10º ano, a minha amiga a quem vamos chamar Marta, que foi da minha turma do 7º ano ao 12º e com quem, juntamente com o Ricardo, formávamos na vida real o triâmgulo das pessoas mais especiais da turma. A Marta e o Ricardo foram das pessoas mais importantes para mim durante muito tempo. Mesmo ao lado da Marta, está outra amiga a quem vamos chamar Madalena, que nunca foi da minha turma, mas que é muito minha amiga e que, se hoje é magrinha, já foi gorda. Ali na sala estava gorda outra vez, mas isso não parecia estranho. O que pareceu estranho foi a Marta ter sacado de um cigarro da mala e ter começado a fumar dentro da sala. Até porque ela não fuma. Nesse momento, o irmão do Ricardo - vamos chamar-lhe Rui - sacou também de um cigarro e começou a fumar também, divertido com a irreverência.

A professora viu e o Rui apagou logo o cigarro, mas a Marta não. A Marta continuava a fumar tipo Femme Fatal, a olhar para a stôra. Então a professora disse-nos aos três se querem fumar fumem lá fora, que esta sala é grande e faz muito fumo lá para fora (a resposta não tem lógica nenhuma eu sei, mas isto é um sonho). A Marta percebeu que isto era uma maneira de a mandar para a rua e saiu, com toda a turma a olhar para ela e a dar risinhos com a mão à frente da boca. Eu levantei a mão para ela e demos mais cinco (um hi5, tão a ver?) em sinal de vitória e rimo-nos.

O Ricardo na outra ponta riu-se para nós, levantámo-nos eu e ele, e fomos com ela para a rua.


Acordei de sobressalto com uma felicidade tão enorme e nem sabia bem porquê. Pela primeira vez na vida acordei com o oposto de um pesadelo. Acordar por felicidade. Acordar a rir. Era de madrugada e o primeiro pensamento foi ainda bem que acordei porque vou para a escola ter com os meus amigos. Lembram-se quando ir para a escola, ou para a universidade, era uma excitação por encontrarmos lá as pessoas de quem gostamos? Alguma vez tiveram isso? Então imaginem a sensação de uma escola onde estão todas as pessoas de quem gostamos. Então percebi que já não ando na escola, e que já acabei as aulas na universidade. Nunca mais vou ter a sensação de ir para um sítio que tem centenas de pessoas que não conhecemos mas que podemos conhecer - a sensação de todos os dias encontrar pessoas novas. No mundo do trabalho há meia dúzia de pessoas num escritório e já as conhecemos todas. Então senti uma coisa do género nunca mais vou ver os meus amigos. Só que pensei melhor, e percebi que já não sou colega deles na escola, mas sou agora uma coisa muito maior. Sou amigo deles. Colega deles na vida. Tenho-os sempre que quiser. Não só na escola, nem sequer os nossos pais têm de autorizar para eles virem a nossa casa. Pensei a vida é genial.

Peguei no telemóvel. Tinha uma mensagem. Era da Marta. A pedir-me para a ajudar com um trabalho da universidade. Incrível, isto já era realidade! A última oportunidade que terei de fazer um trabalho para a escola com ela. Disse-lhe que a vou ajudar com todas as forças que tenha.


Nos últimos dias tenho conversado muito com uma certa pessoa que é da opinião que todas as amizades são por interesse. Umas por interesse sexual outras por interesses de carreira, ou económicos. E eu não acho. Mas com este sonho tive a certeza. Não havia qualquer interesse neste sonho.

Este post é dedicado a todos os meus amigos. Adoro-vos.

6 comentários:

Jo� disse...

Bonito.
esse tipo até tem a sua razão, se não tiver interesse em estar contigo isso não vai acontecer. só que há mais interesses, e muito mais urgentes. precisamos de gente com quem sentir empatia. agora tenho o meu cão a arranhar-me o braço (não me deixa escrever) porque quero ir à rua. amo o meu cão profundamente, mas posso garantir que não lhe quero saltar para a espinha e não o estou a ver a safar-me no mercado de trabalho.

dlx disse...

isso dos interesses pode ter a sua verdade, mas existem aqueles amigos em que deles o único interesse que temos é estarmos com eles porque nos sentimos bem e em segurança. tu para mim és destes.

O Homem Terra disse...

Dlx, tu pra mim também.

Jo, vá, admite que me queres saltar pra espinha.

Beijos para vocês

Jo� disse...

pois, ía dizer isso antes do meu cão me arranhar o braço e me levar para outro caminho. uma coisa é certa, sendo eu gaja não me escapavas.

O Homem Terra disse...

Ahahahahaha

na me parece disse...

O que os sonhos nos fazem e onde nos levam. Adoro sonhar. É mesmo bom não é?
Pois essa coisa das amizades por interesse nunca as tive, a não ser que seja pelo tal interesse intrínseco de sentir empatia, mas desse interesse são feitas muitas amizades que se podem realmente chamar amizades. Digo isto porque tenho uns "critérios", vá lá, algo restritos para considerar alguém como amigo e suponho que vocês também. Sendo assim alguém que tem uma relação por interesse não será com certeza chegado o suficiente para ser um amigo. Será um conhecido ou o tipo lá daquele sítio. Mas não um amigo.