Que descobriu que mesmo as coisas das quais não nos lembramos continuam a contribuir para aquilo que somos.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A questão definitiva
Viver é apurar as capacidades para a dúvida, pois a resposta final que explicará o universo virá em formato de pergunta.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Resposta mística provisória para aquilo que nos faz viver
O que move as pessoas para continuarem a viver e fazerem o que fazem é o mistério.
Combustível amoroso
Procuramos na pessoa que amamos alguém a quem contar os nossos segredos.
Mas a pessoa que queremos que nos ame é a última a quem podemos contá-los, para que nos possa continuar a amar.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
A Vontade Boa
Outra palavra para Bombeiro deveria ser Boa Pessoa.
Um de nós decidia que queria ser boa pessoa. Ia ter ao quartel das pessoas boas, que é o centro da comunidade - e é essa a origem dos bombeiros - e dizia que queria ser um deles.
Lá eles ensinavam-nos os procedimentos para sermos boas pessoas. Fazíamos a formação e aprendíamos que para ajudar os outros é preciso saber fazer isto, isto e isto.
E a partir daí estávamos capazes para prestar qualquer bondade básica à comunidade.
Tornávamo-nos Soldados da Paz.
Até hoje, percebia Soldados da Paz como uma imagem de pessoas que treinam e têm uma hierarquia como os militares, mas que não usam armas.
Mas agora conheço-os, e percebo como uma comunidade em paz precisa e depende de ter cidadãos capazes para resolver os problemas dos seus. Problemas esses que são constantes: ir buscar e levar as pessoas acidentadas e doentes em ambulâncias, salvar pessoas encurraladas, arrombar portas para as quais não há chaves, salvar animais em apuros, apagar fogos. Um pilar da sociedade.
Pessoas que levam, voluntariamente, a paz às outras pessoas.
E algo em mim vibra como se eu soubesse intimamente que o bem só se pode fazer sem pedir dinheiro em troca.
Todos devíamos ser bombeiros. Outra maneira de dizer isto é, todos deveríamos querer ser bombeiros.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
O Almoço dos trabalhadores
Na hora do almoço, vou a um super-mercado comprar coisas para pôr num pão. O meu salário não é alto.
Se isso se deve à economia estar fraca porque a economia de outras terras está a crescer, terras na China,
e se então isso significa que uma parte do dinheiro que ganharia antes um trabalhador como eu agora vai para a China, para que vários chineses ganhem mais,
(através de um complexo sistema económico que faz com que o mundo globalizado sem fronteiras seja como uma balança lenta mas eficaz, que só quando o dinheiro estiver igualmente repartido se estabilizará permitindo de novo aumento da riqueza nos países que já são hoje mais ricos, tudo isto porque, quanto mais pobre, mais barata a mão de obra, mas por isso, mais baratos os produtos que, assim, ocupam o lugar dos produtos mais caros, dos países com mão de obra mais cara)
e se, neste momento na China, um trabalhador na sua hora de almoço come uma sandes tão pobre mas tão digna quanto a minha (sendo que os que antes estavam no lugar dele nem para a sandes tinham), que ele pode pagar por causa desse dinheiro que antes estaria aqui no meu bolso e agora está lá,
então isso quer dizer que há uma relação direta entre a minha sandes e a sandes chinesa do chinês, e que nós os dois, com o nosso dinheiro, estamos na verdade a fazer uma vaquinha e a, juntos, partilhar o almoço.
Amigo chinês, é um prazer almoçar contigo. Espero que a tua sandes esteja boa. Não tens de quê. Espero que as coisas te corram bem aí na China. Eu? Tenho imensa sorte. Ah, já agora, se tiveres ocasião, diz ao Jia Zhang Ke que ele é o maior realizador do mundo.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
A alma é regida pela lei do milagre
É uma ilusão pensar que se pode chegar ao mesmo lugar por caminhos diferentes.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
O sentimento invisível
Incomoda-me que as outras pessoas não saibam quanto a amei.
Incomoda-me que exista apenas uma palavra namorada para dizer o que ela foi para mim. Que seja a mesma usada para pessoas que amaram menos, ou nada, ou diferente, e para sentimentos que foram banais.
Incomoda-me que alguém fale dela e lhe chame o mesmo que chama a outra mulher, ou mesmo à sua namorada, sendo que o amor deles nada tem a ver com o meu, e que essas pessoas nem conseguem compreender a grandiosidade de certos sentimentos mas pensem que sim ou então que eles não existem.
Como se ao chamarem-lhe minha ex-isso estivessem a mentir.
Incomoda-me que falte essa palavra para designar o sentimento invisível.
Incomoda-me ainda mais que seja um clichê dizer que é preciso inventar palavras novas para designar o que ela foi para mim.
E incomoda-me que mesmo assim seja verdade que é preciso inventar essa palavra única, só minha, só dela, donzela do meu coração, pessoa com quem fui um, pessoa a quem me entreguei.
Incomoda-me eu querer provar que o que eu tive foi mais do que a maioria dos outros tem, quando eu já sei que foi, e que isso seja considerado arrogante, quando eu apenas estou a tentar dizer a verdade do que eu sinto, a tentar reclamar de um direito.
Como seria lindo se houvesse maneira de medir o amor, e houvesse uma organização consagrada e reconhecida por todos, oficial e inequívoca, que distinguisse os amores maiores dos mais pequenos, e desse medalhas e troféus para os grandes amantes, de modo a que alguém pudesse dizer Bem, nem sabes, aquele gajo ali, teve em tempos um amor nível 7 por uma tal rapariga, e alguém pudesse responder Namorados nível 7? Foda-se, nunca conheci ninguém que tivesse amado tanto!
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Mensagem recebida às 17:10 de uma amiga regressada ante-ontem da europa, ou As coisas Boas da Vida
" Adoro portugal..adoro lisboa :) as pessoas são limpa,bonitas e mesmo duma maneira simples, são sempre bem arranjadas..já vi tantos sorrisos hj, e gargalhadas pelas ruas :) bem..viajar faz-nos ver destas coisas "
Esfolei os joelhos a brincar com crianças na praia
Tenho sangue de criança nos joelhos.
Tenho a minha infância em crosta nos joelhos.
Tenho sangue da minha infância vivo nos meus joelhos.
Tenho o meu sangue nos meus joelhos.
E afinal, é isto ser uma pessoa.
Estas crostas aqui vivas. E são iguais às de 1992 anos atrás.
domingo, 1 de agosto de 2010
A verdadeira faculdade de amar
está em amar sem precisar ser correspondido.
E a ainda mais perfeita capacidade de amar está em perceber quando não se é.
E a ainda mais perfeita capacidade de amar está em perceber quando não se é.
sábado, 31 de julho de 2010
Um amor
O milagre de, com tão pouco, termos feito tanto.
Hoje, restam disso apenas algumas marcas. Como acontece com o grande império de Alexandre.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Povos
Se é tão forte a experiência de Deus quando se é parte do balanço oceânico, quando somos embalados pelo ritmo natural, que é também o do nosso coração, o que pensar da religiosidade de um povo que todo ele é e foi entregue ao mar? Deste povo que vive em barcos?
Deus encontra-se em todo o lado. Mas quando o procuramos nos espaços entre as coisas e não nas coisas, Ele é mais fácil de achar, pois não temos as coisas para nos distrair.
Os povos que vivem entre as coisas, nas ligações, no mar, no céu, no espaço, no deserto, no vazio da montanha, nas florestas profundas, sempre foram povos de Deus. Pois fomos privilegiados no nosso ponto de vista.
terça-feira, 27 de julho de 2010
O balanço também em nós
A diferença entre olhar o balanço do mar de fora da água - em que vemos mais, mas de um só ponto - e de olhar o balanço do mar dentro de água - em que vemos menos, mas o nosso ponto de vista é constantemente reajustado ao lugar novo que é o mesmo.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
O ritmo de Deus
não é o do mais profundo silêncio e imobilidade, embora esse nos possa fazer senti-Lo.
O ritmo de Deus é o balanço de quando nos entregamos sozinhos ao mar, e boiamos de acordo com a corrente. Onde o nosso parado passa a ser a cadência da vida.
E depois saímos para a areia como aquele embarcadiço que em terra andava segundo o sabor das ondas.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
O drama
A condição essencial para o drama é a verdade.
Porque a verdade é sempre conflitual. Quando está viva.
É esta a beleza do mundo.
terça-feira, 20 de julho de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Uma mulher, a minha avó
Todo um gigantesco saber viver concentrado naquele guardanapo de papel sobre a tigela vazia na sala que esperava por nós em silêncio para que nela jantássemos.
domingo, 18 de julho de 2010
Viver para lá do amor
Vista do cimo do castelo de São Jorge, que nunca verás.
Que não verás e que por isso dentro de ti permanecerá para sempre de uma lindeza maior, um plano para sempre futuro.
Que não verás e que por isso dentro de ti permanecerá para sempre de uma lindeza maior, um plano para sempre futuro.
Não foste a mulher que eu queria, foste a mulher que tinhas de ser
O nosso amor já morreu. Mas no meu pulso ainda não partiu a fita de quando fomos ao senhor do bom fim.
sábado, 17 de julho de 2010
Um amor
onde o corpo dela era as minhas mãos aprisionadas, a pedirem para sair e que eu tentava em vão arrancar delas mesmas.
Feitos para os outros
Somos feitos numa forma em que a capacidade que temos de fazer algo pelos outros é muito maior que a que temos de fazer algo por nós.
Por isso é muito mais produtivo quando todos ajudam os outros do que quando cada um se ajuda a si mesmo.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
As obras e a pobreza
Os artistas levam ao limite essa característica humana transcendente que se manifesta quando olhamos para eles sem sabermos que eles o são - artistas - e eles se revelam aos nossos olhos como os seres mais ridículos do mundo, mas que depois, quando passamos a ter em conta a sua obra, faz com que fique claro que aquela pessoa para quem estamos a olhar é das pessoas mais incríveis que há.
Esta beatitude vem de as suas obras não terem como critérios o lucro (no sentido mais amplo da palavra).
Um artista só pode ser pobre. Porque a sua obra não tem preço.
sábado, 10 de julho de 2010
O lugar do outro
Numa conversa há aqueles que querem compreender o outro.
Há depois aqueles que estão mais interessados em corrigir o discurso do outro, em convencê-lo, em fazerem-se compreender a si mesmos, em superar o outro, em anulá-lo.
Como em qualquer relação. Há aqueles que querem sentir o que o outro sente. Viver o amor do outro e fazer desse amor o seu amor. E há os que querem obrigar o outro a compreendê-los, que querem que as suas exigências sejam atendidas, que o outro seja aquilo que eles querem.
Em tudo, há pelo menos duas maneiras de agir. A atenção ao que está fora de nós e a atenção ao que está dentro de nós.
Tentar compreender o outro ou tentar que o outro nos compreenda a nós.
Eu acredito que nos compreendemos a nós compreendendo o outro.
Para que serve estar com o outro se não for para o compreender? Sozinhos já estamos o resto do tempo.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Aos que de nós nasceram com uma sensibilidade demasiado apurada, ou que, por outras palavras, não fecharam os olhos quando deviam
A sabedoria está com os que não olharam diretamente o sol.
Pois não deixaram de o fazer por cobardia,
mas porque a palpebra os fez fortes o suficiente
para conseguirem viver sem precisar ver a fonte da luz,
bastando-lhes aquilo que ela ilumina.
Aprenderam a confiar no sol
sem para isso terem de perder os olhos.
Pois deve haver sempre uma subtil película,
entre nós e os nossos sentimentos,
para nos permitir vivê-los.
Não é preciso ver toda a luz de uma só vez.
E por falar em cobardia,
haverá cobardia maior que a de não conseguir viver sem olhar diretamente o sol?
Pois não deixaram de o fazer por cobardia,
mas porque a palpebra os fez fortes o suficiente
para conseguirem viver sem precisar ver a fonte da luz,
bastando-lhes aquilo que ela ilumina.
Aprenderam a confiar no sol
sem para isso terem de perder os olhos.
Pois deve haver sempre uma subtil película,
entre nós e os nossos sentimentos,
para nos permitir vivê-los.
Não é preciso ver toda a luz de uma só vez.
E por falar em cobardia,
haverá cobardia maior que a de não conseguir viver sem olhar diretamente o sol?
terça-feira, 6 de julho de 2010
A trágica escolha de uma vida
Vá lá senhora, chegou a hora.
Vá lá senhora, chegou a hora de escolher o seu par.
De escolher o seu par. Alguém para amar. Alguém para a amar.
Vá lá senhora, a hora é pouca.
Vá lá senhora, que o tempo esgota. Vá escolher o seu par.
Vá escolher o seu par. Alguém para amar. Alguém para a amar.
O sofrimento agonizante, sob o pavimento da escuridão.
Raparigas e rapazes, monumentos tão audazes.
Há azul na tua mão. Sangue inocente, palpitação.
Alegria, tradição, euforia, excitação, para escolher o seu par.
Para escolher o seu par. Alguém para amar. Alguém para a amar.
Vá lá senhora, chegou a hora de escolher o seu par.
De escolher o seu par. Alguém para amar. Alguém para a amar.
Vá lá senhora, a hora é pouca.
Vá lá senhora, que o tempo esgota. Vá escolher o seu par.
Vá escolher o seu par. Alguém para amar. Alguém para a amar.
O sofrimento agonizante, sob o pavimento da escuridão.
Raparigas e rapazes, monumentos tão audazes.
Há azul na tua mão. Sangue inocente, palpitação.
Alegria, tradição, euforia, excitação, para escolher o seu par.
Para escolher o seu par. Alguém para amar. Alguém para a amar.
Uma grande banda é aquela que faz as canções que a nossa vida pede.
Vá Lá Senhora é a canção nova d'Os Golpes.
domingo, 4 de julho de 2010
Traição
Ele era um menino que não se importava de emprestar os seus brinquedos. Só não gostava que os outros os estragassem.
Todos aqueles legos, que outrora se ergueram tão altos, castelos firmes, com passagens secretas, com os seus cavaleiros com um dragão para cada um, ou a ilha dos piratas, que recebi no dia em que o meu irmão nasceu, ou as naves do planeta do gelo que demorei semanas a montar e com que brinquei um milhão de histórias, para enganar a solidão e que eram os meus únicos amigos, ou os caubóis, que já mais crescido, roubei no supermercado, abrindo as caixas e escondendo nas mangas do casaco, todos eles, despedaçados.
Isto é, não só desmanchados, mas com peças a faltar. Peças que nunca serão reencontradas.
Isto é, não só desmanchados, mas com peças a faltar. Peças que nunca serão reencontradas.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
Para mim o fado é um amigo
A maldição do fado só existe se acreditarmos nela.
Se, pelo contrário, acreditarmos no trabalho, seremos invencíveis.
Para mim o fado é um amigo, é a língua em que converso quando estou sozinho.
Partilhar
Quando quebramos um compromisso com alguém,
não privamos o outro só de nós,
privamo-lo também de si.
Para que, como nós, o outro possa seguir em frente,
terá, como nós, de passar a acreditar um bocadinho menos em compromissos,
para que o sofrimento não o impeça de viver.
É aí que o privamos de si.
Levamos do outro um bocadinho de tudo aquilo que, nele, o fez acreditar no compromisso conosco.
É aí que o privamos de si.
Levamos do outro um bocadinho de tudo aquilo que, nele, o fez acreditar no compromisso conosco.
sábado, 26 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
O lugar onde acabam as dúvidas
A razão consegue lidar com aquilo que é racional.
Aquilo que não é racional, a razão destrói e transforma.
A vida não é racional.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
A Flor
Há quem olhe uma Flor como um isco para propagar o pólen, mas há ainda quem saiba olhar o pólen como apenas uma desculpa para que possa, neste mundo, haver Flores.
As coisas são o que parecem
No dia em que descobri que aquilo que pensava ser a minha melhor qualidade é, afinal, o pior dos meus defeitos.
sábado, 19 de junho de 2010
Quem é o inimigo?
Há algum tempo atrás, no berço da civilização, todas as cidades estado se juntaram para combater Atenas, a mais forte de todas, porque ela tinha ambições imperialistas sobre os seus vizinhos. Grande foi a festa da vitória. Atenas em ruínas, os doces helénicos celebravam a fundação de uma nova Grécia, região de paz e prosperidade, agora que Atenas não ameaçava mais com a sua força.
No dia seguinte, os Turcos invadiram e conquistaram toda a Grécia. Aquilo que os povos helénicos afinal celebravam, sem saberem, era o fim da Grécia.
A coragem de viver de olhos a sorrir
Só pode ter a coragem de se atirar ao desconhecido da maravilhosa aventura da vida alguém que ame a Deus. Mesmo que não saiba que ama. Quantas vezes na vida amámos sem saber?
Porque é diferente saber que se há de morrer de ter a certeza de que se está a morrer.
Sem Deus não há forças para aceitar viver com esta certeza. Logo algo está mal. Mas com Deus, como se pode ter medo do que quer que seja? O pior que pode acontecer é sentirmos o doce e amigo amparo da mão d'Ele. A alegria e emoção de saber que nada nos pode acontecer se Lhe formos fiéis.
Saltemos então depressa, rumo ao desconhecido, rumo à coragem!
Saltemos então depressa, rumo ao desconhecido, rumo à coragem!
Não deixemos o medo convencer-nos a não Acreditar.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
O gesto mais ousado de todos entre uma amiga e um amigo
Não é apalpar certas partes do corpo do outro no escuro,
É caminhar de mãos dadas na rua, ao claro.
A parte soculenta da fruta
Em Cabo Verde, nádega diz-se polpa.
Isto são pessoas que sabem tudo o que há para saber sobre anatomia.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Pedido sincero de desculpas
Peço desculpa a todas as pessoas a quem faço sofrer, diariamente, por ser quem sou.
domingo, 13 de junho de 2010
Deixar as emoções transformar-nos
Tentar não fechar nem formatar uma emoção que é livre - a ser vivida em transformação, aberta, e que ainda não se sabe para onde vai - em função de um preconceito, em função de uma ideologia.
Não tentar encaminhá-las, nem forçá-las. Deixá-las fluir e misturar-se umas com as outras e produzir um resultado transformador em nós. Não viciar o jogo. Não deturpar sentimentos. Nem recusar nenhuns.
Não se trata de nos deixarmos dominar pelas emoções. Trata-se de nos conhecermos melhor a nós mesmos, para justamente sabermos para onde queremos ir.
E mais ainda, não nos precipitarmos a transformar um sentimento, de uma situação, numa ideologia. Pois um sentimento de um momento, não é aplicável, enquanto ideologia, a qualquer situação.
Cada caso é um caso.
De como se processou a evolução para a felicidade
Naquele tempo, o capitalismo foi de uma grande audácia.
Percebeu que não se conseguiria manter só com os homens.
Depois de já lhes ter explicado que a vida no amor da família não era a felicidade, havia porém sempre a sua característica fraqueza que os puxava de novo para sentimetos irracionais.
Por mais que o capitalismo lhes explicasse que ter filhos era, para além de desnecessário, desagradável porque os impedia de pensar nos seus prazeres, havia sempre uma minoria menos apta para a evolução que não se deixava iluminar, e que estranhamente, influenciava muitos outros. O amor por uma mulher e uma família fazia-os perder tempo, tempo esse que deviam usar para o trabalho, para, através dele, rumarem à evolução.
Foi aí que o capitalismo percebeu que só poderia sobreviver através da correção desse defeito nas mulheres que fazia com que os prazeres por elas dados aos homens superassem os oferecidos pelo capitalismo.
Explicou então às mulheres que elas eram maltratadas, injustiçadas e discriminadas por não serem homens.
As mulheres, nas quais o capitalismo criara há muito necessidades enormes de consumo - técnica através da qual tinha conseguido que os homens trabalhassem, pois as necessidades materiais das mulheres obrigavam os homens à riqueza se as quisessem manter - perceberam que o capitalismo tinha razão, que tinham de ser elas a sustentar as suas necessidades de prazer, pois os homens não o faziam na perfeição.
Foi assim que o capitalismo melhorou as mulheres.
Os resultados foram magníficos, pois resultaram na duplicação da mão de obra disponível, o que permitiu ao capitalismo multiplicar várias vezes a sua velocidade evolutiva e um aumento exponencial do lucro.
Mas houve, como sempre, uma reacção contra-evolucionária.
Os resultados foram magníficos, pois resultaram na duplicação da mão de obra disponível, o que permitiu ao capitalismo multiplicar várias vezes a sua velocidade evolutiva e um aumento exponencial do lucro.
Mas houve, como sempre, uma reacção contra-evolucionária.
Com a sua habitual fraqueza, os homens sentiram-se perdidos. Não tinham mais as mulheres para nelas depositar o seu sentimento irracional. Logo, não tinham pelo que trabalhar, pois os prazeres que os motivavam, tinham agora desaparecido.
O capitalismo não tinha, naquele tempo, previsto que a fraqueza masculina fosse tão grande. Mas também para isso encontrou uma solução.
Lembrou aos homens as dificuldades de manter uma mulher. As zangas, as chatiçes de ter de aturar alguém que não é igual a nós. Alguém que não compreendemos, alguém que exige tempo que deve ser gasto no trabalho para a evolução.
Os homens, que depois de tanto tempo, já não se lembravam bem do que era uma mulher, perceberam finalmente que o esforço não compensava, e que a felicidade era sim encontrar alguém igual a eles, outro homem, que os compreenda, de modo a que possam ter mais prazer com menos esforço.
As ex-mulheres, que nesse tempo já odiavam os homens, ficaram felizes ao saberem que estes iam desaparecer e não as iam impedir de se amarem entre si, e tornaram-se grandes defensoras dos ex-homens, pois eles garantiam também a sua posição de ex-mulheres.
Os ex-homens e as ex-mulheres, tornados assim cada vez mais idênticos, venceram desta forma os homens e as mulheres e completaram a evoução capitalista, tornando-se super-homens e super-mulheres.
Os super-humanos viveram assim felizes para sempre. Fazendo sexo entre si, trabalhando muito para garantir que os prazeres eram o mais satisfatórios possíveis e nunca desapareceriam, já que, como a ciência tinha feito deles imortais, durariam para sempre.
sábado, 12 de junho de 2010
The Coming of Wisdom with Time
Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.
William Butler Yeats
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Formas exóticas de ser nuvem
O céu abriu muito bonito hoje.
Estou agora a olhar para uma esfera celeste iluminada, de nuvens em concha gigantesca branca no céu, muito alta, como um grande cone, um grande túnel, que tem no centro um céu branco branco branco com uma pérola a brilhar para nós. A parte de cima de cada nuvem explode de cor-de-sol. Muitos mundos nos céus e com muitas possibilidades cada um, com brilhos, cores, segredos atrás de cada nuvem. Parece uma versão abstracta do mundo dos humanos. Mas para as nuvens, talvez sejamos nós uma versão abstracta do seu mundo. E cada árvore, cada pessoa, seja uma forma exótica de ser nuvem.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
sábado, 5 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
Aconteceu História
Foi há uns dias. Estávamos cá. Todos. Eu, vocês. E vimos.
A institucionalização da separação entre a direita política e o catolicismo em Portugal, marcada pelo apoio da totalidade dos partidos da direita a uma candidatura presidencial que não partilha a visão do mundo da Igreja Católica, é um momento de viragem civilizacional.
Até hoje nunca tinha havido homogeneidade do laicismo na política.
Ao assumir o seu laicismo, a direita portuguesa junta-se à maioria das direitas do ocidente e vem confirmar o que já sabíamos mas até hoje não era assumido: a esquerda e a direita são hoje apenas duas propostas diferentes para controlar o dinheiro.
Os chamados conservadores defendem que o dinheiro se deve manter onde está, nos seus bolsos. Os chamados progressistas defendem que deve ser roubado de onde está e posto num lugar novo, nos seus bolsos.
Nenhuma utopia civilizacional, nenhum transcendente. Apenas combate entre egoísmos organizados.
O capitalismo cumpriu-se.
E é quando se cumpre que começa a ruir. Porque não serve.
A partir de hoje, nenhum cristão poderá dizer que é de direita.
domingo, 30 de maio de 2010
A felicidade
Se do mundo se tirassem todas as pessoas infelizes,
e ficassem só as felizes, de forma a criar um mundo novo, só-feliz,
não resultaria, pois são as pessoas infelizes
que fazem das felizes aquilo que elas são.
Gaga-pensamentos
Há pessoas que se fazem passar por pensadores sérios que dizem que não gostam de Lady Gaga. E outras, do mesmo grupo socio-cultural (chamemos-lhes assim), que dizem que adoram a Lady Gaga.
Mas as motivações são, nas primeiras, apenas o ódio ao povo e vontade de pertencer às elites culturais - manifestado pelo ódio ao que é comercial - e nas segundas, serem de tal modo realmente ultra-snobes que chegam ao ponto de terem de disfarçar fingindo que são do povo porque gostam daquilo que o povo gosta.
E no meio disto, onde é que fica a Vida?
Se gostam, assumam que é porque aquelas notas vos excitam pra caralho, que é porque as danças dela vos despertam a libido, ou, se não gostam, assumam que é porque vos repugna aquela mulher meio atrasada mental que não sabe nem dançar nem cantar. Isto ou qualquer outra coisa. Se quiserem. Se não quiserem também está bem.
A Lady Gaga parece-me um dos maiores génios contemporâneos. Odeio-a por tudo aquilo que ela representa: a sociedade em que vivemos hoje de pessoas que só pensam no seu próprio prazer, de pessoas cheias de sentimentos maus, de pessoas superficiais, e acima de tudo, alienadas. Mas amo-a por ela ser um absoluto génio em responder àquilo que o mundo pede. Porque se pede, há uma razão para pedir, e o mundo tem todo o direito de pedir o que quiser. Ela é um génio em perceber exactamente o que isso é, quem são essas pessoas de hoje e em saber falar do sofrimento delas. Amo-a por ela declarar aos berros a todo o mundo que somos uma sociedade de absolutos chalados, de pessoas enlouquecidas, apodrecidas, superficiais, sem norte, sem solução à vista, uma absoluta cambada de alienados.
E é tão comovente o sofrimento que dá para ver nos olhos desta mulher, naqueles videoclipes. Deve ser uma pessoa tão solitária. Ela tão-feia-tão-feia, ali, a mostrar-nos a todos como realmente somos.
Haverá melodia mais grandiosamente excitante que o refrão do Bad Romance? Algo mais épico? E aquela violência? Aquilo é que é estar vivo. Haverá personagem e mulher mais corajosa? Não há. Não há porque hoje não há ninguém que tenha a coragem de dizer a verdade, que é
I want your love
And I want your revenge
I want your love
I don’t wanna be friends
O o o o o
Porque é que ninguém diz isto? Porque é que anda tudo a fingir que somos todos muito amigos e que o amor não custa? Que quando se perde a pessoa que amamos não há nada que a traga de volta, muito menos a amizade, até porque essa amizade não existe, não é nada comparada com amar?
É que não serve de nada ser amigo de quem se ama em honra dos momentos muito especiais que se viveram, porque isso não é viver, isso é forçarmos-nos a não sentirmos o que sentimos e não sentir é a morte. É o absoluto oposto do amor. É rebaixarmos-nos, não perante os outros, mas perante nós próprios. É não ter orgulho nem honra. A Lady Gaga sabe isto tudo e porra, ela tem a minha idade. 24 anos e olhem onde ela está e olhem para nós. Ela e o Cristiano Ronaldo e Nós Todos.
Claro que o Marylin Manson já nos tinha dito isto tudo há quinze anos. Mas quando ele fica velhinho, está cá a Gaga para nos lembrar.
Claro que o meu mundo era um Mundo onde estas pessoas feias-bonitas não precisassem de existir. Mas claro que a culpa não é dos artistas. A culpa é nossa.
Nós somos a Lady Gaga.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
A mesma coisa
Fidelidade e amor são duas palavras para a mesma coisa.
(isto pode parecer uma constatação óbvia, mas não é óbvia para muitas pessoas)
Consequência e causa
A sociedade ocidental a ruir e certas pessoas que deviam estar preocupadas muito contentinhas consigo mesmas.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Dar amor
Ao compreendermos porque não merecemos ser amados por quem queríamos ser, passamos a aceitar o nosso sofrimento.
Receber é uma consequência de dar e não o contrário. Mas não basta dar. É preciso dar o que o outro quer receber, não o que nós queremos dar-lhe.
Receber é uma consequência de dar e não o contrário. Mas não basta dar. É preciso dar o que o outro quer receber, não o que nós queremos dar-lhe.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Já foi tudo feito antes de nós
O critério da originialidade leva invariavelmente, depois de se ter aprendido um bocadinho, ao sentimento de que já foi tudo feito antes de nós. Bastaria isso para provar que esse critério não nos permite criar, nem viver. A originalidade leva à inacção. Ou pior, à destruição do que existia antes.
Tanto quanto sei hoje, pelo que me foi mostrado pelo mundo, viver é tudo menos original. Antes de nós viveram milhões, e viveram como nós vivemos. Pois a vida é precisamente a repetição, o fazer tudo outra vez, recomeçar a cada vida nova todas as etapas da vida que nos gerou.
É essa a nossa originalidade. A de revivermos, dando vida de novo ao que já estava morto, à nossa maneira.
A única originalidade que há está na nossa origem. Aquilo que foi feito antes de nós, fomos nós. Éramos nós. Os que fazíamos e os que éramos feitos.
Olhem à nossa volta. Está tanta coisa morta. Há tanta coisa por fazer.
Tanto quanto sei hoje, pelo que me foi mostrado pelo mundo, viver é tudo menos original. Antes de nós viveram milhões, e viveram como nós vivemos. Pois a vida é precisamente a repetição, o fazer tudo outra vez, recomeçar a cada vida nova todas as etapas da vida que nos gerou.
É essa a nossa originalidade. A de revivermos, dando vida de novo ao que já estava morto, à nossa maneira.
A única originalidade que há está na nossa origem. Aquilo que foi feito antes de nós, fomos nós. Éramos nós. Os que fazíamos e os que éramos feitos.
Olhem à nossa volta. Está tanta coisa morta. Há tanta coisa por fazer.
domingo, 16 de maio de 2010
Para sempre
Um momento que me marcou para sempre foi aquele dia no jardim.
Um grupo de actores fazia teatro de rua. Propunham ser mudos. Estavam sempre sérios e eram muito expressivos. Comunicavam batendo em malas de viagem vazias, cada um tinha a sua. Moviam-se em bando, como pássaros, para onde ia o primeiro ia também o segundo, vestidos com roupas minimalistas escuras. Interpelavam os transeuntes com um olhar esbugalhado e ensandecido, assustador, e ficavam parados fitando-nos, batendo nas malas, pedindo-nos para batermos também, esperando uma reacção.
A reacção era contorná-los. Parecia ter sido ganha a proposta estética. Desafiava o outro.
No meio das pessoas passou devagarinho uma velhinha, pequenina, corcunda, de bengala, já sem dentes e com um olhar muito antigo. Ela não percebeu a proposta. Quando eles não perceberam que ela era uma velhinha e ficaram a bater nas suas malas, ela ficou a olhá-los, sem perceber porque não a deixavam passar. Nos olhos deles viu-se imediatamente que não aguentavam o bluff de não serem seres humanos, mas não podiam parar a sua performance. Não sabiam o que fazer e continuaram a bater nas malas e a olhá-la. A senhora ficou a olhá-los com um olhar esgazeado e começou a gemer, como se chorasse, mas zangada. Ela começou a tocar-lhes, pequenina. Foi aí que se percebeu que ela era louca. Quando começou a passar-lhes as mãos pelo peito e pela cara eles não sabiam o que fazer e ficaram quietos. As personagens não estavam programadas para encontrar a vida.
Ela segurava-lhes nas mãos quando chegou a neta e a levou dali dizendo que era a brincar avó, eram actores, era a fingir.
Um grupo de actores fazia teatro de rua. Propunham ser mudos. Estavam sempre sérios e eram muito expressivos. Comunicavam batendo em malas de viagem vazias, cada um tinha a sua. Moviam-se em bando, como pássaros, para onde ia o primeiro ia também o segundo, vestidos com roupas minimalistas escuras. Interpelavam os transeuntes com um olhar esbugalhado e ensandecido, assustador, e ficavam parados fitando-nos, batendo nas malas, pedindo-nos para batermos também, esperando uma reacção.
A reacção era contorná-los. Parecia ter sido ganha a proposta estética. Desafiava o outro.
No meio das pessoas passou devagarinho uma velhinha, pequenina, corcunda, de bengala, já sem dentes e com um olhar muito antigo. Ela não percebeu a proposta. Quando eles não perceberam que ela era uma velhinha e ficaram a bater nas suas malas, ela ficou a olhá-los, sem perceber porque não a deixavam passar. Nos olhos deles viu-se imediatamente que não aguentavam o bluff de não serem seres humanos, mas não podiam parar a sua performance. Não sabiam o que fazer e continuaram a bater nas malas e a olhá-la. A senhora ficou a olhá-los com um olhar esgazeado e começou a gemer, como se chorasse, mas zangada. Ela começou a tocar-lhes, pequenina. Foi aí que se percebeu que ela era louca. Quando começou a passar-lhes as mãos pelo peito e pela cara eles não sabiam o que fazer e ficaram quietos. As personagens não estavam programadas para encontrar a vida.
Ela segurava-lhes nas mãos quando chegou a neta e a levou dali dizendo que era a brincar avó, eram actores, era a fingir.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Actos
Parece-me, hoje, nesta fase da minha vida, que muitas pessoas - muitos de nós - não passam dos Primeiros Actos das suas vidas. Desistimos quando começam os problemas, antes do início do Segundo Acto.
Daqueles que temos a coragem de viver esse longo e difícil Segundo Acto, infelizmente a grande maioria de nós desiste antes de chegar ao Terceiro.
Hoje, nesta fase da minha vida, em que tento viver o Segundo Acto, a minha grande ambição é conhecer aqueles que tiveram a coragem de viver o Terceiro. São tão poucos. E tão admiráveis.
Daqueles que temos a coragem de viver esse longo e difícil Segundo Acto, infelizmente a grande maioria de nós desiste antes de chegar ao Terceiro.
Hoje, nesta fase da minha vida, em que tento viver o Segundo Acto, a minha grande ambição é conhecer aqueles que tiveram a coragem de viver o Terceiro. São tão poucos. E tão admiráveis.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Amar a mãe
Ao ver na televisão a Procissão do Adeus em Fátima percebi que é com a nossa mãe que aprendemos a amar.
Todas as mães que não amem incondicionalmente a sua família estão a criar futuros adultos incapazes de amar.
Todas as mães que não amem incondicionalmente a sua família estão a criar futuros adultos incapazes de amar.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Comunidade auto-sustentável
As únicas ideologias políticas dignas de serem consideradas são aquelas que gerem seres humanos fortes o suficiente para morrerem a lutar por elas.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
Usar a verdade para a mentira
O perigo do esoterismo, do New Age, dos cultos ao sobrenatural, das videntes, dos espiritismos organizados, da psicologia e afins auto-ajudas - ou seja, de todas as falsas religiões - é usar o poder avassalador e verdadeiro da Fé de alguém para aquilo que não é o essencial para essa pessoa e para a humanidade. Usar a Fé para o Mal.
As falsas religiões são paliativos onde as verdadeiras procuram a cura.
As falsas religiões são paliativos onde as verdadeiras procuram a cura.
sábado, 8 de maio de 2010
Só o Amor
Só o Amor permite a Verdade.
Experimentem dizer a verdade a alguém que não vos ame. Depois a alguém que vos ame. Saberão logo do que estou a falar. Quem não nos ama exige a mentira. Só quem nos ama nos permite sermos verdadeiros. Não acreditar no amor é condenar-se a viver eternamente numa prisão de fingimento.
Quando amamos alguém, amamos a verdade dessa pessoa. A diferença entre a paixão e o amor, é que a paixão é pela mentira, enquanto o amor é pela verdade. A paixão é pelo que pensamos que alguém é, o amor pelo que sabemos que a pessoa é.
Assim, também só a Verdade permite o Amor.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
domingo, 2 de maio de 2010
Amar é perder
Quanto mais se ama mais se perde.
A coragem de amar é a coragem de ousar sofrer perder alguém.
O saldo de uma vida mede-se pelas pessoas cujos caixões vimos somados às pessoas que viram o nosso caixão.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
A Alegoria do Ténis
Todos somos animados pela mesma vida.
Como um cordão (atacador em Portugal) que ao ser colocado nos buracos do ténis dá a ilusão de ser dois cordões, e a cada buraco em que passa a ilusão de ser um cordão novo, quando na verdade é apenas um só cordão, único.
Pois nós somos os buracos do ténis e é um só cordão que nos anima a todos.
Dentro de cada outro estou eu.
Como um cordão (atacador em Portugal) que ao ser colocado nos buracos do ténis dá a ilusão de ser dois cordões, e a cada buraco em que passa a ilusão de ser um cordão novo, quando na verdade é apenas um só cordão, único.
Pois nós somos os buracos do ténis e é um só cordão que nos anima a todos.
Dentro de cada outro estou eu.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Cuidar
Mesmo quem não teve filhos vai um dia precisar que alguém cuide de si.
O que quem não teve filhos não considerou é que não é justo para alguém de quem nós não cuidámos na infância ter de cuidar de nós na velhice.
Dando-se o caso dessa pessoa ter, mesmo sem filhos, alguém que cuide dele, é de lembrar que foi preciso que alguém tenha cuidado desse filho para que, chegado o tempo, ele possa agora cuidar desse que não teve filhos.
Há por fim a saída de substituir o amor pelo dinheiro e tornar o cuidar num serviço, coisa que é tão horrenda que nem tenho palavras.
O que quem não teve filhos não considerou é que não é justo para alguém de quem nós não cuidámos na infância ter de cuidar de nós na velhice.
Dando-se o caso dessa pessoa ter, mesmo sem filhos, alguém que cuide dele, é de lembrar que foi preciso que alguém tenha cuidado desse filho para que, chegado o tempo, ele possa agora cuidar desse que não teve filhos.
Há por fim a saída de substituir o amor pelo dinheiro e tornar o cuidar num serviço, coisa que é tão horrenda que nem tenho palavras.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Um grão de areia no universo
A felicidade de descobrirmos que somos só um grão de areia na gigantesca criação que é o Universo é a de ficarmos a saber que somos alguma coisa, por muito pequena que seja. É a felicidade da descoberta do que realmente somos. Do fim do engano.
Não há espaço para o susto ou para a tristeza no confronto com a nossa pequenês, só para o espanto e para a maravilha da perfeição de fazermos, comprovadamente, parte de uma criação em que cada grão de areia desse Universo é pensado em tal pormenor e grandeza.
E ficarmos a saber que afinal, se somos só um grão de areia, então é muito mais fácil do que pensávamos sermos Bons. É só sermos o melhor grão de areia que conseguirmos.
Que rico universo!
Não há espaço para o susto ou para a tristeza no confronto com a nossa pequenês, só para o espanto e para a maravilha da perfeição de fazermos, comprovadamente, parte de uma criação em que cada grão de areia desse Universo é pensado em tal pormenor e grandeza.
E ficarmos a saber que afinal, se somos só um grão de areia, então é muito mais fácil do que pensávamos sermos Bons. É só sermos o melhor grão de areia que conseguirmos.
Que rico universo!
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Milagre
Só essa cola entre as coisas que é a Fé faz tocarem-se elementos da vida que sem ela estão distantes, tornando a vida uma só coisa.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O nosso familiar morto
Sabem aquela atenção e cuidado que temos quando falamos com uma pessoa a quem sabemos que lhe acabou de morrer um familiar?
Era a atenção e cuidado com que devíamos falar a toda a gente.
Era a atenção e cuidado com que devíamos falar a toda a gente.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Aproveitar a vida
Viver cada dia não como se fosse o último mas como se fosse o primeiro.
Olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Porque realmente É.
Se hoje for o último dia da minha vida, vivo sem esperança, e morro. Se hoje for o primeiro dia da minha vida, renasço e acredito.
Olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Porque realmente É.
Se hoje for o último dia da minha vida, vivo sem esperança, e morro. Se hoje for o primeiro dia da minha vida, renasço e acredito.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Ser anti-português é ser anti-brasileiro
Começo a ficar farto do recorrente clichê "se o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandeses talvez fosse melhor".
Em primeiro lugar, o Brasil não foi colonizado pelos holandeses. Sabem porquê? Porque os holandeses não foram capazes de o colonizar. Se os holandeses fossem capazes de colonizar o Brasil seriam (como) os portugueses, não seriam os holandeses (apesar de a independência da Holanda de Espanha se dever em grande parte à acção dos judeus portgueses radicados na holanda, mas isso é outro assunto).
Só os portugueses têm na sua cultura, na sua identidade intrínseca, no seu código genético civilizacional, as características que levaram à formação do Brasil.
O termo "colonizar" aplica-se quanto muito aos povos tupis e guaranis que habitavam o terrítório a que hoje chamamos Brasil, mas não ao país-Brasil. Os tupis foram colonizados. O Brasil não. Porque o Brasil não existia antes de os portugueses lá chegarem. Logo, os portugueses nunca colonizaram o Brasil. Fizeram mais que isso, pior que isso: os portugueses criaram o Brasil.
E o meu ponto é que só os portugueses poderiam ter criado o Brasil, mais nenhum povo do mundo.
Os territórios que foram espanhóis na América são hoje uma série de países que não se entendem nem têm unidade. Se o Brasil tivesse sido colonizado por Espanha seria hoje talvez um conjunto de dez países, ou então talvez cada estado do Brasil actual fosse um país independente. Acho que não preciso dizer a miséria que isso seria. Perderíamos este Brasil maravilhoso, toda esta cultura, que viajou da Bahia para o Rio de Janeiro, para São Paulo, passando pela Amazónia e por todo esse país branco preto mulato.
Isto que aconteceu com o resto da américa latina deve-se à falta de unidade nacional intrínseca espanhola. No código genético civilizacional dos espanhóis está a rivalidade consigo próprios, e o facto de serem um país composto ele próprio por uns cinco ou seis países. Isto levou a que cada um puxasse para o seu lado, o que deu uma catrefada de países e pouca unidade.
Pelo contrário, os territórios que foram holandeses na América são... o Suriname. Ninguém quer ser o Suriname. Os Brasileiros querem? Não me parece. Com todo o respeito... que país mais desinteressante comparado com o Brasil.
É que o Brasil nunca poderia ser o Suriname. O Suriname revela aquilo que os holandeses sabem fazer: colónias pequeninas, bem organizadas, bem geridas, mas que não têm interesse nenhum.
Só a megalomania portuguesa é que poderia gerar o Brasil. O desejo de fazer um ímpério. Assumindo o grande disparate e loucura disso. Assumindo todas as dificuldades, das quais nem tinham noção. Assumindo que isso daria um país desequilibrado. Um país grande de mais. Uma ideia inconcebível. Acham que algum racionalista holandês afirmaria "vamos fazer o Brasil?" Não, porque "fazer o Brasil" é impossível, só os portugueses seriam capazes de tamanha insanidade. De tamanho absurdo. De tamanha desproporção.
É aí que se vê a grande religiosidade portuguesa. A capacidade de acreditar em algo que a razão nega poder existir. A fé que é precisa para acreditar em criar o Brasil nenhum outro povo do mundo a tem.
Mesmo os ingleses, que têm tantas capacidades, se teoricamente considerassem esse projecto, pensariam, acertadamente "um país desse tamanho não, vamos tentar, um terço disso, é mais razoável, mais sensato". E provavelmente conseguiriam fazer um país interessante. Mas não seria o Brasil. E acontecer-lhes-ia o que aconteceu na América do Norte. As coisas escapar-lhes-iam das mãos. A competitividade do modelo anglo-saxónico é tal que os Estados Unidos da América se criaram sozinhos, contra os Ingleses, com ajuda dos franceses. Não foram os ingleses que o fizeram.
Voltando aos holandeses. Os holandeses não estavam interessados em colonizar. Os holandeses não se misturam com os outros povos, só querem comércio. Nem os ingleses. Os espanhóis só um bocadinho. Alguma vez o Caramarú seria outra coisa que não português? Olhem Cabo Verde, esse país de mestiços. Olhem o Apartheid, alguma vez poderia acontecer num país lusófono?
Toda a identidade brasileira em que eu tenho tanto orgulho e em que acho que os brasileiros têm tanto orgulho vem dessa multi-culturalidade que é uma atitude intrinsecamente portuguesa. No mundo ocidental, foram os portugueses que inventaram a miscigenação. Isso tem de ser dito. Os portugueses vão para um lugar e fundem-se com ele.
O Brasil só pode ser um país de brancos, negros, índios e asiáticos, unido nacionalmente como é, por causa dos portugueses. Um país que acolheu todos esses refugiados durante a guerra, que hoje estão todos integrados.
A miscigenação vem de os portugueses serem um povo completamente unido, como poucos, e de, simultaneamente, ser composto por uma mistura de lusitanos com celtas, iberos, mouros, judeus, negros, chineses, indianos, etc.
Essa frase bonita "Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro" do Gilberto Freyre (apelido português bonito, Freire, escrito à antiga com "y") só é possível por causa dos portugueses.
Só os portugueses - de todos os países colonizadores da história do mundo - é que transferiu a sua capital para um território ultramarino. A capital dos holandeses nunca foi na África do Sul, ou no Suriname ou na Indonésia. Mas a capital de Portugal já foi o Rio de Janeiro. Não percebem o que isso quer dizer? Quer dizer existir um povo que acredita em fundir-se com outro e dar origem a um povo maior. Esse povo maior é o Brasil.
Já agora, outro clichê quando se fala em portugueses no Brasil é a escravatura. Sim, os portugueses traficavam escravos. Também os holandeses e também todos os povos do mundo. Os próprios africanos foram os grandes inventores disso mesmo. Os romanos tinham escravos. Os egípcios tinham escravos. Os portugueses, como habitantes do planeta Terra e elementos da raça humana, tinham escravos. Apesar disso, em 1761, o Marquês de Pombal proibiu a entrada de novos escravos em Portugal continental.
Outro clichê, com o carimbo de propagação do grande Caetano Veloso (nome português) a quem, de vez em quando, dá vontade de dizer uns disparates, é que os portugueses só foram ao Brasil roubar ouro. Há no entando estudos que apontam para que hoje sejam extraídos por dia do Brasil mais recurssos naturais do que em todos os séculos em que Portugal e Brasil foram um só país.
Eu sei que toda essa angústia com a colonização vem de um trauma. Um trauma legítimo e com razão de ser. Mas há que fazer as pazes com o nosso passado. Nós portugueses fizemos as pazes com o povo que nos ocupou e, entre outros, nos criou: os romanos. Bem sei que leva tempo a sarar a ferida. Sei que hoje já ninguém sofreu diretamente as acções dos romanos, só as consequências. Mas os brasileiros também não dos portugueses. Os portugueses tiveram mais tempo para sarar a ferida, mas o meu ponto é que há muitas vantagens em sará-la. E sará-la o mais depressa possível, para que não fiquem órgãos tortos, ossos com altos, amnésia, cicatrizes grosseiras e feias. Eu como português, adoro os romanos. E bem sei que eles mataram muitos dos meus antepassados. Mas eu também sou descendente dos romanos. Tenho um pai romano que batia na minha mãe lusitana. Ou um pai celta-cristão que batia na minha mãe árabe. Ou um pai cristão que obrigou a minha mãe judia a converter-se ao cristianismo. Grandes tragédias, mas é preciso fazer as pazes com isso e não ficar a escarafunchar na ferida à procura de culpados. Quase todos os brasileiros têm no seu sangue o sangue dos culpados. Não adianta para nada fingir que esse sangue podia ser holandês, ou fingir que não é português, como todos os brasileiros não fossem em parte portugueses.
O Brasil é um país cheio de problemas, mas é um país. Sem os portugueses, não seria.
PS: E sem os Angolanos também não. Só quem nunca conheceu um angolano é que não sabe que a boa disposição brasileira vem diretamente de Angola. E Angola é um país lusófono. O Brasil também só o poderia ser sendo-o.
Em primeiro lugar, o Brasil não foi colonizado pelos holandeses. Sabem porquê? Porque os holandeses não foram capazes de o colonizar. Se os holandeses fossem capazes de colonizar o Brasil seriam (como) os portugueses, não seriam os holandeses (apesar de a independência da Holanda de Espanha se dever em grande parte à acção dos judeus portgueses radicados na holanda, mas isso é outro assunto).
Só os portugueses têm na sua cultura, na sua identidade intrínseca, no seu código genético civilizacional, as características que levaram à formação do Brasil.
O termo "colonizar" aplica-se quanto muito aos povos tupis e guaranis que habitavam o terrítório a que hoje chamamos Brasil, mas não ao país-Brasil. Os tupis foram colonizados. O Brasil não. Porque o Brasil não existia antes de os portugueses lá chegarem. Logo, os portugueses nunca colonizaram o Brasil. Fizeram mais que isso, pior que isso: os portugueses criaram o Brasil.
E o meu ponto é que só os portugueses poderiam ter criado o Brasil, mais nenhum povo do mundo.
Os territórios que foram espanhóis na América são hoje uma série de países que não se entendem nem têm unidade. Se o Brasil tivesse sido colonizado por Espanha seria hoje talvez um conjunto de dez países, ou então talvez cada estado do Brasil actual fosse um país independente. Acho que não preciso dizer a miséria que isso seria. Perderíamos este Brasil maravilhoso, toda esta cultura, que viajou da Bahia para o Rio de Janeiro, para São Paulo, passando pela Amazónia e por todo esse país branco preto mulato.
Isto que aconteceu com o resto da américa latina deve-se à falta de unidade nacional intrínseca espanhola. No código genético civilizacional dos espanhóis está a rivalidade consigo próprios, e o facto de serem um país composto ele próprio por uns cinco ou seis países. Isto levou a que cada um puxasse para o seu lado, o que deu uma catrefada de países e pouca unidade.
Pelo contrário, os territórios que foram holandeses na América são... o Suriname. Ninguém quer ser o Suriname. Os Brasileiros querem? Não me parece. Com todo o respeito... que país mais desinteressante comparado com o Brasil.
É que o Brasil nunca poderia ser o Suriname. O Suriname revela aquilo que os holandeses sabem fazer: colónias pequeninas, bem organizadas, bem geridas, mas que não têm interesse nenhum.
Só a megalomania portuguesa é que poderia gerar o Brasil. O desejo de fazer um ímpério. Assumindo o grande disparate e loucura disso. Assumindo todas as dificuldades, das quais nem tinham noção. Assumindo que isso daria um país desequilibrado. Um país grande de mais. Uma ideia inconcebível. Acham que algum racionalista holandês afirmaria "vamos fazer o Brasil?" Não, porque "fazer o Brasil" é impossível, só os portugueses seriam capazes de tamanha insanidade. De tamanho absurdo. De tamanha desproporção.
É aí que se vê a grande religiosidade portuguesa. A capacidade de acreditar em algo que a razão nega poder existir. A fé que é precisa para acreditar em criar o Brasil nenhum outro povo do mundo a tem.
Mesmo os ingleses, que têm tantas capacidades, se teoricamente considerassem esse projecto, pensariam, acertadamente "um país desse tamanho não, vamos tentar, um terço disso, é mais razoável, mais sensato". E provavelmente conseguiriam fazer um país interessante. Mas não seria o Brasil. E acontecer-lhes-ia o que aconteceu na América do Norte. As coisas escapar-lhes-iam das mãos. A competitividade do modelo anglo-saxónico é tal que os Estados Unidos da América se criaram sozinhos, contra os Ingleses, com ajuda dos franceses. Não foram os ingleses que o fizeram.
Voltando aos holandeses. Os holandeses não estavam interessados em colonizar. Os holandeses não se misturam com os outros povos, só querem comércio. Nem os ingleses. Os espanhóis só um bocadinho. Alguma vez o Caramarú seria outra coisa que não português? Olhem Cabo Verde, esse país de mestiços. Olhem o Apartheid, alguma vez poderia acontecer num país lusófono?
Toda a identidade brasileira em que eu tenho tanto orgulho e em que acho que os brasileiros têm tanto orgulho vem dessa multi-culturalidade que é uma atitude intrinsecamente portuguesa. No mundo ocidental, foram os portugueses que inventaram a miscigenação. Isso tem de ser dito. Os portugueses vão para um lugar e fundem-se com ele.
O Brasil só pode ser um país de brancos, negros, índios e asiáticos, unido nacionalmente como é, por causa dos portugueses. Um país que acolheu todos esses refugiados durante a guerra, que hoje estão todos integrados.
A miscigenação vem de os portugueses serem um povo completamente unido, como poucos, e de, simultaneamente, ser composto por uma mistura de lusitanos com celtas, iberos, mouros, judeus, negros, chineses, indianos, etc.
Essa frase bonita "Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro" do Gilberto Freyre (apelido português bonito, Freire, escrito à antiga com "y") só é possível por causa dos portugueses.
Só os portugueses - de todos os países colonizadores da história do mundo - é que transferiu a sua capital para um território ultramarino. A capital dos holandeses nunca foi na África do Sul, ou no Suriname ou na Indonésia. Mas a capital de Portugal já foi o Rio de Janeiro. Não percebem o que isso quer dizer? Quer dizer existir um povo que acredita em fundir-se com outro e dar origem a um povo maior. Esse povo maior é o Brasil.
Já agora, outro clichê quando se fala em portugueses no Brasil é a escravatura. Sim, os portugueses traficavam escravos. Também os holandeses e também todos os povos do mundo. Os próprios africanos foram os grandes inventores disso mesmo. Os romanos tinham escravos. Os egípcios tinham escravos. Os portugueses, como habitantes do planeta Terra e elementos da raça humana, tinham escravos. Apesar disso, em 1761, o Marquês de Pombal proibiu a entrada de novos escravos em Portugal continental.
Outro clichê, com o carimbo de propagação do grande Caetano Veloso (nome português) a quem, de vez em quando, dá vontade de dizer uns disparates, é que os portugueses só foram ao Brasil roubar ouro. Há no entando estudos que apontam para que hoje sejam extraídos por dia do Brasil mais recurssos naturais do que em todos os séculos em que Portugal e Brasil foram um só país.
Eu sei que toda essa angústia com a colonização vem de um trauma. Um trauma legítimo e com razão de ser. Mas há que fazer as pazes com o nosso passado. Nós portugueses fizemos as pazes com o povo que nos ocupou e, entre outros, nos criou: os romanos. Bem sei que leva tempo a sarar a ferida. Sei que hoje já ninguém sofreu diretamente as acções dos romanos, só as consequências. Mas os brasileiros também não dos portugueses. Os portugueses tiveram mais tempo para sarar a ferida, mas o meu ponto é que há muitas vantagens em sará-la. E sará-la o mais depressa possível, para que não fiquem órgãos tortos, ossos com altos, amnésia, cicatrizes grosseiras e feias. Eu como português, adoro os romanos. E bem sei que eles mataram muitos dos meus antepassados. Mas eu também sou descendente dos romanos. Tenho um pai romano que batia na minha mãe lusitana. Ou um pai celta-cristão que batia na minha mãe árabe. Ou um pai cristão que obrigou a minha mãe judia a converter-se ao cristianismo. Grandes tragédias, mas é preciso fazer as pazes com isso e não ficar a escarafunchar na ferida à procura de culpados. Quase todos os brasileiros têm no seu sangue o sangue dos culpados. Não adianta para nada fingir que esse sangue podia ser holandês, ou fingir que não é português, como todos os brasileiros não fossem em parte portugueses.
O Brasil é um país cheio de problemas, mas é um país. Sem os portugueses, não seria.
PS: E sem os Angolanos também não. Só quem nunca conheceu um angolano é que não sabe que a boa disposição brasileira vem diretamente de Angola. E Angola é um país lusófono. O Brasil também só o poderia ser sendo-o.
segunda-feira, 22 de março de 2010
O demónio está à espreita
O maior perigo de ter Fé neste tempo de ateísmo é achar que, por se aspirar ao Bem, se está automaticamente do lado do Bem, do lado dos bons, e, por consequência, se pode fazer o que se quiser porque se está na equipa certa.
É por este perigo que o único caminho que existe é o da humildade. A humildade de assumir que nada sei. Que o caminho para o Bem é muito longo. Que para se chegar lá é preciso rigor para não se enveredar por desvios. Saber onde se quer chegar não significa que saibamos o caminho.
É por este perigo que o único caminho que existe é o da humildade. A humildade de assumir que nada sei. Que o caminho para o Bem é muito longo. Que para se chegar lá é preciso rigor para não se enveredar por desvios. Saber onde se quer chegar não significa que saibamos o caminho.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Paz Quente
Depois da Guerra Fria temos uma paz fria.
Talvez seja preciso travar a guerra quente para instalar uma paz verdadeira.
Talvez seja preciso travar a guerra quente para instalar uma paz verdadeira.
domingo, 14 de março de 2010
Maestro
Um grande artista é alguém que consegue, ao reger os músicos à sua frente, reger, simetricamente com os mesmos gestos, os corações do seu público, atrás de si.
Com os mesmos gestos.
Matar e ressuscitar, com os mesmos gestos.
Magoar e amar com os mesmos gestos.
Destruir e construir com os mesmos gestos.
Gritar e cantar.
Dançar.
Com os mesmos gestos.
Matar e ressuscitar, com os mesmos gestos.
Magoar e amar com os mesmos gestos.
Destruir e construir com os mesmos gestos.
Gritar e cantar.
Dançar.
Boa Vontade
O motivo pelo qual não devemos julgar os outros é porque - independentemente de se o nosso juízo é justo ou não - de nada serve uma sociedade em que as pessoas pautam a sua acção pelo que os outros vão achar dela.
Cada um deve agir pelo Bem porque esse é o seu dever, não por medo das represálias caso não o faça. Tampouco deve praticar um suposto Bem pelo desejo do aplauso.
Deve cada um praticar o Bem porque acredita Nele.
Cada um deve agir pelo Bem porque esse é o seu dever, não por medo das represálias caso não o faça. Tampouco deve praticar um suposto Bem pelo desejo do aplauso.
Deve cada um praticar o Bem porque acredita Nele.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Casar
A maioria das pessoas casadas não é feliz, mas isso não é culpa do casamento. Essas pessoas não seriam mais felizes se fossem solteiras. Pelo contrário provavelmente.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Mais uma pedra
(a sétima)
Today
Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they've always talked about
still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They're strong as rocks.
- Frank O'Hara, 1950
Today
Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they've always talked about
still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They're strong as rocks.
- Frank O'Hara, 1950
domingo, 7 de fevereiro de 2010
O que ninguém diz no meu país (está tudo a falar de escutas telefónicas ao Primeiro Ministro, ou de futebol ou de música pop)
O que ninguém diz é que, agora que nas sociedades ricas os jovens já não são a maioria da população, a lei de que os novos roubam os lugares aos velhos foi invertida pela lei de os novos são escravizados pelos velhos.
O que ninguém diz é que o egoísmo e ganância que levou a geração dos nossos pais a terem cada vez menos filhos para guardarem o dinheiro todo para si levou, no hemisfério norte, a uma civilização decadente de velhos. Europa, América Anglófona e até a China.
Em Portugal, o país mais velho do mundo em que tudo é medido em séculos, olhamos à volta e vemos todos os candidatos a Presidente da República Portuguesa com mais de 70 anos.
Vemos que vivemos numa sociedade em que no poder não estão os mais capazes, fortes ou viris, com todos os ganhos que isso traria, mas numa gerontocracia onde aqueles que, abortando todas as manifestações de força da juventude - nomeadamente através da estupidificação da mesma - se eternizam, seráficos, no topo.
Uma sociedade de velhos que não permitem a independência e liberdades dos filhos mantendo-os em casa até aos 30 anos. Que em lugar de lhes darem um chuto no cú os persuadem a ficar, no colinho do papá e da mamã, com direito a uma semanada para gastar em marijuana. Que os persuadem a, ao contrário deles, não cometerem esse erro terrível que é o de ter filhos, não fosse isso levá-los a mudar de postura.
Uma sociedade de Recibos Verdes, em que os novos trabalham e pagam impostos sem que isso lhes traga quaisquer benefícios junto da segurança social, já que esse dinheiro tem de ir para pagar o soro dos velhos senis que exigem ser mantidos vivos e que ultrapassam, em número, os novos.
Pessoas novas! Tomemos o lugar a estas pessoas que, para nosso mal e para o mal da civilização humana, não querem largar o poder! Ganhemos nós o dinheiro deles e, aqueles que tenham tido filhos, serão pelos seus filhos bem cuidados.
Não tenho ódio a ninguém. Tenho amor por todos, amor por todos aqueles que têm direito a ter uma vida e esta lhes é sugada por quem lha devia dar.
O que ninguém diz é que o egoísmo e ganância que levou a geração dos nossos pais a terem cada vez menos filhos para guardarem o dinheiro todo para si levou, no hemisfério norte, a uma civilização decadente de velhos. Europa, América Anglófona e até a China.
Em Portugal, o país mais velho do mundo em que tudo é medido em séculos, olhamos à volta e vemos todos os candidatos a Presidente da República Portuguesa com mais de 70 anos.
Vemos que vivemos numa sociedade em que no poder não estão os mais capazes, fortes ou viris, com todos os ganhos que isso traria, mas numa gerontocracia onde aqueles que, abortando todas as manifestações de força da juventude - nomeadamente através da estupidificação da mesma - se eternizam, seráficos, no topo.
Uma sociedade de velhos que não permitem a independência e liberdades dos filhos mantendo-os em casa até aos 30 anos. Que em lugar de lhes darem um chuto no cú os persuadem a ficar, no colinho do papá e da mamã, com direito a uma semanada para gastar em marijuana. Que os persuadem a, ao contrário deles, não cometerem esse erro terrível que é o de ter filhos, não fosse isso levá-los a mudar de postura.
Uma sociedade de Recibos Verdes, em que os novos trabalham e pagam impostos sem que isso lhes traga quaisquer benefícios junto da segurança social, já que esse dinheiro tem de ir para pagar o soro dos velhos senis que exigem ser mantidos vivos e que ultrapassam, em número, os novos.
Pessoas novas! Tomemos o lugar a estas pessoas que, para nosso mal e para o mal da civilização humana, não querem largar o poder! Ganhemos nós o dinheiro deles e, aqueles que tenham tido filhos, serão pelos seus filhos bem cuidados.
Não tenho ódio a ninguém. Tenho amor por todos, amor por todos aqueles que têm direito a ter uma vida e esta lhes é sugada por quem lha devia dar.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Amor
Amar como eu amo é sentir-me um farol que de repente soubesse que de tanto brilhar lhe iam conceder poder ser barco.
As velas
Sentado sozinho à mesa de um restaurante lisboeta penso
Noutro tempo, cada uma destas velas acesas seria pela alma de alguém.
A diferença entre um mundo decorativo e um mundo com alma.
Noutro tempo, cada uma destas velas acesas seria pela alma de alguém.
A diferença entre um mundo decorativo e um mundo com alma.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Dos Segredos
Morrem segredos milenares, hoje.
Toda a sabedoria que só podia ser sabida pelas mulheres, passada de mãe para filha, de geração em geração desde a origem do mundo. Toda a sabedoria que só podia ser sabida pelos homens, passada de pai para filho, geração após geração desde o primeiro homem, morreu.
Morreu ou por ter sido descoberta, e pervertida, pelo sexo oposto, ou por ter sido calada para sempre como inútil.
Um cochicho mantido desde a origem do mundo, incessante, não-calado, um sussurrar de avó para neta, de irmão mais velho para irmão mais novo, morreu porque alguém disse que éramos todos iguais, que tanto fazia, que não havia nenhuma diferença entre homens e mulheres. E hoje somos todos iguais. Igualmente ignorantes.
Moças, se ainda tiverem uma avó, corram a perguntar-lhe como se lida com um Homem. Moços, se ainda tiverem um avô, perguntem-lhe como ser Homem.
Porque morrem segredos milenares, hoje.
Porque morrem em segredo, e são chorados com lágrimas de desconhecimento.
Toda a sabedoria que só podia ser sabida pelas mulheres, passada de mãe para filha, de geração em geração desde a origem do mundo. Toda a sabedoria que só podia ser sabida pelos homens, passada de pai para filho, geração após geração desde o primeiro homem, morreu.
Morreu ou por ter sido descoberta, e pervertida, pelo sexo oposto, ou por ter sido calada para sempre como inútil.
Um cochicho mantido desde a origem do mundo, incessante, não-calado, um sussurrar de avó para neta, de irmão mais velho para irmão mais novo, morreu porque alguém disse que éramos todos iguais, que tanto fazia, que não havia nenhuma diferença entre homens e mulheres. E hoje somos todos iguais. Igualmente ignorantes.
Moças, se ainda tiverem uma avó, corram a perguntar-lhe como se lida com um Homem. Moços, se ainda tiverem um avô, perguntem-lhe como ser Homem.
Porque morrem segredos milenares, hoje.
Porque morrem em segredo, e são chorados com lágrimas de desconhecimento.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Um país-saudade
Os portugueses inventaram a Saudade.
Para haver a Saudade foi preciso alguém ter ido a algum lugar, e alguém ter ficado.
Viajámos Todo-o-Mundo.
E o país onde chegámos foi o Brasil.
Aí produzimos um país-saudoso-de-futuro, para com ele podermos ser para sempre assim, saudosos.
Lá repousa o meu Amor. Lá vivo.
Para haver a Saudade foi preciso alguém ter ido a algum lugar, e alguém ter ficado.
Viajámos Todo-o-Mundo.
E o país onde chegámos foi o Brasil.
Aí produzimos um país-saudoso-de-futuro, para com ele podermos ser para sempre assim, saudosos.
Lá repousa o meu Amor. Lá vivo.
E só agora compreendo realmente as palavras Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso Mais sofrer.
Chega, de saudade
a realidade, É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim...
E só isto é que pode ser o Amor. O Amor impossível-possível. O Amor imerecido-merecido. O Amor que é eterno porque o Tempo que leva a senti-lo é todo o Oceano, é maior que o tempo de vida, é maior que nós. Só um Amor maior que nós é que é Amor.
E assim o meu coração bate-dói-dói, bate-dói-dói, e não sou mais que um trapo humano, um fantasma amoroso, um caco.
Sou finalmente uma pessoa.
Quando for enterrado no Kinkaku-ji, quero que esteja escrito na minha lápide:
Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo.
. - Padre António Vieira
Não te esqueças amor.
E assim o meu coração bate-dói-dói, bate-dói-dói, e não sou mais que um trapo humano, um fantasma amoroso, um caco.
Sou finalmente uma pessoa.
Quando for enterrado no Kinkaku-ji, quero que esteja escrito na minha lápide:
Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo.
. - Padre António Vieira
Não te esqueças amor.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
O perdão
Ela trabalha num daqueles balcões onde agora, nos centros comercias, vamos comprar esparguete com seis ingredientes e um molho.
Quando me atendeu foi fria, mas prestável. Disse-me o que tinham para beber, e eu escolhi. Nunca me olhou nos olhos. Mas não posso dizer que tenha sido antipática. Falava a olhar para baixo. Foi o normal do que uma portuguesa seria. Só que ela é africana.
Mas atrás de mim veio aquele rapazinho branco de nove anos, que ia comer esparguete à bolonhesa.
E há tantos anos que eu não via um olhar assim. Toda a cara dela se abriu sobre si própria, como uma flor. Iluminou-se com um sorriso rasgado enorme - tantos dentes! - que guardou incessante todo o tempo, quer olhasse para ele, ali todo direitinho a segurar sozinho no tabuleiro, quer não.
Ele fez-lhe muitas perguntas, ela ria-se, descontraída, esticava os braços, enrolava-se sobre si mesma, muito atenta, com muita atenção, debruçando-se para ele, com muita curiosidade. Falavam com puro prazer. Ela adora aquele menino. Por ele ser um menino. E ele adora-a, por ter aquela mulher feita, mas nova, no pico da beleza, toda para ele, como nenhum homem a tem, toda atenção. A sorrir e não esconder o que sente por não haver mal, por não haver nenhum risco em expor o amor, assim, nos olhos. O olhar dela era um olhar de puro Amor. Puro Amor e Bondade. Um olhar que tudo perdoava. Olhou-o como uma mãe olha um filho. Como a minha mãe, talvez um dia, me tenha olhado.
Despediram-se como se encontraram. Falavam os dois como se se conhecessem há muitos muitos anos, desde antes de terem aquela idade, como velhos amigos em que um se atrasou a crescer - toda ela menina e todo ele homem - como se fossem amigos desde o mundo que está para lá das barrigas das mães. Afastaram-se como se se fossem voltar a ver, ali mesmo, mais um milhão de vezes. Para sempre.
Eles não sabem que um dia ela vai voltar para a ilha de São Tomé (de onde é também o rapaz que cozinhou a minha massa recheada com espinafres, que me disse que o paraíso é lá e que quer voltar) e que nunca mais se verão. Não sabem isso, mas sabem que não faz mal, porque aquele olhar dela é para sempre.
Desde pequeno que nunca mais ninguém olhou assim para mim. Já sou crescido, a minha mãe gosta de mim de outra maneira. Assim, só talvez um dia a minha mulher, se gostar de mim. Mas é difícil, porque aquele olhar só se faz a uma criança, e crescer significa deixar de ser olhado assim para passar a olhar assim. Mas quais as consequências de nunca mais na vida ser olhado com amor, de nunca mais ser perdoado por se ser quem é?
Mas, se não ser mais filho significa deixar de receber este olhar, nunca ter filhos significa nunca na vida o fazer. Quais as consequências de nunca na vida ter o privilégio de se entregar assim a alguém?
Se ela quando me atendeu olhava para baixo, era porque o que ela esperava vinha dessa direcção.
Quando me atendeu foi fria, mas prestável. Disse-me o que tinham para beber, e eu escolhi. Nunca me olhou nos olhos. Mas não posso dizer que tenha sido antipática. Falava a olhar para baixo. Foi o normal do que uma portuguesa seria. Só que ela é africana.
Mas atrás de mim veio aquele rapazinho branco de nove anos, que ia comer esparguete à bolonhesa.
E há tantos anos que eu não via um olhar assim. Toda a cara dela se abriu sobre si própria, como uma flor. Iluminou-se com um sorriso rasgado enorme - tantos dentes! - que guardou incessante todo o tempo, quer olhasse para ele, ali todo direitinho a segurar sozinho no tabuleiro, quer não.
Ele fez-lhe muitas perguntas, ela ria-se, descontraída, esticava os braços, enrolava-se sobre si mesma, muito atenta, com muita atenção, debruçando-se para ele, com muita curiosidade. Falavam com puro prazer. Ela adora aquele menino. Por ele ser um menino. E ele adora-a, por ter aquela mulher feita, mas nova, no pico da beleza, toda para ele, como nenhum homem a tem, toda atenção. A sorrir e não esconder o que sente por não haver mal, por não haver nenhum risco em expor o amor, assim, nos olhos. O olhar dela era um olhar de puro Amor. Puro Amor e Bondade. Um olhar que tudo perdoava. Olhou-o como uma mãe olha um filho. Como a minha mãe, talvez um dia, me tenha olhado.
Despediram-se como se encontraram. Falavam os dois como se se conhecessem há muitos muitos anos, desde antes de terem aquela idade, como velhos amigos em que um se atrasou a crescer - toda ela menina e todo ele homem - como se fossem amigos desde o mundo que está para lá das barrigas das mães. Afastaram-se como se se fossem voltar a ver, ali mesmo, mais um milhão de vezes. Para sempre.
Eles não sabem que um dia ela vai voltar para a ilha de São Tomé (de onde é também o rapaz que cozinhou a minha massa recheada com espinafres, que me disse que o paraíso é lá e que quer voltar) e que nunca mais se verão. Não sabem isso, mas sabem que não faz mal, porque aquele olhar dela é para sempre.
Desde pequeno que nunca mais ninguém olhou assim para mim. Já sou crescido, a minha mãe gosta de mim de outra maneira. Assim, só talvez um dia a minha mulher, se gostar de mim. Mas é difícil, porque aquele olhar só se faz a uma criança, e crescer significa deixar de ser olhado assim para passar a olhar assim. Mas quais as consequências de nunca mais na vida ser olhado com amor, de nunca mais ser perdoado por se ser quem é?
Mas, se não ser mais filho significa deixar de receber este olhar, nunca ter filhos significa nunca na vida o fazer. Quais as consequências de nunca na vida ter o privilégio de se entregar assim a alguém?
Se ela quando me atendeu olhava para baixo, era porque o que ela esperava vinha dessa direcção.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Dar as mãos
Para que duas pessoas sejam felizes juntas não é necessário que tenham um passado igual, mas um futuro.
Não aquilo que foram mas aquilo que serão.
Não aquilo que foram mas aquilo que serão.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
O amor espande-se
Nada passará através do ódio. Só através do Amor.
Porque só o Amor tem espaço para alguma coisa lá dentro. Um espaço chamado dúvida.
Porque o ódio atrofia, mas o Amor faz crescer.
A prova disto é que o mundo existe. Só existe porque há mais Amor que ódio no mundo. Por algum estranho motivo, o Amor vence sempre.
Porque só o Amor tem espaço para alguma coisa lá dentro. Um espaço chamado dúvida.
Porque o ódio atrofia, mas o Amor faz crescer.
A prova disto é que o mundo existe. Só existe porque há mais Amor que ódio no mundo. Por algum estranho motivo, o Amor vence sempre.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Línguas
Já vos aconteceu estarem a falar com alguém de Amor e responderem-vos com política, sociologia ou economia?
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Casais
O sucesso de uma relação só depende de que uma das partes se sacrifique pela outra.
Há casos em que as duas se sacrificam, uma pela outra, e aí temos a felicidade. Mas é raro duas pessoas assim encontrarem-se.
E a isto se resume o assunto mais debatido de todos.
Há casos em que as duas se sacrificam, uma pela outra, e aí temos a felicidade. Mas é raro duas pessoas assim encontrarem-se.
E a isto se resume o assunto mais debatido de todos.
sábado, 28 de novembro de 2009
Eu sou mestiço
Arte portuguesa que não seja mestiça é mentirosa.
Porque é que não há mais Arte em Portugal?
Porque com critérios racionalistas geográficos e ideológicos, convenceram os portugueses que eles eram só europeus.
Quando tiraram o Mundo a Portugal tiraram Portugal ao Mundo.
Um artista que não saiba quem é não é artista.
E para começar, nem sabemos de onde viemos porque não sabemos onde fomos. Somos como uma criança, filha de pais divorciados, a quem convenceram que nunca teve mãe.
Porque é que não há mais Arte em Portugal?
Porque com critérios racionalistas geográficos e ideológicos, convenceram os portugueses que eles eram só europeus.
Quando tiraram o Mundo a Portugal tiraram Portugal ao Mundo.
Um artista que não saiba quem é não é artista.
E para começar, nem sabemos de onde viemos porque não sabemos onde fomos. Somos como uma criança, filha de pais divorciados, a quem convenceram que nunca teve mãe.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
As intenções
Tudo é único.
Cada lufada de energia que nasce em nós só pode ser gasta de uma maneira.
Não volta.
A disciplina deve ser a reunião de condições para que, quando a energia vem, possa ser aproveitada como queremos.
Esse como está no tempo e está no espaço. A vida é uma bala. Uma só. E como contra um alvo giratório, há que disparar no momento certo.
A vida é uma bala que guardamos durante vinte anos, e que depois, disparamos.
Quem viva sem considerar que na vida tem apenas uma hipótese, necessariamente já não tem nenhuma.
Só há um gesto. Só há uma acção. Só há um resultado.
O homem que diz vou não vai, porque quando foi já não quis.
Cada lufada de energia que nasce em nós só pode ser gasta de uma maneira.
Não volta.
A disciplina deve ser a reunião de condições para que, quando a energia vem, possa ser aproveitada como queremos.
Esse como está no tempo e está no espaço. A vida é uma bala. Uma só. E como contra um alvo giratório, há que disparar no momento certo.
A vida é uma bala que guardamos durante vinte anos, e que depois, disparamos.
Quem viva sem considerar que na vida tem apenas uma hipótese, necessariamente já não tem nenhuma.
Só há um gesto. Só há uma acção. Só há um resultado.
O homem que diz vou não vai, porque quando foi já não quis.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Depressão
O Calor Humano: um blogue tão deprimente que as pessoas deprimidas até se convencem que são felizes.
sábado, 21 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Pátria
Em Lisboa, por baixo do viaduto depois do Lux (quer dizer luxo em francês), dorme uma pessoa sem casa que tem a bandeira de Portugal colada à caixa de cartão sob a qual dorme.
Não tem casa mas tem pátria.
É um homem a quem não podemos chamar sem-abrigo.
Não tem casa mas tem pátria.
É um homem a quem não podemos chamar sem-abrigo.
domingo, 15 de novembro de 2009
Voz
Ao ouvir o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa a cantar As sete últimas palavras do Nosso Salvador na Cruz do Haydn, a gente pensa para quê falar se não for para sair isto?
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
A todos os meus mortos
Aceitar viver com consciência da morte permite-nos amar os mortos. Deixar de viver só no presente.
Quando se aceita Deus passa-se a viver na eternidade.
Porquê deixar de fora da vida tanto amor?
Quando se aceita Deus passa-se a viver na eternidade.
Porquê deixar de fora da vida tanto amor?
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Instaurar datas comemorativas pessoais
Nove de Novembro, o dia em que percebi a felicidade da tristeza. Que bater o mais possível no fundo era fantástico porque depois de cada depressão vem uma enorme felicidade. A partir daqui passei a ficar feliz de cada vez que ficava triste.
Felicidade que vem de percebermos que é natural estar triste e que nós não somos o centro do mundo por isso está tudo bem. O centro do mundo estar triste - aí a situação era preocupante. Mas o centro do mundo nunca fica triste.
O meu sonho é um dia casar-me e juntar as minhas datas às da minha mulher, às dos nossos filhos e às comuns e celebrarmos em conjunto cada uma delas. As datas comemorativas não são feriados, porque neste reino trabalha-se todos os dias.
Nota: Se a ingenuidade deste post vos incomodar não voltem a este blogue.
Felicidade que vem de percebermos que é natural estar triste e que nós não somos o centro do mundo por isso está tudo bem. O centro do mundo estar triste - aí a situação era preocupante. Mas o centro do mundo nunca fica triste.
O meu sonho é um dia casar-me e juntar as minhas datas às da minha mulher, às dos nossos filhos e às comuns e celebrarmos em conjunto cada uma delas. As datas comemorativas não são feriados, porque neste reino trabalha-se todos os dias.
Nota: Se a ingenuidade deste post vos incomodar não voltem a este blogue.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Os pequeninos
Talvez só com Fé se possa ter o espírito jovem até ao fim, pois é saber que em relação a Deus somos sempre os pequeninos.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Uma tatuagem que tivesse que renovar todos os dias
Será que, numa sociedade com tanto medo do compromisso, as tatuagens estarem na moda tem a ver com um colmatar histérico de uma necessidade natural humana de compromisso?
No entanto, o compromisso real é aquele que pode ser desfeito e nós escolhemos não desafazer. Quando passa a uma obrigação deixa de estar vivo.
Um anel pode tirar-se, uma tatuagem não.
No entanto, o compromisso real é aquele que pode ser desfeito e nós escolhemos não desafazer. Quando passa a uma obrigação deixa de estar vivo.
Um anel pode tirar-se, uma tatuagem não.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Encontrar as ideias que faltam nos buracos entre as ideias que já tenho
A vida é várias coisas ao mesmo tempo.
Este mês, desde que te foste embora, tenho estado a descobrir as ideias que me faltam nos buracos entre as ideias que já tenho. Para te poder amar melhor.
Em Lisboa a tua marca ficou por toda a parte. Nos nossos passeios, unimos a cidade, como agora uno as minhas ideias, e nos dois casos é com contigo que o faço. A nossa mulher é a cola da nossa vida.
Contigo, porque para ti, consigo viver melhor. Tu que vieste de fora, deste-me o que já cá estava. Memórias para uma cidade inteira.
Agora, onde quer que eu vá, tu estás lá, à minha espera. Toda a cidade unida por ti, como se fosse a nossa casa e estivesses ora na sala ora na cozinha.
E fizeste a tudo na minha vida o que fizeste a Lisboa. Juntaste, colaste, aproximaste.
Quando não te tinha, procurava-te. Agora já não tenho de te procurar porque já estás em tudo. Agora tenho-te e posso finalmente viver.
Depois foste embora, mas não estás longe. O amor ficou. O que juntaste vai ficar para sempre junto.
Não escrevia desde que te vi pela primeira vez. Deus é o tempo, e Ele trouxe-te. Estive com Ele a aprender a amar-te melhor. Ficaria mais tempo. Dois anos para te dar um beijo. Ou foram vinte e três anos? Ou um dia?
É preciso tempo para amar.
Porque amar não é só o amor. É o antes e o depois. E se o amor for amor, cada depois é um antes, e cada antes é um depois.
Só a vida isso permite, porque só a vida é tempo, e só no tempo pode haver amor. Porque só a vida permite amar para sempre e só amar para sempre permite viver.
Obrigado, meu amor, por me dares a vida.
A nossa primeira mãe dá-nos a vida, a nossa segunda mãe é a mulher que nos dá o viver.
Este mês, desde que te foste embora, tenho estado a descobrir as ideias que me faltam nos buracos entre as ideias que já tenho. Para te poder amar melhor.
Em Lisboa a tua marca ficou por toda a parte. Nos nossos passeios, unimos a cidade, como agora uno as minhas ideias, e nos dois casos é com contigo que o faço. A nossa mulher é a cola da nossa vida.
Contigo, porque para ti, consigo viver melhor. Tu que vieste de fora, deste-me o que já cá estava. Memórias para uma cidade inteira.
Agora, onde quer que eu vá, tu estás lá, à minha espera. Toda a cidade unida por ti, como se fosse a nossa casa e estivesses ora na sala ora na cozinha.
E fizeste a tudo na minha vida o que fizeste a Lisboa. Juntaste, colaste, aproximaste.
Quando não te tinha, procurava-te. Agora já não tenho de te procurar porque já estás em tudo. Agora tenho-te e posso finalmente viver.
Depois foste embora, mas não estás longe. O amor ficou. O que juntaste vai ficar para sempre junto.
Não escrevia desde que te vi pela primeira vez. Deus é o tempo, e Ele trouxe-te. Estive com Ele a aprender a amar-te melhor. Ficaria mais tempo. Dois anos para te dar um beijo. Ou foram vinte e três anos? Ou um dia?
É preciso tempo para amar.
Porque amar não é só o amor. É o antes e o depois. E se o amor for amor, cada depois é um antes, e cada antes é um depois.
Só a vida isso permite, porque só a vida é tempo, e só no tempo pode haver amor. Porque só a vida permite amar para sempre e só amar para sempre permite viver.
Obrigado, meu amor, por me dares a vida.
A nossa primeira mãe dá-nos a vida, a nossa segunda mãe é a mulher que nos dá o viver.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
A origem do mal
Antidumping. Antitrust. Back-office. Benchmarking. Cash-flow. Clearing. Crash. Cross-selling. Currency. Dealer. Downsizing. Factoring. Front-office. Fixing. Franchising. Holding. Jet-lag. Joint-venture. Leasing. Management. Outdoor. Rent-a-car. Share. Trust. Turnover. Workstation.
Toda esta linguagem é boa. Com ela, quando esse sistema ruir, saber-se-há de que cultura veio o mal.
Mesmo no Brasil dizem cancer no lugar de câncro já com esta filosofia.
Toda esta linguagem é boa. Com ela, quando esse sistema ruir, saber-se-há de que cultura veio o mal.
Mesmo no Brasil dizem cancer no lugar de câncro já com esta filosofia.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Erros
Os erros da nossa vida a maior parte das vezes não são coisas que fizemos.
São as coisas que não fizemos para estarmos a fazer essas.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
domingo, 14 de junho de 2009
Tua alma na gente
O António Variações morreu há vinte e cinco anos e continua tão vivo como nesse dia.
É por isso que não há homenagens. Nada mudou (desde o dia em que nos deste a possibilidade de ter uma verdadeira vida) desde esse dia de Santo António.
É por isso que não há homenagens. Nada mudou (desde o dia em que nos deste a possibilidade de ter uma verdadeira vida) desde esse dia de Santo António.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Á procura da nitidez
Se todas as pessoas de todas as idades fizessem o seu testamento,
e à medida que a vida os transformasse,
o fossem alterando,
saberíamos todos como a morte vive connosco,
e passaríamos a valorizar muito mais cada momento vivos
e a saber quais são as nossas prioridades.
e à medida que a vida os transformasse,
o fossem alterando,
saberíamos todos como a morte vive connosco,
e passaríamos a valorizar muito mais cada momento vivos
e a saber quais são as nossas prioridades.
Se falares português e tiveres uma ideia incrível, é melhor escreveres uma canção, porque filosofar, só é possível em alemão
.
Língua,
de Caetano Veloso.
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
A Minha pátria é minha LÍNGUA!
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria!
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.
Língua,
de Caetano Veloso.
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
A Minha pátria é minha LÍNGUA!
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo LUSAMÉRICA latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria!
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
O Sol
É tão bonito pensar que a cada segundo que passa, há mais um pedaço do mundo a apanhar directamente com Sol.
Luz como aquela que vejo chegar agora.
Luz como aquela que vejo chegar agora.
terça-feira, 2 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Não saber
As certezas destróem a poesia.
Só as nossas incertezas são nossas amigas.
As nossas dúvidas são a nossa maior riqueza.
Só as nossas incertezas são nossas amigas.
As nossas dúvidas são a nossa maior riqueza.
domingo, 31 de maio de 2009
Verão
Só o Verão é a verdadeira vida.
No Verão a casa cheira a pinheiros. Nos corredores cheira a árvores e há vento. Há vento dentro de casa, e parece tão natural que dou comigo a nem me lembrar que não é sempre assim.
Oiço o vento. Carregado com sons de coisas a aconter. Coisas a acontecer dentro do próprio vento.
A cozinha da minha casa no Verão cheira a louro e a temperos e à minha mãe.
No Verão a rua e a cidade cheiram a família. Como as casas das famílias em que cada casa cheira de sua maneira - cheira àquela família, e sempre que lá vamos cheira a eles - e nos prédios o cheiro sente-se até do lado de cá da porta da rua, como nos meus visinhos de baixo da casa da Costa, em que todo o primeiro andar cheirava a eles, e na minha varanda, que dava para o quintal deles, cheirava também.
No Verão a rua cheira aos cheiros misturados de todas as famílias de pessoas. Talvez por as pessoas estarem todas de janelas abertas, ou por andarem todas na rua (adoro ver pessoas na rua, assim frescas, com pouca roupa).
No Verão, quando durmo de janela aberta, cheira a noite, a quente e a cidade, e consigo saber tudo o que se está a passar lá fora só pelos cheiros - e também pelas buzinas e pelos gritos das pessoas felizes.
Também gosto de gritos no Verão. Todos os gritos no Verão são bons. Não consigo imaginar um grito incomodativo no Verão. São sempre de felicidade.
No Verão a casa cheira a pinheiros. Nos corredores cheira a árvores e há vento. Há vento dentro de casa, e parece tão natural que dou comigo a nem me lembrar que não é sempre assim.
Oiço o vento. Carregado com sons de coisas a aconter. Coisas a acontecer dentro do próprio vento.
A cozinha da minha casa no Verão cheira a louro e a temperos e à minha mãe.
No Verão a rua e a cidade cheiram a família. Como as casas das famílias em que cada casa cheira de sua maneira - cheira àquela família, e sempre que lá vamos cheira a eles - e nos prédios o cheiro sente-se até do lado de cá da porta da rua, como nos meus visinhos de baixo da casa da Costa, em que todo o primeiro andar cheirava a eles, e na minha varanda, que dava para o quintal deles, cheirava também.
No Verão a rua cheira aos cheiros misturados de todas as famílias de pessoas. Talvez por as pessoas estarem todas de janelas abertas, ou por andarem todas na rua (adoro ver pessoas na rua, assim frescas, com pouca roupa).
No Verão, quando durmo de janela aberta, cheira a noite, a quente e a cidade, e consigo saber tudo o que se está a passar lá fora só pelos cheiros - e também pelas buzinas e pelos gritos das pessoas felizes.
Também gosto de gritos no Verão. Todos os gritos no Verão são bons. Não consigo imaginar um grito incomodativo no Verão. São sempre de felicidade.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
A democracia
A democracia não é podermos viver todos juntos sendo iguais.
A democracia é podermos viver todos juntos sendo diferentes.
A democracia é podermos viver todos juntos sendo diferentes.
As qualidades
Amor. Quando duas pessoas valorizam um no outro as mesmas qualidades do outro que o outro valoriza em si.
Não descobri isto sozinho.
Não descobri isto sozinho.
terça-feira, 19 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
"O princípio de todos os males é a desatenção"
Vivemos. Há lugares da vida que nunca tínhamos pensado possíveis. Se estivermos com atenção, afinal a vida pode ser muito mais do que tínhamos imaginado.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Arrependimento
Arrependi-me de escrever o texto anterior e agora já sei porquê.
Porque nada é para nada.
Porque nada é para nada.
(é isto uma semana de vida)
quarta-feira, 29 de abril de 2009
O Amor é o Bem
O Amor é uma força que nos leva, por si só, ao Bem.
Há imensas teorias sobre porque é que quando alguém namora ou está casado é sempre mais cobiçado que quando está solteiro (para desgraça do próprio).
Há teorias que falam sobre virilidade; sobre ser bom na cama; sobre o ser humano gostar de disputar o que é cobiçado; sobre alguém que está comprometido o estar porque é bom namorado ou marido e quem não está é porque há algo de errado com ele. Mas tudo isso são coisas menores. São só consequências da real coisa que faz essa pessoa ser assim, especial, brilhante. As pessoas comprometidas são combiçadas porque os outros sentem que o Amor está com elas.
E o Amor faz-nos bons. O amor faz-nos fazer as coisas bem. O Amor faz-nos Bem. O Amor é o Bem.
(As pessoas até ficam mais bonitas quando estão enamoradas...)
Li na internet uns textos disparatados que me deram a conhecer uma grande problemática darwinista do momento. Até é um pecado poético falar destas coisas assim, mas fa-lo-ei porque às vezes é preciso ir ganhar no terreno do adversário, não podemos ficar sempre em casa. A grande questão darwinista da semana é Porque é que as mulheres têm orgasmos?
Segundo eles e elas (também há senhoras a estudar o assunto), só os homens deviam tê-los, para que isso levásse à ejaculação, que é a sua função (é nestes momentos que se sente como a ciência é uma coisa que devia ser mais censurada que a pornografia).
As teorias dominantes falam de clitóris que são para as mulheres o que os mamilos são para os homens (que não tendo mamas também os têm). Como se o clitóris fosse uma coisa que ficou ali esquecida. Toda a gente que sabe o que é um clitóris, sabe que não é o mesmo que um mamilo.
Falam-se também de ursos. Teorias que comparam os Seres Humanos aos ursos, em que os machos dominantes têm mais tempo para copular e que portanto só esses dão orgasmos às fémeas, já que os outros têm de dar rapidinhas, ejacular e fugir quando o macho dominante se aproxima. Assim, a fémea ao ter orgasmos sabe que está com um grande macho dominante e que é com esse que deve ficar.
Havia outras teorias ainda mais ridículas.
Nenhuma me convenceu.
Se estes cientistas ainda fossem humanos, saberiam que, para nós, pessoas, a resposta é o Amor.
Saberiam que um homem que ama uma mulher deixa muitas vezes de sentir vontade de ter prazer com ela, deixa de olhar de maneira sexual para ela. Quem já amou sabe isto. Aquela vontade de ter prazer, que sente com todas as boazonas que passam na rua, desaparece com a pessoa amada. E falta de vontade de ter prazer é assim sinal de amor. Porque o homem que ama deixa de pensar em si. Deixa de pensar em si e no seu prazer e concentra-se só na mulher que ama e em fazê-la feliz, e em dar-lhe prazer a ela. Por isso as mulheres têm orgasmos, não para saberem que estão com o macho dominante, mas para saberem que estão com alguém que as ama.
Claro que há uma vida inteira de formas de dar amor que não têm nada a ver com orgasmos. Mas quanto mais enamorado, mais tenho a certeza que eles só podem ser para isso. Porque de facto, todas as outras utilizações que pudessem haver, são nada ao lado do Amor.
Há imensas teorias sobre porque é que quando alguém namora ou está casado é sempre mais cobiçado que quando está solteiro (para desgraça do próprio).
Há teorias que falam sobre virilidade; sobre ser bom na cama; sobre o ser humano gostar de disputar o que é cobiçado; sobre alguém que está comprometido o estar porque é bom namorado ou marido e quem não está é porque há algo de errado com ele. Mas tudo isso são coisas menores. São só consequências da real coisa que faz essa pessoa ser assim, especial, brilhante. As pessoas comprometidas são combiçadas porque os outros sentem que o Amor está com elas.
E o Amor faz-nos bons. O amor faz-nos fazer as coisas bem. O Amor faz-nos Bem. O Amor é o Bem.
(As pessoas até ficam mais bonitas quando estão enamoradas...)
Li na internet uns textos disparatados que me deram a conhecer uma grande problemática darwinista do momento. Até é um pecado poético falar destas coisas assim, mas fa-lo-ei porque às vezes é preciso ir ganhar no terreno do adversário, não podemos ficar sempre em casa. A grande questão darwinista da semana é Porque é que as mulheres têm orgasmos?
Segundo eles e elas (também há senhoras a estudar o assunto), só os homens deviam tê-los, para que isso levásse à ejaculação, que é a sua função (é nestes momentos que se sente como a ciência é uma coisa que devia ser mais censurada que a pornografia).
As teorias dominantes falam de clitóris que são para as mulheres o que os mamilos são para os homens (que não tendo mamas também os têm). Como se o clitóris fosse uma coisa que ficou ali esquecida. Toda a gente que sabe o que é um clitóris, sabe que não é o mesmo que um mamilo.
Falam-se também de ursos. Teorias que comparam os Seres Humanos aos ursos, em que os machos dominantes têm mais tempo para copular e que portanto só esses dão orgasmos às fémeas, já que os outros têm de dar rapidinhas, ejacular e fugir quando o macho dominante se aproxima. Assim, a fémea ao ter orgasmos sabe que está com um grande macho dominante e que é com esse que deve ficar.
Havia outras teorias ainda mais ridículas.
Nenhuma me convenceu.
Se estes cientistas ainda fossem humanos, saberiam que, para nós, pessoas, a resposta é o Amor.
Saberiam que um homem que ama uma mulher deixa muitas vezes de sentir vontade de ter prazer com ela, deixa de olhar de maneira sexual para ela. Quem já amou sabe isto. Aquela vontade de ter prazer, que sente com todas as boazonas que passam na rua, desaparece com a pessoa amada. E falta de vontade de ter prazer é assim sinal de amor. Porque o homem que ama deixa de pensar em si. Deixa de pensar em si e no seu prazer e concentra-se só na mulher que ama e em fazê-la feliz, e em dar-lhe prazer a ela. Por isso as mulheres têm orgasmos, não para saberem que estão com o macho dominante, mas para saberem que estão com alguém que as ama.
Claro que há uma vida inteira de formas de dar amor que não têm nada a ver com orgasmos. Mas quanto mais enamorado, mais tenho a certeza que eles só podem ser para isso. Porque de facto, todas as outras utilizações que pudessem haver, são nada ao lado do Amor.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Canção para o país do Mar
Há um país humilde que se chama apenas porto, porque sabe que o seu povo não é da terra.
O seu povo está sempre em movimento, mas também não é nómada. É um povo que vive no mar.
À noite, vem a Terra. Para descansar na praia, à luz de uma fogueira, e partir em novas aventuras milenares. É um país que não fica em casa.
Um povo que sabe que, se cada povo fosse um órgão da Humanidade, ele seria certamente o Sangue.
Se fosse um povo da montanha, o seu país chamar-se-ia Montanhal.
Assim, chama-se Portugal. Nosso porto-pátria.
Esta canção é para esse país, por um muito sub-valorizado seu artista.
O seu povo está sempre em movimento, mas também não é nómada. É um povo que vive no mar.
À noite, vem a Terra. Para descansar na praia, à luz de uma fogueira, e partir em novas aventuras milenares. É um país que não fica em casa.
Um povo que sabe que, se cada povo fosse um órgão da Humanidade, ele seria certamente o Sangue.
Se fosse um povo da montanha, o seu país chamar-se-ia Montanhal.
Assim, chama-se Portugal. Nosso porto-pátria.
Esta canção é para esse país, por um muito sub-valorizado seu artista.
Queda do Império
por Vitorino
Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz
Foi nas ondas do mar
Do mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império mil almas
Por pau de canela e mazagão
Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja luanda
Sempre em flor.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
quarta-feira, 22 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Histórias
Havia uma vez, num lugar, duas pessoas tão felizes juntas, que ao fim do dia, quando ela se deitava sobre o colo dele e o abraçava para ouvir, até adormecer, as suas histórias da mais pura e sonhadora felicidade, a ele lhe bastava contar o resumo do dia que acabaram de passar juntos.
Definições
Deus: a única companhia de quem está só.
Casa: o único lugar onde um homem pode chorar.
Envelhecer: gostar de viver.
Casa: o único lugar onde um homem pode chorar.
Envelhecer: gostar de viver.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Morte
Se não morrêssemos, seríamos uma raça com muito menos interesse.
Seríamos, certamente, seres imensamente arrogantes.
Pelo contrário, sermos assim como somos, faz de cada um de nós um herói.
Mais heróico a cada dia que aguenta vivo.
sábado, 11 de abril de 2009
Datas
A melhor banda portuguesa em actividade apresenta o seu primeiro disco no primeiro dia de Maio no Santiago Alquimista, um lugar de Cerveja e Refresco, em Lisboa, Portugal.
(BAR = Beer and Refreshment)
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Para abrigar as feridas
A cada dia que passa construo a minha casa com as estacas que me espetam no coração.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
domingo, 5 de abril de 2009
As desabraçadas
Sábado.
Estou no carro às 4:25 da manhã. Saí do trabalho.
Se esta fosse uma civilização digna, não havia a esta hora, no meu país inteiro, nenhuma mulher que não estivesse abraçada.
Mas não pareciam nada abraçadas as mulheres que eu via no passeio, a sair do Bairro Alto.
Especialmente aquela que deitada no chão vomitava para o lado, para os pés da amiga. Essa parecia bastante desabraçada.
O que é que ela está aqui a fazer? Como é que não há ninguém para a pegar ao colo?
Estou no carro às 4:25 da manhã. Saí do trabalho.
Se esta fosse uma civilização digna, não havia a esta hora, no meu país inteiro, nenhuma mulher que não estivesse abraçada.
Mas não pareciam nada abraçadas as mulheres que eu via no passeio, a sair do Bairro Alto.
Especialmente aquela que deitada no chão vomitava para o lado, para os pés da amiga. Essa parecia bastante desabraçada.
O que é que ela está aqui a fazer? Como é que não há ninguém para a pegar ao colo?
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Distrair-se
Não sei se já escrevi esta frase aqui. Mas uma vez uma pessoa muito importante disse-ma e bastou uma vez para que nunca me tenha esquecido dela.
As pessoas falam em distrair-se como se não soubessem que essa palavra significa estar desconcentrado.
As pessoas falam em distrair-se como se não soubessem que essa palavra significa estar desconcentrado.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Os impostos
Há umas centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto, ao contrário do que se pensa quando se é novo. E é bom que seja assim, menos nos casos em que as pessoas páram de crescer e ficam reféns das suas idiosincrasias opinativas juvenis para o resto da vida.
Até hoje nunca tinha compreendido a tentação de ter um negócio criminoso. Pensava Não é muito mais simples ter um negócio permitido pela lei?
Essa tentação só se compreende quando se começa a pagar impostos.
Qualquer opinião sobre a sociedade que não tenha isto em conta (e mais as outras tais centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto) não é válida.
Assumir isto é definir mais claramente os motivos pelos quais, sabendo-o, se continua a não ter um negócio criminoso.
Até hoje nunca tinha compreendido a tentação de ter um negócio criminoso. Pensava Não é muito mais simples ter um negócio permitido pela lei?
Essa tentação só se compreende quando se começa a pagar impostos.
Qualquer opinião sobre a sociedade que não tenha isto em conta (e mais as outras tais centenas de coisas que só se compreendem quando se é adulto) não é válida.
Assumir isto é definir mais claramente os motivos pelos quais, sabendo-o, se continua a não ter um negócio criminoso.
terça-feira, 31 de março de 2009
Amar
Amar é passar a ter um motivo para gostarmos de ser nós.
Por termos o previlégio de amar quem amamos.
Por termos o previlégio de amar quem amamos.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Braços
Amar alguém é passar a ter quatro braços, dois dos quais andam por aí no mundo a fazer coisas boas para nós sem nós os controlarmos, e nós por eles.
Para poder viver
A coisa mais importante para poder viver é compreender como ninguém é perfeito. Em linguagem religiosa: só Deus é perfeito.
E saber aceitar.
Nenhuma decisão na nossa vida pode ser baseada nos defeitos das pessoas à nossa volta. Só nas qualidades.
Pois no topo dessa lista de pessoas não perfeitas, estamos sempre nós.
Aceitar os outros pensando como é que eles me aceitam a mim?
E saber aceitar.
Nenhuma decisão na nossa vida pode ser baseada nos defeitos das pessoas à nossa volta. Só nas qualidades.
Pois no topo dessa lista de pessoas não perfeitas, estamos sempre nós.
Aceitar os outros pensando como é que eles me aceitam a mim?
segunda-feira, 23 de março de 2009
Isto para mim ainda é ontem
Às vezes saio do trabalho às sete da manhã.
Mas confesso, gosto mesmo bué.
Quando se sai do trabalho às sete da manhã, as escadas do prédio cheiram a café.
Lá dentro das casas ouvimos as crianças a acordarem e as mães a mandarem-nas lavar os dentes.
E quando vamos de carro para casa, as outras pessoas conduzem ainda devagarinho, sem pressas nem ânsias, porque ainda estão a viver a pensar nos sonhos que tiveram.
Na rádio, os locutores ainda falam baixo, sussurram e dizem coisas meigas.
Na IC19, as pessoas que têm hortas na berma da estrada acabaram de chegar e esperguiçam-se antes de começaram a trabalhar. Da mesma maneira que um pouco antes se esperguiçavam os distribuidores de publicidades que estavam no Marquês de Pombal vestidos de esponjas de detergente CIF.
As madrugadas em Lisboa parecem um filme do Ozu.
As madrugadas são a mais bela parte do dia. Foi hoje quando vinha para casa, que a sua beleza me fez perceber finalmente como apreciar os prédios portugueses em toda sua beleza e sentido. Quando vamos a Espanha, vemos aqueles prédios em tijolo e pensamos Claro, faz sentido, são quentes, acolhedores, com toldos, que agradáveis, como os espanhóis. Quando vamos a França, vemos aqueles prédios elegantes, educados, altivos, e agradáveis, também eles como os franceses, e pensamos Faz sentido. O mesmo para o resto dos lugares do mundo. Mas até hoje ainda não tinha percebido essa unidade absoluta das construções da nossa civilização. Agora percebi. É que todas as casas, prédios e construções portuguesas de qualquer tipo, parecem que foram banhadas pelo Mar. Pertencem a uma arquitectura marinha. Parece que cada tijolo foi banhado em água salgada, baptizado numa bacia que cada pedreiro tem do seu lado, antes de ser posto em cima dos anteriores, todos abençoados. E o mesmo para as tintas, dissolvidas em água do mar. E os azulejos, magníficos azulejos onde se podia surfar. Os prédios portugueses sabem a mar.
Mas confesso, gosto mesmo bué.
Quando se sai do trabalho às sete da manhã, as escadas do prédio cheiram a café.
Lá dentro das casas ouvimos as crianças a acordarem e as mães a mandarem-nas lavar os dentes.
E quando vamos de carro para casa, as outras pessoas conduzem ainda devagarinho, sem pressas nem ânsias, porque ainda estão a viver a pensar nos sonhos que tiveram.
Na rádio, os locutores ainda falam baixo, sussurram e dizem coisas meigas.
Na IC19, as pessoas que têm hortas na berma da estrada acabaram de chegar e esperguiçam-se antes de começaram a trabalhar. Da mesma maneira que um pouco antes se esperguiçavam os distribuidores de publicidades que estavam no Marquês de Pombal vestidos de esponjas de detergente CIF.
As madrugadas em Lisboa parecem um filme do Ozu.
As madrugadas são a mais bela parte do dia. Foi hoje quando vinha para casa, que a sua beleza me fez perceber finalmente como apreciar os prédios portugueses em toda sua beleza e sentido. Quando vamos a Espanha, vemos aqueles prédios em tijolo e pensamos Claro, faz sentido, são quentes, acolhedores, com toldos, que agradáveis, como os espanhóis. Quando vamos a França, vemos aqueles prédios elegantes, educados, altivos, e agradáveis, também eles como os franceses, e pensamos Faz sentido. O mesmo para o resto dos lugares do mundo. Mas até hoje ainda não tinha percebido essa unidade absoluta das construções da nossa civilização. Agora percebi. É que todas as casas, prédios e construções portuguesas de qualquer tipo, parecem que foram banhadas pelo Mar. Pertencem a uma arquitectura marinha. Parece que cada tijolo foi banhado em água salgada, baptizado numa bacia que cada pedreiro tem do seu lado, antes de ser posto em cima dos anteriores, todos abençoados. E o mesmo para as tintas, dissolvidas em água do mar. E os azulejos, magníficos azulejos onde se podia surfar. Os prédios portugueses sabem a mar.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Provas
A cada dia que passa sou capaz de ver mais provas de que Deus existe.
Mas a questão não parece ser se existe.
A questao parece ser:
Sim, Existe. Mas o que fazer com isso?
Mas a questão não parece ser se existe.
A questao parece ser:
Sim, Existe. Mas o que fazer com isso?
terça-feira, 17 de março de 2009
Caminhar
Hoje vi um passarinho preto a levantar voo à frente do meu carro, quando eu ia na direcção dele na estrada.
Como deve ser maravilhoso voar. Deve ser parecido com nadar debaixo de água, quando impulsionamos o nosso corpo com os nossos movimentos e magicamente ele se move, navega.
Talvez os pássaros estejam já tão habituados a voar que não sintam mais essa excitação, essa maravilha, como especial. Tal como nós já não sentimos o andar.
Mas como é incrível também o andar.
Uma perna, outra perna, movimento. Em frente. Para trás. Lentamente, rápido, mais rápido.
De ora em diante vou tentar caminhar como se voasse. Glorificando o caminho valorizando-o. Percebendo que, como no ar, ele não existe antes de ser caminhado.
Como deve ser maravilhoso voar. Deve ser parecido com nadar debaixo de água, quando impulsionamos o nosso corpo com os nossos movimentos e magicamente ele se move, navega.
Talvez os pássaros estejam já tão habituados a voar que não sintam mais essa excitação, essa maravilha, como especial. Tal como nós já não sentimos o andar.
Mas como é incrível também o andar.
Uma perna, outra perna, movimento. Em frente. Para trás. Lentamente, rápido, mais rápido.
De ora em diante vou tentar caminhar como se voasse. Glorificando o caminho valorizando-o. Percebendo que, como no ar, ele não existe antes de ser caminhado.
segunda-feira, 9 de março de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
Trocar de corpo
Uma vez quando estava no sétimo ano, perguntei à minha colega de carteira, que era a pior aluna da turma, se ela já pensara como seria se fosse possível por o nosso cérebro no corpo de outra pessoa e o dessa pessoa no nosso.
Ela respondeu Ficávamos a pensar com as ideias de outra pessoa.
Ela respondeu Ficávamos a pensar com as ideias de outra pessoa.
terça-feira, 3 de março de 2009
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
O que arde
Para ele até àquele dia, O que arde cura significara sempre O que cura arde.
Ele tomava os charopes, mas pensava que meter os dedos na ficha não o ia ajudar na tosse. Ele achava até que o provérbio estava errado. Os seus pensamentos eram tristes nesses anos, e revelam a barbárie em que vivia.
Mas a Tradição, a mãe-de-tudo, a quem ele não hesitara voltar as costas, tinha algo guardado para ele, e fê-lo arder, arder.
E lá ia ele, pensando que escolhia os ardores e que, dentro deles, escolhia até os melhores.
Mas naquele dia ele não pode mais escolher e finalmente percebeu que a secular sapiência estava certa.
Todas as dores ensinam e afinal a sabedoria está ao alcance de todos. As pessoas que se sentem estúpidas que dêem uma cabeçada na parede e logo vêem.
Entre golpes que lhe tiraram pedaços do animal que nascera, sentiu vindos de todos os lados e a acertarem-lhe por dentro e por fora ardores que laqueavam artérias sem as quais afinal o sangue só fluia para onde devia.
Ele ouvira dizer, uma vez na televisão, que as pessoas saudáveis são aquelas que, em vez de ficarem paradas a pensar nas coisas, as vivem. Aquelas que não ficam a pensar durante anos Será que devo ter um filho? Será que mereço? Será que sou capaz? Sim? Não? acabando por ter um, mas sim as que têm o filho e pronto.
Talvez tenhamos então de ser um bocadinho menos saudáveis para ser melhores pensou ele.
Talvez tenhamos de ser um bocadinho doentes no corpo para podermos ser um bocadinho mais saudáveis na alma. Talvez até a própria ideia de saúde seja uma doença.
Talvez um animal-homem doente seja um humano-homem saudável.
Porque depois de arder, ele percebeu que afinal parecia que tudo o que nos mata um pouco nos faz maiores, como a dor do parto que mata fazendo a vida ficar maior.
Foi nesse dia que escreveu no caderno que sempre o acompanhava, no bolso: Direito número um dos homens: direito ao sofrimento.
Afinal os seus cabelos brancos não eram sinal de morte, mas de vida.
Ele tomava os charopes, mas pensava que meter os dedos na ficha não o ia ajudar na tosse. Ele achava até que o provérbio estava errado. Os seus pensamentos eram tristes nesses anos, e revelam a barbárie em que vivia.
Mas a Tradição, a mãe-de-tudo, a quem ele não hesitara voltar as costas, tinha algo guardado para ele, e fê-lo arder, arder.
E lá ia ele, pensando que escolhia os ardores e que, dentro deles, escolhia até os melhores.
Mas naquele dia ele não pode mais escolher e finalmente percebeu que a secular sapiência estava certa.
Todas as dores ensinam e afinal a sabedoria está ao alcance de todos. As pessoas que se sentem estúpidas que dêem uma cabeçada na parede e logo vêem.
Entre golpes que lhe tiraram pedaços do animal que nascera, sentiu vindos de todos os lados e a acertarem-lhe por dentro e por fora ardores que laqueavam artérias sem as quais afinal o sangue só fluia para onde devia.
Ele ouvira dizer, uma vez na televisão, que as pessoas saudáveis são aquelas que, em vez de ficarem paradas a pensar nas coisas, as vivem. Aquelas que não ficam a pensar durante anos Será que devo ter um filho? Será que mereço? Será que sou capaz? Sim? Não? acabando por ter um, mas sim as que têm o filho e pronto.
Talvez tenhamos então de ser um bocadinho menos saudáveis para ser melhores pensou ele.
Talvez tenhamos de ser um bocadinho doentes no corpo para podermos ser um bocadinho mais saudáveis na alma. Talvez até a própria ideia de saúde seja uma doença.
Talvez um animal-homem doente seja um humano-homem saudável.
Porque depois de arder, ele percebeu que afinal parecia que tudo o que nos mata um pouco nos faz maiores, como a dor do parto que mata fazendo a vida ficar maior.
Foi nesse dia que escreveu no caderno que sempre o acompanhava, no bolso: Direito número um dos homens: direito ao sofrimento.
Afinal os seus cabelos brancos não eram sinal de morte, mas de vida.
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